Mordomia


Somos despenseiros de Deus, responsáveis a Ele pelo uso apropriado do tempo e das oportunidades, capacidades e posses, e das bênçãos da Terra e seus recursos, que Ele colocou sob o nosso cuidado. Reconhecemos o direito de propriedade da parte de Deus por meio de fiel serviço a Ele e a nossos semelhantes, e devolvendo os dízimos e dando ofertas para a proclamação de Seu evangelho e para a manutenção e o crescimento de Sua Igreja. A mordomia e um privilégio que Deus nos concede para desenvolvimento no amor e para vitória sobre o egoísmo e a cobiça. O mordomo se regozija nas bênçãos que advêm aos outros como resultado de sua fidelidade

Mais que qualquer outra coisa, a vida cristã significa entrega – darmo-nos a nós mesmos e aceitarmos a Cristo. Ao ver de que modo Jesus entregou-Se a Si mesmo e Se ofereceu por nós, exclamaremos: “Que posso fazer por Ti?”

Então, justamente quando pensamos haver efetuado uma entrega completa, uma submissão plena, acontece algo que nos mostra quão superficial era a nossa entrega. À medida que descobrimos novas áreas de nossa vida que devem ser oferecidas a Deus, nossa entrega se amplia. Nesse ponto, sempre de modo amorável, Ele nos apresenta outro aspecto ao qual nos devemos submeter. E assim prossegue a vida, numa série de reafirmações de entrega a Cristo, as quais vão atingindo profundidades cada vez maiores, alcançando o nosso próprio ser, estilo de vida, e o modo como agimos e reagimos.

Quando entregamos a Deus tudo quanto temos e somos, pois, de qualquer forma tudo pertence a Ele (I Cor. 3:21 a 4:2), Ele tudo aceita mas torna a nos devolver o que Lhe entregamos, fazendo-nos responsáveis, mordomos ou encarregados, de tudo o que “possuímos”. Nossa tendência a viver confortável e egoisticamente desaparece, diante da percepção de que nosso Salvador era um estrangeiro, esteve nu e foi posto na prisão. Sua ordem, “Portanto, ide, ensinai todas as nações”, faz com que as atividades da Igreja – testemunho do evangelho, ensinamentos, pregação e batismo – tornem-se preciosas a nós. Pelo amor a Cristo, procuramos ser mordomos fiéis.

Que é Mordomia?

“Acaso não sabeis que o vosso corpo é santuário do Espírito Santo... e que não sois de vós mesmos? Porque fostes comprados por preço. Agora, pois, glorificai a Deus no vosso corpo” (I Cor. 6:19 e 20). Fomos comprados e redimidos a um elevado custo. Pertencemos a Deus. Mas Deus na verdade estava apenas nos reclamando, pois Ele nos fez; pertencíamos a Ele desde o princípio, pois “no princípio criou Deus...” (Gên. 1:1). As Escrituras revelam claramente que “ao Senhor pertence a Terra e tudo o que nela se contém, o mundo e os que nele habitam” (Sal. 24:1).

Na Criação, Deus compartilhou Suas possessões com a humanidade, e continua a ser o verdadeiro Dono do mundo, seus habitantes e seus bens (Sal. 24:1). Na cruz, Ele reclamou como sendo Seu tudo o que Adão e Eva haviam entregue a Satanás por ocasião da Queda (I Cor. 6:19 e 20). Ele indicou, então, o Seu povo para ser o mordomo de Suas possessões.

Mordomo é uma pessoa “encarregada da administração da casa ou propriedades de outra pessoa”. Mordomia é “a posição, dever ou serviço de um mordomo”.[1] Para o cristão, mordomia significa “a responsabilidade do homem por (e pelo uso de) tudo o que Deus lhe confiou – vida, corpo físico, tempo, talentos e habilidades, posses materiais, oportunidades de serviço em favor de outros, e seu conhecimento da verdade”.[2] Os cristãos servem como administradores das possessões de Deus e vêem a vida como uma oportunidade divina “para aprender a fiel mordomia, qualificando-se assim para posições de maior responsabilidade sobre as coisas eternas no mundo futuro”.[3]

Em sua dimensão mais ampla, portanto, a mordomia “envolve o uso sábio e abnegado da vida”.[4]

Formas de Reconhecer a Propriedade de Deus

A vida pode ser dividida em quatro áreas básicas, cada uma delas representando um dom de Deus. Ele nos deu um corpo, habilidades, tempo e posses materiais. Adicionalmente, temos de assumir o cuidado do mundo que nos cerca, sobre o qual nos foi dado o domínio.

