A Lei de Deus


Os grandes princípios da lei de Deus são incorporados nos Dez Mandamentos e exemplificados na vida de Cristo. Expressam o amor, a vontade e os propósitos de Deus acerca da conduta e das relações humanas, e são obrigatórios a todas as pessoas, em todas as épocas. Esses preceitos constituem a base do concerto de Deus com Seu povo e a norma no julgamento de Deus. Por meio da atuação do Espírito Santo, eles apontam para o pecado e despertam o senso da necessidade de um Salvador. A salvação é inteiramente pela graça, e não pelas obras, mas seu fruto é a obediência aos mandamentos. Essa obediência desenvolve o caráter cristão e resulta numa sensação de bem-estar. É uma evidência de nosso amor ao Senhor e de nossa solicitude por nossos semelhantes. A obediência da fé demonstra o poder de Cristo para transformar vidas, e fortalece, portanto, o testemunho cristão.


Todos os olhares se fixam na montanha. Seu pico acha-se coberto com uma espessa nuvem que, escurecendo gradativamente a visão, estende-se para baixo até que toda ela se encontra envolta em mistério. Relâmpagos rasgam a escuridão, enquanto trovões ecoam e tornam a ecoar. “Todo o monte Sinai fumegava, porque o Senhor descera sobre ele em fogo; a sua fumaça subiu como fumaça de uma fornalha, e todo o monte tremia grandemente. E o clangor da trombeta ia aumentando cada vez mais” (Êxo. 19:18 e 19). Tão poderosa foi essa manifestação majestosa da presença de Deus, que todo o Israel tremeu.

Repentinamente os trovões e a trombeta cessaram, deixando no ar um soleníssimo silêncio. Depois, Deus falou de entre a espessa nuvem que O envolvia enquanto permanecia sobre a montanha. Movido por profundo amor a Seu povo, Ele proclamou os Dez Mandamentos. Moisés disse: “O Senhor veio do Sinai... e veio das míriades de santos; à Sua direita, havia para eles o fogo da lei. Na verdade, amas os povos; todos os Teus santos estão na Tua mão; eles se colocam a Teus pés e aprendem das Tuas palavras” (Deut. 33:2 e 3).

Ao conceder Sua lei no monte Sinai, Deus não apenas revelou a Si mesmo como a majestosa e suprema autoridade do Universo. Ele também Se revelou como o Redentor de Seu povo (Êxo. 20:2). Pelo fato de ser o Salvador, Ele não apenas chamou a Israel mas a toda a humanidade (Ecl. 12:13) à obediência a esses breves, abrangentes e autorizados preceitos que abrangem todos os deveres da humanidade em relação a Deus e em relação uns com os outros.

E Deus falou:

“Não terás outros deuses diante de Mim.

“Não farás para ti imagem de escultura, nem semelhança alguma do que há em cima nos Céus, nem em baixo na Terra, nem nas águas debaixo da terra. Não as adorarás, nem lhes darás culto; porque Eu sou o Senhor, teu Deus, Deus zeloso, que visito a iniqüidade dos pais nos filhos até à terceira e quarta geração daqueles que Me aborrecem e faço misericórdia até mil gerações daqueles que Me amam eguardam os Meus mandamentos.

“Não tomarás o nome do Senhor, teu Deus, em vão, porque o Senhor não terá por inocente o que tomar o Seu nome em vão.

“Lembra-te do dia de sábado, para o santificar. Seis dias trabalharás e farás toda a tua obra. Mas o sétimo dia é o sábado do Senhor, teu Deus; não farás nenhum tabalho, nem tu, nem o teu filho, nem a tua filha, nem o teu servo, nem a tua serva, nem o teu animal, nem o forasteiro das tuas portas para dentro; porque, em seis dias, fez o Senhor os Céus e a Terra, o mar e tudo o que neles há e, ao sétimo dia descansou; por isso, o Senhor abençoou o dia de sábado e o santificou.

“Honra teu pai e tua mãe, para que se prolonguem os teus dias na terra que o Senhor, teu Deus, te dá.

