O Milênio e o Fim do Pecado


O milênio é o reinado de mil anos, de Cristo com Seus santos, no Céu, entre a primeira e a segunda ressurreições. Durante esse tempo, serão julgados os ímpios mortos, a Terra estará completamente desolada, sem habitantes humanos com vida, mas ocupada por Satanás e seus anjos. No fim desse período, Cristo com Seus Santos e a Cidade Santa descerão do Céu à Terra. Os ímpios mortos serão então ressuscitados e, com Satanás e seus anjos, cercarão a cidade; mas fogo de Deus os consumirá e purificará a Terra. O Universo ficará assim eternamente livre do pecado e dos pecadores.

Ao longo da História, existiram aqueles que exageraram eloqüentemente a respeito dos horrores do inferno, explorando os temores das pessoas na tentativa de conduzi-las à adoração de Deus. Mas que espécie de deus retratam essas pessoas?

De que modo extinguirá Deus finalmente o mal? Que acontecerá com Satanás? O que impedirá que o mal torne algum dia a erguer sua horrorosa feição? De que modo pode um Deus justo ser também amável?

Eventos do Começo do Milênio

Durante o milênio – o período de mil anos do qual fala o vigésimo capítulo de Apocalipse – a influência de Satanás sobre a Terra será restrita, e Cristo estará reinando com os santos (Apoc. 20:1-4).

O Segundo Advento. Apocalipse 19 e 20 constituem um só conjunto; não há quebra de seqüência entre ambos. Descrevem a vinda de Cristo (Apoc. 19:11-21) e prosseguem imediatamente com o milênio, sendo que essa seqüência indica que o milênio começará por ocasião do retorno de Cristo.

O Apocalipse representa os três poderes que reúnem as nações do mundo com o objetivo de opor-se à obra e ao povo de Cristo, imediatamente antes do Segundo Advento, como sendo o dragão, a besta e o falso profeta (Apoc. 16:13). Quando “a besta e os reis da Terra, com os seus exércitos” se ajuntam para fazer guerra contra Cristo por ocasião de Seu retorno, a besta e o falso profeta são destruídos (Apoc. 19:19 e 20). O que segue em Apocalipse 20 – o capítulo do milênio – refere-se ao terceiro membro da tríade demoníaca, o dragão. Ele é aprisionado e lançado no poço do abismo, onde permanece durante os 1.000 anos.[1] Conforme vimos no capítulo 24, é mediante o segundo advento de Cristo, quando os reinos deste mundo são destruídos, que Deus estabelece o Seu reino de glória – um reino que persistirá para sempre (Dan. 2:44). Será então que Seu povo começará a reinar.

A Primeira Ressurreição. No Segundo Advento, ocorre a primeira ressurreição. Os justos, os “benditos e santos”, erguem-se dos túmulos – “sobre esses a segunda morte não tem autoridade; pelo contrário, serão sacerdotes de Deus e de Cristo e reinarão com Ele os mil anos” (Apoc. 20:6).

Os Justos Vão Para o Céu. Após a ressurreição dos justos mortos, estes e os justos vivos são reunidos “para o encontro do Senhor nos ares” (I Tess. 4:17). Então Jesus cumprirá a promessa que fez imediatamente antes de deixar este mundo: “Vou preparar-vos lugar. E, quando Eu for e vos preparar lugar, voltarei e vos receberei para Mim mesmo, para que, onde Eu estou, estejais vós também” (João 14:2 e 3). Jesus descreve o lugar para onde conduzirá Seus seguidores como a “casa de Meu Pai”, onde existem “muitas moradas” ou lugares de habitação (João 14:2). Aqui, Jesus Se refere à Nova Jerusalém, a qual não virá à Terra até o fim do milênio. Assim, no Segundo Advento, quando os justos se encontram com o Senhor “nos ares”, seu destino é o Céu – e não a Terra que acabaram de deixar.[2] Cristo não estabelecerá Seu reino de glória na Terra nessa oportunidade. Ele o fará somente no final do milênio.

