Não Julgueis

Uma senhora que morava no quarto andar de uma casa fronteira à minha, despertou-me a atenção. Em primeiro lugar tive de admirar e invejar mesmo, as lindas flores que ela plantava em sua janela. Na verdade, era possuidora de mão bem feliz para o cultivo das flores. Eu ficava, porém, muito triste quando alguma daquelas plantas dava flor, porque era imediatamente transportada para outro lugar, longe da janela. Isso era coisa para mim inexplicável. Pouco a pouco a minha atenção passou das flores para aquela senhora, e involuntariamente comecei a observar a sua vida.

A julgar pelas aparências, deveria ter uns vinte anos. O seu vestuário era simples, porém bem cuidado. Quando eu saía de manhã a passeio ou a compras, os cortinados da sua casa ainda estavam cerrados; provavelmente ela dormia ainda. Quando, porém, eu voltava ao meio dia, já ela estava sentada à janela, ocupada em bordar. De vez em quando ela de certo lê algum romance, pensei comigo. nunca observei que aquela senhora saísse, pelo que supus que só saía a noite. Também não recebia visita alguma, exceto a de um senhor, que vi um dia de pé ao lado dela, admirando as sua flores. Esse senhor eu o vi diversas vezes em visita aquela casa.

A boa opinião que fazia a seu respeito desvaneceu-se em vista dessas observações. Um menino empregado em uma confeitaria também lá ia freqüentemente.Conclui também que ela não freqüentava igreja alguma e que não tomava parte em obra alguma de caridade. O meu juízo estava, pois, feito. Com toda a certeza ela era uma dessas pessoas isoladas, vivendo em boas condições, satisfazendo a todos os seus desejos e aos prazeres do mundo.

"Devo fazer esforço para ajudar a esta alma," pensei eu, "pois que esse é o dever de todo o cristão e seria muito bom que se pudesse ganhar mais uma pessoa para o trabalho do Senhor."

Com esse desejo fui uma noite à casa daquela vizinha misteriosa. A disposição do quarto era, como esperava, simples e de bom gosto. Ela mesma me pareceu dez anos mais velha do que observada da minha janela. Pálida e de fisionomia expressivamente esquisita, o olhar dela era firme, sendo claros os seus olhos e de tal forma penetrantes, que eu era quase obrigada a baixar os meus. Pareceu-me difícil achar um motivo para justificar a minha visita e arranjar pretexto para uma conversação.

- Ela então observou a minha perplexidade, levou-me amavelmente para uma sala e indicou-me um sofá, dizendo-me sem afetação:

- Muito prazer me dá a sua visita, como vizinha, mesmo porque ser-me-ia impossível ir procurá-la primeiro.

- Parece-me que a senhora nunca sai a passeio, respondi eu, só para dizer alguma coisa, para sair da perplexidade em que estava ainda.

- Quase nunca, respondeu ela, porque não posso deixar meu pai aqui sozinho, sendo ele doente como é; demais, não sou senhorita, mas viúva. Com estas palavras tomou o bordado e continuou: Peço-lhe licença para continuar o meu trabalho, pois prometi aprontá-lo até à noite. Agora não precisarei interrompê-lo, pois que meu pai está dormindo. E entretanto peço-lhe que continue aqui, pois tenho enorme prazer em receber visitas, sendo essas, como são, muito raras.

Naturalmente acedi com grande prazer aquele pedido. O rosto calmo e tranqüilo daquela senhora ficou-me para sempre gravado na mente. Ela era na verdade bastante simpática.

- Tão moça e já viúva, disse eu, é bem triste!

- Sim, há seis anos. Havia somente algumas horas que eu estava casada. Quando, na noite do nosso casamento, chegamos a este lugar, meu marido estava tão gravemente ferido por um acidente na estrada de ferro, que só teve tempo para fazer o testamento e despedir-se de mim.

Profundamente comovida, apertei a mão daquela viúva tão amável, enquanto lágrimas deslizavam pelas faces, caindo no trabalho que ela esta fazendo.

- Felizmente a senhora tem consigo o pai, mas como disse, ele está há muito tempo doente, não é?

A expressão tristonha do rosto daquela senhora, tornou-se mais acentuada. No rosto daquela pobre viúva podia ler-se uma longa história de sofrimentos, suportada com indescritível resignação.

- Ele é meu padrasto, com quem minha mãe casou quando já estávamos grandes e longe da casa paterna. Ela morreu logo depois, e eu julguei que seria bom trazer o meu padrasto para minha casa, visto como já naquele tempo ele sofria da espinha.

O modo como ela disse a sua história era o mais simples possível, parecendo que tinha feito o serviço mais natural do mundo. Eu, porém, sabia o que era aquela doença e quantos sofrimentos e desgostos aquela senhora tinha chamado a si.

