Crepúsculo

Findo o trabalho do dia achava-se reunida uma família feliz ao redor da mesa, numa sala confortavelmente mobiliada. Um jovem que, junto à janela, estivera a ler o jornal, aproximou-se, associando-se aos demais daquele círculo feliz. Suas faces crestadas pelo sol, sua figura musculosa, davam a conhecer um jovem fazendeiro com cerca de dezoito anos. Ao tomar lugar à mesa saudou-o uma voz alegre:

- Então, Alfredo, que há de novo?

- Nada de extraordinário, tio Bento, respondeu Alfredo; li apenas a respeito dos prêmios oferecidos ao jovem que escrever a melhor composição.

- Ah! e é certo que também você quer se arriscar, não é assim?

- Eu, meu tio? acaso pensa que um rapaz da roça, dispondo apenas de conhecimentos limitados, seja capaz de escrever qualquer coisa que valha a pena ser lida? - Pois então? responder-lhe-ei depois de me dizer você que juízo faz da oferta do jornal, replicou o tio.

- Bem, meu tio, retorquiu Alfredo depois de hesitar alguns instantes, parece-me que a oferta visa despertar aqueles dons do intelecto que colocam a vida intelectual acima da física e contribuem para o desenvolvimento e enobrecimento da mocidade. E sou de opinião que esta oferta se destina a demonstrar que os esforços empreendidos por parte dos concorrentes ao premio reverterão em benefício tanto dos que não forem bem sucedidos como dos que alcançarem o premio.

- Muito bem, disse o tio Bento. O objetivo da oferta é sumamente útil e vantajoso. Hábitos formados na meninice mostrar-se-ão inevitavelmente nos atos do homem, pois a minha própria experiência mo ensina de modo muito claro. Com efeito, meus filhos, estou com muita vontade de lhes contar um incidente do tempo da minha mocidade.

- Conte, tio Bento; conte mesmo! exclamaram todos a uma.

Instantaneamente os olhos de todos fitaram-se em tio Bento. A mãe pôs de parte o livro e os óculos, pois também ela estivera lendo até que as trevas da noite lho haviam proibido. O pai reclinou-se sobre o encosto de sua cadeira de braços e parecia estar a escutar com tanto interesse como as crianças; pois bem sabia ele quão abundante provisão de episódios interessantes estava armazenada na memória do tio Bento.

Enquanto o tio falava parecia-nos que seu semblante tinha um aspecto excepcionalmente triste. Colocando os pés sobre um banquinho, começou a contar:

Há muitos anos, depois de concluídos os meus estudos na escola, senti um veemente desejo de obter emprego na estrada de ferro que naquele tempo estava sendo construída aqui. Graças a proteção da parte de alguns amigos obtive emprego como foguista numa das linhas principais. Não demorou que eu conseguisse captar a amizade de todos os empregados da estrada; e com o tempo o próprio diretor tornou-se meu amigo íntimo. Éramos mais ou menos da mesma idade; e não havia para mim o que não estivesse pronto a fazer por Francisco Brito. Conhecia os deveres do meu emprego e esforçava-me por cumpri-los segundo melhor podia.

Entretanto, meus filhos, fui seduzido; caí mais e mais, como já aconteceu a muitos outros antes e depois de mim. Induzido por companheiros levianos entreguei-me à bebedice e, sabem o que se seguiu depois? O vício tomou proporções cada vez maiores. Uma noite, estando eu muito embriagado, entrou Francisco Brito. Não o reconheci até que me pôs a mão ao ombro.

- Bento, disse ele, venha comigo! Por amor de mim, venha comigo!

Pegou-me pelo braço e levou-me ao ar fresco da noite. Tornando a falar comigo, sua voz assumiu tom suplicante, triste.

- Bento, por amor de sua mãe e da nossa amizade, eu lhe peço que não mais torne a beber! boa noite, meu caro amigo!

De cabeça confusa e coração pesado dirigi-me para a minha morada. Bem sabia eu que Francisco devia ter-me demitido do emprego; era, porém, em extremo magnânimo e, não obstante o meu estado decaído, sua confiança em mim era muita para assim proceder comigo.