Os Inimigos de Cristo São Mortos. Cristo comparou o Seu retorno com aquilo que aconteceu por ocasião do Dilúvio e na destruição de Sodoma e Gomorra (Mat. 24:37-39; Luc. 17:28-30). Essa comparação revela dois pontos: em primeiro lugar, que a destruição atingiu os ímpios de surpresa; em segundo, que aquilo que sobreveio foi efetivamente destruição – o Dilúvio veio “e os levou a todos” (Mat. 24:39). O fogo e enxofre que desceu sobre Sodoma e Gomorra “e destruiu todos” (Luc. 17:29; Mat. 24:39). Em Seu segundo Advento, Cristo descerá dos Céus com Seus exércitos, na qualidade de cavaleiro que monta um cavalo branco, e cujo nome será REI DOS REIS E SENHOR DOS SENHORES. Virá para destruir as nações rebeldes da Terra. Depois da destruição da besta e do falso profeta, os “restantes” dos seguidores de Satanás morrerão e não haverá sobreviventes, pois todos serão “mortos com a espada que saía da boca dAquele que estava montado no cavalo. E todas as aves se fartaram das suas carnes” (Apoc. 19:21).[3]

Descrevendo essa cena, dizem as Escrituras: “O Senhor sai do Seu lugar, para castigar a iniqüidade dos moradores da Terra; a Terra descobrirá o sangue que embebeu e já não encobrirá aqueles que foram mortos” (Isa. 26:21).

A Terra Torna-se Desolada. Uma vez que os salvos ascendem para a companhia do Senhor e os ímpios são destruídos mediante o Seu aparecimento, a Terra permanecerá durante algum tempo sem habitantes humanos. As Escrituras indicam essa situação. O profeta Jeremias disse: “Olhei para a Terra, e ei-la sem forma e vazia; para os Céus, e não tinham luz. Olhei para os montes, e eis que tremiam, e todos os outeiros estremeciam. Olhei, e eis que não havia homem nenhum, e todas as aves dos céus haviam fugido” (Jer. 4:23-25). Jeremias utiliza a terminologia encontrada em Gênesis 1:2, “sem forma e vazia”, indicando que a Terra se tornará tão caótica como o era ao começo da Criação.

Satanás é Preso. Os eventos que ocorrem nessa oportunidade foram prefigurados no ritual do bode emissário, no Dia da Expiação, nos serviços do santuário de Israel. No Dia da Expiação, o sumo sacerdote purificava o santuário mediante o sangue expiatório do bode do Senhor. Somente depois que a expiação se achava completa é que o ritual envolvia Azazel, o bode que simbolizava Satanás (veja o capítulo 23). Colocando as mãos sobre a cabeça desse bode, o sumo sacerdote confessava “todas as iniqüidades dos filhos de Israel, todas as suas transgressões e todos os seus pecados”, colocando-os sobre a cabeça do bode (Lev. 16:21). Depois, o bode era enviado para o deserto, para a “terra solitária” (Lev. 16:22).

Similarmente, Cristo, no santuário celestial, tem ministrado os benefícios de Sua completa expiação ao Seu povo; em Seu retorno Ele os redimirá e lhes dará a vida eterna. Quando Ele houver completado Sua obra de redenção e purificação do santuário celestial, colocará os pecados de Seu povo sobre Satanás, o originador e instigador do mal. De nenhuma forma se pode dizer que é Satanás quem efetua a expiação pelos pecados dos crentes – Cristo realizou essa obra por completo. Mas Satanás deve ser responsabilizado por todos os pecados que ele levou os salvos a praticarem. Assim como o bode emissário era conduzido ao deserto por um “homem à disposição para isso”, assim Deus banirá Satanás para a Terra desolada e desabitada.[4]

A visão que João teve do milênio, descreve em traços vívidos o banimento de Satanás. Ele viu que no começo dos mil anos, “o dragão, a antiga serpente, que é o diabo, Satanás”, foi posto em cadeias e confinado ao “abismo” (Apoc. 20:2 e 3). Isso retrata simbolicamente a cessação temporária das atividades de perseguição e engano de Santanás; “para que não mais enganasse as nações até se completarem os mil anos” (Apoc. 20:3).

O termo utilizado por João – abismo, do grego abussos – descreve apropriadamente as condições da Terra naquela oportunidade.[5] Bombardeada pelas sete últimas pragas que antecedem imediatamente a volta de Cristo (Apoc. 16:18-21) e coberta com os cadáveres dos ímpios, será a Terra um lugar da mais completa desolação.

Confinado à Terra, Satanás estará “preso” por meio de uma cadeia de circunstâncias. Uma vez que sobre a Terra não existe qualquer vida humana, Satanás não tem a quem tentar ou perseguir. Ele está preso no sentido de não ter nada para fazer.

