Os Prazeres Deste Mundo São Efêmeros

Sentada em seu luxuoso aposento, a Sra. Vieira fitava solitária e triste as chamas crepitantes do lume que ardia no lar. Prateados fios entremeavam-lhes os cabelos, já rareados, e as mãos, ornadas de custosos brilhantes, jaziam-lhe inertes e cansadas sobre os joelhos.

- Noite de S. Silvestre! murmurou baixinho, dando um suspiro profundo. Diante do espírito lhe perpassavam as belas noites de S. Silvestre que soíam festejar-se naqueles recintos.

Refulgiam então aquelas vastas salas pela profusão de luzes e alfaias. Chegavam os convivas, povoando os belos salões, que se enchiam de um rumor confuso de música, risos e vozerio. E ela, a rainha da festa, amável, espirituosa e viva, era o centro de todo aquele movimento e vida. Não só em noite de S. Silvestre soía ser assim. As festas então se sucediam, oferecendo constantes e inúmeras distrações.

E era nisto que consistia todo o seu prazer.

Embaixo, no pavimento térreo, o marido, absorvido pelos negócios, trabalhava o dia inteiro sem se dar tréguas, porque assim o exigiam a febre da bolsa, o movimento constante e a excitação continua. À noite, porém, nunca deixava de comparecer às reuniões, e quando as portas dos salões se abriam, aparecendo o vulto elegante e nobre daquele senhor, apoderava-se-lhe da alma um como que sentimento de orgulho, que mal conseguia dissimular.

Era ele um dos cidadãos mais bem conceituados e respeitado como um dos comerciantes mais probos e atilados daquela grande cidade comercial, e seus conselhos eram por todos procurados.

Agora, porém, tudo estava mudado. Sozinha e triste, recolhida ao seu aposento, pungiam-na as mais acerbas mágoas, ao passo que na câmara contígua seu marido, enfermo e alquebrado, passava os dias mais triste ainda.

No meio da precipitação da vida comercial prostrara-o uma congestão cerebral que, se lhe poupou a vida, tornou comtudo a sua existência uma das mais tristes que se pode imaginar. Sentado em uma poltrona, denunciava pelo gesto e pelas expressões estar condenado ao idíotismo. Não se sentia ela com coragem bastante para se deixar ficar junto ao seu marido, cujo aspecto de cansaço e desesperança lhe partíam de dor o coração; vivia por isso retraída na sua câmara. As festas deslumbrantes de outrora tinham cessado, os amigos se haviam afastado e a pobre senhora sentia avizinhar-se a idade que costuma anunciar-se pelo enfraquecimento e cansaço. Poderia ter continuado a fruir os prazeres a que estivera habituada e que tinham sido por assim dizer o seu elemento de vida, mas já não lho permitiam as forças exauridas. Os grandes salões estavam desertos, mesmo hoje na noite de S. Silvestre. Depois de tanto movimento e vida, o silêncio e o vácuo! Comparando a sua vida com o passado, esta se lhe afigurava uma grande estação de estrada de ferro depois de partidos todos os trens.

No quarto contíguo ressoou a campainha. Quando seu marido despertava do letargo, costumava chamar por ela, porque não lhe agradava estar só. Ao entrar no seu quarto encontrou-o, como de costume, reclinado em sua poltrona com uma expressão infantil naquela fisionomia outrora tão inteligente.

- Tudo está acabado, tudo está acabado! Exclamou ele, relanceando o olhar em torno como que para procurar arrimo. Eram estas quase as únicas palavras que proferia desde que ficara reduzido aquele estado.

- Sim, tudo está acabado, murmurou ela num tom repassado de amargura, sentando-se a seu lado para arranjar as almofadas.

- Pobre Elisa, tudo está acabado, repetiu ele com um acento triste e doloroso, levando as mãos à testa como que querendo recordar alguma coisa, mas, como não o conseguia, recaía no seu habitual letargo.

Retirava-se ela então, porque não lhe era possível vê-lo assim; temia perder a razão e ver-se, como ele, condenada a proferir sempre aquelas palavras: tudo está acabado!

Saía, pois, para ocupar-se em alguma coisa; não havendo, porém, nada a fazer, voltava ao seu quarto e, apertando o rosto entre as mãos, chorava inconsolavelmente, dizendo: "Tudo está acabado!"

Dois andares acima, nos fundos do mesmo edifício, jazia reclinado em uma poltrona outro enfermo que tinha o corpo arqueado, as mãos e os pés paralisados. No rosto pálido, porém, brilhavam uns olhos meigos e vivos que contemplavam satisfeitos as flores que a irmã trouxera.

- Olha, Henrique, exclamou ela, o que a jardineira me ofertou para o dia de ano bom. E sabes que lembrança eu tive? Quando voltava a casa, olhei e vi que a frente do pavimento habitado pela Sra. Vieira estava toda fechada; só notei uma pequena luz no quarto em que ela costuma estar. Pensei então comigo mesma que lá estavam outra vez os dois velhos tristes e sós, sentados cada qual no seu canto, cogitando dos dias felizes que passaram. A pobre senhora envelheceu muito, e a ele nunca mais vi.

"Veio-me então a idéia de ir levar-lhes algumas dessas bela flores; talvez se alegrassem. Oh! noutro tempo não me teria passado pela mente fazer tal coisa. Que homem eminente e respeitado que ele era! Tudo em casa lhe obedecia ao mais ligeiro aceno. Quanto a mim, devo confessar que sempre simpatizei com ele, embora o seu ar grave me inspirasse certo temor.

"Que me dizes, devo ir?"

