Morte e Ressurreição


O salário do pecado é a morte. Mas Deus, o único que é imortal, concederá vida eterna a Seus remidos. Até aquele dia, a morte é um estado inconsciente para todas as pessoas. Quando Cristo, que é a nossa vida, Se manifestar, os justos ressuscitados e os justos vivos serão glorificados e arrebatados para o encontro de seu Senhor. A segunda ressurreição, a ressurreição dos ímpios, ocorrerá mil anos mais tarde.

O exército filisteu dirigiu-se para Suném, estabeleceu ali seu acampamento e preparou-se para atacar Israel. Longe de sentir-se otimista, o rei Saul posicionou o exército israelita nas proximidades do Monte Gilboa. No passado, a segurança da presença de Deus habilitara Saul a conduzir Israel destemidamente contra seus inimigos. Mas ele se apartara de servir ao Senhor, e quando o rei apóstata tentou estabelecer contato com Deus a respeito do resultado da batalha iminente, Deus recusou-Se a manter qualquer comunicação com ele.

O agourento temor do desconhecido dia seguinte pesava sobre o coração de Saul. Se tão-somente Samuel estivesse ali. Mas Samuel havia morrido e não mais poderia aconselhá-lo. Ou será que poderia?

Localizando uma feiticeira que escapara às suas caçadas anteriores contra essa espécie de gente, o enorme rei tentou obter por intermédio dela alguma informação quanto ao resultado da batalha do dia seguinte. Ele requereu: “Faze-me subir a Samuel”. Durante a sessão, a médium viu um “espírito que subia da terra”. Esse espírito informou ao desgraçado rei que não apenas Israel iria perder a batalha, como também ele e seus filhos seriam mortos.

A predição provou-se verdadeira. Mas foi realmente o espírito de Samuel que fez a predição? Como poderia uma feiticeira, condenada por Deus, possuir poder sobre o espírito de Samuel – profeta divino? E de onde veio Samuel – por que o seu espírito “subiu da terra”? O que a morte fizera com Samuel? Se não foi o espírito de Samuel que falou com Saul, quem foi?

Examinemos aquilo que a Bíblia tem a dizer quanto ao assunto da morte e da ressurreição.

Imortalidade e Morte

Imortalidade é o estado ou qualidade daquilo que não está sujeito à morte. Os tradutores das Escrituras usaram a palavra imortalidade para traduzir os termos gregos athanasia, “ausência de morte”, e aphtharsia, “incorruptibilidade”. De que modo esse conceito se relaciona com Deus e com os seres humanos?

Imortalidade. As Escrituras revelam que o Deus eterno é imortal (I Tim. 1:17) De fato, Ele é “o único que possui a imortalidade” (I Tim. 6:16). Ele é incriado, auto-existente, não tendo começo nem fim. “As Escrituras em parte alguma descrevem a imortalidade como uma qualidade ou estado que o homem – ou sua ‘alma’ ou ‘espírito’ – possui inerentemente. Os termos usualmente traduzidos como ‘alma’ e ‘espírito’... ocorrem mais de 1.600 vezes na Bíblia, mas em nenhum caso estão associados a ‘imortal’ ou ‘imortalidade’”.[1]

Em contraste com Deus, portanto, os seres humanos são mortais. A Escritura compara sua vida com uma “neblina que aparece por instante e logo se dissipa” (Tia. 4:14). Eles são apenas “carne, vento que passa e já não volta” (Sal. 78:39). O homem “nasce como a flor e murcha; foge como a sombra e não permanece” (Jó 14:2).

Deus e os seres humanos diferem acentuadamente. Deus é infinito, os homens são finitos. Deus é imortal, eles são mortais. Deus é eterno, eles são transitórios.

Imortalidade Condicional. Na Criação, “formou o Senhor Deus o homem do pó da terra e lhe soprou nas narinas o fôlego de vida, e o homem passou a ser alma vivente” (Gên. 2:7). O relatório da Criação revela que a vida da humanidade deriva de Deus (cf. Atos 17:25 e 28; Col. 1:16 e 17). O corolário desse fato básico é que a imortalidade não é inerente ao homem, mas é um dom de Deus.

Quando Deus criou Adão e Eva, concedeu-lhes liberdade de decisão – a capacidade de escolher. Ele poderia obedecer ou deixar de fazê-lo, e a continuação de sua existência dependeria de contínua obediência através do poder de Deus. Assim, a sua posse do dom da imortalidade era condicional.

Deus esclareceu cuidadosamente as condições sob as quais ele perderia esse dom – comendo da “árvore do conhecimento do bem e do mal”. Deus o advertiu: “No dia em que dela comeres, certamente morrerás” (Gên. 2:17).[2]

Morte: Salário do Pecado. Contradizendo a afirmativa divina de que a desobediência acarretaria a morte, Satanás assegurou: “É certo que não morrereis” (Gên. 3:4). Mas depois de haverem transgredido a ordem divina, Adão e Eva descobriram que o salário do pecado é realmente a morte (Rom. 6:23). Seu pecado lhes trouxe a sentença: Retornarás “à terra, pois dela foste formado; porque tu és pó e ao pó tornarás” (Gên. 3:19). Essas palavras não indicam uma continuação da vida, e sim a sua cessação.

Depois de pronunciar essa sentença, Deus barrou ao par pecaminoso o acesso à árvore da vida, para que não pudessem comer e viver para sempre (Gên. 3:22). Essa ação divina tornou claro que a imortalidade prometida com base na obediência, havia-se perdido através do pecado. Agora eles se haviam tornado mortais, sujeitos à morte. E uma vez que Adão não mais poderia transmitir aquilo que ele próprio não possuía, “a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram” (Rom. 5:12).

