Um Voto Sagrado

Uma tarde alguns velhos marujos se haviam reunido ao redor de uma mesa, entretendo-se a contar as suas experiências e aventuras. Reinava entre eles a melhor paz e harmonia. Só um dos presentes, o capitão Sutter, é que se recusava a tomar parte nas bebidas. Chegando a sua vez de contar alguma de suas experiências, ele se levantou e disse:

Camaradas, não desejando passar aos vossos olhos por homem pouco sociável, visto a minha recusa em associar-me convosco nas bebidas, vou contar-vos como cheguei a esta abstinência, a que devo a posição que atualmente ocupo.

Fui muito criança para o mar e aos dezesseis anos já me tinha na conta de um marinheiro consumado. Era então grumete a bordo de um grande veleiro que se dirigia para as Índias. A nossa tripulação compunha-se de cinqüenta e dois homens. Nós, os grumetes, vivíamos, por assim dizer, isolados dos demais marinheiros, e tínhamos nossa mesa separada. Queria-o assim o comandante, que era homem muito justo e honrado, mas de um rigor extremo no tocante ao serviço.

Tão jovens éramos, já tínhamos adquirido muitos maus hábitos. O que mais facilmente aprendemos foi beber; para isso aproveitávamos cada licença que podíamos obter, voltando muitas vezes para bordo em estado deplorável. O único que se constituía em exceção a esse respeito era um grumete por nome João, a quem ninguém podia induzir a tomar uma gota de bebida alcoólica. Gozava por isso também da inteira confiança de nosso comandante, que o tinha quase sempre junto de si. Quando saltava em terra, costumava levá-lo consigo e a bordo lhe ensinava muitas coisas úteis. João sabia tirar proveito de todas essas vantagens; para nós, porém, fora-se tornando um objeto de ódio e inveja. As admoestações e súplicas que nos dirigia, desejoso que abandonássemos a nossa vereda, nós as acolhíamos com desprezo, perseguindo-o e matratando-o onde a ocasião se nos oferecia. Ele tudo suportava com admirável paciência, mas gradualmente se foi afastando de nós.

Afinal tomamos a resolução diabólica de obrigar João a embriagar-se, e para podermos executar o nosso plano com mais segurança, começamos a tratá-lo com afabilidade, prestando-lhe todas as atenções.

Nosso navio regressou pelo Brasil, demorando-se oito dias na baía do Rio de Janeiro. Uma manhã obtivemos todos licença para saltar em terra. Isto causou-nos tanto maior prazer quanto julgávamos chegado o momento de provar ao nosso comandante que o seu favorito não era melhor do que nós. João prometera jantar conosco nesse dia, e a ocasião não podia ser melhor; desta vez com certeza não escaparia.

Fatigados e famintos, sentamo-nos à mesa. Ao ser servido o vinho, porém, João não só se opôs às nossas instâncias como até fez gestos de querer levantar-se da mesa. Então o nosso ódio não conheceu mais limites. Chamamo-lo bajulador que vivia a intrigar-nos com o comandante a fim de à nossa custa fruir todas as vantagens e regalias. Um momento o rubor lhe subiu às faces, diante de tão injustas e indignas acusações. Contendo-se, porém, disse com firmeza e serenidade:

Camaradas, à vista do que aqui se passa não me é mais possível calar o que desejava ter em segredo. A minha história é breve. Minha vida foi inditosa desde o berço. Meu pai, homem diligente e bom, tornou-se escravo do vício da embriaguez, em conseqüência do que, eu e minha mãe nos achamos muitas vezes expostos aos rigores da fome e do frio. Com que fervor ela orava por seu desgraçado esposo!

