Sobre uma Ponte

As Moedas da Viúva

Quando transponho o Ródano, pela pontezinha do Liceu, estou certo de ver sob a abóbada da primeira pilastra, à direita, um velho cego sentado em uma ruim cadeira de palha, trazendo sobre o peito um cartaz que indica a causa de sua cegueira; e, perto deles, um modesto cão, seu fiel condutor, sustendo entre as maxilas a alça dum pequeno balde de folha, destinado a receber o óbulo dos transeuntes.

O cego tem a fisionomia simpática, sadia, se bem que triste. Os traços são regulares, quase belos; a barba é branca, ondeada, assim como os cabelos que se lhe escapam, ainda abundantes, de sob o velho chapéu usado.

Seus grandes olhos brancos, sem vista, sem vida, com os de uma estátua, causam penosa impressão; temos vontade de fugir deles, depois buscamo-los de novo, malgrado nosso e, em nos indo, levamos sua imagem triste.

A melancolia encobriu com o seu véu peculiar o pálido semblante desse deserdado da vida, cuja cabeça, digna de servir de modelo a um mestre, se inclina ligeiramente sobre o ombro esquerdo, na atitude da resignação, do devaneio.

Sim! se o olhar físico está extinto sob esse brancos supercílios, o do pensamento deve-se iluminar e acariciar sob essa larga fronte, polida como o marfim, o panorama dos dias felizes, sem choque, sem sombras, dias de ventura passados junto a entes amados que não existem mais.

Assim deve ser, pois uma manhã eu surpreendi uma lágrima silenciosa traçar seu úmido sulco na face descorada do ancião.

Lágrimas de afetuoso e pungente sentimento, sem dúvida alguma, como só as vertem aqueles que muito amaram, que muito sofreram; e que, como o diamante, se mutilam o próprio coração, a fim de aproximarem-se pela recordação, com uma pureza maior, daqueles que eles perderam, que não souberam talvez amar como deveriam tê-lo feito, e que por isso chorarão sempre.

Meu cego, resignado talvez, mas certamente não consolado, tivera uma companheira e filhos: um grande rapazola, seu orgulho; duas gentis meninas, sua alegria. Um dia, a morte veio abater-se, como uma ave de rapina, sobre o lar cheio de alegres prazeres, pleno de vida, e arrebatou do ninho a mãe e os filhos, deixando-o só e louco de dor.

Então, semelhante à folha arrancada da árvore pelo frio aquilão, o desgraçado, enxotado de seu teto pela adversidade, tornou-se um ser inconsciente e sofredor; viram-no só, errando sem esperança e sem objetivo, até o dia em que veio, tristemente, sentar-se sob a abóbada da pilastra da ponte pênsil.

Eis aí o que me contaram a respeito de meu enfermo, o solitário mudo da pontezinha.

Nesse dia - era na semana passada - fazia bastante frio; o vento norte soprava zunindo nas margens do rio, impelindo aqui e ali flocos de neve arrancados dos telhados das casas que margeiam os cais. Poucos transeuntes nas ruas e praças, a não serem pessoas ocupadas, caminhando com passo apressado e sem deterem para olhar o que quer que fosse.

Recolhia-me a casa, e, como de costume, dirigia-me pela ponte do Liceu; subi os degraus que davam acesso ao taboleiro da ponte, que eu sentia abaixar-se e levantar-se à proporção que avançava, pois o vento redobrava de força nesse momento; eram cerca de onze horas da manhã.

Nem sequer um peão comigo; eu ia só, com a cabeça baixa, encapuzado, para preservar dos insultos do ar. Pensava em meu pobre enfermo, no que poderia bem suceder-lhe nesta rigorosa estação de inverno, e como podia ele prover as suas modestas necessidades, quando, chegado a alguns passos da primeira pilastra, me detive para contemplar um quadro inédito: uma cena tocante, das mais surpreendentes, em sua grandeza verdadeiramente evangélica.

Arrostando os zunidos do frígido nordeste, o cego e o cão estavam no seu lugar habitual, e, junto deles achava-se uma mulher bem pobremente vestida. Eu a reconheci como uma habitante do quarteirão. Viúva e velha, vivia igualmente só e apanhava trapos, que vendia para manter-se.

Curvada sobre seu saco aberto, quase cheio de restos de toda sorte, ela tirou dele um pacote feito de jornal, contendo restos de carne e de pão, provenientes dos sobejos de algum restaurante; escolheu uma boa porção deles, que deu ao cão, ao qual tirara previamente o pequeno balde, que depusera nos joelhos do velho.

Feito isto, satisfeita de ver comer o feliz animal, que manifestava seu reconhecimento por alegres rosnados, tirou em seguida do bolso de seu vestido usado e roto um velho lenço de quadrados azuis, um dos cantos do qual estava amarrado.

Desfez o nó com o auxílio dos dentre e tirou deste esconderijo improvisado, desta bolsa do pobre, três moedas de níquel, tudo o que possuía para viver, e as depôs delicadamente, sem que produzissem o menor som, no pequeno recipiente de folha.

Em seguida, repondo o saco no ombro direito, retirou-se, depois de ter saudado o inválido com um afetuoso "bom dia," prodigalizando uma última carícia a seu cão.

Tudo isso se passou em mui pouco tempo, menos, certamente, do que eu emprego em relatá-lo. Só o anjo da caridade pudera colher todos os pormenores desta esmola tão simples e tão grandemente generosa, para consigná-los no memorial que será aberto dentro em pouco tempo para ser lido em louvor desta nobre alma, e de todas aquelas que, como ela, tiveram dado não uma insignificante parte de seu supérfluo, mas até o que lhes era necessário.

Depois, eu passei, por minha vez, diante do cego, e depus também no baldezinho o testemunho da caridade que o Senhor me ensinou a praticar para com meu irmão desditoso - óbulo menos excelente, eu o confesso, que o da viúva, cuja nobre ação me trouxera à memória esses versículos do Evangelho de S. Lucas, cap. 21:1-4:

"Estando Jesus olhando, viu os ricos, que lançavam as suas oferendas no gazofilácio.

"E viu também uma pobrezinha viúva, que laçava duas moedas.

"E disse: Na verdade vos digo, que esta pobre viúva lançou mais do que todos os outros.

"Porque todos esses fizeram a Deus ofertas daquilo que tinham em abundância; mas ela deu da sua mesma indigência tudo o que lhe restava para o seu sustento."

Foi nos dito que o que deve distinguir mui particularmente os filhos de Deus nos últimos dias, é a caridade.

Ai! ela se arrefece mesmo entre eles. É por isso que o Senhor nos põe sob os olhos admiráveis exemplos, que nos serão talvez lançados em rosto no dia das recompensas, que está bem próximo. O apóstolo S.Paulo exclama, no fim da primeira epístola aos coríntios, cap. 13:13 "Agora, pois, permanecem estas três: a fé, a esperança e a caridade; porém, a maior destas á caridade."