Quando, na manhã seguinte, me levantei, senti um desejo irreprimível por aquela bebida venenosa. Num dos bolsos achei uma garrafa com aguardente, que havia comprado na noite anterior. Não pude resistir à tentação de beber ainda uma única vez. O diretor havia partido no expresso de manhã cedo a fim de inspecionar a linha, visto carecerem os carris de alguns consertos que ele queria dirigir em pessoa.

Nosso trem partiu cerca de uma hora depois do expresso. Estando o maquinista do nosso trem impedido por motivo de doença, achava-me eu sozinho na locomotiva; todavia o condutor tinha plena confiança na minha capacidade. Mas ai! antes tivesse desconfiado ou percebido que eu, naquele mesmo momento, não era senhor de mim, achando-me em estado de torpor e imbecibilidade devido ao excesso do álcool. Nunca dantes havia eu, de dia, bebido o suficiente para me embriagar e, portanto, não havia no trem ninguém que tivesse a mínima suspeita de que eu era escravo daquele vício. Mas o fato é que, naquela manhã, bebera até não poder mais ter-me em pé.

Logo depois de estar a locomotiva em movimento, bati com a cabeça de encontro à caixa de carvão, levando um profundo ferimento na testa. Procurei levantar-me, mas não me foi possível. Contudo conservei-me durante todo o tempo de plena posse das faculdades mentais, percebendo com terrível exatidão tudo que se passava ao redor de mim. Havia caído de modo tal, entre a máquina e a caixa de carvão, que podia olhar para fora. Íamos em marcha vertiginosa, sem que pessoa alguma mexesse a mão para moderar a carreira do trem. Neste instante chegamos ao local onde deviam efetuar-se os referidos trabalhos de conserto; e, ao dobrarmos uma curva da linha, avistei de súbito Francisco Brito que, de passo acelerado, ia ao longo da linha. No momento em que o avistei ele deu com o pé de encontro a uma pedra. Escorregou, ficando com o pé preso entre os trilhos. O pobre Francisco quis levantar-se, mas debalde. O trem continuava na sua corrida precipitada, e Francisco viu frustrados todos os seus esforços para erguer-se. Oh, meus filhos, a parte mais dolorosa na minha história é ter eu a certeza de quem se não houvesse estado embriagado, teria sido possível fazer parar a máquina em tempo para salvar-lhe a vida!

Aí estava eu, demasiadamente alcoolizado para mover-me! Quando nos aproximamos do local do desastre, Francisco, que caíra através dos trilhos, para o lado onde eu estava deitado na locomotiva, deu com a vista em mim e, com um olhar suplicante, estendeu-me ambos os braços como se quisesse dizer: - "Socorra-me, Bento, socorra-me!" Um segundo depois estávamos tão perto um do outro que senti como fitava os olhos nos meus ... até se fecharem para sempre. Um guarda-freio, que vira Francisco quando o trem passou por cima dele, veio à pressa para a frente e, ao topar comigo, tão vergonhosamente e estupidamente estendido na locomotiva, compreendeu instantaneamente a situação, fazendo parar o trem. Ajuntaram-se os restos mortais de Francisco, e a mim me levaram para casa atacado dum delírio furioso.Pessoa alguma das que se achavam no trem, com exceção do guarda, suspeitava que eu estivesse embriagado. E ele - nunca eu soube o motivo - guardou segredo. É provável que achasse ter eu sido punido suficientemente. Passei doente muito tempo, tendo sofrido violento acesso de meningite.

Depois de convalescido nunca mais tornei a tomar, uma gota que fosse, de bebida alcoólica.Considerava-me pior que um assassino. Quando, mais tarde, voltei a trabalhar na estrada, eu era um homem regenerado. Fui sendo promovido aos poucos, até cheguei a fazer parte da diretoria da estrada.

Vi os companheiros da minha mocidade baixarem à sepultura, um após outro; e sei que em breve terei de segui-los. Entretanto, quero dizer-lhes algumas palavras, meus queridos, antes que deixe a existência. Depois de terem saído da proteção do teto paterno, tendo vocês próprios que dirigir os seus destinos, hão de se lhes apresentar muita tentações. E espero que, quando isto suceder, se lembrem da noite em que estiveram sentados em volta do tio Bento, escutando a triste história que ele lhes contou, já no crepúsculo de sua vida.