Mordomia do Corpo. Os filhos de Deus são mordomos de si mesmos. Devemos amar a Deus de todo o coração, e de toda a nossa alma, e com todas as nossas forças, e com todo nosso entendimento (Luc. 10:27).

Os cristãos recebem o privilégio de desenvolver a capacidade física e mental com vistas a alcançar o máximo de suas habilidades e oportunidades. Assim procedendo, trazem honra a Deus e podem provar-se uma grande bênção aos seus semelhantes (veja o capítulo 21).

Mordomia dos Talentos. Cada pessoa; possui aptidões especiais. Uns podem ser dotados de talento para a música, outros para artes manuais, tais como mecânica de automóveis ou tricotagem. Alguns conseguem estabelecer amizades com mais facilidade que outros, ao passo que muitos produzem melhor quando estão sozinhos.

Cada talento pode ser utilizado tanto para glorificar a pessoa que o possui quanto o Doador dos talentos. A pessoa pode aperfeiçoar diligentemente o talento para a glória de Deus, ou para o seu engrandecimento pessoal.

Deveríamos procurar o constante cultivo dos dons que o Espírito Santo nos concedeu, de modo a multiplicá-los (Mat. 25:14-30). A boa mordomia utiliza liberalmente os dons, de modo a obter os maiores benefícios para o Senhor dos talentos.

Mordomia do Tempo. Na qualidade de fiéis mordomos, glorificamos a Deus mediante o sábio uso do tempo. “Tudo quanto fizerdes, fazei-o de todo o coração, como para o Senhor; e não para homens, cientes de que recebereis do Senhor a recompensa da herança. A Cristo, o Senhor, é que estais servindo” (Col. 3:23 e 24).

A Bíblia nos adverte a nos conduzirmos “não como néscios e sim como sábios, remindo o tempo, porque os dias são maus” (Efés. 5:15 e 16). Tal como Jesus, devemos ocupar-nos dos negócios de nosso Pai (Luc. 2:49). Uma vez que o tempo é dom de Deus, cada momento é precioso. Ele nos é concedido para formarmos o caráter a ser levado para a eternidade. Mordomia fiel do tempo significa utilizá-lo para conhecer melhor a nosso Senhor, para ajudar nossos semelhantes e para compartilhar o evangelho.

Quando, na Criação, Deus nos outorgou o tempo, reservou para Si o sétimo dia, o sábado, com a finalidade de desenvolvermos comunhão com Ele. Entretanto, seis dias foram providos para que a família humana se envolvesse em atividades úteis, de seu próprio interesse.

Mordomia das Possessões Materiais. Deus concedeu a nossos primeiros pais a responsabilidade de subjugar a Terra, governar sobre o reino animal e tomar cuidado do Jardim do Eden (Gên. 1:28; 2:15). Tudo isso estava à disposição deles, não apenas para deleite, como também para a sua administração.

Uma única restrição lhes foi imposta: não deveriam comer do fruto da árvore da ciência do bem e do mal. Essa árvore representaria para eles uma constante lembrança de que Deus era o verdadeiro proprietário e possuía a autoridade final sobre a Terra. Ao respeitar essa restrição, estariam eles demonstrando fé nEle e sua lealdade a Ele.

Após a Queda, Deus não mais poderia, prová-los por meio da árvore do conhecimento. Mas a humanidade ainda necessitaria lembrar constantemente que Deus é a fonte de todo bem e de todo dom perfeito (Tia. 1:17), e que é Ele quem nos capacita a adquirir riquezas (Deut. 8:18). A fim de nos lembrar que Ele é a fonte de todas as bênçãos, Deus instituiu o sistema de dízimos e ofertas.

Esse sistema representa também o meio pelo qual os recursos financeiros se destinaram ao sustento do sacerdócio nos serviços do templo israelita. Os adventistas do sétimo dia adotaram o modelo levítico como método adequado e bíblico para financiar a propagação mundial do evangelho. Deus ordenou que a proclamação do evangelho dependa dos esforços e ofertas de Seu povo. Ele os chama para que se tornem colaboradores altruístas de Sua obra, oferecendo-Lhe seus dízimos e ofertas.

