Palavras Inesquecíveis

- Verificou esta conta, Sr. Ricardo?

- Sim, Sr. Silva.

- Está certa?

- Encontrei-lhe dois erros.

- Sim? deixe-me ver.

O rapaz entregou ao patrão uma extensa conta que lhe havia sido dada para verificação.

- Aqui há um erro no cálculo contra eles de dez cruzeiros, mais outro de dez cruzeiros no fim.

- Também contra eles?

- Sim senhor.

O comerciante esboçou um sorriso um tanto impertinente, que não deixou de impressionar o jovem guarda-livros.

- Vinte cruzeiros contra eles, repetiu com ar de contentamento. Devem ter na verdade guarda-livros de confiança.

- Devo corrigir esses erros? perguntou o moço.

Não, senhor, deixe que eles mesmos corrijam os seus erros. Não retifiquemos contas em proveito de outrem, respondeu o comerciante. Ainda é tempo de retificá-los depois de os haverem descoberto. O lucro será maior se a conta ficar assim.

O sentimento de probidade e retidão do rapaz, como que ficou ferido, a esta observação inesperada. Ele era filho de uma viúva pobre, que o havia ensinado a considerar a honestidade como um dos primeiros deveres do homem. O Sr. Silva, a cujo serviço ele se achava já alguns meses, fora amigo íntimo de seu pai e um homem em quem ele próprio depositava toda confiança. Havia olhado para ele como homem exemplar, reputando um alto privilégio estar ao serviço de pessoa, por tal forma respeitável.

"Deixe que eles mesmos corrijam os seus erros!" Estas palavras produziram em Ricardo profunda impressão. Quando o Sr. Silva as proferiu, ele, como já dissemos, ficou muito desapontado. Meditando, porém, mais sobre o caso e buscando relacionar aquelas palavras com alguém que tão altamente colocado estava no conceito de sua própria mãe, pensou finalmente que do ponto de vista comercial o negócio talvez fosse lícito. O Sr. Silva não poderia ser homem capaz de injustiças.

Alguns dias depois de Ricardo haver verificado a conta, apresentou-se um homem no estabelecimento, pedindo a verificação da mesma. Ricardo, que estava presente, esperou com ansiedade que o Sr. Silva fizesse menção do referido engano. Ele, porém, nada disse. Mandando passar uma letra na importância da conta, exigiu recibo. "É justo isto?" perguntou Ricardo repetidas vezes de si para si. Seu sentimento de probidade lhe dizia que não. O fato, porém, de que o Sr. Silva procedia deste modo, confundiu-lhe as noções de direito. "É possível que no comércio isto seja costume, todavia não o acho honesto. Não esperava tal coisa do Sr. Silva."

A natural bondade do Sr. Silva, conquistou o coração deste mancebo, que se sentia por isso constrangido a executar todos os seus trabalhos com o maior cuidado e precisão. "Quisera somente que ele houvesse retificado aquele erro," dizia Ricardo muitas vezes de si para si, quando pensava na felicidade que tinha, de estar colocado na casa do Sr. Silva. "O negócio não me parece honesto, em todo caso é possível que isto seja costume no comércio."

Certo dia foi incumbido de ir ao banco a fim de fazer descontar uma letra. Ao contar o dinheiro que tinha recebido, verificou que o pagador lhe havia dado cinqüenta cruzeiros demais. Imediatamente voltou e advertiu-o do engano. Ele agradeceu muito, e Ricardo voltou para casa firmemente persuadido de que havia procedido bem.

- O pagador deu-me cinqüenta cruzeiros demais, disse ele ao Sr. Silva, quando lhe entregou o dinheiro.

- Deveras? Perguntou este com um sorriso de contentamento, e avidamente se pôs a contar as notas do banco. Em chegando, porém, à última, franziu o sobrolho e, mal dissimulando o seu desapontamento, disse: "Pois não lhe deu nada demais, Ricardo."

- Ah! Já lhe restituí os cinqüenta cruzeiros. Pois não era justo?

- Inepto! Exclamou o Sr. Silva, não sabe você que erros de bancos não se corrigem? Se o pagador lhe houvesse dado cinqüenta cruzeiros de menos, não lhe teria caído na lembrança de corrigir tal erro.

O pejo se denunciou nas faces de Ricardo a esta exprobração. Acontece muitas vezes que uma pessoa se envergonha mais de um erro do que de um crime. Neste momento o mancebo experimentou um como que aborrecimento por causa de sua conduta, que o Sr. Silva classificava de inépcia. Resolveu consigo mesmo que, se o banco lhe houvesse de dar alguma vez mil cruzeiros demais, entregaria todo o dinheiro ao patrão e deixá-lo-ia avir-se com ele.