Foi tão-somente a misericórdia de Deus que protegeu Adão e Eva da morte imediata. O Filho de Deus oferecera-Se para dar Sua própria vida a fim de que tivessem outra oportunidade – uma segunda chance. Ele era o “Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo” (Apoc. 13:8).

Esperança Para a Humanidade. Embora as pessoas nasçam mortais, a Bíblia as estimula a perseguirem a imortalidade (Rom. 2:7). Jesus Cristo é a fonte de sua imortalidade: “O dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor” (Rom. 6:23; cf. I João 5:11). Ele “não só destruiu a morte, como trouxe à luz a vida e a imortalidade” (II Tim. 1:10). “Porque, assim como, em Adão, todos morrem, assim também todos serão vivificados em Cristo” (I Cor. 15:22).

O próprio Cristo disse que Sua voz abriria os sepulcros e ressuscitaria os mortos (João 5:28 e 29).

Se Cristo não houvesse vindo, a situação humana seria de total desesperança, e todos os que morressem teriam perecido para sempre. Face à realidade de Cristo, porém, ninguém precisa perecer. Disse João: “Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o Seu Filho unigênito, para que todo o que nEle crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (João 3:16). Assim, a fé em Cristo não apenas salva da penalidade do pecado, como também traz consigo o inapreciável dom da imortalidade.

Cristo trouxe “imortalidade, mediante o evangelho” (II Tim. 1:10). Paulo nos assegura que são as Sagradas Escrituras que nos tornam “sábio para a salvação pela fé em Cristo Jesus” (II Tim. 3:15). Aqueles que não recebem o evangelho não receberão a imortalidade.

O Recebimento da Imortalidade. O momento em que nos será concedido o dom da imortalidade, é assim descrito por Paulo: “Eis que vos digo um mistério: Nem todos dormiremos, mas transformados seremos todos, num momento, num abrir e fechar de olhos, ao ressoar da última trombeta. A trombeta soará, os mortos ressuscitarão incorruptíveis, e nós seremos transformados. Porque é necessário que este corpo corruptível se revista da incorruptibilidade, e que o corpo mortal se revista da imortalidade. E, quando este corpo corruptível se revestir de incorruptibilidade, e o que é mortal se revestir de imortalidade, então se cumprirá a palavra que está escrita: Tragada foi a morte pela vitória” (I Cor. 15:51-54). Isso torna muito claro que Deus não colocou a imortalidade sobre o crente por ocasião da morte, mas irá concedê-la na ressurreição, quando soar a “última trombeta”.

Então isto que é “mortal” se revestirá da “imortalidade”. Ao passo que João destaca que recebemos o dom da vida eterna quando aceitamos a Jesus Cristo como Salvador pessoal (I João 5:11-13), a efetiva concretização do dom ocorrerá quando Cristo retornar. Somente então seremos transformados de mortais em imortais, de corruptíveis em incorruptíveis.

A Natureza da Morte

Se a morte é a cessação da vida, o que diz a Bíblia quanto à condição da pessoa na morte? O que faz com que seja importante que o cristão compreenda esse ensinamento bíblico?

A Morte é um Sono. Morte não é aniquilação completa; é apenas um estado temporário de inconsciência enquanto a pessoa aguarda a ressurreição. A Bíblia identifica repetidamente esse estado intermediário como um sono.

Referindo-se à morte de algumas pessoas, o Antigo Testamento descreve Davi, Salomão e outros reis de Israel e Judá como estando a dormir com seus pais (I Reis 2:10; 11:43; 14:20 e 31; 15:8; II Crôn. 21:1; 26:23; etc. Jó também identificou a morte como um sono (Jó 14:10-12), assim como o fizeram Davi (Sal. 13:3), Jeremias (Jer. 51:39 e 57) e Daniel (Dan. 12:2).

O Novo Testamento utiliza as mesmas figuras. Ao descrever a condição da filha de Jairo, que estava morta, Jesus disse que ela estava dormindo (Mat. 9:24; Mar. 5:39). Ele referiu-Se a Lázaro, já morto, da mesma maneira (João 11:11-14). Mateus escreveu que muitos “corpos de santos, que dormiam, ressuscitaram” após a ressurreição de Cristo (Mat. 27:52). Ao registrar o martírio de Estêvão, Lucas disse que ele “adormeceu” (Atos 7:60). Tanto Paulo quanto Pedro também se referiram à morte como um sono (I Cor. 15:51 e 52; I Tess. 4:13-17; II Ped. 3:4).

A representação bíblica da morte como sono caracteriza muito bem a sua natureza, conforme o demonstram as seguintes comparações: 1. Aqueles que dormem estão inconscientes. “Os mortos não sabem coisa nenhuma” (Ecl. 9:5). 2. No sono, os pensamentos conscientes cessam. “Sai-lhes o espírito, e eles tornam ao pó; nesse mesmo dia, perecem todos os seus desígnios” (Sal. 146:4).[3] . O sono põe fim a todas as atividades do dia. “No além, para onde tu vais, não há obra, nem projetos, nem conhecimento, nem sabedoria alguma” (Ecl. 9:10). [4]. O sono nos dissocia daqueles que estão despertos e de suas atividades. “Para sempre não têm eles parte em coisa alguma do que se faz debaixo do Sol” (verso 6). [5]. Sono normal inativa as emoções. “Amor, ódio e inveja para eles já pereceram” (verso 6). [6]. Durante o sono, as pessoas não louvam a Deus. “Os mortos não louvam ao Senhor” (Sal. 115:17). [7]. O sono pressupõe posterior despertar. “Vem a hora em que todos os que se acham nos túmulos ouvirão a Sua voz e sairão” (João 5:28 e 29).3

A Pessoa Retorna ao Pó. Para compreender o que ocorre com a pessoa na morte, é necessário entender o que constitui a sua natureza. A Bíblia retrata a pessoa como uma unidade orgânica. Por vezes, ela utiliza a palavra alma para referir-se ao indivíduo como um todo, e outras vezes para identificar suas afeições e emoções. Mas ela não ensina que o homem é composto de duas partes separadas. Corpo e alma somente existem juntos; eles formam uma unidade indivisível.

