A Pobre Lavadeira

- Estou quase a meter também esta colcha entre a roupa suja. É verdade que ainda não há tanta necessidade de ser lavada, mas penso que vou mandá-la também à lavadeira.

- Por que, então, queres mandar lavá-la, se ainda não há tanta necessidade de ser lavada? disse a tia com aquele seu modo sossegado e expressivo de falar.

- Por que? titia, porque tenho hoje muito pouca roupa, tão pouca, que Suzana estará pronta antes das duas horas, e como tenho de pagar-lhe o mesmo como se trabalhasse até à noite, por isso ...

- Escuta um momento e reflete um pouco, disse-lhe bondosamente a velha senhora. Supõe que estivesse nas condições da pobre Suzana, obrigada a passar junto à tina de roupa durante seis dias da semana, para prover às necessidades mais urgentes da vida quotidiana: porventura não ficarias contente de poder uma vez voltar à casa antes da noite, para consagrar ainda alguns momentos do dia aos teus queridos ou mesmo ao descanso? Já é duro para uma mulher ser obrigada a trabalhar como jornaleira para ganhar sua subsistência; não queiras por isso privá-la do gozo de um dia menos árduo. É hoje já o quarto dia que ela se levanta com o escuro, indo pelo frio daqui para ali, a fim de servir seus fregueses; deixa que vá para casa logo que estiver pronta. É possível até que tenha em casa um querido doente e que esteja contando ansiosa horas e minutos até poder voltar, temendo talvez chegar tarde. Deita a colcha sobe a cama e vem assentar-se junto de mim; vou contar-te a história de uma pobre lavadeira a quem sucedeu como ia sucedendo a Suzana hoje, dando-se-lhe sem necessidade roupa para lavar, pelo motivo de haver sido pouca.

A estas palavras a velha senhora tirou os óculos e enxugou uma lágrima que lhe umedecera as pálpebras, e com voz trêmula começou:

"Não houve talvez nunca um casamento mais feliz do que o de Ada R. Ninguém podia olhar mais esperançoso para o futuro. Ligada ao homem de sua escolha, homem do qual podia orgulhar-se, ninguém talvez tivesse a perspectiva de uma vida mais venturosa do que Ada R.

"Essa felicidade durou dez anos. Seu lar era confortável e bonito e o jovem esposo continuava tão amante e bondoso como quando noivo, colhendo de ano em ano novos louros na posição que ocupava, e empregando os seus proventos em rodear a família de todo o conforto possível. Afora estas bênçãos, Deus lhe havia concedido ainda outra: um pequeno berço se achava ao lado do seu leito, em que sorria um belo menino de cabelos louros, a imagem perfeita do seu pai, e que constituía a coisa mais cara que possuía neste mundo.

"Não quero, porém, demorar-me mais tempo sobre aqueles dias felizes; pois que a nossa história tem por fim tratar de coisa muito diversa. Aconteceu a Ada e a seu esposo como costuma acontecer a muitos: quando a taça mais lhes apetece, é-lhes arrebatada. Uma série de desgraças e infortúnios que se sucederam rapidamente, arrebatou-lhes tudo, deixando-lhes somente o amor e o filhinho.

"Estavam, porém, ainda todos reunidos e isto lhes deu novo animo. Mudando-se para uma cidade distante, aí começaram novamente a sua existência. Diligentes e incansáveis se empenharam na luta pela vida, e outra vez a fortuna parecia sorrir-lhes, porém só por pouco tempo; logo depois tornaram a baixar sobre eles as sombras da adversidade.

"O esposo de Ada caiu doente e sobre o leito de dor arrastava os seus dias, torturado não só por dores físicas como também, e principalmente, por sofrimentos de alma, experimentando toda sorte de privações. Tudo o que estava no poder de Ada ela buscava fazer fielmente, tentando uma coisa e outra, a fim de prover a subsistência da família. Ela, que fora levada ao altar trajando vestido de seda, podia ser vista agora junto à tina de roupa para ganhar o pão quotidiano.

"Durante um inverno muito triste, viu-se obrigada a levantar-se todos os dias antes da madrugada para ir ao trabalho, tendo muitas vezes de andar pela neve para ir ter às cozinhas escuras e enfumaradas, e aí ajudar a limpar e lavar, sucedendo-lhe não raro gelar-lhe a roupa debaixo das mãos quando tentava estendê-la na corda. E quando chegava a noite, com o seu mesquinho salário, tinha de procurar outra vez o seu caminho através da neve para sua habitação fria e escura, porque o salário não chegava para luz e aquecimento da sala. E com que angústia ela todas as noites transpunha o limiar da porta, receosa de que viesse tarde! Havia seis semanas não tinha visto mais ao marido e ao filho a luz do dia. Quão contente ela teria ficado se uma vez ou outra tivesse podido voltar mais cedo!

"Numa manhã muito fria, continuou a tia depois de uma pequena pausa, quando Ada preparava o almoço, seu marido chamou-a subitamente e disse-lhe:

" - Querida Ada, não podias vir hoje mais cedo que de costume? Desejava tanto ver-te outra vez à luz do dia. Tu vens, sim?

