Bem Compreensível

Depois da batalha de Gettysburg entrei no aposento em que meu filho, jovem oficial, jazia ferido e já às portas da morte. À minha chegada ele despertou do seu letargo e, acenando-me para que me aproximasse do leito, lançou os braços ao meu pescoço.

- Meu pai quanto me alegro de ver o senhor aqui. Receava que já não viesse mais a tempo. Estou muito prostrado para poder falar, contudo tenho tanto a dizer-lhe! Que notícias me traz de minha boa mãe e de minha irmã?

Pelos moradores da casa fui informado de que não restavam mais esperanças de salvá-lo. Atormentado pela dúvida e incertezas, dirigi-me diretamente ao doutor:

- Que me diz sobre o estado de meu filho, doutor?

- É um caso perdido. Não há mais meios de salvá-lo. Tudo quanto podem a arte e a solicitude humanas, tem sido empregado. Seu filho foi um valoroso soldado, que granjeou grande estima no exército e entre todos que o conhecem, mas agora está à morte. Logo após a amputação do membro manifestou-se a gangrena, que tem resistido a todos os meios empregados para combatê-la.

- Quanto tempo julga poderá viver ainda?

- Quatro dias no máximo; a morte, porém, pode sobrevir a todo instante, pois que existe o perigo da ruptura de alguma artéria, a que fatalmente teria de sucumbir. Se o senhor pretende fazer ainda alguma coisa por ele, deve faze-lo já!

- Porventura o doutor, ou outra pessoa já lhe revelou a verdade do seu estado?

- Não, senhor, entendemos dever deixar ao senhor tão dolorosa incumbência, pois o esperávamos a todo o momento.

Tornando a entrar no quarto com esta pungente nova, que me dilacerava a alma, os olhos de meu filho se fixaram em mim.

- Assente-se aqui perto de mim, meu pai; conversou com o doutor sobre o meu estado?

- Sim.

- Que lhe disse ele? Julga que me hei de restabelecer?

Seguiram-se alguns momentos de angustioso silêncio.

- Não receie contar-me o que ele lhe revelou.

- Ele me disse que hás de morrer.

- E quanto tempo julga que ainda poderei viver?

- Quatro dias no máximo; adverte, porém, que a morte pode sobrevir a todo o momento, visto existir o perigo da ruptura de alguma artéria, ao que não resistirias.

Fazendo então um esforço sobre si mesmo, disse:

- Será isso verdade, meu pai? Terei eu de morrer? Oh, não é possível, não posso morrer, não estou preparado para a morte! Diga-me como é que devo preparar-me para poder enfrentar a mesma; diga-mo, porém, de modo que eu possa compreendê-lo. Diga-mo em poucas palavras, para que eu possa ver bem claro. Sei que o senhor o sabe, porque já o tem feito saber a outros.

O momento não era para lágrimas, mas exigia calma e lucidez a fim de conduzir a alma a Cristo: ambas as coisas as obteve o pai.

- Vejo, meu filho, que temes a morte.

- Sim, temo, meu pai.

- Devo supor, portanto, que te sentes culpado.

- É isso mesmo, fui um mancebo leviano. Sabe como é no exército.

- Desejas alcançar o perdão, não é isto?

- Oh, sim, é o que almejo, e poderei obtê-lo, meu pai?

- Sem dúvida.

- Poderei ter a certeza do mesmo antes de morrer?

- Sim.

- Então diga-me de que modo, mas diga-o bem claro para que eu possa compreende-lo.

Subitamente acudiu-me à memória um fato do tempo em que meu filho ainda cursava as aulas. Havia já alguns anos que dele não mais me lembrava. Agora, porém, se apresentava nitidamente ao meu espírito, fornecendo justamente aquilo que precisava para guiar o coração angustiado de meu filho ao seu único Salvador.

- Recordas-te ainda de um dia em que, havendo-me dado motivos para censurar-te, tu te exaltaste ao ponto de dirigir-me palavras acrimoniosas?

- Sim, meu pai, ainda há poucos dias, quando aqui aguardava a sua chegada, lembrou-me esse fato, e fiquei muito contristado, desejando que o senhor estivesse aqui para pedir-lhe ainda uma vez perdão.

- Recordas-te ainda como, passado aquele primeiro acesso, voltaste a mim arrependido e, lançando-te ao meu pescoço, disseste: "Meu pai, muito me pesa havê-lo ofendido. Não foi o seu filho que lhe fez isto, aconteceu em um momento de arrebatamento. Quer perdoar-me a minha ofensa?"

- Recordo-me muito bem.