1. Dízimos. Assim como um sétimo de nosso tempo (o sábado) pertence a Deus, assim Lhe pertence um décimo das coisas materiais que adquirimos. As Escrituras nos ensinam que o dízimo é “santo ao Senhor”, pois simboliza a propriedade divina de todas as coisas (Lev. 27:30 e 32). Esta parcela Lhe deve ser devolvida, portanto, como Sua efetiva propriedade.

O sistema de dízimos é belo em sua simplicidade. Sua justiça é revelada pela aplicação proporcional sobre o rico e sobre o pobre. Na mesma proporção em que Deus nos concedeu o uso de Sua propriedade, devemos nós retribuir-Lhe o dízimo.

Quando Deus reclama para Si o dízimo (Mal. 3:10), Ele não apela a nossa gratidão ou generosidade. Embora a gratidão deva constituir parte de todas nossas expressões dirigidas a Deus, dizimamos porque Deus nos ordenou fazê-lo. O dízimo pertence ao Senhor, e Ele requer que Lho devolvamos.

a. Exemplos do ato de dizimar. Dizimar é uma prática generalizada ao longo das Escrituras. Abraão deu a Melquisedeque, sacerdote do Deus Altíssimo, “o dízimo de tudo” (Gên. 14:20). Ao assim proceder, ele reconheceu o sacerdócio divino de Melquisedeque e demonstrou achar-se bem familiarizado com essa sagrada instituição. Essa referência casual ao ato de dizimar, mostra que a prática havia sido estabelecida em tempos bastante antigos.

Evidentemente Jacó também compreendia a exigência do dízimo. Na qualidade de exilado e fugitivo, ele prometeu ao Senhor: “de tudo quanto me concederes, certamente eu Te darei o dízimo” (Gên. 28:22). Depois do Êxodo, quando Israel se estabelecera como nação, Deus reafirmou a lei do dízimo como uma instituição divina da qual dependeria, a prosperidade de Israel (Lev. 27:30-32; Núm. 18:24, 26 e 28; Deut. 12:6, 11 e 17).

Longe de abolir tal instituição, o Novo Testamento assume a sua validade. Jesus aprovou o dizimar e condenou aqueles que violavam o seu espírito (Mat. 23:23). Ao passo que a lei cerimonial regulamentava as ofertas sacrificais que simbolizavam o sacrifício expiatório de Cristo e teve fim em Sua morte, o mesmo não aconteceu com a lei do dízimo.

Pelo fato de ser Abraão o pai de todos os crentes, é ele também o modelo de dizimista para os cristãos. Assim como Abraão entregou os dízimos a Melquisedeque, sacerdote do Deus Altíssimo, assim os crentes do Novo Testamento entregam seu dízimo a Cristo, nosso Sumo Sacerdote segundo a ordem de Melquisedeque (Heb. 5:9 e 10; 7:1-22).[5]

b. Uso dos dízimos. Os dízimos são sagrados, pelo que só devem ser utilizados para fins sagrados. O Senhor ordenou: “Também todas as dízimas da terra, tanto do grão do campo, como do fruto das árvores, são do Senhor; santas são ao Senhor... No tocante às dízimas do gado e do rebanho... o dízimo será santo ao Senhor” (Lev. 27:30-32). “Trazei todos os dízimos à casa do tesouro”, diz Deus, “para que haja mantimento na Minha casa” (Mal. 3:10).

Em Israel, o dízimo era usado exclusivamente para os levitas, os quais, não tendo recebido herança como tribo, dedicavam todo o seu tempo para dirigir o culto em Israel, para ministrar no santuário e para instruir o povo no tocante à lei do Senhor (Núm. 18:21 e 24).

