Um Comandante que Honrou a lei de Deus

Conheci o comandante de uma baleeira no Oceano Pacífico, cujo nome era Morgan. Alguns dias antes de empreender a sua viagem, Morgan entrou, ao acaso, num templo em que os metodistas estavam celebrando uma reunião, a qual muito influiu sobre a vida posterior do comandante. Operou-se nele uma mudança tal, que, quando se fez de novo ao mar, os seus velhos marinheiros mal puderam reconhecê-lo. Ele, que nunca comandara sem fazer uma terrível imprecação, abstinha-se agora por exemplo por completo de proferir qualquer palavra injuriosa, e tal a influência do seu caráter e do seu exemplo sobre os seus subordinados, que dentro de poucos meses nenhum homem de toda a tripulação ousava mais servir-se de expressões inconvenientes quando julgava que essas podiam atingir os ouvidos do comandante. A disciplina do seu navio nada sofreu com isso, antes pelo contrário, todos se sentiam satisfeitos com a discrição e a boa conduta que reinavam a bordo, e para as quais o bom do comandante contribuía como seu exemplo.

O proprietário do navio era um comerciante de Sidney, que tinha diversos navios equipados para esse serviço.

Uma noite, estando já em demanda dos mares de pesca, o jovem comandante lia sossegadamente a Bíblia no seu camarote, quando, casualmente, deu com os olhos sobre os Dez Mandamentos. Fixando principalmente a sua atenção no preceito que ordena a observância do repouso do sétimo dia, perguntou de si para si, se lhe seria lícito fazer arrear os botes em dia de sábado, se porventura sucedesse alguma baleia surgir em sua frente nesse dia. As palavras "não farás nele obra alguma," eram claras demais para admitirem qualquer sofisma, e ele estava resolvido a proceder de conformidade com o mandamento de Deus, custasse o que custasse. Lembrando-se, porém, dos seus marinheiros, que não percebiam salários fixos, e tinham que contar apenas com a parte que lhes tocava da colheita do azeite, tornou-se apreensivo. Eles haviam de revoltar-se contra ele e opor-se-lhe com violência; pelo que só lhe restava esperar que tal ocasião não se oferecesse em dia de sábado. Mas se, contudo, assim acontecesse, ele estava resolvido a cumprir o seu dever e a confiar os resultados a Deus.

Algum tempo depois o navio chegava às regiões que demandavam. Passaram-se semanas sem que fosse vista uma baleia. Finalmente, num sábado de tarde, duas horas antes do pôr do Sol, ressoou a bordo o grito do marinheiro da gávea:

- Lá está cuspindo o bicho! Ali outra vez! Num relance tudo estava em movimento. Cada turma se dispunha a arrear o seu bote, e, durante um momento, o jovem comandante ficou indeciso, mas só um instante.

Como se nesse momento uma voz lhe falasse aos ouvidos, percebeu claramente no seu espírito a exigência do preceito: "Lembra-te do dia do sábado para o santificar," e com voz retumbante, que ecoou de uma ponta à outra, intimou a marinhagem que nesse dia não se devia arrear os botes.

A cena que se seguiu: o espanto e em seguida o furor da marinhagem, quando soube dos motivos, o alvoroço e o tumulto que se estabeleceram, é a coisa que não se descreve. Nada, porém, conseguia demover o comandante, cuja atitude intransigente fez com que finalmente serenassem os ânimos, mas não antes de lhes haver prometido que de futuro os indenizaria dos seus prejuízos, dando-lhes parte do que lhe tocava a ele.

- O dono do navio não há de concordar com semelhante negócio, disse-lhe o marinheiro que maior oposição havia feito, seguindo o comandante até ao seu camarote. Sem dúvida este é o primeiro e o último navio que o senhor comanda. Quanto ao nosso acordo, Sr. comandante, desejaria tê-lo por escrito, eu e toda a tripulação.

O comandante respondeu-lhe com brandura, advertindo-o de que um acordo celebrado nesse dia seria transgredir a lei, e prometeu-lhe satisfazer o seu pedido no dia seguinte. Havia no seu modo de falar certo ar de tristeza, porque Morgan compreendia a verdade do que lhe dissera o marinheiro: O proprietário da baleeira jamais havia de consentir em confiar-lhe mais um navio.

O marinheiro era um rude homem do mar, que conhecia o seu comandante desde a infância; tinha pena do Sr. Morgan, cujos motivos, neste incidente, ele respeitava, e na sua simplicidade de maneiras escusou-se para com ele daquilo que lhe dissera quanto à sua parte nos lucros: Senhor comandante, o senhor não ignora que tenho mulher e cinco filhos para sustentar, e quando a Providência nos depara uma baleia em dia de sábado, penso que Ele o faz para que lhe demos caça."

As últimas palavras como que lhe ficaram entaladas na garganta. Imóvel e extático, tinha os olhos fixos num objeto que se achava em sua frente. Morgan se havia atirado, sem dizer palavra, sobre um divã e, ao passo que refletia sobre as conseqüências prováveis daquele incidente, tentava, reanimado por novas esperanças, repetir confiadamente as palavras: "Seja feita a Tua vontade." Haviam decorrido assim alguns minutos, quando um grito repentino o despertou das suas reflexões:

- Senhor comandante, venha depressa aqui, e olhe para isso!

Assim exclamando, o marinheiro apontava para o objeto que havia atraído a sua atenção, ao passo que no seu rosto se debuxava uma expressão de terror e ao mesmo tempo de admiração e incredulidade, quando chegou a ver distintamente que o mercúrio na coluna barométrica subia rapidamente. Morgan ergueu-se e, tendo observado o barômetro, correu a reunir a marinhagem. Esta podia felicitar-se por não ter deixado o navio em busca da baleia, porque, meia hora depois achava-se ela empenhada numa luta de vida e morte, com os elementos, numa luta que reclamava todas as suas energias e os máximos esforços de todos os que se encontravam a bordo. Três dias durou a tormenta, e quando tudo tinha voltado a sua situação normal, verificou-se que a baleeira se havia afastado centenas de quilômetros da sua zona de pesca. Para grande alegria de todos, porém, descobriu-se que era essa justamente uma das zonas mais freqüentadas por baleias.

Apenas a tempestade amainou, viram-se eles no meio de um grande número de soberbos cetáceos, dois dos quais foram logo arpoados e içados para bordo.

Com rara felicidade prosseguiu a pesca durante os meses seguintes, de sorte que a baleeira do comandante Morgan, em vez de regressar dois ou três anos depois, que é o tempo necessário para completar o carregamento de um navio de capacidade regular, voltou a Sidney dentro de dez meses. Deste modo a firmeza com que agiu o comandante, fiel ao seu dever e à sua convicção, longe de lhe causar prejuízos, lhe granjeou um tal sucesso, que o proprietário do navio, muito satisfeito com sua volta rápida e o rico carregamento que trazia, lhe deu carta branca para também de futuro agir conforme lhe aprouvesse na pesca de baleias.