Cobiça assassina

"Não cobiçarás a casa do teu próximo. [...] nem coisa alguma que pertença ao teu próximo." (Êxodo 20:17)

O profeta Samuel tentou desencorajar o povo de Israel a ter um rei, usando o seguinte argumento, dentre outros: “Tomará o melhor das vossas lavouras, e das vossas vinhas, e dos vossos olivais e o dará aos seus servidores” (1Sm 8:14).

Suas palavras se cumpriram de modo trágico num dos crimes mais hediondos da história de Israel. O rei Acabe desejou possuir a vinha de Nabote, que ficava ao lado do palácio real, propondo dar-lhe outra melhor ou pagar o seu justo valor em dinheiro (1Rs 21). A oferta do rei era, aparentemente, razoável e Nabote tem sido às vezes criticado por não tê-la aceito.

Mas é preciso ter em mente que Nabote era um homem leal a Deus, e a lei divina, dada através de Moisés, estipulava que a herança paterna só poderia ser vendida em caso de extrema necessidade, e ainda assim sob a condição de poder ser recomprada a qualquer momento e, se não fosse, retornaria ao proprietário original no ano do jubileu (Lv 25:13-28). E foi baseado no código levítico que Nabote respondeu ao rei: “Guarde-me o Senhor de que eu dê a herança de meus pais” (1Rs 21:3).

Acabe não esperava essa recusa e voltou ao palácio desgostoso e indignado. Além de não poder ter a cobiçada vinha, ficara implícita a lição moral e espiritual que Nabote lhe dera: “Você, que é rei e devia ser o primeiro a cumprir a lei, quer desrespeitá-la?” E Acabe, vítima de sua própria imaturidade emocional, ficou de cama e não quis comer.

Então entra em cena Jezabel, aquela mesma que pôs o profeta Elias para correr. “Pode deixar que eu resolvo!”, disse ela. E imediatamente se pôs a escrever cartas em nome do rei e as enviou aos anciãos e aos nobres da cidade, para que apregoassem um jejum, conseguissem dois homens malignos que testemunhassem contra Nabote, acusando-o de blasfêmia contra Deus e contra o rei, e então fosse apedrejado.

A magistratura corrupta da cidade fez exatamente o que Jezabel ordenara. E o fiel Nabote foi apedrejado junto com sua família. Morreu como mártir de sua fé e lealdade a Deus. Mas Acabe e Jezabel pagaram caro por isso (1Rs 21:19; 22:34-38, 2Rs 9:36).

A transgressão do décimo mandamento levou Acabe e Jezabel a quebrarem também o sexto, o oitavo e o nono, o que mostra que um pecado leva a outro. Que Deus nos ajude, hoje, a não condescendermos com o pecado, por mais inofensivo que pareça, “pois no fim ele morde como uma cobra venenosa” (Pv 23:32).