Na criação da humanidade, a união do pó da terra (elementos terrestres) com o fôlego de vida produziu uma criatura ou alma vivente. Adão não recebeu uma alma como entidade separada; ele tornou-se alma vivente (Gên. 2:7). Na morte, ocorre o inverso: o pó da terra menos o fôlego de vida resulta numa pessoa morta ou alma morta, sem qualquer grau de consciência (Sal. 146:4). Os elementos que haviam composto o corpo retornam à terra de onde haviam provindo (Gên. 3:19). A alma não possui existência consciente à parte do corpo, e em parte alguma a Escritura indica que por ocasião da morte a alma sobrevive como entidade consciente. Efetivamente, “a alma que pecar, essa morrerá” (Ezeq.18:20).

O Domicílio da Morte. O Antigo Testamento chama de sheol (hebraico) e hades (grego) o lugar para onde vão as pessoas quando morrem. Nas Escrituras, sheol normalmente significa apenas sepultura.4 O significado de hades é similiar ao de sheol.5

Todos os mortos vão para esse lugar (Sal. 89:48), tanto os justos quanto os ímpios. Jacó assim se expressou: “Chorando, descerei... até à sepultura [sheol]” (Gên. 37:35). Quando a Terra abriu a sua “boca” para engolir o rebelde Coré e seus companheiros, eles “vivos desceram ao abismo [sheol]” (Núm. 16:30).

O sheol recebe a pessoa toda por ocasião da morte. Quando Cristo morreu, Ele foi para a sepultura [hades] mas na ressurreição Sua alma deixou a sepultura [hades, Atos 2:27 e 31, ou sheol, Sal. 16:10]. Ao Davi agradecer a Deus pela cura, testificou que sua alma havia sido salva da “sepultura [sheol]” (Sal. 30:3).

A sepultura não é um lugar de consciência.6 Uma vez que a morte é um sono, os mortos deverão permanecer em estado de inconsciência, na sepultura, até à ressurreição, quando os sepulcros (hades) entregarão os mortos (Apoc. 20:13).

O Espírito Retorna a Deus. Enquanto o corpo retorna à terra, o espírito retorna a Deus. Salomão disse que na morte “o pó volte à terra, como o era, e o espírito volte a Deus, que o deu” (Ecl. 12:7). Isso é verdadeiro para todos, tanto justos quanto ímpios.

Muitos têm pensado que esse texto provê evidência de que a essência da pessoa prossegue vivendo após a morte. Mas na Bíblia, nem o termo hebraico, nem o termo grego para espírito (ruach e pneuma, respectivamente) se referem a uma entidade inteligente, capaz de existência consciente à parte do corpo. Ao contrário, esses termos se aplicam ao “fôlego de vida” – o princípio vital da existência que anima seres humanos e animais.

Salomão escreveu: “Porque o que sucede aos filhos dos homens sucede aos animais; o mesmo lhes sucede: como morre um, assim morre o outro, todos têm o mesmo fôlego de vida [ruach], e nenhuma vantagem tem o homem sobre os animais. ... Todos vão para o mesmo lugar; todos procedem do pó e ao pó tornarão. Quem sabe que o fôlego de vida [ruach] dos filhos do homem se dirige para cima e o dos animais para baixo, para a terra?” (Ecl. 3:19-21). Assim, de acordo com Salomão, por ocasião da morte não há diferença entre o espírito de homens e de animais.

A declaração de Salomão, de que o espírito (ruach) retorna a Deus que o deu, indica que o que retorna a Deus é simplesmente o princípio vital que Ele distribuiu. Não há indicação de que o espírito, ou respiração, seja uma entidade consciente separada do corpo. Este ruach pode ser considerado igual ao “fôlego de vida” que Deus assoprou no primeiro ser humano a fim de animar-lhe o corpo até então sem vida (cf. Gên. 2:7).

Harmonia ao Longo das Escrituras. Muitos cristãos honestos, que não estudaram todo o ensinamento bíblico no tocante à morte, têm ignorado o fato de que a morte é um estado de sono até à ressurreição. Eles têm acreditado que várias passagens bíblicas apóiam a idéia de que o espírito, ou alma, possui existência consciente após a morte. Um estudo mais cuidadoso revela, não obstante, que o ensinamento sistemático da Bíblia é que a morte ocasiona a cessação da consciência.7

Espiritismo. Se na morte o estado é de completa insensibilidade, com quem ou com que se comunicam os médiuns espíritas?

Qualquer pessoa honesta admitirá que pelo menos parte desses fenômenos são fraudulentos; outros, porém, não podem ser explicados como tais. Existe obviamente algum poder sobrenatural conectado com o espiritualismo. O que ensina a Bíblia a respeito do assunto?