“Não matarás.

“Não adulterarás.

“Não furtarás.

“Não dirás falso testemunho contra o teu próximo.

“Não cobiçarás a casa do teu próximo. Não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma que pertença ao teu próximo” (Êxo. 20:3-17).

A Natureza da Lei

Na qualidade de reflexo do caráter de Deus, os Dez Mandamentos são de natureza moral, espiritual, abrangente e contém princípios universais.

Reflexo do Caráter do Legislador. As Escrituras vêem os atributos de Deus em Sua lei. Tal como Deus, “a lei do Senhor é perfeita” e o “testemunho do Senhor é fiel” (Sal. 19:7). “A lei é santa; e o mandamento, santo, e justo, e bom” (Rom. 7:12). “Todos os Teus mandamentos são verdade. Quanto às Tuas prescrições, há muito sei que as estabeleceste para sempre” (Sal. 119:151 e 152). Efetivamente, “todos os Teus mandamentos são justiça” (Sal. 119:172).

Uma Lei Moral. Os Dez Mandamentos apresentam o padrão divino de conduta para a humanidade. Eles definem nosso relacionamento com o Criador e Redentor, bem como nossos deveres para com os semelhantes. As Escrituras identificam a transgressão da lei como pecado (I João 3:4).

Uma Lei Espiritual. “A lei é espiritual” (Rom. 7:14). Portanto, somente aqueles que são espirituais e revelam os frutos do Espírito, é que podem obedecer a lei (João 15:4; Gál. 5:22 e 23). É o Espírito de Deus que nos fortalece para a obediência (Atos 1:8; Sal. 51:10-12). Ao permanecer em Cristo, recebemos o poder necessário para produzir os frutos de Sua glória (João 15:5). As leis humanas abrangem apenas atos públicos. Mas os Dez Mandamentos são “ilimitados” (Sal. 119:96), alcançando os nossos mais secretos pensamentos, desejos e emoções, tais como o ciúme, inveja, lascívia e ambição. Durante o Sermão da Montanha, Jesus enfatizou essa dimensão espiritual da lei, demonstrando que a transgressão começa no coração (Mat. 5:21, 22, 27 e 28; Mar. 7:21-23).

Uma Lei Positiva. O Decálogo é mais do que simplesmente uma série de proibições; ele contém princípios de longo alcance. Não somente se aplica a coisas que não deveríamos fazer, mas igualmente àquilo que deveríamos praticar. Não apenas devemos restringir-nos da prática de atos maus e de maus pensamentos; devemos aprender a como utilizar para o bem os talentos que Deus nos outorgou. Desse modo, toda injunção negativa possui uma dimensão positiva.

Por exemplo: o sexto mandamento, “Não matarás”, possui seu lado positivo, “Promoverás a vida”. “É desejo de Deus que os Seus seguidores promovam o bem-estar e a felicidade de todos aqueles que estiverem dentro de sua esfera de influência. Num sentido profundo, a comissão evangélica – as boas novas da salvação e vida eterna através de Jesus Cristo – repousa sobre o princípio positivo presente no sexto preceito.”[1]

Portanto, “a lei dos Dez Mandamentos não deve ser considerada tanto do lado proibitivo, como do lado da misericórdia. Suas proibições são a segura garantia de felicidade na obediência. Recebida em Cristo, ela opera em nós a purificação do caráter que nos trará alegria através dos séculos da eternidade. Para os obedientes é ela um muro de proteção. Contemplamos nela a bondade de Deus que, revelando aos homens os imutáveis princípios da justiça, procura resguardá-los dos males que resultam da transgressão”.[2]

Uma Lei Simples. Os Dez Mandamentos são amplos em sua abrangência. Tão breves que até mesmo uma criança pode facilmente memorizá-los, mas ainda assim são tão amplos que abrangem a qualquer pecado possível. “Não existe mistério na lei de Deus. Todos podem compreender as grandes verdades que ela encerra. O intelecto mais débil pode apreender essas regras; o mais ignorante pode reger a vida, e formar o caráter, de acordo com a norma divina.”[3]

Uma Lei de Princípios. Os Dez Mandamentos representam um resumo de todos os princípios corretos, aplicáveis a toda a humanidade em todos os tempos. Dizem as Escrituras: “Teme a Deus e guarda os Seus mandamentos; porque isto é o dever de todo homem” (Ecl. 12:13).

