O Jovem Comerciante

Há alguns anos, um moço, que eu pouco conhecia, veio uma noite, em hora já avançada, ao meu domicílio. Depois de termos conversado de uma coisa e outra, disse-me ele que me queria falar de um assunto que havia muito o perturbava. Contou-me, então, que havia alguns meses se tinha empregado num armazém. Como ele de negócios tinha pouca experiência, o patrão teve grande dificuldade para iniciá-lo nos seus deveres e o tratava sempre com muita prevenção. Mas esperava dele coisas que o pobre moço acreditava contrárias à justiça e à eqüidade. E me contou minuciosamente e com a maior simplicidade o que o patrão lhe ensinava formar parte integrante de habilidade exigida pelo comércio, sem a qual ninguém poderia ser negociante. Por exemplo, devia julgar pela aparência as senhoras que entravam na loja, isto é, ver pelos seus vestidos, suas maneiras, sua voz e seu olhar, se estavam a par dos preços correntes das mercadorias que desejavam comprar. Se não, devia extorquir delas a maior soma possível. Se lhe pedissem que deixasse mais barato, ele devia dizer: A senhora é a primeira pessoa a quem deixamos esse objeto por preço tão mesquinho, ou : Eu lhe deixei pelo preço do custo, ou ainda: Nunca a senhora achará esta mercadoria por este preço em nenhum outro lugar; e mil outras insinuações deste gênero.

Fiz-lhe notar, então, o que ele já tinha também compreendido, que nisto havia um pecado tríplice: mentir, enganar e roubar. Ele muitas vezes já tinha levado as suas dúvidas ao patrão a respeito desse modo de agir, mas este ria e respondia: Todos fazem isso; você não poderá ser negociante a menos que use destes processos. No comércio tudo é bom. Os seus escrúpulos são infundados. - Eu não tinha experiência da vida, disse-me o moço num tom melancólico. Fui educado numa vila longínqua e não conheço os usos e costumes do mundo. Minha mãe é uma pobre viúva que não pôde dar-me instrução cuidadosa. Mas creio que ela não aprovaria meu procedimento.

- E o senhor, disse-lhe eu olhando-o fixamente, pensa que é justo esse procedimento?

- Não ... eu ... talvez ... o meu patrão diz que não faz mal e ele é membro de uma igreja. Minha mãe, porém, ficaria bem triste se soubesse que eu faço isso todos os dias.

- E eu lhe digo, meu caro amigo, que sua mãe tem mais religião e bom senso do que o seu patrão. Ele pode ser membro de uma igreja, mas há na igreja, e sempre houve e haverá, membros que a desonram.

- Neste caso, tenho de perder o emprego.

- Antes perdê-lo; não hesite um instante.

- Eu me contratei por um ano e esse prazo ainda não expirou.

- Pouco importa. O senhor foi contrato para enganar e mentir?

- Não, absolutamente.

- Não tem necessidade de hesitar, no temor de não cumprir o seu dever. Se ele o despedir porque não quer fazer coisas tais, reconheça-o como um homem perigoso, do qual o senhor se deve considerar feliz em estar longe.

- Não sei o que fazer se perder o emprego, disse-me então com um ar abatido. Ganho somente pouco mais do que o necessário para pagar a pensão; minha mãe me cose a roupa. Se eu perder o emprego, não terei com que pagar a pensão durante um mês.

- Se ganha tão pouco, pouco perderá com deixar o emprego. Não tenho a pretensão de ser profundo conhecedor de negócios, mas creio que o seu patrão não é correto para com o senhor. É uma injustiça dar-lhe tão pouco. Se por acaso lhe faltar com que pagar a pensão durante um mês, diga-me e eu o socorrerei.

Ele nunca se aproveitou da minha oferta, e mesmo nunca teve necessidade dela.

- Se eu deixar o emprego, minha mãe se inquietará muito, supondo que sou inconstante, ou que há outra coisa. Ela temerá que eu já esteja no caminho da perdição.

- Não se aflija. diga a sua mãe o que há e o seu coração se encherá de alegria. Ela agradecerá a Deus por lhe ter dado um tal filho e por ele fará subir ao Céu orações ardentes, coisa aliás preferível a todo o ouro de Ofir. Os olhos daquele moço se encheram de lágrimas. Por um momento guardou silêncio. finalmente me disse:

- Não penso que poderei ficar lá, mas não sei que fazer ou para donde ir.

- Olhe para Deus e confie nEle. Pensa que o deixará sofrer se perder o emprego para obedecer aos Seus mandamentos? Nunca! Dirija-se, pois a Ele, e peça-Lhe luz.

- Sou estranho neste lugar, continuou ele com ar desanimado. Conheço aqui muito pouca gente e não sei onde poderei achar colocação.

- Por esta razão mesmo deve pedir a Deus que o guie. Costuma orar?

- Sim, senhor. Comecei a buscar a Deus há alguns meses, desde que ouvi um sermão sobre isso. Desde então, tenho-me esforçado sempre por viver perto dEle.

- Pois bem, volte ao seu serviço e cumpra o seu dever fiel e pontualmente, sem mentir. Se o seu patrão ficar descontente, diga-lhe com doçura e respeito que só fará aquilo que estiver de acordo com a lei de Deus e que jamais consentirá em mentir para agradar a este ou aquele. Se ele não é imprudente, mais o amará e não tardará a reconhecer que tem um empregado leal, com o qual poderá contar. Mas se é tão imprudente quão pouco consciencioso, logo o despedirá. Depois disto, então, verá o que fazer. Esteja, porém, certo de que Deus lhe abrirá caminho. Antes de tudo, arrependa-se e creia no Senhor Jesus.

O moço saiu, prometendo voltar. Não continuou muito tempo naquele emprego. Seu modo de agir não convinha ao patrão.

Logo encontrou colocação. Seu caráter íntegro e seus hábitos de ordem, contribuíram muito para o seu sucesso posterior. Quando empreendeu negócios por conta própria, prosperou e ainda prospera. Já faz treze anos que veio a minha casa aquela hora avançada da noite. Sempre ouço falar dele como cristão útil e ativo, respeitado de todos e feliz em sua família. Tenho às vezes o prazer de vê-lo e cada vez que nos encontramos, ele tem o hábito de me abrir o coração. O interesse que tem pela religião, o respeito que o cerca e a felicidade de que goza, alegraram-me muito.

Sete anos depois de o haver deixado, seu ex-patrão abriu falência e a bancarrota do seu caráter foi quase tão completa como a de sua fortuna. Creio que vive ainda hoje, mas ainda hoje rasteja na miséria.