"Deixe que os homens corrijam eles próprios os seus erros," tinha dito uma vez o Sr. Silva, e estas palavras não foram jamais esquecidas pelo mancebo. Haviam produzido sobre ele uma impressão muito forte para serem olvidadas. "É possível que seja direito," dizia ele de si para si; todavia não se sentia lá muito satisfeito.

Alguns meses depois deste incidente Ricardo contava o ordenado que havia recebido, e verificou que o Sr. Silva lhe tinha dado dois mil cruzeiros demais. Seu primeiro impulso foi o de restituir esse dinheiro ao patrão , e ia justamente falar-lhe neste sentido, quando lhe vieram à lembrança aquelas palavras inesquecíveis: "Deixe que os homens corrijam eles próprios os seus erros," as quais o fizeram hesitar. "Penso," disse Ricardo, guardando o dinheiro no bolso, "que o que é justo num caso, também deve sê-lo em outro. O Sr. Silva não corrige os erros que os outros cometem a seu favor, e não deve por isso admirar-se de que esta mesma regra lhe seja também aplicada."

O rapaz estava, porém, longe de ter a consciência tranqüila. Intimamente estava convencido de que era injusto conservar aquele dinheiro. Mas não podia decidir-se a entregá-lo, e ainda menos agora. Reteve-o, pois, e gastou-o em divertimentos. Logo depois, porém, lembrou-se de que o Sr. Silva podia ter querido experimentá-lo e apoderou-se dele uma certa inquietação. Passado algum tempo o Sr. Silva tornou a cometer o mesmo engano. Ricardo, sem hesitar muito tempo, embolsou o dinheiro. "Deixe que ele próprio corrija os seus erros," disse ele resolutamente; "é como ele procede com outra gente, por isso não deve queixar-se se alguém lhe paga com a mesma moeda. Bem preciso deste dinheiro."

A partir daí o sentimento nobre e justo de Ricardo estava embotado. Tinha dado lugar em seu coração a um mau conselheiro, despertando o espírito de ambição, que excitou nele o desejo da posse de coisas que estavam fora do alcance de sua bolsa. Ricardo tinha excelentes dotes, e pelos seus conhecimentos, diligência e tato de negócio fez rápidos progressos, conferindo-lhe por isso o Sr. Silva aos dezoito anos o posto de maior responsabilidade em seu estabelecimento. Ricardo, porém, havia aprendido ainda coisa mais com o seu patrão, além de fazer vantajosos negócios. Tinha aprendido com ele a prescindir da honestidade em matéria de lucros, e nunca esquecera a lição que seu patrão lhe havia dado nesta arte.

Já a havia exercitado em centenas de casas e quase sempre em prejuízo do Sr. Silva. Nem sequer esperava mais até que se dessem enganos em seu proveito, mas criava-os ele próprio nos diferentes e complicados negócios de um grande estabelecimento comercial, com que ele estava perfeitamente familiarizado. Ricardo havia-se tornado sagaz, atilado e esperto, sempre de sobreaviso, engenhoso e preparado para arredar de si qualquer suspeita e impossibilitar a descoberta de suas ações injustas. Junto de seu patrão gozava do mais alto conceito. Isto continuou assim até que Ricardo atingisse a idade de 20 anos. Foi então a suspeita do comerciante despertada por uma carta em que se dizia que Ricardo não zelava dos interesses da casa, e que despendia muito dinheiro para um empregado que percebia um salário módico. Pouco antes sua mãe havia ocupado uma bela casa, pela qual pagava um aluguel de 30.000 cruzeiros. O seu ordenado, porém, não excedia de 80.000 cruzeiros; no entanto sua mãe persistia em afirmar que percebia um salário de 120.000. Proporcionava a sua mãe todo o conforto possível, fazendo-a acreditar assim que, depois de uma existência longa e laboriosa, haviam raiado para ela dias mais felizes.

Ricardo estava sentado à sua secretária, quando o Sr. Silva recebeu a dita carta. Lançando um olhar para o patrão, notou como este empalidecera. Observou então que lia a carta outra vez e que o seu conteúdo o tornava inquieto.

O Sr. Silva volveu um rápido olhar para a secretária de Ricardo e os olhos de ambos se cruzaram. Foi apenas um instante, mas esse olhar lhe fez congelar o sangue nas veias. Mais alguns outros movimentos que notou no Sr. Silva naquele dia, bastaram para deixar o moço aterrado. Estava certo que aquela carta havia provocado suspeitas no seu patrão. Quanto se arrependia agora do mal que tinha feito, pelo temor que lhe causava a sua descoberta, pois que esta seria a sua desonra e ruína, e sem dúvida daria com sua mãe na sepultura!