O Decálogo – as Dez Palavras, ou Dez Mandamentos (Êxo. 34:28) – consiste de duas partes, indicadas pelas duas tábuas sobre as quais Deus escreveu Sua lei (Deut. 4:13). Os quatro primeiros mandamentos regulamentam nossos deveres para com o Criador e Redentor, ao passo que os seis últimos orientam os deveres para com as demais pessoas.[4]

Essa divisão em duas porções deriva dos dois grandes princípios de amor sobre os quais opera o reino de Deus: “Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todas as tuas forças e de todo o teu entendimento; e: amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Luc. 10:27; cf. Deut. 6:4 e 5; Lev.19:18). Aqueles que vivem esses princípios achar-se-ão em plena harmonia com os Dez Mandamentos, uma vez que os mandamentos expressam com mais detalhes esses mesmos princípios.

O primeiro mandamento orienta quanto à adoração exclusiva ao único Deus verdadeiro. O segundo proíbe a idolatria.[5] O terceiro proíbe a irreverência e o perjúrio que envolve a invocação do nome divino. O quarto requer a observância do sábado e identifica o verdadeiro Deus como o Criador dos céus e da Terra.

O quinto mandamento requer que os filhos se submetam a seus pais, sendo eles os agentes divinamente indicados para transmitir Sua vontade revelada às sucessivas gerações (Deut. 4:6-9; 6:1-7). O sexto protege a vida, considerando-a sagrada. O sétimo estimula a pureza e protege a relação matrimonial. O oitavo protege a propriedade. O nono preserva a verdade e proscreve o perjúrio.

Finalmente, o décimo atinge as raízes de todo relacionamento humano ao proibir a cobiça daquilo que aos outros pertence.[6]<

Uma Lei Singular. Os Dez Mandamentos trazem consigo a distinção singular de serem as únicas palavras que Deus falou audivelmente a toda uma nação (Deut. 5:22). Deus não confiou Sua lei à desatenta mente humana, que facilmente esquece as coisas, mas gravou-a com Seu próprio dedo em tábuas de pedra, de modo que elas pudessem ser preservadas no interior da arca, no tabernáculo (Êxo. 31:18; Deut. 10:2).

Tendo em vista ajudar os israelitas na aplicação dos mandamentos, Deus lhes outorgou leis adicionais, as quais detalhavam o relacionamento que eles deveriam manter com Ele e uns com os outros. Algumas dessas leis adicionais focalizavam os assuntos civis de Israel (leis civis), outras regulamentavam as cerimônias dos serviços do santuário (leis cerimoniais). Deus comunicou essas leis adicionais ao povo, através de um intermediário, Moisés, o qual as escreveu no livro da lei e o colocou “ao lado da arca da aliança” (Deut. 31:26) – não no interior da arca, conforme ele fizera com a suprema revelação de Deus, o Decálogo. Essas leis adicionais tornaram-se conhecidas como “o Livro da Lei de Moisés” (Jos. 8:31; Nee. 8:1; II Crôn. 25:4), ou simplesmente como “Lei de Moisés” (II Reis 23:25; II Crôn. 23:18).[7]

Uma Lei Deleitosa. A lei de Deus constitui inspiração para a alma. Disse o salmista: “Quanto amo a Tua lei! É a minha meditação, todo o dia!” “Amo os Teus mandamentos mais do que o ouro, mais do que o ouro refinado.” Mesmo quando “sobre mim vieram tribulação e angústia”, prosseguiu ele, “os Teus mandamentos [foram] o meu prazer” (Sal. 119:97, 127 e 143). Para aqueles que amam a Deus, “os Seus mandamentos não são penosos” (I João 5:3). Transgressores são aqueles que consideram a lei como um jugo pesado, uma vez que a mente pecaminosa “não está sujeita à lei de Deus, nem mesmo pode estar” (Rom. 8:7).