Eventos Durante o Milênio

Cristo no Céu com os Remidos. Em Sua segunda vinda, Cristo conduz Seus seguidores para o Céu, para os lugares de morada que Ele lhes preparou na Nova. Jerusalém. Tal como Moisés e os israelitas, os redimidos, possuídos de imensa gratidão, entoarão um cântico de livramento – “o cântico de Moisés, servo de Deus, e o cântico do Cordeiro, dizendo: Grandes e admiráveis são as Tuas obras, Senhor Deus, todo-poderoso! Justos e verdadeiros são os Teus caminhos, ó Rei das nações!” (Apoc. 15:3).

Os Santos Reinam Com Cristo. É durante o milênio que Cristo cumprirá a promessa de conceder aos vencedores o “poder sobre as nações” (Apoc. 2:26). Daniel viu que após a destruição dos inimigos de Deus, “o reino, e o domínio, e a majestade dos reinos debaixo de todo o Céu serão dados ao povo dos santos do Altíssimo” (Dan. 7:27). Aqueles que são ressuscitados por Cristo na primeira ressurreição, irão reinar com Ele durante os mil anos (Apoc. 20:4).

Mas em que sentido poderão os santos reinar se estão no Céu e todos os ímpios estão mortos? Seu reinado consistirá no envolvimento em uma importante fase do governo de Cristo.[6]

O Julgamento dos Maus. João viu que durante o milênio os santos estariam envolvidos em julgamento; ele contemplou “tronos, e nestes sentaram-se aqueles aos quais foi dada autoridade de julgar” (Apoc. 20:4). Essa é a ocasião do julgamento de Satanás e de seus anjos, mencionada nas Escrituras (II Ped. 2:4; Jud. 6). É a ocasião mencionada por Paulo, de que os santos haverão de julgar o mundo e mesmo os anjos (I Cor. 6:2 e 3).[7]

O julgamento que ocorre durante o milênio não decide quem está salvo ou perdido. Essa decisão é tomada por Deus antes do Segundo Advento; todos aqueles que não participaram da primeira ressurreição ou não foram transformados, estão perdidos. O julgamento de que os santos participam serve ao propósito de responder qualquer questão que os justos possam ter em relação às causas que levaram outros a se perderem. Deus deseja que aqueles aos quais foi dada a vida eterna tenham plena confiança em Sua direção, de modo que Ele lhes revelará as operações de Sua misericórdia e justiça.

Imagine que você esteja no Céu e ali não se encontre um de seus familiares, alguém que você tinha “certeza” de que ali estaria. Tal situação poderia levar ao questionamento da justiça de Deus – e esta espécie de dúvida jaz à base de todo o pecado. A fim de eliminar para sempre a possibilidade de tais dúvidas – e para garantir que o pecado nunca mais se erguerá – Deus proverá as respostas a todas as perguntas desse tipo durante a fase revisora do julgamento, que acontecerá no milênio.

Nessa tarefa, os remidos desempenharão um papel crucial no grande conflito entre o bem e o mal. “Eles confirmarão, para sua eterna satisfação, quão sincera e pacientemente Deus Se ocupou dos pecadores perdidos. Perceberão quão negligente e obstinadamente os pecadores desprezaram e rejeitaram Seu amor. Descobrirão que mesmo pecadores aparentemente contritos acariciaram secretamente o medonho egoísmo em vez de aceitar o sistema de valores de seu Senhor e Salvador.”[8]

O Tempo de Reflexão de Satanás. Durante o milênio Satanás sofrerá intensamente. Confinado, junto com seus anjos, à Terra desolada, não mais poderá desenvolver os enganos que haviam lhe ocupado constantemente o tempo. É obrigado a contemplar os resultados de sua rebelião contra Deus e a sagrada lei; necessita ver agora o papel que desempenhou no grande conflito entre o bem e o mal. Pode olhar ao futuro tão-somente com temor diante da terrível penalidade que deverá sofrer em virtude de todo o mal pelo qual é responsável.