- Não estás bem disposto esta tarde, disse a mãe de Ricardo, notando a fisionomia alterada do filho e que ele quase não comia.

- Dói-me a cabeça, foi a sua resposta.

- Talvez fizesse bem em dormir um pouco.

- Irei deitar-me um momento no sofá da sala.

A Sra. Lima seguiu-o logo depois e, sentando-se ao seu lado, pôs-lhe a mão sobre a fronte. Não seria, entretanto, a pressão terna daquela mão de mãe que havia de mitigar os sofrimentos de Ricardo. Pelo contrário, o contato dessa mão pura antes lhe aumentava ainda a angustia.

- Ainda não te sentes melhor? perguntou a Sra. Lima, depois de haver pousado algum tempo sua mão sobre a fronte do filho.

- Pouca coisa, respondeu ele, e levantando-se, acrescentou: Penso que um passeio ao ar livre me fará bem.

- Não vás embora, disse a Sra. Lima, sentindo uma vaga inquietação invadir-lhe o peito.

- Percorrerei apenas algumas ruas. Com estas palavras Ricardo retirou-se da sala.

"Isto é mais que uma dor de cabeça," refletiu consigo a Sra. Lima. Durante uma meia hora Ricardo divagou a esmo pelas ruas sem nenhum destino determinado; não podia suportar a presença da mãe. Finalmente achou-se em frente do estabelecimento do Sr. Silva e admirou-se de que ainda houvesse luz no mesmo.

"Que significaria aquilo?" disse ele de si para si, enquanto novo susto lhe invadia a alma. Pôs o ouvido à escuta na porta e nas janelas, mas nada conseguiu ouvir. "Deve haver alguma coisa," pensou. "Mas que poderia ser? Se isto for descoberto, o que será de mim? Estarei arruinado! oh! minha pobre mãe!"

O infeliz mancebo afastou-se dali quase desvairado e depois de haver percorrido mais algumas ruas da cidade, voltou a casa. Sua mãe foi recebê-lo à porta, informando-se apreensiva do seu estado.

- Passo melhor, disse ele num tom que mal dissimulava a sua angustia, dirigindo-se depressa ao seu quarto. Quando, na manhã seguinte, saudou sua mãe a hora do almoço, esta sentiu uma viva inquietação pelo seu aspecto extenuado. Comia em silêncio e não ouvia o que se lhe perguntava. De repente soou a campainha. Ricardo estremeceu e escutou ansioso.

- Quem é? perguntou a Sra. Lima.

- Um senhor que deseja falar ao Sr. Ricardo, respondeu a criada.

Ricardo ergueu-se imediatamente e, retirando-se, fechou a atrás de si a porta. A Sra. Lima, sentada à mesa, aguardava a volta do filho. Momentos depois ele voltava, mas não à sala de jantar. Ouviu então mais uma vez passadas no corredor e abrir e fechar a porta da frente. Depois tudo ficou em silêncio. Depressa ela se levantou e dirigiu-se ao corredor; Ricardo não estava; havia partido com aquele senhor que tinha vindo buscá-lo.

O Sr. Silva. empregara metade da noite na revisão dos livros de Ricardo, tendo descoberto desfalques na importância de dezoito mil cruzeiros. Louco de indignação, mandara logo cedo uma autoridade a fim de prendê-lo. Foi com esta autoridade que Ricardo havia saído de casa, deixando a mãe, para junto da qual nunca mais devia tornar. "Esse velhaco há de pagar-me," disse o Sr. Silva, cheio de ira, e tratou imediatamente de denunciá-lo.

Na ocasião de ser julgado o processo, apresentou contra ele uma tão grande soma de provas, que o tribunal não teve outro recurso senão condená-lo. Sua mãe estava presente na audiência e durante os intervalos podiam ouvir-se os seu soluços. O juiz, dirigindo-se ao acusado, perguntou-lhe se tinha alguma coisa a alegar em sua defesa. Todos os olhos se voltaram para o pálido mancebo, quando ele, com um esforço, se levantou recostando-se à balaustrada junto da qual se achava, como se necessitasse de arrimo.

- Peço a presença do meu acusador a fim de que eu possa vê-lo e a V. Sa. conjuntamente.

O Sr. Silva foi convidado a apresentar-se onde estava o mancebo. Ricardo fixou-o durante alguns instantes com um olhar indagador, depois, voltando-se para os juizes, disse:

- O que tenho a dizer é isto, começou ele com voz pausada e clara, e pode ser que isto atenue de algum modo o meu crime, se bem que não possa justificá-lo: Entrei para o estabelecimento deste senhor como um rapaz inocente, e se ele fosse homem honrado, eu não estaria hoje perante o tribunal na qualidade de criminoso.