O Propósito da Lei

Deus concedeu Sua lei a fim de prover abundantes bênçãos a Seu povo, e para conduzi-los a um relacionamento salvador com Ele. Observe os seguintes propósitos específicos:

Ela Revela a Vontade de Deus Para a Humanidade. Na qualidade de expressão do caráter e do amor de Deus, os Dez Mandamentos revelam Sua vontade e propósito para a humanidade. Demandam obediência perfeita, “pois qualquer que guarda toda a lei, mas tropeça em um só ponto, se torna culpado de todos” (Tia. 2:10). Obediência à lei, sendo esta a regra de vida, é vital para nossa salvação. O próprio Cristo explicou por quê: “Se queres, porém, entrar na vida, guarda os mandamentos” (Mat. 19:17). Essa obediência somente é possível por intermédio do poder que o Espírito Santo, habitando no íntimo do ser, torna disponível.

Ela é a Base do Concerto Divino. Moisés escreveu os Dez Mandamentos, junto com outras leis explanatórias, num livro chamado “livro do concerto” – ou da “aliança” (Êxo. 20:1 a 24:8).[8] Mais tarde, ele identificou os Dez Mandamentos como “as tábuas do concerto”, indicando sua importância como base do concerto eterno (Deut. 9:9; cf. 4:13. Para informações adicionais acerca dos concertos, veja o capítulo 7 deste livro).

Ela Funciona Como Padrão de Julgamento. Tal como Deus, Seus “mandamentos são justiça” (Sal. 119:172). Portanto, a lei estabelece o padrão de justiça. Cada um de nós será julgado por esses retos princípios, e não por nossa consciência. Dizem as Escrituras: “Teme a Deus e guarda os Seus mandamentos... porque Deus há de trazer a juízo todas as obras, até as que estão escondidas, quer sejam boas, quer sejam más” (Ecl. 12:13 e 14; cf. Tia. 2:12).

A consciência humana é instável. A consciência de alguns é “fraca”, enquanto a de outros é “corrompida”, “má” ou “cauterizada” (I Cor. 8:7 e 12; Tito 1:15; Heb. 10:22; I Tim. 4:2). Tal como um relógio, não importa quão bem ele trabalhe, deve a consciência ser “aferida” de acordo com algum padrão, para que ela possa ser de algum valor. Nossa consciência nos diz que devemos proceder de modo correto, mas não nos diz o que é correto. Somente a consciência aferida de acordo com o grande padrão divino – Sua lei – pode evitar que mergulhemos em pecado.[9]

Ela Aponta o Pecado. Sem os Dez Mandamentos as pessoas não podem ver claramente a santidade de Deus, nem sua própria culpa ou a necessidade de experimentar o arrependimento.

Quando as pessoas não sabem que estão violando a lei de Deus, não se apercebem de sua condição de perdidas ou a necessidade do sangue expiatório de Cristo.

Tendo em vista ajudar as pessoas a verem sua verdadeira condição, a lei funciona como uma espécie de espelho (Tia. 1:23-25). Aqueles que “olham” a seu próprio caráter defeituoso em contraste com a justiça do caráter de Deus, compreendem que a lei revela que todas as pessoas são culpadas diante de Deus (Rom. 3:19), e que todas são plenamente responsáveis perante Ele.

“Pela lei vem o pleno conhecimento do pecado” (Rom. 3:20), já que “pecado é a transgressão da lei” (I João 3:4). Efetivamente, diz Paulo, “eu não teria conhecido o pecado, senão por intermédio da lei” (Rom. 7:7). Ao convencer os pecadores de suas culpas, ela os ajuda a compreender que estão condenados sob o julgamento da ira de Deus e que estão diante da penalidade de morte eterna. A lei provoca neles, portanto, um senso de completo desamparo.