Após a crucifixão, quando findou o papel divinamente orientado do sacerdócio levítico, os dízimos ainda deveriam ser utilizados para sustentar o ministério na Igreja de Deus. Paulo ilustra o princípio subjacente a essa prática, ao construir um paralelo entre os serviços levíticos e o ministério evangélico recentemente estabelecido. Ele afirma: “Se nós vos semeamos as coisas espirituais, será muito recolhermos de vós bens materiais? Se outros participam desse direito sobre vós, não o temos nós em maior medida? ... Não sabeis vós que os que prestam serviços sagrados do próprio templo se alimentam? E quem serve ao altar do altar tira o seu sustento? Assim ordenou também o Senhor aos que pregam o evangelho que vivam do evangelho” (I Cor. 9:11-14).

Assim é que os membros da igreja trazem alegremente seus dízimos “à casa do tesouro, para que haja mantimento na Minha casa” (Mal. 3:10) – em outras palavras, para que a Igreja de Deus disponha de fundos suficientes para a manutenção de seu ministério e para levar avante a pregação do evangelho.[6 e 7]

2. Ofertas. Cristãos agradecidos não podem limitar ao dízimo suas contribuições à Igreja. Nos dias de Israel, o tabernáculo, e mais tarde o templo, foram construídos com “ofertas voluntárias” – ofertas dependentes do coração do doador (Êxo. 36:2-7; cf. I Crôn. 29:14). Também eram as ofertas que proviam a cobertura dos gastos de manutenção desses lugares de adoração (Êxo. 30:12-16; II Reis 12:4 e 5; II Crôn. 24:4-13; Nee. 10:32 e 33). Os israelitas provavelmente contribuíam com cerca de um quarto a um terço de suas rendas para propósitos religiosos e de caridade. Será que contribuições tão pesadas fizeram o povo empobrecer? Pelo contrário, Deus prometeu abençoá-los em sua fidelidade (Mal. 3:10-12).[8]

Hoje, ainda, o Senhor pede ofertas liberais à medida que nos concede prosperidade. As ofertas são necessárias para construir, manter e operar as igrejas e para empreender a obra médico-missionária, demonstrando o significado prático do evangelho.

Deveríamos nós doar tanto quanto os israelitas, ou será que o padrão por eles desenvolvido não mais é aplicável? Em o Novo Testamento, Cristo assentou os princípios da verdadeira mordomia – que os nossos dons sejam entregues a Deus em proporção à luz e aos privilégios que desfrutamos. Ele disse: “Àquele a quem muito foi dado, muito lhe será exigido; e àquele a quem muito se confia, muito mais lhe pedirão” (Luc. 12:48). Quando Cristo enviou Seus seguidores em missão, disse-lhes: “De graça recebestes, de graça dai” (Mat. 10:8). Esse princípio se aplica ao compartilhamento de nossas bênçãos financeiras.

Em parte alguma, o Novo Testamento repele ou descuida deste sistema. Quando comparamos nossos privilégios e bênçãos com aqueles do antigo Israel, compreendemos que em Jesus nossa porção é consideravelmente maior. Nossa gratidão encontrará expressão correspondente através de maior liberalidade, de modo que o evangelho da salvação possa estender-se aos outros.[9] Quanto mais amplamente for o evangelho anunciado, maior será a necessidade de recursos materiais para mantê-lo.

3. O princípio permanece. O princípio da mordomia aplica-se tanto àquilo que retemos quanto àquilo que damos. Ao passo que o dízimo representa o teste básico de nossa mordomia em aspectos de posses materiais,[10] o uso que fizermos do restante também nos coloca à prova.

O uso que fazemos dos bens materiais revela quanto amamos a Deus e a nossos semelhantes. O dinheiro pode ser uma grande força para o bem: em nossas mãos pode ele prover alimento para o faminto, bebida para o sedento e roupas ao despido (Mat. 25:34-40). A partir da perspectiva de Deus, o principal valor do dinheiro está em seu uso para suprir as necessidades da vida, para a bênção de outros e para o sustento de Sua obra.

4. Infidelidade nos dízimos e ofertas. Falando em termos gerais, as pessoas são ignorantes no tocante aos princípios divinos e negligenciam a prática da mordomia. Mesmo entre os cristãos, poucos reconhecem seu papel comomordomos. A resposta de Deus à infidelidade de Israel provê claro vislumbre de como Ele considera esta questão. Quando o povo utilizou os dízimos e ofertas para seu próprio benefício, Ele os advertiu de que estavam roubando (Mal. 3:8) e atribuiu a falta de prosperidade do povo a essa infidelidade nas coisas materiais: “Com maldição sois amaldiçoados, porque a Mim Me roubais, vós, a nação toda” (Mal. 3:9).

