"Pobre Tio Silas"

Jamais esquecerei aquela bela tarde em que meu pai se pôs a olhar-nos, a meus irmãos e a mim.

Havíamos estado a planejar com grande animação, como nos havíamos de vestir, por uma noite de escuro e, fingindo-nos espíritos, assustar certo colega um tanto medroso.

- Será devera pândego, camaradas, eu lhes afirmo! exclamei eu todo alegre, ante essa idéia.

- Muito engraçado para ti, Henrique, mas para ele? perguntou uma voz grave e repreensiva; e, olhando para cima, vi aí meu pai, com uma penosa expressão na fisionomia.

Era uma idéia nova! Seria divertido para nós, mas que seria para ele o pobre e inofensivo rapaz que nós estávamos projetando assustar cruelmente?

Não pensáramos absolutamente nesse lado da questão; os meninos e, em verdade, os homens também, são inclinados a considerar unicamente um lado, e esse é aquele que mais lhes apraz.

Nosso pai ficou um momento pensativo, e então entrou no quarto e sentou-se.

- Meus filhos, disse, vejo que chegou a ocasião de eu lhes contar uma história dos tempos distantes, quando eu era rapaz, tão cheio de vida e alegria que, como vocês agora, não se me ocorria que o que para mim era divertimento, fosse justamente o contrário para o outro.

Calou-se por um pouco, e uma dolorosa sombra de tristeza lhe anuviou o semblante, uma expressão que eu lhe observara muitas vezes, e aprendera a relacioná-la com certo homem que morava numa cabanazinha próxima.

Era um homem alto e forte, mais ou menos da idade de nosso pai, mas ai! a luz de sua vida, a razão, perdera-se para sempre; era manso e inofensivo, e em geral, alegre e brincalhão, mas havia ocasiões em que caía no chão, tremendo de terror, e soltando selvagens gritos de socorro contra espíritos que o queriam agarrar.

Meu pai visitava muitas vezes esse pobre homem, "pobre tio Si," como nós, crianças, o chamávamos, e algumas vezes me levara a mim, o filho mais velho, consigo; ele nunca ia com as mãos vazias, levava sempre algum presente - um livro de gravuras, doces, bolos, ou algum brinquedo; e era nessas ocasiões que eu observava aquela dolorosa e triste expressão na fisionomia de ordinário jovial de meu pai, expressão que aí permanecia, qual uma nuvem, ainda muito tempo depois de volvermos a casa. Eu sabia, também, que era ele que, com auxílio do tio João, pagava o aluguel da cabana do pobre homem, vestia-o, e pagava à velha que dele cuidava.

E aquilo me causava não pouca perplexidade, pois sabia que o "tio Si" não era absolutamente aparentado com meu pai nem minha mãe, e que o dinheiro que se gastava com o seu sustento, a custo se poupava para esse fim.

Muitas vezes meu pai me prometera contar a história quando chegasse o "tempo oportuno;" e esse tempo chegara agora, ao que parecia, pois a primeiras palavras foram "Tio Si."

- Rapazes, disse ele, vou contar-lhes agora a história de Tio Si. Quando a tiverem ouvido, hão de compreender a razão por que julgo ser meu dever contá-la a vocês, exatamente agora. Daria dez anos de vida para não ter uma tal história para contar. Mas é minha cruz, e fui eu próprio que a fiz, de modo que a devo conduzir com paciência, em punição.

Quando eu era menino de escola, havia entre meus companheiros um inteligente rapazinho, bom aluno, mas muito nervoso e tímido. Sua mãe era uma pobre mulher, que trabalhava duramente para o sustentar a ele e a si mesma, e sua maior ambição era vê-lo fazer carreira na vida.

Todos nós gostávamos de Silas, pois era muito manso; mas ao mesmo tempo abusávamos de sem bom gênio e de sua índole tímida, e estávamos sempre fazendo pilhérias com ele.

Sua mãe era uma irlandesa, cheia de superstições estranhas. Nada lhe parecia demasiado maravilhoso para lhe dar crédito, e Silas herdara em alto grau essa tendência supersticiosa.

Nós, meninos, num instante descobrimos sua fraqueza, e nada nos divertia mais do que, depois das aulas da tarde, sentar-nos nos degraus da escola, rivalizando entre nós na invenção das mais estranhas e assustadoras histórias de espíritos, salteadores e assassinos. Silas costumava ouvir, com seus olhos azuis quase a saltarem das órbitas, as faces ora brancas ora vermelhas, e ficando afinal tão excitado, que pulava a qualquer rumor, o ranger de uma porta ou um arrastar de pés no chão.

Certa tarde nos entregávamos a nosso divertimento favorito quase até o Sol se pôr, e as sombras descerem suavemente sobre os campos ao redor de nós.

- Oh! que hei de fazer agora? disse Silas, olhando, atemorizado, em redor. Devo ir ainda à casa do fazendeiro Simões, e será escuro antes de eu chegar a casa.

- À casa do fazendeiro Simões, disse eu piscando os olhos aos outros; então você tem de atravessar a ponte velha, Si, e dizem que o espírito da mulher que se afogou ali visita esse lugar depois de anoitecer; parece que é só no aniversário de sua morte - mas, que dia é hoje, mesmo?

- Dez, responderam.

Dei um estalo com os beiços, e olhei fixamente para Silas.

- Então, estou contente de não ter de passar por lá esta noite, murmurei, mas não tao baixo que ele me não ouvisse, como eu queria.

- O quê? o quê? balbuciou ele, fazendo-se branco como um lençol. É ...

- É sim, uma vez que você quer saber. Mas não tenha medo, colega, não acredito absolutamente nessa história. Quem jamais ouviu falar de um espírito com costelas de fogo, e com manchas de fogo pelo rosto? Chó! isso não passa de invenção!