Ela é um Agente de Conversão. A lei de Deus é o instrumento que o Santo Espírito utiliza para trazer-nos à conversão. “A lei do Senhor é perfeita e restaura a alma” (Sal. 19:7). Quando, depois de ver nosso verdadeiro caráter, compreendemos que somos pecadores, que estamos condenados à morte e sem esperança, sentimos a necessidade de um Salvador. Neste ponto, as boas novas do evangelho tornam-se cheias de significado. Assim, pois, a lei nos indica a Cristo, o único que nos pode ajudar a escapar de nossa desesperada condição.[10] Foi nesse sentido que Paulo se referiu tanto à lei moral quanto à lei cerimonial como sendo um tutor ou “aio”, cujo objetivo é “nos conduzir a Cristo, a fim de que [sejamos] justificados por fé” (Gál. 3:24).[11]
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Ao mesmo tempo que a lei revela nosso pecado, ela jamais será capaz de salvar-nos. Da mesma forma como a água é o elemento necessário para lavar as faces sujas, assim, depois de nos contemplarmos no espelho da lei moral de Deus, tendo descoberto nossa necessidade de limpeza, corremos à fonte que se encontra aberta “para remover o pecado e a impureza” (Zac. 13:1), onde somos purificados pelo “sangue do Cordeiro” (Apoc. 7:14). Temos de contemplar a Cristo. O pecador tem de “olhar para seu Salvador, o portador dos pecados. E ao ser-lhe revelado Cristo na cruz do Calvário, morrendo sob o peso dos pecados de todo o mundo, o Espírito Santo lhe mostra a atitude de Deus para com todos os que se arrependem de suas transgressões”.[12] Nesse momento, a esperança extravasa de nosso coração e em fé nos dirigimos a nosso Salvador, que por Sua vez nos estende o dom da vida eterna (João 3:16).

Ela Provê Genuína Liberdade. Cristo disse que “todo o que comete pecado é escravo do pecado” (João 8:34). Quando transgredimos a lei de Deus, não nos achamos em liberdade; a obediência aos Dez Mandamentos, esta sim, nos assegura verdadeira liberdade. Viver dentro dos limites estabelecidos pela lei de Deus significa liberdade do pecado. Significa também liberdade diante daquilo que acompanha o pecado – contínuo aborrecimento, consciência ferida, crescente culpa e remorso, que minam as forças vitais de nossa vida. Disse o salmista: “Andarei em verdadeira liberdade, pois tenho buscado os Teus preceitos” (Sal. 119:45, Nova Versão Internacional). Tiago referiu-se ao Decálogo como a “lei perfeita, lei da liberdade” (Tia. 2:8; 1:25).

Para que pudéssemos receber essa liberdade, Jesus nos convidou a que viéssemos até Ele com todos os nossos fardos de pecado. Ele nos oferece o Seu jugo, que é suave (Mat. 11:29 e 30). O jugo é um instrumento de serviço. Ao dividir as cargas, o jugo torna mais fácil a execução das tarefas. Cristo Se oferece para ser jungido a nós. O jugo é a própria lei. “A grande lei de amor revelada no Éden, proclamada no Sinai, e, no novo concerto, escrita no coração, é o que liga o obreiro humano à vontade de Deus.”[13] Quando somos colocados sob o jugo com Cristo, é Ele quem suporta o fardo pesado e torna possível a obediência. Ele nos capacita a empreender com êxito o que antes era impossível. Dessa forma a lei, escrita em nosso coração torna-se nosso deleite e gozo. Somos livres porque desejamos fazer o que Ele nos ordena.

Se a lei é apresentada sem o poder salvador de Cristo, não há qualquer libertação do pecado. Mas a graça salvadora de Deus, que de nenhuma forma invalida a lei, traz o poder que nos liberta do pecado, pois “onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade” (II Cor. 3:17).

Ela Restringe o Mal e Traz Bênçãos. O aumento de crimes, violência, imoralidade e maldade que inunda a Terra, resultou do desprezo que os homens votaram ao Decálogo. Sempre que a lei é aceita, restringe o pecado, promove ações corretas e torna-se o meio para estabelecer a justiça. Nações que incorporaram os princípios dessa lei a suas leis nacionais, experimentaram grande bênção. Por outro lado, o abandono desses princípios sempre trouxe consigo decidido declínio.