O Senhor revela Sua paciência, amor e misericórdia ao conceder, antes da advertência, a oferta de Sua graça: “Tornai-vos para Mim, e Eu Me tornarei para vós outros” (Mal. 3:7). Ele lhes ofereceu abundantes bênçãos e os desafiou a prová-Lo em Sua própria fidelidade: “Trazei todos os dízimos à casa do tesouro, para que haja mantimento na Minha casa; e provai-Me nisto, diz o Senhor dos Exércitos, se Eu não vos abrir as janelas do Céu e não derramar sobre vós bênção sem medida. Por vossa causa, repreenderei o devorador, para que não vos consuma o fruto da terra; a vossa vide no campo não será estéril, diz o Senhor dos Exércitos. Todas as nações vos chamarão felizes, porque vós sereis uma terra deleitosa, diz o Senhor dos Exércitos” (Mal. 3:10-12).

Mordomia da Terra. A moderna ciência transformou a Terra num vasto laboratório de pesquisa e experimentação. Tais pesquisas resultam em muitos benefícios, mas a revolução industrial também trouxe consigo a poluição do ar, da água e da terra. A tecnologia, em alguns casos, tem manipulado a natureza em vez de administrá-la sabiamente.

Somos os mordomos deste mundo, e deveríamos fazer o possível para manter a vida em todos os níveis, conservando o equilíbrio da ecologia. Em Seu segundo advento, Cristo irá destruir “os que destroem a Terra” (Apoc. 11:18). A partir dessa perspectiva, a mordomia cristã é responsável não apenas por suas próprias possessões como também pelo mundo que está à sua volta.

Cristo na Qualidade de Mordomo

A adequada mordomia é abnegada; é a completa entrega de si mesmo a Deus e ao serviço da humanidade. Em virtude de Seu amor por nós, Cristo suportou a crueldade da cruz e até mesmo a dor ainda mais profunda de ver-Se rejeitado pelos Seus e abandonado por Deus. Em comparação com esse dom, o que poderíamos dar a Ele? O Seu dom não foi daquilo que Ele possuía – embora fosse o dono de todas as coisas – mas a Si próprio. Isso é mordomia. Contemplando o maior de todos os dons, libertamo-nos de nós mesmos e nos tornamos semelhantes a Ele. Ele fará com que nos tornemos a igreja que tem interesse pelos outros, tanto pelos de dentro quanto pelos de fora. Uma vez que Cristo morreu pelo mundo, a mordomia, em seu sentido mais amplo, destina-se ao mundo.

As Bênçãos da Mordomia

Foi para o nosso próprio benefício – e não para o Seu – que Deus nos colocou na posição de mordomos.

Uma Bênção Pessoal. Uma das razões por que Deus nos pede que Lhe consagremos continuamente toda a nossa vida – tempo, habilidade, corpo e posses materiais – é para estimular nosso próprio crescimento espiritual e o desenvolvimento do caráter. Enquanto nos mantivermos cônscios da propriedade de Deus sobre todas as coisas e do infindável amor que Ele derrama sobre nós, nosso próprio amor e gratidão serão nutridos.

A mordomia fiel também nos presta auxílio na vitória contra a cobiça e o egoísmo. A cobiça, um dos maiores inimigos do homem, é condenada no Decálogo. Jesus também advertiu quanto a seus perigos: “Tende cuidado e guardai-vos de toda e qualquer avareza; porque a vida de um homem não consiste na abundância dos bens que ele possui” Luc. 12:15). Nossas dádivas, feitas em base regular, auxiliam-nos a desarraigar a cobiça e o egoísmo de nossa vida.