Mas o pobre Silas estava todo alarmado; na verdade era isso que eu pretendia, e seu terror me parecia um excelente divertimento, ou melhor, o começo de um excelente divertimento, pois formara um plano, do qual isso era apenas o prelúdio.

Enquanto Silas hesitava, vacilando entre o terror de encontrar o espírito e a certeza de uma sova se não fosse dar o recado, chamei de parte, meu irmão João e, num rápido cochicho, comuniquei-lhe meu plano, o qual decidimos guardar conosco.

Em resultado, João propôs acompanhar Silas no recado que tinha para fazer, oferecimento que o pobre pequeno aceitou cheio de gratidão; partiram pois ambos e o resto do grupo voltou as suas casas.

Arranjei qualquer pretexto para voltar atrás antes de chegar a casa, e corri a toda pressa à drogaria, onde comprei um pouco de fósforo; voei então para casa, conseguindo arranjar um pequeno lençol, e escapuli-me outra vez despercebidamente.

Em breve me encontrei na ponte, e aí, escondido atrás de uns arbustos, pus-me a traçar na minha jaqueta preta as costelas de um esqueleto; e elas apareceram surpreendentemente - os traços brancos brilhando distintamente na escuridão, pois a esse tempo já estava completamente escuro. Pus então parte do fósforo nas mãos e no rosto, atei na cintura o lençol, deixando-o arrastar atrás de mim.

Assim preparado, coloquei-me alguns metros para além da ponte, na parte em que os meninos deviam passar primeiro na sua volta.

Em breve ouvi a voz de Silas.

- Oh! João, estou com medo! estou com tanto medo!

- Tolice, respondeu meu irmão. Um espírito? que idéia! Eu bem gostaria de ver um.

- Oh! não, não diga isso. Oh! o...h!

Um grito como aquele, de tão intenso e indizível terror, praza aos Céus eu nunca mais escute em minha vida. E, soltando-o, Silas caiu no chão, como morto. João, segundo havíamos combinado, gritou também e começou a correr, como se estivesse terrivelmente atemorizado. Silas ficou parado ali por instantes, e meu coração estremeceu. Estaria morto? Tê-lo-ia eu matado? Mas não, filhos, eu não lhe fizera uma coisa tão piedosa.

Silas ergueu-se novamente e, soltando gritos e gritos, precipitou-se para a ponte. Vendo então o terrível efeito que nele produzira, comecei a pensar que minha brincadeira havia ido longe demais, e pus-me a correr atrás dele, chamando-o, e dizendo que tudo fora gracejo, que não era espírito nenhum.

Mas ele não me ouvia, correndo sempre gritando todo o caminho, até que chegou à ponte e aí, para meu terror, ele pulou de um salto o gradil, indo cair na lama e água que havia à margem.

João voltara, e rasgando o lençol que me pendia da cintura, corremos pela margem abaixo, ao lugar onde se achava Silas. Havia aí mais lama do que água, bem sabíamos, e o impulso de sua descida o fizera aprofundar-se na lama, até que só lhe restavam de fora os ombros e a cabeça; e, para nosso maior horror, vimos que ia pouco a pouco afundando mais e mais.

Era urgente fazer alguma coisa, ou ele se enterraria vivo diante de nossos olhos. Estavam para ali umas pesadas pranchas, que conseguimos arrastar para a lama, fazendo-as chegar até onde se achava o pobre Silas a afundar-se, gritando sempre: 'O espírito! o espírito! o espírito!'

Como nós dois, meninos, pudemos tirá-lo daquele pântano, não o posso compreender. Mas, fosse como fosse, o fizemos, e levamo-lo para casa, se bem que nos fugisse várias vezes, soltando o mesmo grito: 'O espírito!'

Durante semanas depois disto, ele esteve muito doente, e quando afinal seu corpo recobrou a saúde, os médicos declararam que a razão jamais lhe voltaria; desde então ele tem sido isso que vocês tem visto.

Enquanto sua infeliz mãe viveu, o tio João e eu a ajudamos a cuidar dele, e desde sua morte, há muitos anos, temos tomado inteiramente conta da desditosa vítima de nossa cruel 'brincadeira,' se bem que o pecado fosse mais meu que de meu irmão, pois fui eu o cabeça.

Meus filhos, aquele momento de irrefletido "gracejo" tem entristecido toda a minha vida, ensombrando-lhe os mais ditosos momentos.

Papai terminou assim a história, e pôs-se a olhar nossas desoladas fisionomias, enquanto murmurávamos em tom de compaixão:

- Pobre tio Silas!

- Bem, meus filhos, disse ele após alguns instantes, estou esperando que me contem aquele plano tão engraçado com que vocês pretendem gracejar com o Artur.

Baixamos a cabeça em silêncio, e ele sorriu docemente.

- Oh! eu sei que vocês compreendem por que lhes contei minha triste história hoje. Aprenderam a lição que ela encerra. E agora, filhos, sei que posso confiar em vocês; mas para que nunca a venham a esquecer, quero que cada um ponha a mão neste Santo Livro, e lembrando-se de que nosso Pai celeste os está ouvindo, prometam nunca se permitir nenhuma brincadeira que possa ofender ou infelicitar um de seus semelhantes.

Então aos joelhos de nosso querido pai, cada um de nós fez uma solene promessa, que jamais violamos, e nossa vida se tornou assim melhor e mais feliz.

Mas jovens amigos, convido-vos a fazer o mesmo; pois só assim podereis obedecer à ordem do Salvador: "Como vós quereis que os homens vos façam, da mesma maneira lhes fazei vós também." Lucas 6: 31.