Nos tempos do Antigo Testamento, Deus muitas vezes abençoou nações e indivíduos em proporção à obediência destes a Sua lei. Dizem as Escrituras: “A justiça exalta as nações” e “com justiça se estabelece o trono” (Prov. 14:34; 16:12). Aqueles que se recusavam a obedecer os mandamentos de Deus, encontravam calamidades (Sal. 89:31 e 32). “A maldição do Senhor habita na casa do perverso, porém a morada dos justos Ele abençoa” (Prov. 3:33; cf. Lev. 26; Deut. 28). O mesmo princípio geral continua válido nos dias de hoje.[14]

A Perpetuidade da Lei

Uma vez que a lei moral dos Dez Mandamentos é um reflexo do caráter de Deus, seus princípios não podem ser temporários ou situacionais; antes, são absolutos, imutáveis e permanentemente válidos para a humanidade. Os cristãos, ao longo dos séculos, têm afirmado com segurança e perpetuidade da lei de Deus, reafirmando decididamente a sua contínua validade.[15]

A Lei Antes do Sinai. A lei existia muito antes que Deus outorgasse o Decálogo a Israel. Se assim não fosse, não teria existido pecado antes do Sinai, uma vez que o “pecado é a transgressão da lei” (I João 3:4). O fato de que Lúcifer e seus anjos pecaram revela que a lei se achava presente mesmo antes da Criação (II Ped. 2:4).

Quando Deus criou Adão e Eva à Sua imagem, implantou em sua mente os princípios morais de Sua lei, fazendo com que para eles a obediência a Sua vontade parecesse algo natural. A transgressão de nossos primeiros pais introduziu o pecado na família humana (Rom. 5:12).

Mais tarde, Deus disse de Abraão que ele “obedeceu a Minha palavra e guardou... os Meus estatutos e as Minhas leis” (Gên. 26:5). Moisés, a seu turno, ensinou os estatutos e leis de Deus antes do Sinai (Êxo. 16; 18:16). O estudo do livro de Gênesis mostra que os Dez Mandamentos eram perfeitamente conhecidos antes do Sinai. Esse livro torna claro que as pessoas compreendiam, antes de Deus conceder o Decálogo, que os atos ali proibidos eram maus.[16] Essa compreensão generalizada da lei moral mostra que Deus certamente havia concedido à humanidade o conhecimento dos Dez Mandamentos.

A Lei no Sinai. Durante o longo período de escravidão no Egito, uma nação que não reconhecia o verdadeiro Deus (Êxo. 5:2), os israelitas viveram em meio à idolatria e corrupção. Como conseqüência, perderam muito de sua compreensão da pureza, santidade e princípios morais de Deus. Sua condição de escravos lhes dificultava a adoração.

Em resposta ao seu desesperado clamor por libertação, Deus lhes fez recordar o concerto que estabelecera com Abraão, e determinou-Se a livrar Seu povo da “fornalha de ferro” (Deut. 4:20), conduzindo-os a uma terra onde eles poderiam guardar os preceitos e observar as leis de Deus (Sal. 105:43-45).

Após a libertação do Egito, o Senhor os conduziu ao Monte Sinai, a fim de dar-lhes a lei moral que representa o padrão de Seu governo, e as leis cerimoniais que haveriam de ensinar-lhes a verdade da salvação por intermédio do sacrifício expiatório do Salvador. Portanto, no Sinai Deus lhes outorgou a lei diretamente, em termos simples e claros, “por causa das transgressões” (Gál. 3:19), “a fim de que, pelo mandamento [o pecado], se mostrasse sobremaneira maligno” (Rom. 7:13). Somente pelo fato de a lei de Deus haver sido colocada em forte destaque é que poderiam os israelitas se tornar cônscios de suas transgressões, perceber seu estado de desamparo e vislumbrar a necessidade de salvação.