Eventos do Final do Milênio

No final do milênio, “os restantes dos mortos” – os ímpios – serão ressuscitados, libertando assim a Satanás da inatividade que o prendera (Apoc. 20:5 e 7). Enganando uma vez mais os ímpios, ele os conduz em ataque contra “o acampamento dos santos e a cidade querida [a Nova Jerusalém]” (Apoc. 20:9), a qual, junto com Cristo, terá descido do Céu nessa oportunidade.[9]

Cristo, os Santos e a Cidade Descem. Cristo desce novamente à Terra, com os santos e a Nova Jerusalém, tendo em vista dois propósitos. Porá término ao grande conflito ao executar as decisões do julgamento ocorrido durante o milênio, e purificará e renovará a Terra, de modo que possa aqui estabelecer Seu reino eterno. Então, em seu mais amplo sentido, “o Senhor será rei sobre toda a Terra” (Zac. 14:9).

A Ressurreição da Condenação. Chega, então, o momento em que se cumprirá plenamente a promessa de Cristo de que “todos os que se acham nos túmulos ouvirão a Sua voz” (João 5:28). Em Seu Segundo Advento, Cristo ressuscitara os justos mortos, naquela que é a primeira ressurreição, ou ressurreição da vida. Agora, ocorre a outra ressurreição mencionada por Cristo, a “ressurreição da condenação” (João 5:29). O Apocalipse também faz referência a essa ressurreição: “Os restantes dos mortos [aqueles que não participaram da primeira ressurreição] não reviveram até que se completassem os mil anos” (Apoc. 20:5).

Termina o Cativeiro de Satanás. A ressurreição dos ímpios no final do milênio libera a Satanás de seu cativeiro durante “pouco tempo” (Apoc. 20:3). Em sua última tentativa de desafio ao governo de Deus, ele “sairá a seduzir as nações que há nos quatro cantos da Terra” (Apoc. 20:8). Uma vez que os ímpios ressuscitaram no mesmo espírito rebelde que possuíam ao morrer, a tarefa de Satanás não será difícil.

O Ataque à Cidade. Em seu último engano, Satanás procurará inspirar nos ímpios a esperança de capturar o reino de Deus pela força. Reunindo todas as nações do mundo, ele as conduz contra a cidade santa (Apoc. 20:8 e 9).[10] “Os ímpios que obstinadamente recusaram entrar na Cidade de Deus por meio dos méritos do sacrifício expiatório de Cristo, agora determinam-se a conseguir a entrada e controle da cidade através de cerco e batalha.”[11]

O fato de que os ímpios, tão logo recebem novamente de Deus a vida, volvem-se contra Ele e tentam derrubar Seu reino, confirma que a decisão que Deus tomou a respeito deles está correta. Dessa forma o nome e o caráter divinos, que Satanás tentou deslustrar, serão plenamente vindicados diante de todos.[12]

O Grande Trono Branco do Julgamento. João indica que quando os inimigos de Deus tiverem cercado a cidade santa e se acharem prontos para o ataque, Deus estabelecerá Seu grande trono branco. No momento em que toda a raça humana se encontra em volta do trono – alguns seguros dentro da cidade, outros fora, horrorizados na presença do Juiz – Deus executa a última fase de Seu juízo. Foi a respeito dessa ocasião que Jesus falou, dizendo: “Ali haverá choro e ranger de dentes, quando virdes, no reino de Deus, Abraão, Isaque, Jacó e todos os profetas, mas vós lançados fora” (Luc. 13:28).

Para que seja levada a efeito essa fase executiva do juízo de Deus, os livros são abertos. “Então, se abriram os livros. Ainda outro livro, o livro da vida, foi aberto. E os mortos foram julgados, segundo as suas obras, conforme o que se achava escrito nos livros” (Apoc. 20:12). Então, Deus pronuncia a sentença de condenação.

Por que Deus tira as pessoas das sepulturas tão-somente para extinguir-lhes a vida outra vez? Durante o milênio, os remidos tiveram a oportunidade de examinar a justiça do tratamento divino em relação a todas as criaturas inteligentes do Universo. Agora, a perda de todos os condenados – inclusive Satanás e seus anjos – confirmará a justiça dos caminhos de Deus.

Foi com relação a esse grande trono branco que Paulo escreveu, e cuja profecia se cumpre agora: “Todos compareceremos perante o tribunal de Deus” (Rom. 14:10). Ali, todas as criaturas – não caídas e caídas, salvas e perdidas – dobrarão os joelhos e confessarão que Jesus Cristo é Senhor (Filip. 2:10 e 11; cf. Isa. 45:22 e 23). Então a questão da justiça de Deus terá sido resolvida para sempre. Aqueles que herdarem a vida eterna possuirão, em relação a Ele, uma fé inabalável. Nunca mais o Universo ou seus habitantes serão postos sob o alcance do pecado.

