A Senhora George

Encontrei a Sra. George, a professora do novo Ginásio Dr. J. P. Lord, pela primeira vez em uma pequena sala planejada para um professor e um aluno.

O aposento fora convertido em sala de aula para quatro garotos adolescentes. Três de nós estavam em cadeiras de rodas e um andava com uma bengala.

Todos ali na sala possuíam uma variedade de problemas médicos. O aluno com a bengala era legalmente cego. Quanto aos três em cadeiras de rodas, um era vítima de um tiro na cabeça, um tinha distrofia muscular e o outro paralisia cerebral.

Eu era o que tinha paralisia cerebral. Quando tentei falar, a Sra. George brincou comigo dizendo que parecia o chamado de acasalamento de um alce.

Cada um de nós tinha necessidades acadêmicas e emocionais diferentes, variando de se preparar para a faculdade até a se preparar para a morte. A Sra. George fez tudo o que pôde para ajudar a primeira turma do Ginásio Dr. J. P. Lord.

A Sra. George, com cinqüenta e poucos anos, cerca de um metro e meio de altura, cabelos negros que estavam ficando grisalhos (e que ficariam muito mais grisalhos ao final do ano letivo), pele azeitonada e uma voz estridente. Tinha o hábito de falar rápido demais e terminava suas explicações com "entende?"

Ela nos cumprimentou no primeiro dia de aula dizendo animadamente:

- Bom dia, rapazes. Esta sala foi arrumada no último minuto, mas acho que vai dar tudo certo. Este ginásio é o primeiro de seu tipo em Nebraska, portanto, somos pioneiros. Os pioneiros têm que agüentar alguns problemas.

Sei que vocês se conhecem, a não ser Bill e David. David, este é o Bill. Ele tem paralisia cerebral. Largou a escola mais ou menos quando você entrou, porque esta escola não tinha ginásio na época. Bill, David é um estudante havaiano de intercâmbio e tem distrofia muscular.

Fará dezenove anos no dia 6 de maio. Daremos uma festa de aniversário com dançarinas.

Imaginei se ela sabia o que era distrofia muscular. Eu sabia que David não iria durar até seu aniversário. Ele já fizera mais aniversários do que a maioria das pessoas que sofrem de sua doença. Seus pulmões já haviam sido afetados, o que significava que teria que se esforçar o ano todo para respirar.

- Agora vamos começar com o que eu quero que vocês façam. Tenho expectativas a respeito de todos, entendem? - declarou a nova e idealista professora.

Quando ela veio até mim, eu estava classificando rochas para preencher uma exigência da aula de Ciência Naturais. Sentando-se a meu lado, ela disse:

- Ouvi dizer que você está fazendo um curso por correspondência da Universidade de Nebraska, em Lincoln, e que progrediu muito nos últimos três anos. Sei que esses cursos são difíceis e exigem muito tempo. Mas vou ajudá-lo e iremos tentar a formatura na próxima primavera. Também irei lhe dar o almoço na boca, se estiver tudo bem para você. Sei que você preferiria uma daquelas mocinhas recém-saídas da faculdade, mas não tem como se livrar de mim. Alguma pergunta?

- Acho que David não chega até o seu aniversário. Seus pulmões estão fracos demais e os invernos são difíceis para qualquer um - escrevi lentamente no painel com uma caneta de feltro presa em minha cabeça.

- Nós sabemos disso, mas ele não sabe. Da mesma forma que você quer aquele diploma, David quer seu bolo de aniversário de dezenove anos.

A Sra. George cumpriu sua palavra. Terminei meus cursos e comecei outros com uma velocidade impressionante. Entretanto, David piorou durante a época do Natal.

Tinha medo de dormir à noite, pois pensava que não acordaria mais. Então a Sra. George deixava que ele dormisse durante a aula, dizendo:

- Temos um hospital do outro lado da rua e, se tivermos que visitá-lo, poderemos estar lá em cinco minutos. Portanto, David, você está mais seguro aqui do que em qualquer outro lugar.

Uma vez, quando David estava tendo problemas para respirar, ela teve que massagear seu peito durante toda a tarde. Enquanto o fazia, disse para o fisioterapeuta-assistente de pé ao lado do oxigênio:

- David está me ajudando a fortalecer meu braço para jogar tênis, então, se você vir uma mulher de um metro e meio com bíceps desenvolvidos na quadra de tênis, sou eu. Isso é um exercício fantástico! Entende?

Um dia estávamos discutindo algum assunto entediante para meu curso de História Mundial quando ela disse:

- Quando estou trabalhando com os outros dois rapazes não posso monitorar a respiração de David, então vou encarregar você, Bill, está bem? Se ele tiver um colapso, faça um dos seus barulhos de alce para chamar minha atenção.

Ele não parece bem, parece? Mas vamos mantê-lo na escola o maior tempo possível. Pelo menos sua mãe não tem que tomar conta dele quando ele está aqui. Agora devemos ser capazes de terminar este maldito curso de História em março, se tivermos sorte. Este é um curso chato e tenho certeza de que você está cheio dele, porque eu estou!

Freqüentemente, quando estava tentando respirar, David olhava para mim e dizia:

- Estou bem, Bill. Estou bem. Obrigado por tomar conta de mim.

Felizmente, meu som de alce nunca foi necessário. A vigília, entretanto, me amadureceu imensamente. Eu observava David e, ao fazê-lo, tornei-me consciente de seu desejo de viver. Vendo-o lutar a cada respiração que tomava, de repente compreendi o valor da vida. Então, quando tinha que fazer alguma pesquisa tediosa, não me importava, porque pelo menos podia fazê-lo sem ter que me preocupar em respirar.

Acho que esta era a lição que a Sra. George estava me ensinando ao fazer com que eu tomasse conta de David.

O dia 10 de abril foi o último dia de aula de David. Naquela noite ele piorou. Foi levado às pressas para o hospital, onde máquinas podiam manter sua respiração.

No dia 15 de abril de 1975, eu havia planejado visitá-lo depois da aula. Mas, naquela manhã, encontrei um bilhete escrito à mão ao lado de minha máquina de escrever dizendo:

"Não vá ao hospital hoje à noite. David morreu dormindo. Não quis contar aos outros porque hoje a escola vai ao circo e não há motivos para estragar isso. Choraremos juntos por ele. J. George."

Ainda que a Sra. George possa não ter realizado o sonho de David de um aniversário de dezenove anos (Deus sabe que ela tentou!), ela fez com que meu sonho de me formar no segundo grau se tornasse realidade.

Fiquei sentado no palco em uma tarde quente de maio em 1976, ouvindo o começo da música “O Sonho Impossível”, as palavras servindo perfeitamente à mulher vestida de amarelo, observando com orgulho enquanto eu recebia meu diploma, porque ela "sonhara o sonho impossível" e fizera com que ele se tornasse realidade.


(William L. Rush)

"Jesus, fixando os olhos neles, respondeu: Para os homens é impossível, mas não para Deus; porque para Deus tudo é possível." (Marcos 10:27)