Quando me tornei maior, tive de esmolar, coberto de andrajos e caminhando descalço através da neve. Como se me confrangia o coração de dor, quando via outros, fartos e bem agasalhados, alegrarem-se da vida! Certamente seus pais deviam ser homens sóbrios e bons como fora o meu, pensava eu comigo. Debaixo destas circunstâncias atingi a idade de oito anos. Numa noite muito fria e tempestuosa de inverno esperávamos em vão pela volta de meu pai. Ao romper da alva minha mãe enviou-me a procurá-lo na taberna. No caminho dei com um corpo que jazia estendido ao lado da estrada, coberto de neve. Inclinei-me sobre ele e limpei-lhe o rosto: era o rosto de meu pai, que estava morto.

A um brado de socorro acudiram dois homens da taberna, que me ajudaram a transportá-lo para casa.

Camaradas, não me é possível descrever a aflição de minha pobre mãe! Em um pranto de soluços ela se atirou sobre o esposo, como que querendo comunicar-lhe com o seu ardente amor o calor e a vida que lhe haviam fugido. Todos os sofrimentos que ele lhe causara em vida pareciam neste momento esquecidos. Os homens se retiraram e minha mãe acenou-me para que me ajoelhasse ao lado dela, diante do cadáver de meu pai:

- Meu filho, disse-me então, tu conheces a causa de nossa desgraça. Não havia homem mais nobre e honrado do que teu pai; tu vês o que foi feito dele. Promete-me hoje, em presença de Deus e diante do cadáver de teu inditoso pai, sim, promete-me aqui, neste lugar, que nunca tomarás em teus lábios uma gota do terrível veneno que nos abismou na miséria.

Camaradas, eu fiz esta promessa a minha mãe e Deus me é testemunha de que nunca ainda a violei. Depois da morte de meu pai, minha mãe e eu, graças ao auxílio de alguns piedosos vizinhos, passamos aquele inverno menos mal. Na primavera já pude ganhar alguma coisa para o nosso sustento; afinal obtive este posto no navio, e agora costumo levar-lhe sempre algum dinheiro quando vou visitá-la, mas nem por todo o ouro e prata deste mundo violaria o meu voto, e estou certo, camaradas, de que de ora em diante não tentarão mais persuadir-me a tocar em bebidas."

Com estas palavras João dirigiu-se a porta. Um de nós, porém, o deteve e disse, comovido:

- Espera, João, não vá ainda. Eu também amo minha mãe e desejaria vê-la feliz. Não lhe quero ser um filho mau; de hoje em diante prometo não beber mais uma gota.

- Dê cá a mão, amigo, exclamamos todos e, formando um círculo em torno de João, prometemos todos imitar-lhe o exemplo. Para logo mandamos trazer papel e tinta e redigimos um contrato em que nos comprometíamos a abster-nos para sempre de bebidas alcoólicas, e todos o assinamos.

Devo confessar que nunca em nossa vida nos sentimos tão felizes como naquele momento.

Pela tarde voltamos todos a bordo. O comandante esperava-nos de teste franzida. Conhecia bem o nosso costume de nos entregarmos a excessos quando entrávamos em bebidas, mas qual não foi o seu espanto, vendo-nos voltar para bordo, sãos e bem comportados!

- Rapazes, disse, por que é que vocês estão hoje tão bons?

- Mostre-lhe o contrato, segredei aos ouvidos de João.

O comandante percorreu-o com os olhos e sua fisionomia assumiu expressão de comovida ternura.

- Dêem-me este papel, amigos, disse; enquanto observarem o que aqui se acha escrito, terão em mim um dedicado amigo; e, apertando-nos a mão, parecia muito feliz e satisfeito.

A partir desse dia começamos outra vida. João já não era para nós um objeto de ódio e de inveja; continuando à nossa frente, instruía-nos, fazendo-nos progredir rapidamente em nossa carreira.

Quando deixamos o nosso bom comandante, obtivemos todos bons empregos. Há três anos estivemos outra vez todos reunidos e pela graça de Deus nenhum de nós havia violado o seu voto. Éramos todos comandantes de bons navios.

Esta é a minha história, disse o capitão Sutter aos seus velhos amigos que o haviam escutado com grande interesse, e agora não levareis a mal que eu me abstenha de beber convosco. Tenho sobejas razões para assim proceder.