- Não tem alguém que a ajude no tratamento de seu doente, algum parente, alguma enfermeira? perguntei-lhe.

- Não, ninguém, respondeu ela. Para pagar uma enfermeira, não tenho dinheiro. O dinheiro que meu falecido marido deixou só daria para mim; à vista da doença do meu padrasto, sou obrigada a trabalhar em bordados para ganhar alguma coisa com que lhe dar de vez em quando um refresco ou um doce. Ele gosta muito de doces e de bolos, ajuntou ela, sorrindo.

Eu não sabia o que dizer. Cada palavra daquela senhora aumentava a minha admiração e perplexidade.

- Mas a senhora não poderá agüentar isso por muito tempo, disse eu finalmente. Também precisa de ar livre, de descanso. O doente nunca pode ficar sozinho?

Ela meneou a cabeça.

- Só uma vez experimentei. Numa sexta-feira santa tinha o desejo de tomar comunhão em uma igreja; na volta, porém, encontrei o meu doente tão pior, tão descontente com a pessoa que tomara o meu lugar durante a minha ausência, que fui obrigada a chamar o médico. Ele disse que aquelas excitações poderiam resultar nas piores conseqüências, e na verdade, nem gosto de lembrar-me do estado dele depois disso. Também não tenho nenhumas relações. Só o pregador vem visitar-me regularmente e o médico também.

- A senhora então não tem bons livros, que lhe edifiquem o ânimo abatido?

- Não, não tenho tempo para ler. Os poucos momentos que me restam, emprego-os lendo a Bíblia ou os hinos, que depois recito ao doente nas suas noites de insônia. Isso o acalma e para mim também é um grande conforto. De madrugada ele geralmente adormece e então eu também posso dormir um pouco. Talvez já tenha notado que me levanto muito tarde, não é?

Felizmente não precisei responder, porque naquele momento se ouviu uma voz que dizia do quarto pegado: "Elisa, onde estás? Sempre me deixas sozinho!"

A senhora N. correu logo ao quarto do doente. Pela porta entreaberta, vi uma rosa amarela muito linda e alguns cravos e begônias. Agora eu sabia para onde eram levadas aquelas flores, quando desapareciam da janela.

Ela ficou muito tempo no quarto do doente. Todo o tempo pude ouvi-lo falar, com voz descontente e entrecortada de gemidos, enquanto a voz meiga da minha nova amiga o animava com ternura. Quando ela voltou, despedi-me, prometendo repetir as minhas visita.

Chegando a casa, sentimentos vários me sobrevieram. No piano achei uma peça muito conhecida, "o hino sem letra," de Mendelssohn. Pensando no título daquele hino, concluí comigo que eu também tinha ouvido uma pregação sem palavras, cuja primeira frase era: "Não julgueis." S. Mateus 7:1. Esta vizinha amável que nem uma vez pronunciara o nome do Senhor, como manda o mandamento de Deus, tinha-me mostrado de maneira inteiramente estranha para mim, a força daquelas palavras: "Se alguém quiser vir após Mim, renuncie-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-Me."

E esta escolhida de Deus é que eu queria, no meu orgulho espiritual, converter! A minha vergonha não tinha limites. Nunca me pareceu tão miserável a minha atividade cristã, como no dia em que a minha consciência me acusou por causa daquela senhora. Quão puro e santo era o serviço daquela que eu dantes desprezava! A senhora N. ficou sendo sempre minha amiga e sempre ao encontrá-la eu me sentia confortada por aquela pregação sem palavras. E o melhor ainda é que o doente se converteu, mudando-se-lhe o coração. Ficou mais paciente, e visto não haver mais salvação para o seu corpo enfermo, convalesceu na paz de Jesus o seu espírito.

Do rosto dela desapareceu aquela expressão de sofrimento que antes revelava e então pude mais uma vez considerar o quanto ela havia sofrido debaixo do mau estado espiritual do padrasto. Cada vez que a visitava agora, ela me contava, com olhos reluzentes de satisfação, quão paciente seu padrasto se tinha tornado, como o consolavam as visitas do pregador e se animava com as passagens que lia, e com os hinos que ela recitava nas noites de insônia.

Uma manhã ela veio alegremente a minha casa e me disse:

- Hoje posso ir com a senhora à igreja, meu padrasto o quer. Ele mesmo pediu a uma vizinha que ficasse com ele durante esse tempo. Hoje tomaremos a Santa Ceia.

Quando na manhã seguinte fui fazer a minha visita à casa da senhora N., encontrei-a ajoelhada ao pé do leito de seu padrasto, com o rosto cheio de lágrimas. Este estava com as mãos cruzadas, como se estivesse dormindo: de fato ele adormecera placidamente, mas para só acordar no último dia. Ele e sua filha podiam agora depor as suas cruzes aos pés de Jesus.