O Óbulo da Viúva

No inverno de 1846 dirigi-me, em companhia de H. W. Hawkins e do Sr. Carlos Jervett, à cidade de W. ... onde pretendíamos realizar algumas conferências e organizar uma sociedade de temperança. O tempo estava esplêndido e a estrada de trenós, magnífica. As conferências, que foram bastante concorridas, tiveram entusiástica aceitação. O povo acudia de grande distância e tivemos prazer de organizar uma sociedade com considerável numero de sócios.

No primeiro dia, quando o Sr. Hawkins falava acerca das misérias e aflições que determinam as bebidas alcoólicas, notei uma mulher de meia-idade e aparência modesta, que chorava desconsoladamente, como que dominada por uma grande dor.

Ao terminar a conferência, foi ela uma das primeiras a apresentarem-se para subscrever o nome. Apenas ela depôs a pena, voltando ao seu lugar, lancei uma vista d'olhos sobre o papel para ver o que tinha escrito. Era uma escrita trêmula, mas nítida e elegante; o nome que declinara no papel era Berta Morrison.

- Pobre mulher, disse-me o presidente recém-eleito, quando lhe perguntei se a conhecia; teve em suma sorte muito dura e triste. Em tempos ela foi a menina mais bela e divertida desta localidade. Casou-se com Tomás Morrison, bonito e inteligente mancebo, que de mais a mais tinha um bom coração. Era marinheiro, e durante algum tempo ela parecia a mais feliz das felizes. Veio, porém, o demônio e a felicidade foi-se. Teve um filho que nasceu para miséria e vergonha. Tomás foi-se degradando até que, finalmente, morreu como ébrio. Seu filho abandonou-a logo depois e foi ao mar; a última vez que teve notícias dele achava-se numa cidade distante, onde vivia dissolutamente. Fez todo o possível para salvá-lo, mas debalde; estava muito longe e além disso esquivara-se tanto que não conseguiu descobri-lo.

Contudo não está ainda completamente perdido Mandou-lhe diversas vezes dinheiro. Uma vez, tendo encontrado em Nova York alguém que se dirigia para aqui, enviou-lhe com essa pessoa o último xelim que possuía e embarcou para as Índias.

O presidente ter-me-ia referido ainda mais, sua atenção, porém, era reclamada pelos negócios de que se tratavam, ficando eu a meditar naquilo que tinha ouvido.

Sábado de noite teve lugar a nossa última conferência, no fim da qual arrecadamos uma coleta. Observava exatamente a viúva no momento em que a salva passava por diante dela. Notei que dirigiu primeiro algumas palavras ao coletor, lançando em seguida uma moeda no prato. Quando este voltou ao púlpito, perguntei-lhe o que lhe havia dito a Sra. Morrison.

- Confessou-me, disse, com os olhos lacrimosos e voz trêmula, que dava o último dinheiro que possuía e que esperava que Deus havia de abençoá-la. Havia conservado essa moeda, porque lha havia sido enviada pelo filho. Era um xelim inglês que ele lhe remetera como a última coisa que ainda lhe restava.

Perguntei-lhe então se seria capaz de descobrir a dita moeda entre aquele dinheiro. Respondeu-me que sim, porquanto era a única desse gênero que existia no prato, e logo depois entregou-ma. Era nova e luzente, tendo gravadas, com ponta de faca, do lado da coroa, as iniciais D.M. Dei-lhe em troca um dólar de prata e guardei a moeda da viúva. Apreciava-a, não só por causa da tocante simpatia que a viúva revelava pela causa, mas porque julgava empregá-la mais tarde em nossas conferências como testemunho eloqüente de espírito de abnegação.

Isto ocorre-me no inverno; no outono desse mesmo ano encontrava-me em Baltimore, em visita às casas de detenção, onde procurava falar aos infelizes que, em conseqüência do uso de bebidas alcoólicas, haviam sido reduzidos a passar seus dias nessas lúgubres habitações.

- Eis um dos casos mais renitentes que aqui temos, disse-me o guarda, apontando para um homem que, sentado a um canto, sobre um pequeno banco, se achava ocupado em trançar um cabo.

