Oração Atendida

Numa bela pitoresca vivenda campestre, a pouca distância da cidade de B. ... vivia o Sr. Sander. Homem distinto e cristão piedoso, encontrara ele uma esposa que compartilhava desses mesmos dons. Ela, como companheira fiel e dedicada, ajudava-o a criar e educar os filhos para o Senhor, pois os consideravam uma benção dEle provinda. Desde tenra idade os tinham acostumados a humilhar-se perante o trono de graça, para de Deus implorar para si a sabedoria e a força por Ele prometidas aos fiéis.

Aos que mais de perto conheciam estas crianças, nenhuma dúvida restava de que os incansáveis esforços de seus pais haviam produzido frutos abençoados. As crianças eram obedientes, amáveis entre si, benevolentes e modestas para os estranhos. A vida íntima desta família era considerada um modelo de vida familiar. Ordem e asseio dominavam em toda a casa. Não obstante a solicitude com que os criados eram habituados ao trabalho, à diligência, ao cuidado e ao fiel emprego de seu tempo, sabiam estes avaliar a superioridade desta família cristã e o privilégio de poder servir-lhe, só a abandonando quando a isso eram coagidos pela necessidade. É natural que os desejos de prazeres e alegrias mundanas não permanecessem por muito tempo em casa da família Sander. Todos os dias os membros dessa família e seus agregados se reuniam para ler a Palavra de Deus; com oração começavam a lida quotidiana e com oração a terminavam. Estes eram momentos de bênçãos, de reanimação e de fortalecimento. O Senhor de bom grado Se detém entre tais famílias; e mesmo quando Ele lhes envia provações, fornece-lhes também força para suportá-las.

Era no tempo da colheita. Numa noite tempestuosa, a doce paz deste lar foi perturbada por fortes marteladas, que trovejavam sobre o portão exterior. Um criado apressou-se em abri-lo, vendo-se então em presença de dois possantes homens. Entregando ao criado um bilhete, disseram-lhe, em tom áspero e rude:

- Leve ao seu amo este bilhete e traga-nos imediatamente a resposta. Aqui a aguardamos. Avie-se!

Não pouco assombro se apoderou do serviçal, em face dos modos singulares destes estranhos, mas prometeu satisfazê-los e voltar o mais breve possível. Entrando na sala de visitas, onde se achava reunida a família, entregou a carta; deteve-se a observar atentamente o seu amo enquanto este lia a missiva para ver se pela expressão de seu rosto adivinhava o seu conteúdo. Também a mãe e as crianças formaram grupo ao redor do pai e grande inquietação se apossou deles quando viram tornarem-se lívidas as faces do dono da casa.

- Temos aqui, disse ele, um escrito cujo conteúdo é para nós pouco agradável. Porém, meus caros, não se assustem; porque justamente nesta ocasião poderemos dizer, convictos: "Se Deus é por nós, quem será contra nós?" Animem-se e ler-lhes-ei a carta:

"Senhor!
À porta de sua casa acha-se o chefe de um grupo de homens que nada temem e desejam que antes do alvorecer sejam postos 75.000 francos junto ao portão do jardim; caso contrário será o seu elegante edifício, ainda esta noite, uma presa das chamas.
O chefe."

- Ó Senhor dos Céus, valei-nos! exclamou em pranto a dona da casa, ao ter seu marido terminado a leitura da carta. As crianças choravam e os serviçais, a este tempo já todos reunidos, tremiam como se já ouvissem o crepitar das chamas; só o pai se conservou calmo. Após uns momentos de meditação pegou da pena e traçou as seguintes linhas:

"Senhor!
Sua ordem imperiosa exige uma resposta imediata. Não me sujeitarei à sua vontade. Se forem desígnios da Providência que a minha casa seja destruída pelas chamas, espero poder dizer: 'Senhor, faça-se a Tua vontade!' mas tenho a convicção de que o senhor não tem poder para fazê-lo. Deus é onipotente e, seja qual for a Sua vontade, respeitá-la-ei.
Sander.