1. As bases do espiritismo. O espiritismo originou-se com a primeira mentira de Satanás a Eva – “É certo que não morrereis” (Gên. 3:4). Suas palavras foram o primeiro sermão sobre imortalidade da alma. Atualmente, por todo o mundo, religiões de todos os tipos repetem involuntariamente o mesmo erro. Para muitos, a sentença divina, “a alma que pecar, essa morrerá” (Ezeq. 18:20) tem sido invertida, recebendo o significado: “A alma, mesmo que peque, viverá eternamente.”

A errônea doutrina da imortalidade natural conduziu à crença do estado consciente na morte. Conforme vimos, essa posição contradiz diretamente o ensinamento bíblico a respeito do assunto. Ela foi incorporada à fé cristã a partir da filosofia pagã – particularmente a de Platão – durante o tempo da grande apostasia. Tais crenças vieram a se tornar o ponto de vista prevalecente dentro do cristianismo e ainda hoje representam o pensamento dominante.

A crença de que os mortos estão conscientes preparou muitos cristãos para a aceitação do espiritismo. Se os mortos estão vivos e na presença de Deus, por que não poderiam retornar à Terra na qualidade de espíritos ministradores? E se podem fazê-lo, por que não tentar comunicação com eles a fim de receber deles conselho e instrução, para evitar infortúnios, ou para receber conforto em meio a tristezas?

Edificando sobre essa linha de raciocínio, Satanás e seus anjos (Apoc. 12:4 e 9) estabeleceram uma linha de comunicação através da qual podem levar a efeito os seus enganos. Por intermédio de “técnicas” como as sessões espíritas eles personificam os amados falecidos, trazendo suposto conforto e segurança aos vivos. Por vezes, predizem eventos futuros, os quais, caso se tornem realidade, resultam em credibilidade para o embuste. A partir daí, as perigosas heresias por eles transmitidas recebem a marca da autenticidade, mesmo que contradigam a Bíblia e a lei de Deus. Tendo conseguido remover as barreiras contra o mal, Satanás adquire pleno domínio sobre as pessoas, afasta-as de Deus e destina-as à destruição certa.

2. Advertência contra o espiritismo. Ninguém necessita ser iludido pelo espiritismo. A Bíblia demonstra claramente que suas pretensões são falsas. Conforme vimos, a Bíblia ensina que os mortos não sabem coisa alguma, que eles jazem inconscientes na sepultura.

A Bíblia também proíbe fortemente qualquer tentativa de comunicação com os mortos ou com o mundo dos espíritos. Ela diz que aqueles que pretendem comunicar-se com os mortos, tais como os médiuns da atualidade, na verdade estão se comunicando com “espíritos familiares” que são “espíritos de demônios”. O Senhor disse que essas atividades constituem abominação, e aqueles que as praticassem deveriam ser punidos com a morte (Lev. 19:31; 20:27; cf. Deut. 18:10 e 11).

Isaías expressou muito bem a futilidade do espiritismo: “Quando vos disserem: Consultai os necromantes e os adivinhos, que chilreiam e murmuram, acaso não consultará o povo ao seu Deus? A favor dos vivos se consultarão os mortos? À lei e ao testemunho! Se eles não falarem dessa maneira, jamais verão a alva” (Isa. 8:19 e 20). Efetivamente, apenas os ensinamentos bíblicos podem salvaguardar os cristãos contra este avassalador engano.

3. Manifestações do espiritismo. A Bíblia registra vários casos de atividades espiritualistas – desde os mágicos de Faraó, os mágicos, astrólogos e adivinhos de Nínive e Babilônia, até aos feiticeiros e médiuns de Israel – e todas elas foram condenadas. Um exemplo é a sessão desempenhada pela feiticeira de En-Dor por solicitação de Saul, com a qual iniciamos este capítulo.

Dizem as Escrituras: “Consultou Saul o Senhor, porém o Senhor não lhe respondeu, nem por sonhos, nem por Urim, nem por profetas” (I Sam. 28:6).

Portanto, Deus nada teve a ver com o que aconteceu em En-Dor. Saul foi enganado por um demõnio que personificou Samuel; ele não viu efetivamente a Samuel.

A feiticeira contemplou a forma de um homem idoso, ao passo que Saul apenas “percebeu” ou concluiu que se tratava de Samuel (verso 14).

Se queremos crer que aquela aparição era realmente Samuel, devemos nos preparar para acreditar que os feiticeiros, adivinhos, necromantes, mágicos e médiuns espíritas são capazes de chamar os justos mortos de qualquer lugar em que estejam depois de morrerem. Temos também de aceitar que o bondoso Samuel existia em estado consciente em algum lugar da Terra, uma vez que o homem idoso “sobe da terra” (verso 13).

Essa sessão levou Saul ao desespero, não à esperança. No dia seguinte, ele cometeu o suicídio. Observe que o assim chamado Samuel predissera que no dia seguinte Saul e seus filhos estariam com ele (I Sam. 28:19). Se ele estava correto, deveríamos concluir que após a morte o desobediente Saul e o justo Samuel passariam a viver juntos. Em lugar de tudo isso, devemos concluir que um anjo mau produziu os eventos enganadores que ocorreram durante aquela sessão.

