Lança o Teu Pão sobre as Águas

- Ó Jacó! agora vês como esvaíram todas as nossas esperanças! Estamos velhos todos os nossos filhos nos foram arrebatados pela morte, e não há de tardar que sejamos internados nalgum asilo de mendigos. Onde está agora todo esse pão que lançaste sobre as águas?

O velho, de cabelos prateados, fixou os olhos em sua mulher. Estava curvado pelo peso dos anos e as enfermidades da velhice já se anunciavam. Jacó Mariano fora remediado, e enquanto a felicidade lhe sorrira, sempre tivera ouvido atento e mão aberta para todos os reclamos do sofrimento e da miséria.Começou, porém, a persegui-la a fatalidade. Dos seus quatro filhos nenhum lhe restava; doenças lhe haviam gradualmente minado a saúde, e agora se achava reduzido à última penúria. Uma rigorosa interdição de comércio que foi lançada sobre os navios, vibrou-lhe o primeiro golpe, ao qual sucederam rapidamente outros infortúnios.

Jacó e sua mulher estavam inteiramente sós e a miséria lhes batia rudemente à porta.

- Não te aflijas, Suzana, disse o velho. É verdade que estamos pobres; mas, não estamos esquecidos.

- Não estamos esquecidos, Jacó? Quem nos ajudará agora?

Jacó Mariano apontou com dedo trêmulo para o céu.

- Ah, Jacó! bem sei, Deus é nosso amigo, mas devíamos ter também amigos aqui na Terra. Pensa no passado e considera a quantos tu provaste a tua amizade! com mão liberal lançaste o teu pão sobre as águas, mas não o tornaste a recobrar.

- Cala-te, Suzana, não sabes o que dizes. Embora eu esperasse que mão amiga me guardasse da miséria extrema, contudo não esperava isto como uma recompensa por qualquer coisa que eu houvesse feito. Se ajudei os infelizes em dias passados, tive grande recompensa na consciência de haver cumprido o meu dever para com os meus semelhantes. De todas as ações de caridade que pratiquei com aqueles que sofrem, não desejaria por dinheiro nenhum obliterar uma só da minha memória. Oh! cara mulher, é a lembrança do bem que praticou na vida, que torna ditosos os dias da velhice. Posso ouvir ainda as palavras de agradecimento daqueles aos quais ajudei, e ver ainda o seu sorriso.

- Sim, Jacó! respondeu a mulher em tom baixinho, sei que foste bom, e é possível que te sintas feliz com as tuas recordações; mas ai! temos de enfrentar o presente e considerar a realidade. Temos de mendigar o alimento ou perecer de fome.

O velho estremeceu e uma tristeza profunda debuxou no rosto.

- Mendigar! repetiu ele com amargo acento, não, Suzana, antes vamos então. ... Ele interrompeu-se e uma grande lágrima lhe deslizou pela face.

- Vamos aonde, Jacó?

- Vamos para o asilo de mendigos.

- Ó Deus! Foi o que imaginei, disse a pobre mulher, ocultando o rosto entre as mãos. Foi o que imaginei, e eu já buscava familiarizar-me com tal idéia, mas o meu coração não pode compreender isto.

- Não desespere, disse mansamente o velho, pegando-lhe no braço. Isto pouco importa agora; não temos mais muito tempo de vida e por isso não amarguremos os últimos dias de nossa existência com aflições inúteis.

- Mas quando ... quando havemos de ir?

- Agora, hoje mesmo.

- Então, que Deus tenha piedade de nós!

- Ele terá, murmurou Jacó.

O velho casal quedou-se algum tempo silencioso, até que foram despertados de suas cogitações dolorosas pelo rodar de um carro que parou à porta. Um homem entrou na sala. Era o administrador de asilo de mendigos.

- Ouça, senhor Mariano, disse ele, os vereadores da cidade resolveram recebê-lo no asilo de mendigos. O carro está à porta, o senhor deve aprontar-se o mais depressa possível.

Jacó Mariano jamais pensara que lhe custasse tanto vencer a contrariedade desse passo. No tom e nos gestos desse homem havia uma tal dureza, que o coração se lhe congelou e ele deixou-se cair sobre o banco dando um suspiro profundo.

- Venham, dêem-se pressa, disse o administrador, com impaciência.

Nesse momento parou outro carro à porta.

- É esta a casa de Jacó Mariano? Esta interrogação foi formulada pelo dono do carro. Era homem de aparência amável, de cerca de quarenta anos de idade.

- É o meu nome, disse Jacó.

- Neste caso estou bem informado,volveu o recém-chegado. O senhor é do asilo de mendigos? perguntou ao administrador.

- Sim, senhor!

- E está aqui para levar esta gente?

- Sim, senhor!

- Então pode voltar; Jacó Mariano não irá para asilo de mendigos enquanto eu estiver vivo.

O administrador lançou um olhar perscrutador à pessoa que lhe falava e retirou-se.

- O senhor ainda se lembra de mim? perguntou o recém-chegado, pegando na mão do velho.

- Não me recordo.

- O senhor não se lembra de Lucas Vieira?

- Vieira? repetiu Jacó, fixando no seu interlocutor um olhar indagador.

- Sim, Jacó Mariano. ... Lucas Vieira, o pequeno rapaz que há trinta anos o senhor livrou da casa de correção; o pobre rapaz, que o senhor tão bondosamente livrou da perseguição da justiça, colocando-o em um de seus navios.

- E o senhor é ...?

- Sim ... sim, sou eu aquele homem. O senhor achou-me como uma pedra nas mãos da pobreza e do mau exemplo. Foi o senhor quem me advertiu do mal. As lições que me deu na minha juventude se me tornaram em benção, a centelha que a sua bondade despertou em meu coração converteu-se com o tempo numa chama. Depois de haver adquirido riquezas, eu me dispunha agora a passar o resto da vida em tranqüilidade e ventura, quando soube da sua necessidade. Por isso vim ter aqui. Venha, o senhor que me foi mais do que pai e a senhora, minha mãe, venham! Os senhores iluminaram a minha juventude, e eu não quero que passem os seus últimos dias em trevas.

Jacó Mariano deu uns passos vacilantes para a frente e caiu ao pescoço do seu salvador. Não sabia como exprimir a sua gratidão porquanto era muito grande para ser concebida por palavras. Quando tornou a levantar os olhos, procurou sua mulher.

- Suzana, disse ele com voz trêmula, tornei a receber o meu pão.

- Perdoa-me, Jacó!

- Não, Suzana, não sou eu que devo perdoar-te; Deus nos tomou em suas mãos.

- Oh, murmurou a mulher, erguendo os olhos lacrimosos para o céu; nunca mais quero duvidar dEle.


" Lança o teu pão sobre as águas, porque depois de muitos dias o acharás."     (Eclesiastes 11: 1)