Por Amor de Cristo

Dirigindo-me à porta para ver quem batia, dei com os olhos sobre um - vagabundo! Como nunca houvesse simpatizado com essa classe de ente, também nunca a tratei afavelmente. Pedia naturalmente de comer, ao que lhe respondi que lho havia de trazer, não o convidando, entretanto, para entrar. Voltando para dentro a fim de buscar-lhe alguma coisa, pensei comigo mesma: "Vou dar-lhe do pudim que já não está mais fresco e um pedaço do pão de ontem; foi bom não o haver lançado ainda às galinhas, conforme tencionava hoje cedo." Nisto vieram-me à memória as seguintes palavras da Bíblia: "Emprestado ao Senhor ... Ele to recompensará." Num relance compreendi toda a baixeza da ação que ia praticar. Lembrei-me, então, da longa lista de atos semelhantes que já havia praticado e de que os anjos certamente haviam tomado nota nos livros do Céu. "O Senhor tos recompensará, segundo o que eles Lhe merecerem!"

Oh! que tesouro estava eu amontoando para mim no Céu!

Este pensamento impressionou-me a tal ponto, que comecei a tremer, mal me podendo ter de pé. Voltando à porta convidei o estranho para entrar e aquecer-se junto ao fogão da sala, porquanto fazia frio. Observei, então, que seus sapatos estavam rotos e o paletó trazia vestígios de longo uso. Chamando meu marido à parte, disse-lhe:

- João, tens aqui um par de meias e um par de sapatos que já não usas, e talvez, possam servir-lhe; dá-lhos, eu te peço.

- Mas Manda, que é isso? retorquiu meu marido. Pensei que aborrecias os vagabundos e agora ...

- Faze-me este favor, João, faze-o por amor de mim.

Entretanto, eu havia preparado um prato de uma excelente sopa, que pus na mesa juntamente com outras iguarias, que ainda tínhamos em casa, e convidei-o para cear. Ele, porém, respondeu-me:

- Senhora, eu não ouso sentar-me a uma mesa tão limpa como essa; permita, eu lhe peço, que me lave primeiro.

Havendo-se lavado e alisado os cabelos emaranhados, ele se sentou à mesa para fazer honra à ceia que eu lhe preparara. Observei, então, que uma lágrima lhe deslizava pela face e tive de voltar-me para lhe ocultar as minhas.

Terminada a refeição, agradeceu profundamente e ia despedir-se, quando meu marido se apresentou e lhe disse:

- Tenho aqui um sobretudo que desejo lhe dar porque está fazendo frio e pode ter necessidade dele.

Depois de haver agradecido ainda uma vez, perguntou, comovido:

- Por que tratam assim um vagabundo? ao que lhe respondi: - É por amor de Cristo.

Então continuou e disse: - São os primeiros cristãos que tenho encontrado desde que faleceu a minha mulher. Ela era um anjo, e que orgulho tinha eu de meus dois filhinhos! Também minha mãe era uma cristã, que nunca deixou de orar por seu filho. Quando ela morreu, tornei-me um bêbado e o resto pode-se imaginar. Minha mulher morreu de pesar e meus filhinhos me foram tirados. Entreguei-me então à vida vagabunda em que me vêem e comecei a odiar os que freqüentavam a igreja, porquanto não me trataram melhor que os outros também. Hoje, porém, estou convencido de que há ainda verdadeiros cristãos no mundo e, oh! tenho um desejo imenso de tornar-me cristão também. Porventura poderei eu, que sou um tão grande pecador, ser ainda perdoado?

- Sim! exclamei, Jesus Cristo veio ao mundo para salvar pecadores.

- Então, Ele veio para salvar também a mim, respondeu o estranho; com a graça de Deus vou começar vida nova.

Antes de ele sair ainda oramos juntos e posso dizer que nunca senti uma paz tão profunda como desde aquele momento.