O Relógio que Bateu Treze Vezes à Meia-Noite

Quando viajávamos na Palestina, de Nazaré para Tiberíades, conta o Rev. J. Bounsall, passamos por uma estrada áspera e escabrosa. Durante a viagem um dos clérigos, que nos acompanhavam, contou como pela providência divina um homem inocente foi salvo de ser condenado como assassino.

Foi há alguns anos passados, quando, perto da meia-noite, dois homens paravam ao pé do relógio grande da cidade de Plymouth. Bateram as horas e ambos os homens contaram treze batidas e um disse para o outro que o relógio batera treze vezes em lugar de doze. Um desses homens era o capitão Jarvis. Não muito tempo depois o mesmo capitão Jarvis acordou uma manhã muito cedo, levantou-se e vestiu-se; depois desceu à porta da rua. Abriu-a e ficou deveras surpreendido por achar o criado à sua espera, como o cavalo arreado.

- Tive o pressentimento de que o senhor precisaria do cavalo, disse ele, de sorte que não pude ficar mais na cama e arreei-o.

O capitão primeiramente admirou-se, mas montou a cavalo e seguiu. Ele não governava o cavalo mas deixava-o à vontade. Seguiu para o lado do rio e parou perto do lugar onde se achava a balsa que transportava os passageiros para a outra banda. Cresceu a admiração do capitão quando viu que o balseiro estava com a balsa pronta para transportar passageiros para o outro lado, pois ainda era muito cedo.

- Como é que você está aqui tão cedo? perguntou o Sr. Jarvis.

- Não pude dormir mais, meu senhor, parecia-me que alguém precisasse passar para a outra banda do rio.

O capitão embarcou, com o cavalo, na balsa e logo chegaram ao outro lado. De novo soltou as rédeas e o cavalo seguiu estrada a fora. Após uma boa marcha chegaram a uma cidade. Indagou então de um dos transeuntes se sucedera alguma coisa de interesse na cidade.

- Nada, senhor, nada, a não ser o julgamento de um homem, que foi acusado de assassínio.

O capitão dirigiu-se para o edifício onde funcionava o tribunal do júri, apeou e entrou na sala quando o juiz perguntava ao acusado se tinha alguma coisa para alegar em sua defesa.

- Nada tenho a dizer, Sr. Juiz, senão que sou inocente, e que em todo o mundo há somente um homem que pode testificar da minha inocência, mas não sei o seu nome, nem a sua morada. Algumas semanas passadas aquele homem e eu estávamos juntos na cidade de Plymouth à meia-noite, e ambos ouvimos quando o relógio grande da cidade bateu treze vezes em vez de doze, por cujo motivo trocamos então palavras. Se ele estivesse aqui, confirmaria o que acabo de contar-lhes, senhores, mas não nutro a mínima esperança, porque não sei onde está.

- Estou aqui! Estou aqui! gritou o capitão; eu sou o homem que estava em Plymouth aquela hora e ouvi quando o relógio bateu treze vezes em lugar de doze. O que afirmou o preso, é pura verdade: reconheço o homem. Na noite do assassínio, justamente na hora em que este foi cometido, ele estava comigo em Plymouth e observamos um ao outro o fato singular de bater o relógio treze vezes à meia-noite.

Assim estava provado que o homem era realmente inocente, e foi posto em liberdade. Quem pode deixar de reconhecer que neste caso a mão do nosso benigno Deus se manifestou evidentemente? Em primeiro lugar, quem dispôs os acontecimentos de modo que aqueles dois homens se encontrassem justamente aquela hora? Quem acordou o capitão aquela hora da manhã? Quem o fez descer à porta da rua? Quem acordou o criado e o constrangeu a arrear o cavalo do patrão sem ter recebido ordem da parte deste? Quem guiou até ao lugar da balsa o cavalo, cujas rédeas o capitão soltara? Quem acordou o balseiro e o fez descer ao rio? E quem fez o cavalo tomar a estrada que levava à cidade onde o pobre inocente ia ser condenado como assassino? Finalmente, quem foi que influenciou o capitão a entrar no edifício para assistir ao júri, justamente no momento mais próprio possível? Tudo isto fez Aquele cujo nome é: "Misericordioso e piedoso, grande em beneficência e verdade." - Souther Cross.