4. O engano final. No passado, as manifestações do espiritismo restringiam-se ao reino do oculto, porém mais recentemente o fenômeno assumiu uma aparência “cristã”, de modo a poder enganar o mundo cristão. Professando aceitar a Cristo e a Bíblia, o espiritismo tornou-se um inimigo perigoso dos crentes. Seus efeitos são sutis e enganadores. Através da influência do espiritismo, “a Bíblia é interpretada de molde a agradar ao coração não regenerado, enquanto suas verdades solenes e vitais são anuladas. Preocupa-se com o amor, como o principal atributo de Deus, rebaixando-o, porém, até reduzi-lo a sentimentalismo enfermiço, pouca distinção fazendo entre o bem e o mal. A justiça de Deus, Sua reprovação ao pecado, os requisitos de Sua santa lei, tudo isto é posto de parte. O povo é ensinado a considerar o Decálogo como letra morta. Fábulas aprazíveis, fascinantes, cativam os sentidos, levando os homens a rejeitar as Sagradas Escrituras como o fundamento da fé”.[8]

Através desses meios, o certo e o errado tornam-se relativos, e cada pessoa, ou situação, ou cultura torna-se a norma do que é “verdade”. Em essência, cada pessoa torna-se um deus, cumprindo assim a promessa satânica: “Sereis como Deus” (Gên. 3:5).

Encontra-se diante de nós a “hora da provação que há de vir sobre o mundo inteiro” (Apoc. 3:10). Satanás está a ponto de usar grandes sinais e milagres em seu esforço final para enganar o mundo. Falando a respeito deste engano avassalador, João escreveu: “Vi sair da boca do dragão, da boca da besta e da boca do falso profeta três espíritos imundos semelhantes a rãs; porque eles são espíritos de demônios, operadores de sinais, e se dirigem aos reis do mundo inteiro com o fim de ajuntá-los para a peleja do grande dia do Deus todo-poderoso” (Apoc. 16:13 e 14; cf. 13:13 e 14).

Somente aqueles que são guardados pelo poder de Deus, que têm sua mente fortalecida pelas verdades das Escrituras, aceitando-as em toda a sua autoridade, estarão aptos a escapar. Todos os demais não possuem proteção e serão enredados por este poderoso engano.

Primeira e Segunda Mortes. A segunda morte é a punição final dos pecadores impenitentes – todos aqueles cujos nomes não estão inscritos no livro da vida – e ocorre no final dos 1.000 anos. Não existe ressurreição desta morte. Com a destruição de Satanás e dos injustos, o pecado e a própria morte são erradicados (I Cor. 15:26; Apoc. 20:14; 21:8). Cristo nos assegura que todo aquele que vencer, “de nenhum modo sofrerá dano da segunda morte” (Apoc. 2:11).

Baseados naquilo que a Escritura designou como segunda morte, podemos assumir que a primeira morte é aquilo que todas as pessoas – exceto os que forem trasladados – experimentam como resultado da transgressão de Adão. Ela é “o final normal da humanidade sob os efeitos degenerativos do pecado”.[9]

Ressurreição

Ressurreição é “a restauração da vida, juntamente com a plenitude do ser e da personalidade, subseqüentemente à morte”.[10] Uma vez que a humanidade está sujeita à morte, deve haver uma ressurreição para que possa existir novamente a experiência da vida após a sepultura. Através do Antigo e do Novo Testamentos, os mensageiros de Deus expressaram sua esperança quanto a uma ressurreição (Jó 14:13-15; 19:25-29; Sal. 49:15; 73:24; Isa. 26:19; I Cor. 15).

A esperança da ressurreição, para a qual temos sólida evidência, estimula-nos com o pensamento de que poderemos desfrutar um futuro melhor para além do presente mundo, pois aqui a morte é o destino de todos.

A Ressurreição de Cristo. A ressurreição dos justos mortos para a imortalidade acha-se intimamente associada à ressurreição de Cristo, pois é o ressurreto Jesus que no devido tempo operará a ressurreição dos mortos (João 5:28 e 29).

1. Sua importância. O que teria acontecido se Cristo não houvesse ressuscitado? Paulo resume as conseqüências: a. Não haveria sentido em se pregar o evangelho: “Se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação, e vã, a vossa fé” (I Cor. 15:14). b. Não haveria perdão de pecados: “E, se Cristo não ressuscitou, ... ainda permaneceis nos vossos pecados” (verso 17). c. Não haveria propósito em se crer em Cristo: “E, se Cristo não ressuscitou, é vã a vossa fé” (verso 17). d. Não haveria ressurreição geral dos mortos: “Ora, se é corrente pregar-se que Cristo ressuscitou dentre os mortos, como, pois, afirmam alguns dentre vós que não há ressurreição de mortos?” (verso 12). e. Não haveria qualquer esperança para além do túmulo: “E, se Cristo não ressuscitou, ... os que dormiram em Cristo pereceram” (versos 17 e 18).[11]

2. Ressurreição corporal. O Cristo que saiu da tumba era o mesmo Jesus que vivera aqui em carne. Agora Ele possuía um corpo glorificado, mas este ainda era um corpo real. Era tão real que os outros nem mesmo perceberam qualquer diferença (Luc. 24:13-27; João 20:14-18).

O próprio Jesus negou que fosse uma espécie de espírito ou fantasma. Falando a Seus discípulos disse: “Vede as Minhas mãos e os Meus pés, que sou Eu mesmo; apalpai-Me e verificai, porque um espírito não tem carne nem ossos, como vedes que Eu tenho” (Luc. 24:39). A fim de demonstrar Sua realidade física após a ressurreição, Ele também comeu em presença deles (verso 43).

3. Seu impacto. A ressurreição exerceu um efeito eletrizante sobre os discípulos de Cristo. Transformou um grupo de homens fracos e assustados em valentes apóstolos, prontos a empreender qualquer coisa em favor do Mestre (Filip. 3:10 e 11; Atos 4:33).