- Sim Tereza, vai, uma idéia nobre devemos tratar logo de pôr em prática. Depois, quando voltares, celebraremos o S. Silvestre lendo o Salmo 90, o que me fará imenso prazer.

Os dedos destros e ágeis de Teresa não tardaram em reunir de algumas rosas e folhagens um pequeno e lindo ramalhete, com que desceu à casa do conselheiro, onde já muitas vezes havia ido para levar costuras. A porta estava levemente encostada. Teresa entrou cautelosamente, divisando logo a um canto, junto do fogão da sala, a figura abatida daquele grande homem que outrora todos admiravam. Um sorriso infantil assomou-lhe aos lábios, quando Teresa lhe apresentou as flores, e, estendendo as mãos, exclamou:

- Oh! belo, belo! e, prorrompendo num pranto de soluços, disse: Tudo está acabado, tudo está acabado!

- Não Sr. Vieira, não está tudo acabado, volveu Teresa em tom energético e decisivo e, apontando para cima, continuou dizendo: temos um Pai no Céu, que é e sempre será o nosso Salvador para sempre.

A fisionomia do enfermo contraiu-se de repente e, levando a mão à testa como que para evocar uma recordação longínqua, um relâmpago perpassou subitamente em seus olhos amortecidos e exclamou:

- Não está tudo no acabado? Ah! oremos: Pai nosso que estás nos Céus, e, dizendo isto, tentava juntar as mãos como lhe haviam ensinado em pequeno.

- Sim, oremos, acudiu Teresa: Pai nosso que estás nos Céus, santificado seja o Teu nome! Venha o Teu reino! Neste ponto faltou-lhe a memória, em chegando porém ao fim da oração, o seu rosto iluminou-se de novo e, balbuciando, disse: Teu é o reino, o poder e a glória, para sempre. Amém.

Deviam as primeiras e as últimas palavras desta oração ter tido particular importância para ele quando as aprendera em menino, gravando-se-lhe por isso mais firmemente na memória.

- Glória para sempre. Amém, repetiu ainda uma vez, não está tudo acabado!

Em pé no umbral da porta a Sra. Vieira escutava como seu pobre marido fazia oração. Sentiu então como que estalar-lhe alguma coisa no coração, derramando-se-lhe no peito um eflúvio ardente de vida. Debulhada em pranto, ajoelhou-se junto ao marido e pegou-lhe as mãos.

- Pobre Elisa, disse ele brandamente, afagando-lhe os cabelos como que para consolá-la, não está tudo acabado. Oremos: Pai nosso que estás nos Céus - e, repetindo a custo a oração, disse-a até o fim. Em chegando, porém, à súplica: "Perdoa as nossas dívidas," ela curvou-se até o chão; foi como que o grito do filho pródigo: "Pai, pequei contra Ti e contra o Céu, já não sou digno de ser chamado teu filho. Tem compaixão de mim, pecador, e não me deixes perecer."

Na manhã seguinte a Sra. Vieira dirigia-se, conduzida por Teresa, a uma pequena igreja do arrabalde próximo. Não tinha ela lembrança de haver jamais sucedido tal num dia de ano bom. Depois de uma noite de distrações e folguedos ninguém se sentia com disposições para ir a igreja.

E agora lá ia ela como uma criança pobre e desamparada a pedir comiseração. Teresa passara grande parte da noite de S. Silvestre em companhia deles, escutando-lhes com cordial simpatia os sofrimentos e queixas e aproveitando ao mesmo tempo o ensejo de falar-lhes do irmão que também se achava enfermo, da sua resignação e da paz de alma, concedendo-lhes assim um olhar naquele mundo oculto de verdadeira e única ventura, de que aquela senhora não tinha a menor noção.

- Não nos deixe, Teresa, rogou-lhe ela; venha sempre visitar-nos. Suas palavras são para nós um bálsamo, embora ainda não as compreendamos bem.

Em atenção a Teresa ela se dispusera a assistir ao culto naquela manhã, e se dirigia para ali pobre e carecida, desejosa de alguma coisa estável neste mundo tão cheio de ilusões. E alguma coisa estável foi-lhe com efeito oferecida, logo nas primeira palavras lidas pelo pastor: "As misericórdias do Senhor são a causa de não sermos consumidos, porque as Suas misericórdias não tem fim. Novas são cada manhã e grande é Sua fidelidade."Lamentações 3:22 e 23.

Com este tesouro no coração volveu a Sra. Vieira a casa, repetindo sempre aquelas palavras para não esquece-las.

- É talvez apenas uma centelha que lhe caiu na alma, refletiu Teresa; mas não perdia a esperança, porque conhecia o amantíssimo Salvador das ovelhas desgarradas, que, "à cana trilhada não quebrará, nem apagará o pavio que fumega" ...

Olhando esperançosa para o futuro, via da vida já quase extinta brotarem novas flores. Via a pobre e infeliz senhora receber no peito o amor dAquele que disse: "Eis que faço tudo de novo." E Ele o havia de fazer - Ele que transforma a morte em vida.

Quando a Sra. Vieira entrou no quarto de seu marido, este, levantando os olhos para ela, perguntou-lhe timidamente:

- Não está tudo acabado?

- Não, meu querido, não está tudo acabado. "As misericórdias do Senhor são a causa de não sermos consumidos, porque as Suas misericórdias não tem fim, novas ao cada manhã e grande é a Sua fidelidade."

Um sorriso alumiou o rosto do infeliz enfermo e ele balbuciou: "Pai nosso que estás no Céu - para sempre, Amém!"