Terríveis Conseqüências de um Vício Pernicioso

Numa tarde amena de outubro achavam-se reunidas dez ou doze pessoas da classe abastada, todas jovens, em uma casa do Missuri. Estavam na sala de visitas.

Entre elas achava-se também uma donzela, a qual, se bem que muito espirituosa e social, trajava sempre de luto. Chamava-se Mara (amargo), nome este por ela mesma escolhido para exprimir a amargura de sua vida, e isto desde que perdera, havia sete ou oito anos, toda a sua família.

Seriam dez e meia da noite quando um dos presentes puxou do bolso um baralho e o lançou sobre a mesa em redor da qual estavam todos reunidos.

O efeito deste ato foi surpreendente em Mara Moor. Sua face tornou-se pálida, tremia, e subitamente, levantou-se, foi sentar-se numa cadeira colocada em um dos ângulos extremos da sala. Tão brusca foi esta ação que todos a notaram, se bem que lhe ignorassem a causa.

Delicadamente, e fazendo-lhe ver que a urbanidade assim o requeria, tentou-se faze-la voltar à mesa - mas em vão; começou a chorar e soluçar profundamente como se o coração se lhe quisesse partir.

Sendo debalde todas as instâncias e meios de persuasão empregados, pediram-lhe que, ao menos, lhes relatasse qual o motivo de tão grande dor e desgosto. Mara Moor primeiramente negou-se a atender ao pedido, mas os moços e as moças tanto instaram, que ela, finalmente cedendo, passou a contar o seguinte:

"Quando tinha 19 anos de idade, vivia num lar felicíssimo, pois estava rodeada de um amorável pai, de uma mãe dedicada e extremosa e de um irmão tão solícito e afeiçoado como a uma irmã era dado desejar: foram estes os companheiros do radioso lar de minha juventude. A fortuna e a comodidade nos sorriam, deixando antever um porvir feliz. E de fato o foi, até o momento em que tornei a causa de nossa desgraça.

"Dois dos nossos parentes, ambos jovens, vieram visitar-nos certo dia e conosco passaram algumas horas da noite em agradável palestra, tudo como nós aqui, esta noite. Também não faltou um baralho e, quase à mesma hora, foi ele naquela noite lançado sobre a mesa pelo meu primo. Meus pais já se haviam recolhido.

"Nossos dois visitantes começaram desde logo a jogar, enquanto meu dedicado e bondoso irmão, que tinha aversão ao jogo, se ocupava em compor um trecho musical com o qual tencionava concorrer a um concurso. Nós três, porém, que precisávamos de mais um companheiro para o jogo, procuramos por todos os meios influenciar meu irmão para que se nos associasse; ele, porém, declarou-nos peremptoriamente que não achava lícito empregar seu tempo em divertimentos desse jaez; que tal passatempo não era próprio de pessoas de bem e, enfim, não desejava absolutamente viciar-se. Para demovê-lo das suas idéias tentamos tudo, mas em vão. Por fim, como recurso extremo, aproximei-me dele, abracei-o e disse-lhe amoravelmente que eu também era cristã, que também desejava a bem-aventurança, e não obstante, considerava inocente jogar um pouco por mera distração; disse-lhe mais que se deixasse de escrúpulos pueris e visse ajudar-nos, pois sem ele seríamos privados de um agradável passatempo; enfim, terminei dizendo: 'és por demais extremado em teus caminhos.'

"Meu irmão afinal se levantou, devagar, em direção à mesa, dizendo, contudo, que nada entendia de jogos. Retorquimos-lhe que facilmente o aprenderia. Por desgraça, de fato o aprendeu desde logo, desenvolvendo nele grande agudeza de espírito e não se cansando em estudar as cartas; por fim, tão encantado estava que mesmo uma hora depois de findo o jogo, continuava baralhando as cartas e jogando a sós. Causou-nos espécie e brusca transformação nas suas idéias; deixamo-lo, contudo, visto ser hora de nos recolhermos.

"Na manhã seguinte meu irmão procurou desde logo o baralho, convidando-nos para jogar; mas os nossos parentes, tendo de voltar para casa, em breve nos deixaram, levando também o baralho que haviam trazido.

"A semente da malfadada ação, porém, já tinha sido lançada. Naquela noite mesma foi meu irmão à cidade e tarde voltou, fato este que nunca antes se tinha dado; voltou de mau humor e, às nossas perguntas, só respondeu esquivamente. Soubemos que jogara. Na noite seguinte voltou à cidade e assim nas outras seguidamente, até que perdeu todo o dinheiro que possuía. Dirigiu-se então a meu pai, pedindo mais dinheiro, o qual, depositando nele uma ilimitada confiança, entregou-lho prontamente. Também este em breve o perdeu. Foi pedir mais a meu pai e este exigiu-lhe então informações acerca do emprego deste dinheiro, ao que meu irmão só respondeu com subterfúgios. Não obstante, meu pai deu-lhe ainda uma soma pequena, fazendo-lhe ver que mais não daria sem uma explicação perfeita e categórica acerca da sua aplicação.

"Como nas vezes anteriores, este último dinheiro também em breve foi tragado pelo jogo, e ao pedir mais a meu pai, não querendo dizer-lhe onde e com que o despendia, este recusou terminantemente dar-lhe mais um real que fosse. Irritado pela recusa, replicou-lhe meu irmão que em breve o coagiria a dar com mais espontaneidade. Como de costume, tornou essa noite à cidade, freqüentando as casas de jogo e demorando-se desta vez uma semana fora de casa.

"Durante este tempo todo, minha pobre mãe quase não se alimentava nem dormia e, ao trazerem um dia meu irmão em completo estado de embriaguez, ela, dominada pela dor, enfermou, em poucos dias findando a existência, minada de desgostos.

"Esperamos que esse triste fato concorresse para mudar o curso nefasto na vida de meu irmão; a mudança, porém, foi de curta duração. Continuou a jogar e a beber como dantes, e como era ainda muito jovem e de compleição delicada, em breve o delirium tremens dele se apossou. Meu pai, por seu turno, também ia fenecendo aos poucos e em breve morreu, deixando-me a mim só, com meu desgraçado irmão. Oh, como desejei morrer também! Mas Deus parecia desejar que eu visse o resultado final de minha obra malfazeja, pela qual eu lançara à desgraça toda a minha família, e assim fui por Ele obrigada a ficar para colher os frutos de minha negra ação.

"Por mil meios procurei influenciar meu irmão para o caminho do bem, mas tudo sem resultado; orei por ele, mas também debalde. Assim, foi que, não tendo mais diante de si o pai para opor-lhe obstáculos, em breve meu irmão precipitou-se por completo na ruína. Poucas semanas depois de eu ter acompanhado o féretro de meu pai, trouxeram meu irmão em delírio, e após alguns dias de angústia, morreu afinal o pobre rapaz. Oh! meu Deus! Para que nasci eu? Por que não morri também? Que castigo não me estará reservado em toda a eternidade, visto ter eu, com meus argumentos, precipitado ao abismo meu próprio irmão, aquele jovem tão belo e inteligente?

"Desde aí resolvi adotar o nome que caracteriza o estado de meu coração, isto é - Mara."

As senhoras presentes soluçavam e até parte dos homens se mostravam comovidos em extremo, com o relato da história de Mara.

O baralho, como por enquanto, havia desaparecido da mesa e, em seguida, fizeram-se muitas promessas e votos naquela noite, para que cada um dos presentes contribuísse, na medida de suas forças, para o desaparecimento do jogo da sociedade.