O Protesto da Velha Senhora

Os moradores de uma pequena cidade de Pensilvânia, nos Estados Unidos, haviam-se reunido em comício a fim de deliberar sobre se se deviam conceder licenças para abertura de tabernas aquele ano. A assembléia estava muito concorrida. Um dos anciãos havia assumido a presidência e ao redor dele tinham tomado assento, entre outras pessoas, o pastor daquela localidade, um comerciante e o médico.

Aberta a sessão, ergueu-se um dos cidadãos mais respeitáveis daquela cidade e depois de breve alocução propôs que se concedessem para aquele ano o número ordinário de licenças para tabernas. Considerava esta medida mais prudente do que recusá-las, provocando assim excitações inúteis. A proposta do orador parecia ter obtido a aprovação do público e o presidente estava a ponto de submetê-la a voto, quando, de um canto da sala, se levantou uma pessoa para fazer um objeção. Os olhos de todos se voltaram imediatamente para aquele sítio. Era uma velha senhora, pobremente vestida, em cujo rosto se estampavam vestígios de grandes sofrimentos, a que se havia levantado para falar. O seu porte denotava que ela já havia gozado dias melhores e a expressão de seus olhos, que por vezes, lampejavam, traía grande inteligência. Voltando-se para o presidente, observou-lhe que tivera conhecimento dessa reunião e viera para referir algumas de suas dolorosas experiências a propósito dessa questão de licenças.

"As pessoas aqui presentes," disse ela, "quase todas me conhecem. Eu fui outrora a feliz proprietária de uma das melhores partes desta cidade. Tinha marido e cinco filhos, e tenho razões para duvidar de que uma mulher jamais tivesse tido marido e filhos melhores do que eu tive. Onde, porém, estão eles agora? Ali defronte, naquele cemitério, estão seis sepulturas, os jazigos dos meus amados, e - ai; quanto é duro dizê-lo - os jazigos de seis bêbados!

"Quereis dizer-me, doutor," continuou a mulher voltando-se para este, "como é que aqueles seis entes queridos vieram a tornar-se bêbados?" Muitas vezes bebestes com eles e lhes afirmastes que o uso moderado da bebida não prejudicava. E também vós, senhor pastor, muitas vezes viestes ter com meu marido para beberdes em sua companhia, induzindo assim meus filhos a crer que se vós, como homem religioso, dáveis tal exemplo, o uso de bebidas alcoólicas não podia ter nenhum inconveniente.

"Mas vós, senhor comerciante," prosseguiu a mulher num diapasão mais exaltado, "vós fornecestes a bebida aqueles bêbados. Minha propriedade está agora em vosso poder e vós a adquiristes por bebida."

A inditosa mulher voltou-se então, trêmula, para o público e terminou a sua triste história com as seguintes palavras: "Eis tudo o que tinha a dizer-vos. Volto agora para o asilo dos pobres, que é a minha morada. A vós, reverendo senhor, pastor, e a vós muito sábio doutor, e avós respeitável senhor comerciante, talvez não veja mais neste mundo, mas havemos de encontrar-nos diante do tribunal de Deus, onde meu marido e meus cinco filhos, a quem perdeste pela vossa detestável influência, também hão de comparecer."

A mulher assentou-se, tendo os olhos rasos de lágrimas. Na sala reinava profundo silêncio, que durou alguns instantes. Finalmente o presidente, levantando-se, falou a assembléia nestes termos: "Estais dispostos a autorizar os poderes competentes a conceder licenças para a abertura de tabernas também para o presente ano?"

Um "Não" unânime e retumbante, que ecoou das paredes da sala, testemunhou a impressão que no auditório havia feito o protesto da velha senhora. Desde então não foram mais concedidas licenças de tabernas naquela localidade.

"A minha alma se consome de tristeza; fortalece-me segundo a tua palavra."     (Salmos 119: 28)