Destruição de Satanás e dos Pecadores. Imediatamente após ser pronunciada a sentença, Satanás, seus anjos e seus seguidores humanos receberão a punição devida. Eles sofrerão a morte eterna. “Desceu... fogo do céu e os consumiu” (Apoc. 20:9). A própria superfície da Terra, fora da cidade santa, parece derreterse, tornando-se um vasto lago de fogo para “juízo e destruição dos homens ímpios” (II Ped. 3:7). O “dia da vingança do Senhor” (Isa. 34:8), durante o qual Ele executará o Seu “estranho ato” (Isa. 28:21) de destruição dos inimigos, finalmente chegou. João complementa: “E, se alguém não foi achado inscrito no livro da vida, esse foi lançado para dentro do lago de fogo” (Apoc. 20:15). O diabo e seus associados sofrem a mesma sorte (Apoc. 20:10).

Todo o contexto bíblico deixa claro que esta “segunda morte” (Apoc. 21:8) que os ímpios sofrem, significa a sua total destruição. O que dizer, então, do conceito de um inferno que arde eternamente? Estudo cuidadoso mostra que a Bíblia não ensina a existência de tal inferno ou tormento.

1. Inferno. Biblicamente, “inferno é o lugar e estado de punição e destruição, pelo fogo eterno que ocorre na segunda vinda, daqueles que rejeitaram a Deus e a oferta de salvação em Cristo Jesus”.[13]

Várias versões bíblicas utilizam a palavra “inferno” para traduzir o termo hebraico sheol e seu correspondente grego hades. Esses termos em geral se referem à sepultura onde os mortos – tanto justos quanto ímpios – aguardam, em estado de inconsciência, a ressurreição. Uma vez que o conceito atual de inferno difere muito daquele implicado nos termos hebraico e grego, bom número de versões modernas da Bíblia simplesmente evitam a palavra “inferno” e transliteram os termos originais, “sheol” e “hades”.

Em contraste, o termo grego geena, que o Novo Testamento igualmente traduz como “inferno”, denota um lugar de punição dos impenitentes pelo fogo. Portanto, na Bíblia “inferno” nem sempre quer dizer a mesma coisa – e a incapacidade em distinguir isso tem conduzido a muita confusão.

Geena é derivado do hebraico Ge Hinnom, “vale de Hinom” – uma garganta existente ao lado sul de Jerusalém. Nesse lugar, o povo de Israel havia celebrado o rito pagão de oferecer seus filhos, como holocausto, a Moloque (II Crôn. 28:3; 33:1 e 6). Jeremias predisse que em virtude dos pecados do povo, o Senhor converteria o vale num “Vale de Matança”, onde os cadáveres dos israelitas seriam sepultados até que não mais houvesse lugar para fazê-lo. Os cadáveres restantes serviriam de “pasto às aves” (Jer. 7:32 e 33; 19:6; Isa. 30:33). A profecia de Jeremias sem dúvida levou os israelitas a verem Ge Hinnom como um lugar de julgamento dos maus, um lugar de repugnância, punição e vergonha.[14] Tradições rabínicas posteriores consideram o vale como lugar para a queima de carcaças e lixo.

Jesus utilizou os fogos de Hinom como representação do fogo do inferno (Mat. 5:22; 18:9). Assim, os fogos de Hinom simbolizavam o fogo consumidor do juízo final. Ele declarou que essa experiência ocorreria depois da morte (Luc. 12:5), e que o inferno destruiria tanto o corpo quanto a alma (Mat. 10:28).

Qual é a natureza do fogo do inferno? Porventura queimarão as pessoas para sempre?

2. A sorte dos ímpios. De acordo com as Escrituras, Deus promete vida eterna somente aos justos. O salário do pecado é morte, e não vida eterna no inferno (Rom. 6:23).

As Escrituras ensinam que os ímpios serão “exterminados” (Sal. 37:9 e 34); que eles perecerão (Sal. 37:20; 68:2). Não permanecerão em estado de consciência para sempre, mas serão abrasados (Mal. 4:1; Mat. 13:30 e 40; II Ped. 3:10). Serão destruídos (Sal. 145:20; II Tess. 1:9; Heb. 2:14), ou consumidos (Sal. 104:35).

