A Loucura de Uma Condessa

Há uns cem anos vivia na cidade de Hanover, na Alemanha, uma condessa chamada Carolina de Rueling, que era um ímpia declarada. Fazia gala de dizer a toda gente que as Escrituras Sagradas eram uma mentira e não acreditava em Deus nem na vida futura.

A igreja do jardim, edificada com o auxílio do magistrado de Hanover e as dádivas da liberal cidade velha no meado do século XVIII, achava-se constantemente em embaraços pecuniários, desde a sua inauguração. As coletas, se bem que rendosas, não cobriam as dívidas, e os pobres da comuna necessitavam cada vez mais de auxílio pecuniário.

Carolina de Rueling distribuiu muitos talers (moeda alemã de prata, correspondente a cerca de dois cruzeiros e cinqüenta da nossa moeda) da sua grande fortuna, e atrás do seu nome nas listas sempre se viam consideráveis quantias, mas, para a sua cunhada Dorotéia, que com seus seis filhos sofria as mais amargas necessidades, não tinha ela um pfennig ( mais ou menos dez centavos). Todavia, tinha ela o sagrado dever de repartir com esta todos os seus bens, pois para salvar o seu esposo falecido, dera o irmão deste, marido de Dorotéia, a sua vida.

Quando Fernando, duque de Brunswick, desalojou os franceses do sul de Hanover, se uniram a ele os irmãos Augusto e João de Rueling. Na batalha de Nauheim, em 1763, foi João, um homem impetuoso e audaz, cortado dos seus companheiros e teria perecido, se Augusto, seu irmão mais velho, não o tivesse livrado, sacrificando a própria vida. Augusto, porém, recebeu nessa ocasião um profundo golpe no ombro, que o pôs fora de combate, sendo-lhe necessário voltar para a pátria. Pouco tempo depois faleceu. João prometeu a Augusto cuidar de sua esposa e filhos, como um pai. Cumpriu fielmente a sua palavra; mesmo quando anos depois, favorecido pelo eleitor e rei Jorge III de Hanover-Inglaterra, chegara a ter alta e rendosa posição, e desposara Carolina, de quem falamos no princípio, lembrava-se ele sempre da família do irmão, que a custo da sua vida o salvara. Para tristeza e desgosto seu, não queria a sua jovem esposa ter comunicação com a sua cunhada Dorotéia, porque esta era burguesa, enquanto ela era filha de conselheiro fidalgo de Nienburgo, educada nas idéias da roda aristocrática, que negava à classe burguesa quaisquer direitos e privilégios.

João, atirado na cama por grave enfermidade, conseguiu da esposa a promessa de cuidar da cunhada, se ele viesse a falecer. Mas depois do falecimento de seu marido, julgou-se Carolina livre do dever de auxiliar os parentes burgueses. Em 1772 reinou uma terrível fome em Hanover e os pobres não mais podiam pagar os preços exorbitantes dos alimentos. O magistrado e as comunas trataram de fornecer alimentos aos pobres necessitados, entre os quais se achava também Dorotéia de Rueling, que já não podia sustentar os filhos com o trabalho de suas mãos. Por isso foi à casa da cunhada pedir socorro, porém, esta nada lhe deu, apesar de, além da sua riqueza, receber considerável pensão do montepio. Quando Dorotéia, na sua grande necessidade, novamente procurou a orgulhosa parenta, esta se fechou no seu quarto, com as palavras:

- Não quero ser molestada por ninguém, e menos ainda por ela, nem na vida nem na morte.

Esta condessa morreu ainda nova, com uns trinta anos de idade, e antes de sua morte dispôs muito minuciosamente como queria o seu túmulo. Para mostrar patentemente que não acreditava na vida futura, determinou que queria ser enterrada numa sepultura que nunca mais pudesse ser aberta nem pelos homens nem mesmo por Deus!

Devia o túmulo ser coberto por uma enorme laje de granito maciço e levar ao redor blocos pesadíssimos de pedra. Tudo isto devia ser ser ligado por gatos de ferro, e a tampa segura ao resto por uma enorme corrente. Quem poderia, assim, abrir o túmulo da condessa. Era assim que ela pensava, e como um desafio mandou gravar no bloco principal esta ímpia inscrição:

Este túmulo foi comprado por toda a eternidade.

Nunca mais será aberto.

Depois de sua morte tudo se fez como ela ordenara. Fez-se tudo o que se podia fazer para tornar impossível a abertura daquele túmulo.

Contudo, de todo os túmulos que ainda restam naquele cemitério, o túmulo da condessa é o único que está aberto! E não foi homem algum que o abriu. Deus mesmo o abriu! Como? Por um terremoto? Não. Deus Se serviu de coisa bem mais insignificante.

A Deus bastou-lhe uma pequena sementezinha para mostrar a loucura da condessa.

Como a semente ali entrou, não se sabe. O que se sabe é que um pequeno rebento apareceu entre duas pedras, vindo do interior, e foi crescendo até quebrar blocos, correntes e tudo! Hoje pode-se ver uma árvore gigantesca saindo do túmulo aberto!

E foi nisto que veio dar o tal túmulo que nunca mais devia ser aberto! Com toda a certeza se poderia hoje gravar outra inscrição sobre a tampa, e talvez nada quadrasse melhor do que estas palavras do apóstolo S. Paulo aos Gálatas, capítulo 6, verso 7: "De Deus não se zomba."

Haverá coisa mais insignificante do que uma sementezinha? Pois com ela Deus confundiu e deitou por terra os loucos desígnios duma condessa. Quem se atreverá a zombar de Deus?

E não obstante, quantos não há ainda hoje que pretendem zombar de Deus! Desprezam a Sua santa Palavra, calcam aos pés os Seus mandamentos e riem-se do Seu amor.

Como nos devemos julgar felizes, os que conhecemos o Evangelho e nele temos aprendido a não zombar de Deus, mas confiar no Seu amor revelado em Cristo, para esta vida e para a vida futura!