O Capital e o Trabalho

João Griffith, rico industrial inglês, estava assentado, num dia de outono, na sala de visita de sua elegante vivenda. A julgar pela expressão do rosto, seus pensamentos se ocupavam de coisas que lhe causavam uma satisfação íntima.

"A perspectiva, disse ele de si para si, é que as minhas rendas hão de atingir este ano quinze mil libras esterlinas. Já é uma soma bem regular para quem iniciou sua careira como rapaz pobre. E ainda não sou tão velho. Apenas completei sessenta! Há mais de um nobre no Reino que se daria por satisfeito com as rendas de João Griffith. Minha Catarina vai ter um bonito dote."

Nesse ponto foi ele interrompido por um criado que entrou na sala.

- Sr. Griffith, disse o criado, estão lá embaixo três homens que desejam falar-lhe.

- Três homens?

- Sim, senhor. Não são cavalheiros, acrescentou o criado, que compreendeu a pergunta. Penso que são homens lá do moinho.

- Pois bem, diga-lhes que subam.

Era dia de feriado e as oficinas estavam fechadas, de sorte que os operários estavam de folga.

Ouviu-se na escada um rumor de botas pesadas, e logo depois entraram na sala três homens, cuja aparência revelava que pertenciam à classe condenada a ganhar a subsistência com trabalho árduo e incessante.

- De que se trata, minha gente? perguntou o Sr. Griffith, levantando-se e fixando com interesse os três recém-chegados. São empregados do moinho?

- Sim, senhor, disse o que vinha na frente, Hugh Roberts; sim, Sr. Griffith, somos empregados do moinho e é a esse propósito que vimos ter com o senhor.

- Muito bem, disse João Griffith, retomando o seu assento, digam lá qual é o seu desejo.

É isto, Sr. Griffith, e espero que não se ofenderá com o que temos a dizer-lhe. Vimos humildemente pedir-lhe um aumento de ordenado.

- Aumento de ordenado! exclamou o Sr. Griffith, em tom de desagrado.

- Sim, senhor, espero que não fique ofendido por isso.

- Mas acaso não lhes pago ordenado igual ao que pagam outros moinhos?

- É possível, Sr. Griffith; mas é muito difícil viver-se com três xelins ao dia.

- Mas se eu lhes pagar ordenados maiores do que outros, eles entrarão a fazer-me concorrência no mercado.

- Não sei, senhor, mas penso que trabalharíamos com maior prazer e faríamos mais durante o dia se tivéssemos um pouco mais para viver, de sorte que a mulher e os filhos não necessitassem de estar em perto e de passar fome.

Estas palavras foram ditas num tom varonil e de máxima franqueza, sem nenhuma ênfase; pareciam, porém, não ter feito nenhuma impressão sobre o Sr. Griffith.

- São apenas seis pence mais ao dia o que nós reclamamos, Sr. Griffith, disse Hugh Roberts, suplicentemente.

O Sr. Griffith fez mentalmente o seu cálculo. Tinha trezentos empregados.Um salário adicional de seis pence ao dia por pessoa perfaria um total de duas mil libras ao ano. Esta reflexão endureceu-lhe o coração para com os suplicantes.

- Mas, Sr. Griffith, disse Hugh Roberts, pense no que significa sustentar uma família, com três xelins ao dia.

- É duro, sem dúvida, disse o Sr. Griffith. Não estou, porém, no caso de conceder-lhe o pedido.

- Recusa-nos, então, o aumento?

- Pois não. Se puderem obter mais noutra parte eu de modo algum os impedirei de melhorar sua situação.

- Não temos meios de melhorar a nossa situação, Sr. Griffith, disse Hugh Roberts com amargura, apertando a cabeça entre as mãos. Não temos outro meio de vida, senão trabalhando para o senhor e recebendo o que lhe apraz pagar-nos.

- Pensem bem, minha gente, disse o Sr. Griffith, já melhor humorado por ter conseguido o seu objetivo, e verão que não posso pagar mais do que outros industriais. Não tenho dúvidas de que as mulheres e filhos dos senhores poderão ajudá-los também a ganhar alguma coisa.

Os três homens saíram, tendo a tristeza estampada no rosto, e considerando a vida uma pesada luta que nenhum prazer oferecia.

Apenas eles tinham saído, quando Catarina Griffith entrou na sala.

Tendo nascido quando o pai já alcançara idade relativamente avançada, ela era a pupila de seu olho e a alegria de sua existência. Era por amor dela que ele ambicionava tornar-se rico, a fim de poder arranjar-lhe um partido dos mais nobres, como costumava dizer.

"Eles não hão de reparar na linhagem de Griffith," dizia ele de si para si, "se sua filha apresentar um dote de umas cem mil libras."

Catarina era uma menina de cerca de quinze anos, atraente e de olhos brilhantes, que com razão constituía o orgulho do pai.

- Como vais, minha filha? disse o pai, sorrindo ternamente.