3. Punição eterna. Falando da punição dos ímpios, o Novo Testamento utiliza os termos “eterno” ou “para sempre”.

Esses termos traduzem a palavra grega aionios, e aplicam-se tanto a Deus quanto ao homem. Para evitar mal-entendidos, devemos recordar que aionios é um termo relativo; seu significado é determinado pelo objeto que ele modifica. Assim, quando as Escrituras utilizam aionios em relação a Deus, isto significa que Ele possui existência infinita – pois Deus é imortal. Quando, porém, a palavra é utilizada em relação a seres humanos mortais ou a coisas perecíveis, seu sentido se restringe ao período em que a pessoa ou coisa prossegue existindo.

Judas 7, por exemplo, diz que Sodoma e Gomorra “são postas para exemplo de fogo eterno, sofrendo punição”. É evidente que estas cidades não estão queimando até hoje. Pedro disse que tal fogo reduziu aquelas cidades a cinzas, condenando-as à destruição (II Ped. 2:6). O fogo “eterno” ardeu até que nada mais houvesse para queimar, extinguindo-se então (Jer. 17:27; II Crôn. 36:19).

Similarmente, quando Cristo destina os maus para o “fogo eterno” (Mat. 25:41), esse fogo que consumirá os ímpios será “inextinguível” (Mat. 3:12). Somente apagará quando nada mais houver para ser queimado.[15]

Quando Cristo Se referiu ao “castigo eterno” (Mat. 25:46), não estava querendo dizer “ato de castigar eternamente”. O significado era que a “vida eterna [que os justos desfrutarão] continuará pelos séculos intérminos da eternidade; e que a punição [sofrida pelos ímpios] também será eterna – não uma duração eterna do sofrimento consciente, mas uma punição que será completa e final. O fim daqueles que assim sofrem é a segunda morte. Essa morte será eterna, pois dela não deverá, e não poderá, haver ressurreição.”[16]

Quando a Bíblia fala de “eterna redenção” (Heb. 9:12) e “juízo eterno” (Heb. 6:2), ela se refere aos eternos resultados de redenção e julgamento – não a um processo interminável de redimir e julgar. Da mesma forma, quando fala de punição eterna, está falando dos resultados e não do processo. A morte experimentada pelos ímpios é final e eterna.

4. Atormentados para sempre e sempre. A Escritura utiliza também a expressão “pelos séculos dos séculos” (Apoc. 14:11; 19:3; 20:10), o que tem contribuído para a conclusão de que o castigo de Satanás e dos ímpios perdurará ao longo de toda a eternidade. Entretanto, assim como ocorre com “eterno”, o objeto modificado pela expressão “pelos séculos dos séculos” ou “para sempre”, determina o significado da própria expressão. Quando ela se associa a Deus, seu significado é absoluto – pois Deus é imortal; associada aos seres humanos mortais, seu significado é limitado.

A descrição que as Escrituras fazem da divina punição de Edom, constitui bom exemplo do uso da expressão. Isaías diz que Deus haveria de transformar aquele país em piche fervente, o qual “nem de dia nem de noite se apagará”, e que a fumaça desta queima “subirá para sempre”. De geração em geração ele jazeria deserto; ninguém passaria por ali “para todo o sempre”. Edom foi destruído, mas não mais se encontra ardendo. O “para sempre” durou até que a destruição foi completada.

Ao longo de toda a Escritura, transparece claramente que o “para sempre” possui limites. O Antigo Testamento diz que um escravo poderia servir a seu senhor “para sempre” (Êxo. 21:6), que o menino Samuel deveria morar no tabernáculo “para sempre” (I Sam. 1:22), e que Jonas pensou que permaneceria no ventre do grande peixe “para sempre” (Jon. 2:6). O Novo Testamento utiliza a expressão de modo similar; Paulo, por exemplo, aconselha Filemom a receber Onésimo “para sempre” (Fil. 15). Em todos estes casos, “para sempre” refere-se a “enquanto a pessoa viver”.

O Salmo 92:7 diz que os maus serão destruídos para sempre. Profetizando a grande conflagração final Malaquias disse: “Eis que vem o dia, e arde como fornalha; todos os soberbos e todos os que cometem perversidades serão como o restolho; o dia que vem os abrasará, diz o Senhor dos Exércitos, de sorte que não lhes deixará nem raiz nem ramo” (Mal. 4:1). Uma vez que os ímpios – Satanás, anjos maus e pessoas impenitentes – são todos destruídos pelo fogo, tanto ramos quanto raízes, não mais haverá utilização adicional para a morte ou hades. Estes também serão destruídos eternamente por Deus (Apoc. 20:14).

