O Sermão Interrompido

Uma tarde eu e meu amigo, um ministro do Evangelho, nos entretínhamos a conversar em seu gabinete de estudos. Um texto bíblico, bordado sobre tela, que pendia de uma das paredes, feriu a minha atenção. Era a passagem que se lê na primeira epístola do apóstolo S. Pedro, capítulo 1 e versículos 24 e 25.

"Toda a carne é como a erva e toda a glória do homem como a flor da erva. Secou-se a erva e caiu a sua flor, mas a Palavra do Senhor permanece para sempre."

- Que magnífico bordado, exclamei, é um trabalho admirável!

- É, sim, volveu o amigo, porém mais admirável ainda é a providência de Deus que essa passagem recorda.

- Deveras? retruquei-lhe, e porventura serei indiscreto se ...

- Oh, não! interrompeu-me amavelmente, terei todo o prazer em narrar-lhe a história.

- Há uns 25 anos, mais ou menos, fazia eu o meu noviciado no ministério. Creio poder afirmar que pregava então o Evangelho segundo o meu melhor modo de entender, embora o meu saber fosse ainda assás limitado. Entendia que, para produzir um bom sermão, fosse sobretudo necessário exercitar-me na retórica e nas expressões elegantes da eloqüência. Ora, ninguém há de querer sustentar que a retórica e a eloqüência sejam coisas para se desprezarem em um sermão; eu, porém, execedia-me nestas coisas. Minha vaidade estava toda satisfeita quando, pela beleza e felicidade da expressão e pela força da eloqüência, conseguia arrebatar o meu auditório, mormente os da classe mais elevada. Escolhia por isso assuntos que melhor se prestassem ao desenvolvimento da oratória, e consagrava quase todo o tempo, durante a semana, à elaboração dos meus sermões, que, depois de cuidadosamente limados e polidos, eram, palavra por palavra, recolhidos na memória. Em conseqüência, as minhas pregações eram muito superficiais e as simples e claras verdades do Evangelho, que falam do pecado, da justiça e do juízo, se sucedia alguma vez eu mencioná-las, como que ficavam soterradas sob a avalanche de flores de retórica, que faziam a essência de meus sermões. Minha cara esposa muitas vezes me dizia:

" - Receio que com os teus sermões convertas mais pessoas em adoradores teus que em seguidores de Jesus."

" - Por que, minha amada? indagava curioso, porventura não te agradou o meu sermão desta manhã?"

" - Não digo que não me agradasse," costumava responder-me então; "pregaste muito bem e tudo o disseste não deixa de ser verdade; há, porém, ainda tantas verdades importantes no Evangelho sobre as quais nunca falas e que julgo muito necessárias!"

"Tinha ela por hábito levar os seus receios e cuidados em oração a Deus e suplicar-Lhe que me ensinasse a conduzir os que estão mortos em pecados e transgressões ao seu único e bom Salvador.

"Aprouve ao Senhor deferir as súplicas de minha cara esposa. Um sábado de manhã pregava eu como de costume a um numeroso auditório. Ia exatamente fazer aos meus ouvintes uma brilhante descrição do pôr do Sol no Mar da Galiléia, quando, de repente, uma menina desmaiou no recinto, em conseqüência do ar abafadiço. A perturbação assim causada, embora momentânea e sem maior importância, fez-me perder o fio de meu discurso. O resto do sermão se me escapou de todo, de sorte que não podia mais recordar palavra. Na minha grande perplexidade, roguei a Deus que me ajudasse, e ao baixar os olhos sobre a Bíblia, que tinha aberta diante de mim, dei com eles sobre a passagem que o senhor ali vê suspensa da parede. Obedecendo então a um impulso involuntário, li-a aos meus ouvintes e entrei a discorrer sobre a mesma, conforme mo ditava o coração. Como, porém, estivesse privado do meu acervo de flores de retórica, não pude senão expor as verdades da Palavra divina em toda a sua simplicidade e clareza. Buscando aliar o texto com a primeira parte do sermão, comparei o homem ao Sol que declina para jamais tornar a erguer-se. Discorri sobre a vaidade das coisas humanas, sobre a certeza da destruição final, sobre o juízo vindouro e a inevitável condenação daqueles que permanecerem nos seus pecados. Em uma palavra, não retive nenhum dos conselhos de Deus, que nos oferecem em Adão morte e destruição; em Cristo, porém, salvação e vida eterna.

"Ao regressar a casa naquele dia, minha mulher vertia lágrimas de alegria. Assegurou-me que jamais ouvira um sermão tão tocante. Eu, porém, me achava num estado de espírito desesperador; envergonhava-me de mim mesmo 'O auditório devia ter notado o teu embaraço.' dizia eu de mim para mim, 'e que comentários não vai provocar o teu caso pelo fato de romperes o fio no meio do discurso. Este foi, sem dúvida, um dos piores sermões que jamais foram ouvidos de algum púlpito.'

"Apenas entrados em casa, uma senhora pediu para falar-me. A impressão que o seu exterior produziu em mim não foi das mais favoráveis. Vestia extravagantemente e a grande abundância de rendas e jóias que trazia sobre o corpo dava-lhe um aspecto desgracioso.

" - Caro senhor, disse-me com lábios trêmulos, poderei falar-lhe confidencialmente?

" - Sim, minha senhora.

" - Sou uma mulher ruim, disse-me então, desfazendo-se em pranto, mas o senhor pode talvez dizer-me se há ainda salvação para mim, que por tão longo tempo tenho conduzido uma vida inútil.

"Narrou-me então a sua história. Gozava de alta estima nas rodas que freqüentava; vivia, porém, sem Deus e sem Cristo neste mundo, onde os vestidos e os divertimentos constituíam o seu único deleite. Não freqüentava igrejas, mas podia ser encontrada nos teatros e nas salas de banquetes. Tendo saído a passeio naquele sábado de manhã, sua atenção fora despertada pelo canto que ouvira ao passar pela capela. Ocorreu-lhe então a idéia de entrar e assistir ao culto. Tinha chegado em tempo para ouvir o que é a glória do homem. Minha pregação, disse, lhe penetrara o coração como uma espada de dois gumes. Reconheceu que em toda a sua beleza era semelhante à flor que se seca, que estava morta, perdida sem salvação e sem esperança. Pediu-me então que lhe falasse mais acerca desse Salvador do qual eu havia pregado como o único que nos pode resgatar da perdição.

"Não será talvez necessário dizer-lhe, continuou o amigo, com que alegria eu lhe falei de Cristo, até que os seus olhos viram a Sua glória. Logo depois tornou-se membro de nossa igreja e nessa ocasião ofertou-me aquele texto bordado."

- E as suas pregações? indaguei, curioso.

- O Senhor, respondeu-me com um sorriso, ajudou-me a colher esta lição que jamais tenho olvidado, a saber: que a retórica e a eloqüência podem ser excelentes num sermão, mas sem a eloqüência da Palavra de Deus, que nos fala do amor dAquele que morreu pelos nossos pecados, nunca hão de levar uma alma ao seu único e fiel Pastor.