A mordomia conduz ao desenvolvimento de hábitos de economia e eficiência. Tendo crucificado “a carne com as suas paixões e concupiscências” (Gál. 5:24), nada utilizaremos para a nossa própria gratificação. “Quando os princípios da mordomia recebem a direção da vida, a alma é iluminada, o propósito é decidido, os prazeres sociais são escoimados de aspectos insalubres, a vida comercial é conduzida sob os ditames da regra áurea e o esforço de ganhar almas se torna uma paixão. Essas são as abundantes bênçãos da provisão divina em uma vida de fé e fidelidade.”[11]

Uma profunda satisfação e alegria provêm da certeza de que sobre tudo aquilo que for investido para a salvação daqueles pelos quais Ele morreu. O Mestre afirmou: “Em verdade vos afirmo que, sempre que o fizestes a um destes Meus pequeninos irmãos, a Mim o fizestes” (Mat. 25:40). “Nada nos parecerá demasiado precioso para que o entreguemos a Jesus. Se Lhe devolvermos os talentos e meios que Ele confiou a nossa guarda, Ele nos colocará mais em mãos. Todo esforço que fizermos por Cristo será recompensado por Ele, e todo dever que cumprirmos em Seu nome ministrará em favor de nossa própria felicidade.”[12]

Uma Bênção aos Outros. Mordomos genuínos são uma bênção para todos aqueles com os quais entram em contato. Eles executam a injunção de Paulo no tocante à mordomia: “Que pratiquem o bem, sejam ricos de boas obras, generosos em dar e prontos a repartir; que acumulem para si mesmos tesouros, sólido fundamento para o futuro, a fim de se apoderarem da verdadeira vida” (I Tim. 6:18 e 19).

Mordomia envolve serviço a outros e disposição de compartilhar tudo aquilo que Deus graciosamente concedeu, para que sirva de benefício aos outros. Isso significa. que “não mais consideramos que a vida consiste da quantidade de dinheiro que possuímos, dos títulos que ostentamos, das pessoas importantes que conhecemos, da casa e da vizinhança em que vivemos, e da posição ou influência que julgamos possuir”.[13] A verdadeira vida é conhecer a Deus, desenvolver amoráveis e generosos atributos à semelhança dos Seus, e dar aquilo que pudermos, de acordo com a prosperidade que Ele nos houver dado. Dar, no genuíno espírito de Cristo, é realmente viver.

Uma Bênção Para a Igreja. A adoção do plano bíblico de mordomia é indispensável à Igreja. A contínua participação dos membros no ato de dar, é semelhante ao exercício – ele resulta em um corpo eclesiástico forte, envolvido no compartilhar das bênçãos que Cristo sobre ele colocou, e pronto para responder a quaisquer necessidades que surjam na causa de Deus. A Igreja terá meios adequados para sustentar o ministério, para expandir o reino de Deus em sua vizinhança imediata e para estendê-la aos mais remotos lugares da Terra. Esse corpo de membros voluntariamente colocará seu tempo, talentos e meios à disposição de Deus, em atitude de Amor e gratidão por Suas bênçãos.

Em vista da garantia de Cristo, de que Ele retornará quando o evangelho do reino tiver sido pregado “em testemunho a todas as nações” (Mat. 24:14), todos são convidados a ocupar a posição de mordomos e coobreiros Seus. Desse modo o testemunho da Igreja será uma poderosa bênção para o mundo, e seus fiéis mordomos sentir-se-ão felizes quando perceberem as bênçãos do evangelho sendo estendidas a outras pessoas.