O Sr. Silva voltou-se para os juizes a fim de protestar contra uma afirmação tão injuriosa. Fizeram-lhe, porém, sinal para se calar. Ricardo continuou em voz firme:

- Algumas semanas depois de eu haver entrado para o seu estabelecimento, fui por ele incumbido de verificar uma conta, e descobri nela um engano de vinte cruzeiros.

O Sr. Silva enrubesceu.

- Vejo que o senhor ainda se lembra, continuou Ricardo, e eu tenho motivos para não esquecê-lo enquanto viver. O engano era a favor do Sr. Silva. Perguntei-lhe se devia retificar os algarismos e obtive esta resposta: "Não, deixe que eles mesmos corrijam os seus erros; não retificamos contas em proveito de outrem." Foi a primeira lição de desonestidade. Vi como a conta foi paga, retendo o Sr. Silva os vinte cruzeiros que lhe não pertenciam. A princípio fiquei perplexo; pareceu-me ser isto muito injusto. Logo depois, porém, fui tratado por ele de inepto por ter restituído ao pagador de um banco uma nota de 50 cruzeiros que este me havia dado demais em desconto de uma letra e então ...

- Peço a proteção do tribunal, disse o Sr. Silva.

- É verdade o que está dizendo este mancebo? perguntou o presidente.

O Sr. Silva ficou embaraçado e com a vista turva.

Os olhos de todos convergiram sobre ele, e juizes e jurados, advogados e espectadores sentiam perfeitamente que ele era o culpado da ruína deste moço desgraçado.

- Não muito tempo depois, continuou Ricardo, quando recebia o meu ordenado da semana, notei que o Sr. Silva me havia pago dois mil cruzeiros a mais. Estava a ponto de restituir-lhos, quando me lembrei da observação que me fizera: "Deixe que os homens corrijam eles próprios os seus erros," e disse de mim para mim: "Deixa que também ele corrija ele próprio o seu engano," e fiquei com o dinheiro. Este foi o primeiro passo no caminho do crime, e agora estou aqui. Se o Sr. Silva houvesse usado de um pouco de caridade e misericórdia para comigo, eu me teria calado e nada teria dito em minha defesa.

O infeliz mancebo cobriu o rosto com as mãos e assentou-se, dominado por uma forte comoção. Sua mãe, que dele se havia aproximado, prorrompeu em fortes soluços e, inclinada sobre ele, tendo a mão posta sobre a sua cabeça, disse:

- Meu filho, meu pobre filho!

Poucos olhos naquela sala se haviam permanecido enxutos. No meio do silêncio que se fizera, o Sr. Silva, voltando-se para o juiz, perguntou-lhe;

- Consente-se que a minha honra seja assim ultrajada pela declaração de um criminoso?

- Um juramento solene da sua parte, desmentindo essa acusação, poderá reabilitá-lo, respondeu o juiz. Era a única oportunidade do rapaz e o tribunal considerou um dever de humanidade ouvi-lo.

Ricardo Lima ergueu-se, e voltando-se para o Sr. Silva o rosto pálido, no qual se estampava profunda tristeza, disse:

- Deixem-no jurar, se ele ousa fazê-lo.

O Sr. Silva falou com o seu advogado e retirou-se. Depois de uma breve consulta com os jurados, o presidente do júri, dirigindo-se ao acusado, disse:

- Considerando a sua juventude e as tentações a que foi exposto em anos passados, o júri resolve proferir a sentença mais branda possível - um ano de prisão celular. Mas deixe-me adverti-lo seriamente que não prossiga neste caminho. Um crime não pode ter justificação razoável. É injusto diante de Deus e dos homens, e só causa aflição. Quando, depois de cumprida a pena, o senhor for posto em liberdade, seja com o firme propósito de preferir morrer a tornar a cometer uma injustiça.

E assim terminava este triste episódio na vida daquele mancebo. Quando, um ano depois, deixava a prisão, sua mãe estava morta. Nunca mais tornara a vê-la, desde o instante em que perdeu de vista o seu pálido rosto ao deixar a sala da audiência.

Dez anos depois um homem se achava entretido a ler o jornal do dia, numa cidade distante. A sua fisionomia, triste e grave, denotava ser homem experimentado nas aflições e sofrimentos da vida.

"Até que enfim caiu nas mãos da justiça," disse ele de si para si, enquanto o sangue lhe subia às faces; "condenado por falência fraudulenta, e lançado na prisão." Este é o fim de um homem que na minha infância me deu a primeira lição na prática da desonestidade.

"Mas louvado seja Deus, a outra lição foi por mim igualmente aproveitada. 'Quando o senhor for posto em liberdade, seja com o firme propósito de preferir morrer a cometer uma injustiça.' Esta advertência conservei-a no coração e com a ajuda de Deus aí a conservarei até à morte."