Assim, a Bíblia deixa bem claro que eterna é a punição-resultado, e não a punição-processo. É isso que representa a segunda morte. Dessa morte não há ressurreição; seus resultados são eternos.

O Arcebispo William Temple estava correto ao afirmar: “Uma coisa podemos afirmar com segurança: o tormento eterno deve ser eliminado. Se os homens não houvessem importado a noção grega e não bíblica da indestrutibilidade natural da alma do indivíduo, e então lessem o Novo Testamento com esta mensagem em mente, haveriam de obter deste [o Novo Testamento] a crença, não de um tormento eterno, mas de uma aniquilação. É o fogo que é chamado de ‘eterno’, não a vida lançada dentro dele.”[17]

Tendo sido executada completamente a penalidade determinada pela lei de Deus, acham-se satisfeitas as demandas da justiça. Novos céus e nova Terra proclamam a justiça do Senhor.

5. O princípio da punição. A morte é o resultado final do pecado. Como resultado do pecado, todos os que rejeitam a salvação oferecida por Deus, morrerão eternamente. Contudo, alguns pecaram flagrante e demoniacamente, deleitando-se com os procedimentos que praticaram, levando outras pessoas ao sofrimento. Outros viveram uma existência pacífica e de relativo valor moral, sendo que sua maior culpa será o fato de haverem rejeitado a salvação que provém de Cristo. Seria justo que todos sofressem igual punição?

Cristo deixou claro este ponto: “Aquele servo, porém, que conheceu a vontade de seu senhor e não se aprontou, nem fez segundo a sua vontade será punido com muitos açoites. Aquele, porém, que não soube a vontade de seu senhor e fez coisas dignas de reprovação levará poucos açoites. Mas àquele a quem muito foi dado, muito lhe será exigido; e àquele a quem muito se confia, muito mais lhe pedirão” (Luc. 12:47 e 48).

Indubitavelmente, aqueles que mais se rebelaram contra Deus, sofrerão mais do que aqueles que não o fizeram. Mas deveríamos entender seu sofrimento final em termos da “segunda morte” experimentada por Cristo na cruz. Ali, suportou Ele os pecados de todo o mundo. Foi a pavorosa separação de Seu Pai, ocasionada pelo pecado, que Lhe causou a maior agonia e sofrimento – uma angústia mental que está além de qualquer descrição. Assim ocorrerá com os pecadores perdidos. Eles colherão o que semearam, não apenas durante esta vida, como também em sua destruição final. Em presença de Deus, a culpa que sentirão em virtude dos pecados que cometeram, causar-lhes-á sofrimento e agonia indescritíveis. Quanto maior a culpa, tanto maior a agonia. Satanás, o instigador e promotor do pecado, sofrerá mais que todos.[18]

A Purificação da Terra. Descrevendo o dia do Senhor, quando todo traço de pecado for extinto, Pedro diz: “Os céus passarão com estrepitoso estrondo, e os elementos se desfarão abrasados; também a Terra e as obras que nela existem serão atingidas” (II Ped. 3:10).

O fogo que destrói os ímpios, purifica a Terra da poluição do pecado. Das ruínas da Terra, Deus fará surgir “novo céu e nova Terra, pois o primeiro céu e a primeira Terra passaram” (Apoc. 21:1). Da Terra purificada, recriada – o lar eterno dos remidos – Deus banirá para sempre a tristeza, a dor e a morte (Apoc. 21:4). Finalmente será extinta a maldição trazida pelo pecado (Apoc. 22:3).

Em vista da vinda do dia do Senhor, no qual pecadores impenitentes e pecado serão destruídos, Pedro aconselha a todos: “Visto que todas essas coisas hão de ser assim desfeitas, deveis ser tais como os que vivem em santo procedimento e piedade.” Baseando sua esperança na promessa do retorno de Cristo, ele afirmou: “Nós... segundo a Sua promessa, esperamos novos céus e nova Terra, nos quais habita justiça. Por essa razão, pois, amados, esperando estas coisas, empenhai-vos por ser achados por Ele em paz, sem mácula e irrepreensíveis” (II Ped. 3:11, 13 e 14).