- Recordas-te também do que eu te disse quando, entre os meus braços, choravas?

- Sim, o senhor respondeu: "Meu filho, perdôo-te do coração," e me beijou. Nunca hei de olvidar aquelas palavras.

- Creste-as?

- Sim, jamais as pus em dúvida.

- Sentiste-te feliz então?

- Oh, muito! e desde então amei o senhor mais ainda. Não me posso esquecer da satisfação que experimentei quando, fitando em mim um olhar de ternura, o senhor me disse: "Perdôo-te do coração."

- Pois bem, meu filho, é este exatamente o modo como deves ir a Jesus. Confessa-Lhe o pesar que sentes pelos pecados que cometeste, tal qual mo confessaste a mim, e Ele te perdoará mil vezes mais depressa do que fez o amor de um pai. Ele diz que o fará; deves acreditar, pois, a Sua palavra, assim como acreditaste a minha.

- É este o modo por que a gente vem a tornar-se cristão, meu pai?

- Não conheço outro.

- Oh, compreendo! quanto me alegro de ter o senhor vindo para mo ensinar!

Voltou então a cabeça no travesseiro como que para repousar. Eu, porém, não podendo mais dominar-me, deixei-me cair em uma cadeira e comecei a chorar. A minha parte estava feita, confiava o resto ao Senhor e, como logo pude observar, Ele não deixou de cumprir também a Sua. O coração contrito havia feito a sua confissão e ouvido dEle as palavras almejadas: "Teus pecados te são perdoados;" e ele acreditou-as. Alguns momentos apenas, e o novo nascimento se havia efetuado; o coração atribulado havia feito uma breve oração, e, crendo nas palavras de Deus, experimentando o Seu poder regenerador. Uma alma havia passado das trevas para a maravilhosa luz e do poder do pecado e do diabo para Deus. Logo senti tocar-me uma mão trêmula e uma voz proferir a palavra "pai" num tom tão repassado e doçura, que tive a certeza de que a mudança estava operada.

- Meu querido pai, não chore. Estou feliz, Jesus me perdoou. Sei que Ele o fez, porque a Sua palavra o diz e eu a creio. Não temo mais a morte. Contudo, se aprouver a Deus conceder-me vida, desejo ainda viver para cuidar do senhor e de minha mãe; se, porém, devo morrer, nada temo, porque Jesus me perdoou. E agora, meu pai, peço que ore comigo.

Oramos juntos e a nossa oração foi atendida.

- Meu pai, estou muito feliz. Agora creio que hei de sarar outra vez, já me sinto melhor.

A partir desse instante mudaram todos os sintomas, o pulso diminuiu e a sua aparência denunciava melhoras.

Logo depois entrou o médico, encontrando-o alegre e feliz. Olhou para ele, tomou-lhe o pulso e disse:

- O senhor está melhor.

Estou melhor, doutor, e hei de sarar. Deus ouviu minha oração.

À noite três cirurgiões se reuniram para uma conferência em que o caso foi julgado completamente perdido; um deles despediu-se de meu filho manifestando a nenhuma esperança que tinha de tornar a vê-lo.

Na manhã seguinte os outros dois médicos voltaram para, como de costume, fazer o tratamento da ferida. Ao tirarem as ligaduras, porém, recuaram espantados, e elevando as mãos aos céus, exclamaram:

- Oh, Deus! Que milagre é este! A gangrena desapareceu; seu filho viverá; Deus atendeu às suas orações.

- Sim, doutor, respondeu meu filho, já lhe disse ontem que acreditava que havia de sarar, porque confessei a Jesus o meu desejo de viver para praticar ainda algum bem. Eu sabia que Ele tinha atendido às minhas orações e agora o senhor pode convencer-se disto. Louve comigo o Senhor!

Entretanto o telégrafo havia levado ao nosso lar a consternadora nova: "nosso filho morre," cobrindo o coração da família de luta e de tristeza. No dia seguinte, porém, um segundo telegrama lhes anunciava: "nosso filho viverá e está feliz em Cristo," e ao luto e à tristeza sucederam a alegria e o júbilo.

Agora ele vive, cercando de honra e prosperidade, como membro da igreja de Cristo e pai de uma ditosa família, tendo todo o seu tempo consagrado ao serviço do seu Criador.

Esta experiência também me aproveitou a mim, tornado-me melhor homem e melhor servo de Cristo.

Jamais olvidei a lição que meu filho me deu naquelas palavras: "Diga-o bem claro para que eu possa compreendê-lo."

Fiz dela a base de muitos de meus sermões e Deus os coroou de êxito.