Como se Originou um Belo Hino

O seguinte tocante acontecimento determinou a composição do belo hino de que transcrevemos aqui a primeira quadra:

"Se eu sinto no meu peito a paz divina,
Deixai que ruja fora o temporal;
Pois uma luz a senda me ilumina,
E minha paz com Deus é perenal.

"Havia na cidade de Chicago duas meninas que tanto zelo manifestavam por sua religião que rogavam insistentemente aos pais permitissem unirem-se à igreja para comungarem antes de deixarem a sua terra natal a fim de passar algum tempo na Inglaterra. Os pais, a princípio, hesitaram, por considerá-las ainda muito jovens para darem tão solene passo; afinal, porém, anuíram ao seu ardente desejo e pouco antes de partirem foram elas solenemente recebidas na igreja e comungaram.

Alguns dias depois achavam-se as duas meninas, em companhia de sua mãe, a bordo de navio com destino à Inglaterra.

Foi o malfadado Ville de Havre.

Pelos seus modos corteses e afáveis não tardaram elas a granjear a estima de todos os passageiros de bordo e em pouco tempo haviam adquirido grande número de amigos, entre os quais um jovem francês, que não se separava delas. Infelizmente, porém, era homem sem religião, e muitas vezes lhes causava estranheza a sua linguagem pouco reverente a respeito de coisas sagradas. Sucedeu um dia estar a menina mais velha lendo as Escrituras Sagradas, quando o jovem francês dela se aproximou, perguntando-lhe zombeteiramente se era também uma pequena beata. A menina não lhe respondeu; fitou, porém, nele um olhar tão sério, que este jamais o pôde esquecer. Entristecida com aquelas palavras irreverentes e o tom em que haviam sido proferidas, foi ter com a irmã, a quem referiu o ocorrido, advertindo-lhe que não convinha entreterem mais relações com o francês, porquanto era homem que não amava a Deus e escarnecia de Sua Palavra.

Poucos dias depois ocorreu o fatal abalroamento, que determinou a submersão quase imediata do Ville de Havre. Não houve tempo para salvar os passageiros, que pereceram quase todos afogados. Entre as vítimas se achavam também essas duas interessantes meninas, que souberam encarar destemidamente a morte, porquanto descansavam nos braços de seu Salvador.

Algum tempo depois a pobre mãe, trespassada de dor, transmitia ao pai a seguinte notícia. "Só eu me salvei." Foi grande a sua dor ao receber tão pungente nova; numa noite embranqueceram-se-lhe os cabelos.Consolou-se, porém, de tão profundo golpe, com a paz de Deus que se lhe derramava no peito, como ele mesmo o exprime naqueles versos:

"Se eu sinto no meu peito a paz divina,

Deixa que ruja fora o temporal;
Pois uma luz a senda me ilumina,
E minha paz com Deus é perenal."
Alguns anos depois houve na França uma reunião religiosa em que os crentes relatavam as suas experiências e davam os seus testemunhos. Levantou-se entre eles também um jovem francês, para dar em louvor de Deus um testemunho de Sua bo0ndade, referindo como viera a tornar-se crente. Contou que fora um dos passageiros do Ville de Havre, no qual se havia encontrado com duas meninas religiosas.

Era então homem sem crenças; as relações constantes, porém, que entretivera com aquelas meninas, sua devoção e piedade, lhe produziram funda impressão. Relatou então o caso da menina lendo as Escrituras e como dela zombara, recebendo em resposta um único olhar, mas tão triste e cheio de exprobração que jamais o pudera olvidar. Quando se estivera debatendo na água, seguira-o constantemente aquele olhar. Acordara-lhe então a mente todo o seu passado e na angústia do seu coração prometera servir ao Deus daquelas crianças, se Ele Se dignasse salvá-lo da água. E, com efeito, o salvara, não só da sepultura nas águas como também da morte espiritual. Agora, confiava e acreditava no seu Salvador Jesus.