- Passo sempre bem, disse ela negligentemente; mas, papai, quem eram aqueles homens pobres que encontrei na escada? O senhor ralhou com eles?

- Que te leva a perguntar isso, Catarina?

- Porque eles pareciam tão tristes e desanimados!

- É verdade? perguntou o Sr. Griffith, com ligeiro interesse.

- Sim, papai, e ouvi a um deles suspirar como se estivesse cansado de viver.

- São empregados do moinho, Catarina.

- E por que estiveram aqui? Para o senhor lhes dar instruções acerca do trabalho?

- Não, isto é lá com o gerente.

- Porque estiveram cá, então?

- És deveras curiosa, minha filha.

- Não é isto o que lhe perguntei, papai, disse a menina, impacientemente.

- Pois, se é preciso que o saibas: eles estiveram aqui para pedir aumento de ordenado.

- E sem dúvida o senhor concedeu o seu pedido.

- Não, minha filha, por que deveria eu conceder-lho?

- Porque eles o necessitam. Quanto eles percebem atualmente?

- Três xelins ao dia.

- Só três xelins ao dia! exclamou Catarina, e têm de sustentar com isto a família?

- Sim Catarina.

- Oh! papai, como é que o senhor pode pagar um ordenado tão mesquinho?

- Pago-lhes o mesmo ordenado que pagam os outros industriais, disse o pai.

- Mas estes pobres homens não podem viver com três xelins ao dia. Quanto pediram de aumento?

- Seis pence por dia.

- Somente seis pence por dia, e papai lhos recusou? disse Catarina num tom de exprobração.

- Mas considera, minha filha, se eu conceder esse aumento a todos os meus operários, isto importará num aumento de duas mil libras ao ano.

- E quanto mais é a sua renda anual papai?

- Penso que este ano, respondeu o Sr. Griffith orgulhosamente, terei uma renda de perto de quinze mil libras.

- E certamente não gasta tudo isto, papai?

- A minha despesa anual orça por quatro mil libras.

- E o resto?

- O resto eu reservo para a minha Catarina.

- Neste caso, disse Catarina, já que deve ser meu, pague a estes homens um xelim mais ao dia, e ainda há de restar bastante para mim. Eu não desejaria gozar um dinheiro que foi acumulado à custa de tanta gente pobre. Imagine, papai, quanto benefício este xelim a mais pode fazer a essa pobre gente e quão pouca diferença isto fará para mim! Serei tão rica como desejo ser. Ora vamos, papai, também o senhor foi uma vez pobre. Devia ter compaixão dos pobres.

A estas palavras o Sr. Griffith rememorou as lutas difíceis da sua mocidade, e o egoísmo do seu trato para com esses pobres operários comoveu-o profundamente, de sorte que uniu o seu coração ao da filha.

- É sério o que estás pedindo, Catarina? perguntou o pai.

- Certamente, papai.

- Mas se eu fizer o que me pedes, isto fará uma diferença considerável na tua fortuna.

- Mas eu me sentirei muito feliz, quando pensar que estes homens estão gozando de algum conforto. Quer fazê-lo, papai?

- Sim, Catarina, respondeu o pai; farei conforme me pedes. Os outros industriais hão de pensar que fiquei louco, se, porém, posso agradar a minha Catarina, isto não me importa.

- Eu amo o senhor mais do que nunca, papai! E a menina de coração generoso deitou o braço em redor do pescoço do pai.

Um criado foi enviado à casa de Hugh Roberts a fim de convidá-lo a vir à casa de seu patrão. Ele estava sentado silencioso e dominado por uma raiva surda a um canto de sua mísera choça, cujo aspecto denotava grande privação e desconforto. Não compreendeu o convite, mas entendeu que devia ir receber a sua demissão pela ousadia que tivera em fazer aquela reclamação. Novamente entrou na sala de seu patrão.

- Estive pensando na reclamação que me fez, Hugh Roberts, disse o Sr. Griffith num tom afável, e, embora não creia que algum outro industrial lhe havia de concedê-la, eu contudo me dispus a atender.

- Deus o abençoe, senhor, disse Hugh Roberts, cujo rosto subitamente se iluminou. O Céu lho há de recompensar. Então, daqui por diante, havemos de perceber três xelins e seis pence ao dia?

- Hão de perceber quatro xelins.

- Quatro xelins! É sério isto, Sr. Griffith?

- Pois não. O gerente amanhã receberá as minhas instruções.

O operário debulhou em pranto; era, porém, um pranto de alegria.

- Os homens hão de abençoá-lo, disse ele sorrindo, e estas palavras tiveram um som sumamente agradável nos ouvidos do Sr. Griffith. Uma benção vinda do coração não é para se desprezar.

A experiência demonstrou que os interesses do negócio do Sr. Griffith não sofreram com o aumento do salário de seus operários, porque estes trabalharam daí por diante com melhor vontade.

(Horácio Alger)