Referências:
[1]. Veja SDA Bible Commentary, edição revista, vol. 7, pág. 885.
[2]. Veja Questions on Doctrine, pág. 495.
[3]. “Quando a besta e o falso profeta são lançados no lago de fogo (Apoc. 19:20), ‘o remanescente’ (Apoc. 19:21), ou o ‘restante’ de seus seguidores são mortos pela espada de Cristo. Esses são os reis, capitães, homens poderosos, ‘todos os homens, tanto livres quanto escravos’ (Apoc. 19:18). As mesmas classes são mencionadas sob o sexto selo, como procurando esconder-se da face do Cordeiro (Apoc. 6:14-17), quando os céus se enrolam como um pergaminho e toda montanha e ilha se move de seu lugar. Evidentemente esses textos descrevem o mesmo evento avassalador, a segunda vinda de Cristo.
“Quantos estarão envolvidos na morte do ‘remanescente’ (Apoc. 19:21)? De acordo com Apoc. 13:8, haverá sobre a Terra, por ocasião do advento, apenas duas classes de pessoas: ‘todos os que habitam sobre a terra adorarão [a besta], aqueles cujos nomes não estão inscritos no livro da vida’. Torna-se evidente, portanto, que ao o ‘remanescente’ ser morto pela espada (Apoc. 19:21), não haverá sobreviventes, exceto aqueles que triunfaram sobre a besta, ou seja, aqueles cujo nome está inscrito no livro da vida (Apoc. 13:8)” (SDA Bible Commentary, edição revista, vol. 7, pág. 885).

[4]. Cf. Questions on Doctrine, pág. 500. O bode emissário não é o salvador dos justos.
[5]. A Septuaginta utiliza essa expressão para traduzir o hebraico tehon, “profundo”, em Gên. 1:22. Isso indica que a condição da Terra durante o milênio reflete pelo menos em parte as condições da Terra no princípio, quando ela era “sem forma e vazia; havia trevas sobre a face do abismo”. Veja SDA Bible Commentary, edição revista, vol. 7, pág. 879.
[6]. O fato de que eles reinam, ou possuem domínio, não significa necessariamente que deva haver pessoas más que vivem sobre a Terra. No princípio, Deus deu a Adão e Eva o domínio (Gên. 1:26). Antes de pecarem, reinaram sobre a parcela da criação que Deus colocou sob a sua jurisdição. Para que alguém reine, não é necessário que tenha súditos ingovernáveis.
[7]. SDA Bible Commentary, edição revista, vol. 7, pág. 880.
[8]. Maxwell, God Cares (Boise, ID: Pacific Press, 1585), vol. 2, pág. 500.
[9]. O quadro descritivo que o Apocalipse faz da descida da Nova Jerusalém não necessariamente indica o tempo exato do acontecimento, pois no capítulo anterior vimos a “cidade querida” cercada pelos exércitos do demônio. Esse cenário leva à conclusão de que a Nova Jerusalém deve ter descido antes da restauração da Terra.
[10]. Os nomes Gogue e Magogue achavam-se associados aos inimigos de Israel, os quais haveriam de atacar o povo de Deus e Jerusalém depois do exílio (Ezeq. 38:2 e 14-16). Várias das profecias relacionadas com o antigo Israel não se cumpriram. Assim, a poderosa confederação inimiga da qual Ezequiel falou como dirigindo-se contra Jerusalém, manifestar-se-á quando Deus permitir que Satanás, com o seu exército de perdidos, venha contra Seu povo e Sua cidade querida para a batalha final do grande conflito.
[11]. Questions on Doctrine, pág. 505.
[12]. Cf. SDA Bible Commentary, edição revista, vol. 4, pág. 708.
[13]. “Hell”, SDA Encyclopedia, edição revista, pág. 579.
[14]. Veja “Hell”, SDA Dictionary, edição revista, pág. 475.
[15]. Verifique a profecia de Jeremias quanto à destruição de Jerusalém com fogo “que não se apagará” (Jer.17:27), a qual se cumpriu quando Nabucodonosor tomou a cidade (II Crôn. 36:19). O fogo queimou até que a cidade foi destruída, e depois se extinguiu.
[16]. Questions on Doctrine, pág. 539.
[17]. William Temple, Christian Faith and Life (Nova Iorque: Macmillan, 1931), pág. 81.
[18]. Cf. “Hell”, SDA Bible Dictionary, edição revista, pág. 475.