Referências:
[1]. Webster’s New Universal Unabridged Dictionary, 2a edição, 1979, pág. 1.786.
[2]. SDA Encyclopedia, edição revista, pág. 1.425.
[3]. Ibidem.
[4]. Paul G. Smith, Managing God’s Goods (Nashville: Southern Pub. Assn:, 1973), pág. 21.
[5]. Veja C. G. Tuland “Tithing in the New Testament”, Ministry, outubro de 1961, pág. 12.
[6]. Por exemplo, em Êxo. 27:20 o Senhor deu instruções especiais de que óleo de oliva fosse provido para as lâmpadas. Suprir o óleo para o lugar de adoração, de modo que este pudesse funcionar adequadamente, representava uma obrigação contínua – mas essa despesa operacional não era coberta pelo dizimo. Veja também E. G. White, Conselhos Sobre Mordomia, págs. 102 e 103. Ela diz que os professores de Educação Religiosa das escolas mantidas pela Igreja podem ser pagos com o dinheiro de dízimo (Ibidem, pág. 103), mas que este não deve ser usado para outros “propósitos escolares”, bolsas para alunos, ou sustento de colportores (E. G. White, Testimonies, vol. 9, págs. 248 e 249; Mensagens Escolhidas, vol. 2, pág. 209). Esses aspectos da obra de Deus devem ser sustentados através de ofertas.
[7]. T. H. Jemison ofereceu algumas sugestões muito práticas sobre como calcular o dízimo. Ele escreveu: “O dizimo sobre salários é fácil de calcular. Em geral não existem ‘despesas operacionais’ – ou seja, despesas efetivas necessárias na produção do rendimento – para serem deduzidas. Dez por cento do salário é o dízimo... “Dizimar resultados de negócios é algo bem diferente que dizimar salários. Um comerciante atacadista ou varejista deduzirá as despesas necessárias à operação do negócio, antes de calcular o dízimo. Essas despesas incluem o custo de mão-de-obra, aquecimento, luz, seguros, impostos sobre a propriedade, aluguel, e itens similares. Essas deduções não incluem, evidentemente, qualquer aspecto de seus gastos pessoais ou os de sua família. “O agricultor deduz os seus custos – salários, fertilizantes, reparos, juros, impostos e coisas do gênero. Entretanto, o agricultor deveria considerar a receita dos produtos que sua família utiliza, pois estes reduzem o custo de vida da família e aumentam o rendimento. “Procedimentos comparáveis podem ser utilizados pelo fabricante, pelo investidor, ou pelo profissional. A contabilidade detalhada que hoje é requerida em todos os ramos de negócio torna fácil calcular o dízimo do resultado, ou lucro, do negócio. Alguns homens de negócio incluem o cálculo do dízimo em seu sistema normal de contabilidade. “Por vezes, uma irmã cujo esposo não é dizimista encontra dificuldade em relacionar-se com o sistema de dízimo. Em alguns casos pode ela dizimar o dinheiro que recebe para as despesas de casa. Em outros casos, ela é proibida de fazê-lo. Então, ela estará sob a obrigação de dizimar apenas o dinheiro extra que lhe chegar às mãos, ou o que ela receber como presente. ‘Porque, se há boa vontade, será aceita conforme o que o homem tem, e não segundo o que ele não tem’ II Cor. 8:12.” Christian Beliefs, pág. 267.
[8]. Alguns estudiosos da Bíblia crêem que Israel contribuía com pelo menos dois dízimos (outros pensam que seriam três), em adição a várias ofertas. Com respeito ao primeiro dízimo, o Senhor disse: “Aos filhos de Levi dei todos os dízimos em Israel por herança, pelo serviço que prestam, serviço da tenda da congregação” (Núm. 18:21). Mas, quanto ao segundo dízimo, disse: “Perante o Senhor, teu Deus, no lugar que escolher para ali fazer habitar o Seu nome, comerás os dízimos do teu cereal, do teu vinho, do teu azeite e os primogênitos das tuas vacas e das tuas ovelhas; para que aprendas a temer ao Senhor, teu Deus, todos os dias” (Deut. 14:23). Em dois de cada três anos, deveriam os israelitas trazer esse dízimo, ou seu equivalente em dinheiro, ao santuário. Ali ele seria utilizado para celebrar os festivais religiosos e também para servir aos levitas, estrangeiros, órfãos e viúvas. A cada terceiro ano, os israelitas deveriam utilizar este segundo dízimo em casa, para benefício dos levitas e dos pobres. Assim, o segundo dízimo era utilizado para fins caritativos e de hospitalidade (Deut. 14:27-29; 26:12). Veja E. G. White, Patriarcas e Profetas, pág. 530; “Tithe”, SDA Bible Dictionary, edição revista, pág. 1.127.
[9]. Cf. E. G. White, Testimonies, vol. 3, pág. 392.
[10]. A partir da perspectiva bíblica, a posse não equivale à propriedade. Nossa atitude em relação ao dízimo demonstrará se compreendemos que neste mundo fomos colocados por Deus apenas como Seus mordomos, ou então – rejeitando o princípio do dízimo – se nos imaginamos como os verdadeiros proprietários daquilo que foi posto em nossas mãos.
[11]. Froom, “Stewardship in Its Larger Aspects”, Ministry, s. d., pág. 20.
[12]. E. G. White, Testimonies, vol. 4, pág. 19.
[13]. P. G. Smith, Managing God’s Goods (Nashville, TN: Southern Publ. Assn., 1973), pág. 72.