"- Vou fazer o possível, respondeu ela, empalidecendo de susto.

"- Tenho uma saudade invencível de ver o teu rosto à luz do dia. Hoje é sexta-feira; desde o último sábado tenho sentido esta saudade; não posso mais esperar até amanhã.

"- Sentes-te pior? perguntou aflita, tomando-lhe o pulso.

"- Não, não; penso que não, apenas me parece que já faz tanto tempo, e julgo não poder esperar.

"Com que satisfação esta mulher teria correspondido ao desejo do marido! Com que vontade ela teria mesmo ficado até que a luz do dia viesse clarear a pequena sala; mas não era possível. A necessidade urgente a obrigava a partir. Ela chegou à cozinha do freguês, e ali ficou numa expectação ansiosa, aguardando o cesto de roupa. Um sorriso assomou-lhe aos lábios, quando verificou o seu conteúdo. Até às quatro horas podia estar pronta, e talvez até as três. Amor e medo comunicaram-lhe novo vigor aos braços, e cinco minutos antes que o relógio soasse as três horas, ela estendia na corda a última peça de roupa, e se dispunha a esvaziar as tinas, quando apareceu a dona de casa com duas colchas e disse: 'Como tiveste pouca roupa hoje, Ada, podias ainda lavar estas duas peças.'Apenas a dona de casa desapareceu, um grito de angústia partiu dos lábios de Ada. Fazendo violência a si própria, ela tentou retomar com sossego o seu trabalho. Anoitecia, enfim, quando lhe foi possível correr para casa - chegava tarde.

Neste ponto a tia interrompeu a história num pranto de soluços, prosseguindo depois de uma pequena pausa:

"Seu marido estava agonizante, e a morte se avizinhava depressa. Com muito esforço ainda lhe exprimiu algumas palavras de amor, e a saudade que tinha de ver ainda uma vez o seu rosto, o qual já agora não lhe era dado ver mais porque a sombra da morte lhe empanava a vista. Durante uma hora a sua cabeça repousou ainda recostada ao seu peito - depois expirou.

"Oh, Maria, acrescentou então a tia comovida e suplicante, sê bondosa com tua lavadeira! em vez de tratar de aumentar-lhe o trabalho do dia, trata de diminuí-lo.

"Pouca mulheres há que saem a trabalhar a não ser urgidas por extrema necessidade. Nenhuma mulher imagina, no dia do seu casamento, que lhe possa estar reservada uma tal sorte, e quando ela lança mão desse ofício, é quase sempre em último recurso. Também a tua lavadeira, que agora te faz este serviço pesado, não esteve sempre à tina de roupa. Também ela conheceu dias melhores. Pode-se ler a sua história nos traços pálidos e tristes do seu rosto. Sê bondosa com ela, paga-lhe o que deves, e despede-a tão logo quanto possível."

- Acabou cedo hoje, Suzana, disse D. Maria à lavadeira, quando esta entrou na sala para receber o seu salário.

- Sim, senhora; e isto tira de sobre mim um grande peso. Receava ter que ficar até à noite, e tenho tanta necessidade de estar em casa!

- Está alguém doente? perguntou bondosamente a velha tia.

Pelas faces da lavadeira deslizavam lágrimas quando ela respondeu:

- Ah, senhora, deixei meu filhinho esta manhã já quase a morte. Conheço aquela tristeza estampada no rosto do menino, pois não é a primeira vez que passo por esta dor. E ninguém está junto dele senão um menino de nove anos. Tenho que ir agora a toda a pressa. Ela tomou o dinheiro, penosamente ganho enquanto em casa o filhinho agonizava, e partiu veloz para a sua pobre habitação.

Logo depois as duas senhoras, uma jovem, não tendo conhecido ainda nenhum cuidado sério, a outra já idosa, tendo os cabelos embranquecidos pelos cuidados da via, penetraram no casebre da mulher de um bêbado e se acercaram do leito do menino moribundo. Suzana não chegara tarde. O menino havia reconhecido ainda sua mãe. Faleceu a meia-noite e mãos bondosas receberam o seu corpinho inânime, cerraram-lhe as pálpebras, endireitaram-lhe os membros, lavaram-no e vestiram-no de uma mortalha branca. Ainda mais, as duas mulheres tiveram pela pobre lavadeira lágrimas de simpatia, o que é um privilégio muito raro dos pobres.

- Oh, titia! disse Maria com os olhos rasos de lágrimas; se mesmo o meu coração a abençoa, quanto mais o de Suzana! Se não fora o conselho da senhora, ela teria chegado tarde! Esta foi uma lição muito triste, mas sagrada. Jamais hei de esquecê-la. Mas, titia, a história que me referiu é verdadeira?

- A sua triste realidade branqueou-me os cabelos antes do tempo, quando contava apenas trinta primaveras; e a sua lembrança é a mais aflitiva das minhas recordações. É de admirar portanto que eu me compadecesse da pobre lavadeira?