"Neste momento repetiram-se as marteladas contra a porta exterior e um dos criados deu-se pressa em levar aos estranhos a resposta de seu amo. À luz baça de uma lanterna os homens leram o escrito e depois, em tom ameaçador, disseram ao empregado:

- Recomende-nos ao seu amo e diga-lhe que em breve lhe renderemos a nossa homenagem. Dito isto, ausentaram-se os dois estranhos.

Apenas o criado voltara à sala das recepções, fez o Sr. Sander fechar cuidadosamente todas as portas e disse:

- Vamos, de joelhos, adorar o Onipotente, sem cuja vontade não tombará sequer um dos cabelos de nossa cabeça.

Todos obedeceram e fervorosamente acompanharam ao amo em sua prece, recomendando toda a casa à proteção de Deus, do Deus todo poderoso e defensor. A oração não podia deixar de ser atendida porque fora fervorosa e vinda de um coração pleno de fé. Levantaram-se depois fortalecidos, aguardando o momento da provação e confiando no Senhor. Não dissera Ele: "Não te deixarei, nem te desampararei?" E por isso nos é também dado afirmar confiantemente "Em Deus tenho posto a minha confiança; não temerei o que me possa fazer o homem."

Batera meia-noite. Nenhuma probabilidade havia de esperar socorro da cidade, visto a distância, e por não quererem se aventurar a poderem ser aprisionados pelos bandidos, nem do sino grande podiam usar nesta ocasião, pois fora retirado havia poucos dias, por necessitar de conserto. Parecia de antemão tudo disposto para demonstrar-lhes que somente Deus os poderia salvar. De tempos a tempos a ventania perpassava em fortes rajadas, sacudindo o edifício, como querendo aumentar os horrores desta noite medonha.

Mas, que aconteceu? Seriam duas horas da manhã. Relâmpagos e trovões anunciavam a proximidade de forte temporal. Faíscas elétricas sucediam-se sem interrupção e medonhamente o ribombo do trovão atroava os ares. Se agora vísseis esta família! Todos pareciam estar tomados de uma forte resolução. Diante da iminência desse novo perigo parecia que todos haviam olvidado os ladrões e suas ameaças. Bruscamente um fuzil iluminou por momentos o espaço , seguindo-se-lhe espantoso e formidável ribombar que fez tremer todo o edifício em seus alicerces.

- Caiu um raio! exclamou um dos serviçais; o celeiro está em chamas!

E de fato assim era: a dependência citada estava dominada pelas chamas, mas achava-se felizmente a alguma distância do corpo principal do edifício. Fora este o último dos trovões. A tempestade atenuara aos poucos, cessara o vendaval e passado um quarto de hora notava-se um grande movimento lá fora, ouvindo-se distintamente as vozes dos vizinhos, atraídos pelo incêndio. O Sr. Sander com a sua gente também se dirigia ao celeiro em chamas. Mas, imaginai-lhes o espanto! Chegados, depararam a pouca distância do celeiro com o cadáver de um homem, não tendo nenhum vestígio de haver sido atingido pelas chamas. Examinado pelos criados estes o reconheceram como um dos estranhos portadores da mencionada carta. Tratava-se de fato do temível facínora, chefe dos bandidos, morto por uma faísca elétrica no momento de tentar realizar o seu sinistro projeto e aí abandonado pelos seus sequazes quando o viram tombar, já cadáver.

Graças ao auxílio dos vizinhos conseguiu-se debelar em breve o incêndio, passando então o Sr. Sander a relatar-lhes os estranhos e apavorantes acontecimentos daquela noite. A surpresa apoderou-se de todos. Ao removerem o cadáver do bandido, encontraram em seus bolsos, entre outros papéis, um que lhes dava indicações dos prováveis refúgios de seus cúmplices e que já havia tempo perturbavam a tranqüilidade daqueles lugares, de modo a poderem ser entregues à justiça.

Do que fica exposto se evidência, pois, que para Deus não é difícil salvar o crente das garras da malvadez e que o Eterno jamais abandona os que O amam, desfazendo as maquinações dos ímpios.