Coloquei-me de modo a poder fixar-lhe o rosto. Era ainda moço, podia contar seus 22 a 23 anos. Sua fisionomia era inteligente. Havia um mês que fora recolhido a prisão; os vestígios do terrível vício tinham já desaparecido e acusava agora aspecto saudável. Pelos seus traços fisionômicos pude logo julgar que tinha diante de mim um espírito obstinado, contudo tinha certeza de que dentro daquele peito palpitava um coração grande e nobre. Senti uma atração irresistível por aquele jovem e, finalmente, perguntei ao guarda se não podia conversas com ele só. O guarda anuiu do melhor grado. Entrementes eu soubera que esse homem se chamava João Tompson, que era marinheiro e tinha sido preso por motivo de embriaguez.

Entrei na cela e a porta cerrou-se após nós. Depois de havê-lo cumprimentado afavelmente, tomei assento em um banco.

- Escute, amigo, disse-me num tom decisivo e sem o menor embaraço, se veio aqui para me pregar um sermão, andou mal avisado; não quero ouvir palavra ... nem sequer uma palavra!

Respondi-lhe então que não era pregador, mas que tinha sido marinheiro e vítima infeliz da embriaguez.

A princípio sua fisionomia pareceu assumir um ar de simpatia, mas depois anuveou-se de novo.

- Neste caso veio aqui para pregar-me a temperança? disse, num tom de amargura.

- Não, se fizer oposição a isso. Em todo o caso, vim para ver se não lhe descubro ainda algum terreno suscetível de fazer medrar uma boa palavra. O senhor foi lançado em uma costa deserta, eis tudo. Por que não içar velas, corrigir o rumo e tornar a erguer-se? Olhe que não é por falta de mar!

Referi-lhe então um episódio sucedido comigo nas costas desertas da Sicília, ao ser ali surpreendido por forte temporal, do qual só a custo consegui escapar,e, em seguida, pedi-lhe que me referisse por sua vez algumas de suas experiências. Tive então ensejo de notar que não só era dotado de inteligência rara, mas também de sentimento e espírito. Pouco a pouco fui-me animando a indagar de seus amigos e parentes, e soube, após algumas perguntas, que seus parentes mais chegados haviam morrido todos, com exceção talvez de um, que era sua mãe. "Essa," acrescentou, "é possível que esteja agora morta também e, se ainda vive, com certeza já não se lembra de mim." Esforçava-se por falar com calma e indiferença, notava-se, porém, que o coração lhe batia rapidamente; a voz lhe tremia e por fim encostou a fronte na mão.

- Ah, disse-lhe eu, avalia muito mal o amor de uma mãe, se pensa desse modo.

Narrei-lhe então, como um fato apropriado ao caso, a história da pobre viúva e do seu óbulo. Falei-lhe com sentimento e unção. Ele ocultou o rosto nas mãos e por entre os dedos lhe corriam as lágrimas ao chão. Um frêmito passou-lhe pelo corpo, chegando a tal ponto a sua emoção, que tive de parar um momento, mas, recobrando-se ele de novo, continuei a minha história.

- Onde se passou isto? perguntou, em voz baixa, depois de eu haver terminado.

- Na cidade de W...., respondi-lhe.

- E nome da viúva?

- É Berta Morrison.

- Não disse o senhor que tinha essa moeda consigo? Ele ergueu a fronte, que estava pálida.

- Sim, respondi-lhe e, tirando-a de minha carteira, entreguei-lha. Ele observou-a com atenção e, voltando-a entre os dedos, examinou detidamente as letras gravadas no reverso. Afinal seu coração já não lhe cabia mais no peito. Prorrompendo num forte pranto, exclamou: "Oh, minha mãe!" Disse-me então, em palavras entrecortadas de soluços: "Eu lhe enviei esta moeda; era o meu último xelim. Quando lho mandei, pedi a Deus que o tornasse uma benção para minha mãe. Estou aqui sob um nome falso, eu sou Donaldo Morrison." Os soluços embargaram-lhe a voz. Quando tornou a levantar a cabeça, estendeu as mãos num gesto de súplica e disse:

- Afaste-se! Afasta-se um momento, e deixe-me só. Afaste-se um momento, eu lhe peço, depois torne a vir. Consinta, porém, que eu fique com esta moeda.

Chamei ao carcereiro e saí, narrando a ele e ao guarda o que havia sucedido. Ambos eram pessoas compassivas e ficaram profundamente comovidos. Meia hora depois voltei à cela e encontrei o preso de joelhos. Ergueu-se e, estendendo a mão, disse:

- Rogo-lhe que não torne a me falar nisso; não o suporto, meu coração estoura.