A missão que assumiram como resultado da ressurreição, sacudiu o Império Romano e revolucionou o mundo (Atos 17:6). “Foi a certeza da ressurreição de Cristo que deu sentido e poder à pregação do evangelho (cf. Filip. 3:10 e 11). Pedro fala da ‘ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos’ como produzindo ‘viva esperança’ nos crentes (I Ped.1:3). Os apóstolos consideravam a si próprios como sob a obrigação de testemunhar ‘de Sua ressurreição’ (Atos 1:22), e baseavam seus ensinamentos quanto à ressurreição de Cristo sobre as predições messiânicas do Antigo Testamento (Atos 2:31). Foi o seu conhecimento pessoal da ‘ressurreição do Senhor Jesus’ que concedeu ‘grande poder’ ao seu testemunho (Atos 4:33). Os apóstolos enfrentaram a oposição dos líderes judeus quando prosseguiram pregando ‘em Jesus, a ressurreição dentre os mortos’ (verso 2)... Quando acusado diante do Sinédrio, Paulo declarou que vivia aquela situação em virtude de sua esperança na ressurreição dos mortos (Atos 23:6; cf. 24:21). Aos romanos, Paulo escreveu que Jesus Cristo foi declarado ‘Filho de Deus com poder... pela ressurreição dos mortos’ (Rom. 1:4). No batismo, explicou ele, os cristãos testificam de sua fé na ressurreição de Cristo (Rom. 6:4 e 5).”12]

As Duas Ressurreições. Cristo ensinou que existem duas ressurreições gerais: A “ressurreição da vida” para os justos e a “ressurreição do juízo” para os injustos (João 5:28 e 29; Atos 24:15). Os 1.000 anos separam estas ressurreições (Apoc. 20:4 e 5).

1. A ressurreição da vida. Aqueles que participam da primeira ressurreição são chamados de “bem-aventurado e santo” (Apoc. 20:6). Eles não experimentarão a segunda morte no lago de fogo ao final dos 1.000 anos (verso 14). Essa ressurreição para a vida e a imortalidade (João 5:29; I Cor. 15:52 e 53) ocorre por ocasião do Segundo Advento (I Cor. 15:22 e 23; I Tess. 4:15-18). Aqueles que a experimentarem jamais tornarão a morrer (Luc. 20:36). Estarão unidos a Cristo para sempre.

Como será o corpo dos ressuscitados? À semelhança de Cristo, os santos ressurretos possuirão corpo real. Assim como Cristo Se ergueu glorificado, também eles serão glorificados na ressurreição. Paulo diz que Cristo “transformará o nosso corpo de humilhação, para ser igual ao corpo da Sua glória” (Filip. 3:21). Ele chama o corpo não-glorificado e o corpo glorificado de “corpo natural” e “corpo espiritual”, respectivamente; o primeiro é mortal e corruptível, o segundo é imortal e imperecível. A mudança de mortalidade para imortalidade ocorre instantaneamente na ressurreição (veja I Cor. 15:42-54).

2. A ressurreição da condenação. Os injustos ressuscitam na segunda ressurreição geral, que ocorre no final dos 1.000 anos. Essa ressurreição ocorre para que se execute o juízo final e a condenação (João 5:29). Aqueles cujos nomes não foram encontrados no livro da vida serão ressuscitados nessa oportunidade e “lançado para dentro do lago de fogo”, experimentando a segunda morte (Apoc. 20:15 e 14). Eles poderiam ter evitado esse final trágico. Em linguagem inconfundível, Deus apresentara o meio de escape: “Convertei- vos e desviai-vos de todas as vossas transgressões; e a iniqüidade não vos servirá de tropeço. Lançai de vós todas as vossas transgressões com que transgredistes e criai em vós coração novo e espírito novo; pois, por que morreríeis? ... Porque não tenho prazer na morte de ninguém, diz o Senhor Deus. Portanto, convertei-vos e vivei” (Ezeq. 18:30-32).

Cristo promete que “o vencedor de nenhum modo sofrerá dano da segunda morte” (Apoc. 2:11). Aqueles que aceitam a Cristo e a salvação que Ele traz experimentarão gozo indescritível por ocasião de Seu extraordinário retorno.

Desfrutando felicidade imarcescível, passarão toda a eternidade em companheirismo com seu Senhor e Salvador.