- Mas, ousei replicar-lhe (porque tinha sido animado pelo guarda), se me fosse possível tirá-lo daqui e restituir-lhe a liberdade, de sorte que pudesse ir para onde quisesse?

Ele segurou-me no braço e um raio de luz iluminou-lhe o belo rosto.

- Ah, se o senhor pudesse fazer isto, eu estaria salvo! O senhor restituiria um filho a sua mãe.

À tarde desse mesmo dia dirigi-me, em companhia do inspetor, ao juiz que o havia sentenciado e, acompanhado deste, fomos à casa do promotor, a quem narrei a minha história. Algumas horas depois Donaldo Morrison estava livre. Ao sair da prisão, tomou a minha mão e disse: "Sei que estou confiado ao seu cuidado, fui disso informado pelo guarda; gostaria, porém, de ir só, todavia não desejava que estes o soubessem até que eu tivesse provado o que posso ser. O senhor me restituiu a liberdade e agora lhe peço que confie em mim. Eu lhe escreverei, eu lhe darei conta de tudo o que suceder. Quer confiar em mim?

Confiei nele e fi-lo com prazer, tanto mais que para acompanhá-lo teria tido que despender uma semana, e tinha negócios urgentes a fazer.

Passaram-se cinco anos antes que tornei a visitar a cidade de W. ... Um dia apeei-me num hotel ali e daí saí em procura de meus amigos. Na primeira esquina perguntei a um senhor se podia informar-me onde residia a viúva Morrison. Declarou-me que residia numa casa de campo à margem do lago, distante dali um quilometro e pouco.

- Mas, acrescentou, é escusado ir tão longe para encontrá-la. Há alguns minutos ela entrou naquela loja, indicando-me uma casa de negócio que ficava em frente e a cuja porta estacionava um rico e elegante carro. Aí vem ela.

Olhei para lá e notei uma mulher que, porém, não me pareceu ser aquela que eu conhecera como a Morrison. Esta mulher era elegante e formosa, parecendo ainda moça.

- Julguei que fosse Berta Morrison, repliquei.

- Pois é ela, respondeu-me, e aí vem seu filho. O senhor não sabe ... Não escutei o resto. Meus olhos fixaram-se no homem que vinha saindo da loja após a mulher; era uma das figuras mais importantes que eu jamais tinha visto. Seus olhos cruzaram-se com os meus e ele me reconheceu. Um momento perdeu a compostura, mas depressa recobrou-a. Tendo auxiliado a mulher a entrar no carro, dirigiu-se para o meu lado.

- Deus o abençoe; afinal tenho o prazer de vê-lo aqui. Mas minha mãe não pode vê-lo agora, seria muita alegria para ela. Vá ao seu hotel que em breve lá estarei também.

Voltei ao hotel, acompanhado por aquele senhor a quem falara na esquina. Perguntei-lhe se conhecia a Donaldo Morrison. Respondeu-me que sim. Se sabia dizer-me em que se ocupava agora?

- Está construindo uma nova cidade de W. ..., respondeu-me. Há uns cinco anos alugou uma pequena escuna com que navegou o lago de Eric. Pouco a pouco adquiriu-a por compra e antes de um ano adquiriu outra. Hoje é proprietário de três excelentes vapores que navegam o lago. Antes de decorrida uma hora, Morrison apresentou-se a porta do meu hotel e saímos juntos. A hora seguinte foi uma verdadeira profusão de alegria e contentamento; não posso mais recordar todos os pormenores desse encontro. Só me lembro que choramos juntos como crianças, e que ambos, tanto a mãe como o filho, se lançaram ao meu pescoço, declarando-me a causa de sua felicidade e salvação.

Demorei-me um mês inteiro na sua bela residência de campo junto ao lago. Não consentiram que eu partisse antes, e mesmo então só com a condição de renovar a cada verão minha visita e, se pudesse ser, mais amiúde.

Está ainda em meu poder o óbulo da viúva e a benção do Senhor tem repousado sobre o mesmo. Muitos que caminhavam errantes na estrada do pecado e da perdição, foram pela impressão de sua história, simples e tocante, reconduzidos ao caminho da honra e do bem.