Referências:
[1]. “Imortality”, SDA Encyclopedia, edição revista, pág. 621.
[2]. Ao longo dos séculos, preeminentes cristãos de muitas denominações – luteranos, reformadores, anglicanos, batistas, congregacionalistas, presbiterianos, metodistas etc. – têm exposto o ensinamento bíblico da imortalidade condicional. Dentre os mais destacados, mencionamos: a) No décimo sexto século – Martinho Lutero, William Tyndale, John Frith, George Wishart; b) No décimo sétimo século – Robert Overton, Samuel Richardson, John Milton, George Wither, John Jackson, John Canne, Arcebispo John Tillotson, Dr. Isaac Barrow; c) No décimo oitavo século – Dr. William Coward, Henry Layton, Joseph N. Scott, M. D.; Dr. Joseph Priestly, Peter Pecard, Francis Blackburne, Bispo William Wartburton, Samuel Bourn, Dr. William Whiston, Dr. John Tottie, Prof. Henry Dodwell; d) No décimo nono século – Bispo Timothy Kendrick, Dr. William Thomson, Dr. Edward White, Dr. John Thomas, H. H. Dobney, Arcebispo Richard Whately, Deão Henry Alford, James Panton Ham, Charles F. Hudson, Dr. Robert W. Dale, Deão Frederick W. Farrar, Hermann Olshansen, Canon Henry Constable, William Gladstone, Joseph Parker, Bispo John J. S. Perowne, Sir George G. Stokes, Dr. W. A. Brown, Dr. J. Agar Beet, Dr. R. F. Weymouth, Dr. Lyman Abbott, Dr. Edward Beecher, Dr. Emmanuel Petavel-Olliff, Dr. Franz Delitzsch, Bispo Charles J. Ellicott, Dr. George Dana Boardman, J. H. Pettingell; e) No século atual – Cônego William H. M. Hay Aitken, Eric Lewis, Dr. William Temple, Dr. Gerardus van der Leeuw, Dr. Aubrey R. Vine, Dr. Martin J. Heinecken, David R. Davies, Dr. Basil F. C. Atkinson, Dr. Emil Brunner, Dr. Reinold Niebuhr, Dr. T. A. Kantonen, Dr. D. R. G. Owen. Veja Questions on Doctrine, págs. 571-609; Froom, The Conditionalist Faith of Our Fathers (Washington, D.C.: Review and Herald, 1965 e 1966), vols. 1 e 2.
[3]. Veja “Death”, SDA Bible Dictionary, edição revista, págs. 277 e 278.
[4]. R. L. Harris, “The Meaning of the Word Sheol as Shown by Paralels in Poetic Texts”, Journal of the Evangelical Theological Society, dezembro de 1961, págs. 129-135; veja também SDA Bible Commentary, edição revista, vol. 3, pág. 999.
[5]. Veja, por exemplo, SDA Bible Commentary, edição revista, vol. 5, pág. 387.
[6]. A única exceção é quando sheol é usado figurativamente (Ezeq. 32:21) ou hades em uma parábola (Luc. 16:23). Sheol ocorre mais de 60 vezes no Antigo Testamento, mas em parte alguma refere-se o termo a um lugar de punição após a morte. Esta idéia foi posteriormente associada a gehenna (Mar. 9:43-48), não a hades. Existe apenas uma exceção (Luc. 16:23). Veja também SDA Bible Commentary, edição revista, vol. 3, pág. 999.
[7]. As seguintes passagens têm sido imaginadas como “criadoras de problemas” para esta visão quanto aos ensinamentos das Escrituras no tocante à natureza da morte. Entretanto, um exame mais demorado mostra-as como estando em harmonia plena com o restante das Escrituras.
a. A morte de Raquel. Referindo-se à morte de Raquel, diz a Bíblia que “ao sair-lhe a alma...” (Gên. 35:18). Essa expressão simplesmente indica que em seus últimos momentos de consciência e com suas últimas forças ela deu o nome ao filho. Assim é que outra versão diz: “Em seu último suspiro” (Nova Versão Internacional).
b. Elias e o menino morto. Quando Elias orou para que a alma do filho morto da viúva de Sarepta voltasse, Deus lhe respondeu, fazendo o menino reviver (I Reis 17:21 e 22). Isso foi resultado da união do princípio vital com o corpo, nenhum dos quais estava vivo ou consciente quando separado um do outro.
c. O aparecimento de Moisés sobre a montanha. O aparecimento de Moisés sobre o Monte da Transfiguração não provê evidência da existência de espíritos conscientes ou da presença de todos os justos mortos no Céu. Pouco antes desse evento, Jesus declarara a Seus discípulos que alguns dos que ali se achavam presentes não morreriam sem antes verem o Filho do homem em Seu reino. Essa promessa foi cumprida em relação a Pedro, Tiago e João (Mat. 16:28 a 17:3).
No monte, Jesus lhes revelou uma miniatura do reino da glória de Deus. Ali Se achava Cristo, o glorioso Rei, junto com Moisés e Elias – representantes de duas classes de súditos do reino. Moisés representava os justos mortos que serão erguidos dos sepulcros por ocasião do Segundo Advento, ao passo que Elias representava os justos vivos que serão trasladados sem provar a morte (II Reis 2:11).
Judas provê evidências da ressurreição especial de Moisés. Depois que morreu e foi sepultado (Deut. 34:5 e 6), houve uma disputa entre Miguel e o demônio no tocante ao corpo de Moisés (Jud. 9). Tendo em vistá o aparecimento de Moisés no Monte da Transfiguração, pode-se deduzir que o demônio perdeu a demanda e Moisés foi ressuscitado da sepultura, o que o tornou o primeiro ser humano conhecido a experimentar o poder ressuscitador de Cristo. Este evento não provê evidências da imortalidade da alma. Pelo contrário, apresenta apoio à doutrina da ressurreição do corpo.
d. A parábola do homem rico e Lázaro. A história contada por Cristo, a respeito do homem rico e de Lázaro, tem sido utilizada para ensinar o estado de consciência na morte (Luc. 16:19-31). Infelizmente, aqueles que interpretam a passagem dessa forma não reconhecem que a história é uma parábola que, tomada literalmente em seus detalhes, seria absurda. Os mortos, nesse caso, iriam para o lugar de sua recompensa como seres reais, com partes físicas tais como olhos, língua e dedos. Todos os justos estariam no seio de Abraão, e o Céu e o Inferno estariam tão próximos que seria possível duas pessoas – uma em cada um desses lugares – falarem uma com a outra. Ambas as classes receberiam suas recompensas por ocasião da morte, em contraste com o ensino de Cristo, de que isto acontecerá por ocasião do Segundo Advento (Mat. 25:31-41; Apoc. 22:12).
A história, contudo, é uma parábola – um dos métodos favoritos de ensino utilizados por Jesus. Cada parábola visava a ensinar determinada lição, e o que Cristo estava ensinando nada tinha a ver com o estado do homem na morte. A moral desta parábola é a importância de viver pela Palavra de Deus. Jesus mostrou que o homem rico estava preocupado com o materialismo e se descuidou das necessidades dos pobres.
O destino eterno é decidido na presente vida e não existe um segundo período de provação. A Escritura é o guia para arrependimento e salvação, e se não atendermos as advertências da Palavra de Deus, coisa alguma poderá nos alcançar. Foi por isso que Jesus encerrou a parábola com as palavras: “Se não ouvem a Moisés e aos profetas, tampouco se deixarão persuadir, ainda que ressuscite alguém dentre os mortos” (Luc. 16:31).
Cristo simplesmente empregou os elementos de uma história judaica na qual os mortos desenvolvem conversação. Veja “Discourse to the Greeks Concerning Hades”, Josephus Complete Works, tradução de William Whiston [Grand Rapids: Kregel, 1960], pág. 637. Similarmente encontramos na Bíblia uma parábola em que as árvores conversam (Juí. 9:7-15; cf. II Reis 14:9). Ninguém utilizaria essa parábola para provar que as árvores são capazes de falar. Da mesma forma deveria a pessoa refrear-se de utilizar a parábola de Cristo para dar-lhe um significado que contradiz abundantes evidências escriturísticas e os próprios ensinamentos de Cristo, de que a morte é um sono.
e. A promessa de Cristo ao ladrão. Cristo prometeu ao ladrão, na cruz: “Em verdade te digo que hoje estarás comigo no paraíso” (Luc. 23:43). O paraíso é obviamente sinônimo do Céu (II Cor. 12:4; Apoc. 2:7). Do modo como aparece a tradução de Lucas, ela significaria que Jesus iria aquele mesmo dia à presença do Pai, e o mesmo aconteceria com o ladrão. Entretanto, na manhã da ressurreição Cristo disse a Maria, quando esta se prostrou a Seus pés para adorá-Lo: “Não Me detenhas; porque ainda não subi para Meu Pai, mas vai ter com os Meus irmãos e dize-lhes: Subo para Meu Pai e vosso Pai, para Meu Deus e vosso Deus” (João 20:17). Que Jesus permaneceu na sepultura durante o fim de semana, torna-se claro pelas palavras do anjo: “Vinde ver onde Ele jazia” (Mat. 28:6).
Poderia Cristo contradizer a Si próprio? De modo nenhum. A solução para compreensão desse texto envolve um problema de pontuação. A inserção de pontuações e divisões de palavras pode ocasionar grandes diferenças no significado do texto. Os tradutores da Bíblia utilizaram seu melhor julgamento para colocar os sinais de pontuação, mas o seu trabalho certamente não é inspirado.
Se os tradutores, que em geral realizaram excelente trabalho, houvessem colocado a vírgula depois de hoje (o “que” não aparece no original) em vez de colocá-la antes, esta passagem não ofereceria contradição ao restante dos ensinos das Escrituras. As palavras de Cristo, entendidas adequadamente, seriam: “Em verdade te digo hoje, estarás comigo no Paraíso.” Em harmonia com os ensinos bíblicos, Jesus assegurou ao ladrão que ele estaria com Cristo no Paraíso – uma promessa que será cumprida imediatamente após a ressurreição dos justos por ocasião do Segundo Advento.
f. Partir e estar com Cristo. “Para mim o viver é Cristo, e o morrer é lucro”, disse Paulo. “Ora, de um e outro lado, estou constrangido, tendo o desejo de partir e estar com Cristo, o que é incomparavelmente melhor” (Filip. 1:21 e 23). Porventura esperava Paulo ir para o Céu imediatamente após sua morte?
Paulo escreveu muito sobre o assunto de estar com Cristo; em outra carta ele escreveu sobre os que “dormem em Cristo”. Por ocasião do segundo advento, disse ele, os justos mortos serão ressuscitados e junto com os justos vivos, serão “arrebatados... entre nuvens, para o encontro do Senhor nos ares” (I Tess. 4:14 e 17).
Levando em conta o contexto, vemos que em Filipenses Paulo não está ocupado em mostrar detalhadamente o que ocorre por ocasião da morte. Ele está simplesmente expressando seu desejo de deixar a presente existência conturbada e estar com Cristo, sem prover qualquer referência ou explanação quanto ao tempo que decorreria entre a morte e a ressurreição. Sua esperança centralizava-se na promessa de relacionamento pessoal com Cristo através da eternidade. Para aqueles que morrem não existe um longo intervalo entre o momento em que fecham os olhos na morte e o momento em que abrem novamente os olhos na ressurreição. Uma vez que os mortos não têm consciência e assim não são capazes de avaliar a passagem do tempo, a manhã da ressurreição lhes parecerá como o instante seguinte ao da morte. Para os cristãos, a morte é ganho: não mais tentações, provações, tristezas; e, por ocasião da ressurreição, o dom da gloriosa imortalidade.

[8]. E. G. White, O Grande Conflito, pág. 558.
[9]. “Death”, SDA Bible Dictionary, edição revista, pág. 278; cf. Questions on Doctrine, pág. 524.
[10]. “Resurrection”, SDA Bible Dictionary, edição revista, pág. 935.
[11]. Questions on Doctrine, págs. 67 e 68.
[12]. “Resurrection”, SDA Bible Dictionary, edição revista, pág. 936.