A Lei Antes do Retorno de Cristo. A Bíblia revela que a lei de Deus representa o objeto dos ataques satânicos, e que sua guerra contra ela alcançará o clímax justamente antes do Segundo Advento. As profecias indicam que Satanás levará a maior parte das pessoas a desobedecerem a Deus (Apoc.12:9). Operando através do poder da “besta”, ela dirigirá a atenção do povo para a besta, desviando-a de Deus (Apoc. 13:3).

1. A lei sob ataque. Daniel 7 retrata este mesmo poder sob a forma de um chifre pequeno. Esse capítulo fala de quatro grandes bestas, as quais, mesmo desde os tempos de Cristo, têm sido identificadas pelos comentaristas como os impérios de Babilônia, Medo-Pérsia, Grécia e Roma. Os dez chifres da quarta besta representam as divisões do Império Romano por ocasião de sua derrocada (467 d.C.).[17]

A visão de Daniel centraliza-se num chifre pequeno, um poder terrível e blasfemo que se ergueu entre os dez chifres, o que representava o surgimento de um pavoroso poder a partir da desintegração do Império Romano. Esse poder tentaria modificar a lei de Deus (Dan. 7:25) e persistiria até o retorno de Cristo (veja o capítulo 19 deste livro). O ataque previsto é, por si só, uma evidência de que a lei continuaria sendo significativa dentro do plano da salvação. A visão finaliza mediante a segurança concedida ao povo de Deus, de que esse poder não prosperaria em tentar eliminar a lei, uma vez que o juízo determinaria a destruição do chifre pequeno (Dan. 7:11, 26-28).

2. Os santos defendem a lei. Obediência é a característica dos santos que aguardam o Segundo Advento. No conflito final, eles se debatem para erguer diante do mundo a lei de Deus. As Escrituras descrevem esses santos nos seguintes termos: eles “guardam os mandamentos de Deus e têm o testemunho de Jesus” (Apoc. 12:17; 14:12) e aguardam pacientemente o breve retorno de Cristo.

Em preparação ao Segundo Advento, essas pessoas proclamam o evangelho, conclamando outras à adoração do Senhor como Criador (Apoc.14:6 e 7). Aqueles que adoram a Deus em amor, obedecer-Lhe-ão; ou, conforme João mencionou: “Este é o amor de Deus: que guardemos os Seus mandamentos; ora, os Seus mandamentos não são penosos” (I João 5:3).

3. O julgamento divino e a lei. O juízo divino, manifestado através das sete últimas pragas que caem sobre os desobedientes, origina-se do templo do “tabernáculo do testemunho” no Céu (Apoc.15:5). Israel estava bem familiarizado com a frase tabernáculo do testemunho; ela designava o tabernáculo erigido por Moisés (Núm. 1:50 e 53; 17:8; 18:2). Era assim chamado porque o tabernáculo abrigava a “arca do testemunho” (Êxo. 31:18). Assim, os Dez Mandamentos eram o “testemunho” – pois testemunhavam perante a humanidade daquilo que constituía a vontade divina (Êxo. 34:28 e 29).

Mas Apoc. 15:5 se refere ao “santuário do tabernáculo do testemunho” no Céu. O tabernáculo de Moisés era apenas uma cópia do santuário celestial (Êxo. 25:8 e 40; cf. Heb. 8:1-5); o grande original da lei dos Dez Mandamentos é conservado no santuário celestial. O fato de que o julgamento final se acha intimamente relacionado com a transgressão da lei de Deus, adiciona evidências da perpetuidade dos Dez Mandamentos.

O livro de Apocalipse também retrata a abertura do templo celestial, o que faz com que apareça “a arca da aliança” (Apoc. 11:19). A expressão arca da aliança designava a arca do santuário terrestre, dentro da qual se encontravam “as palavras da aliança, os Dez Mandamentos” (Êxo. 34:27; cf. Núm. 10:33; Deut. 9:9). A arca do concerto no santuário celestial é a arca original que contém as palavras do concerto eterno – o Decálogo original. Assim, torna-se claro que o tempo do juízo final de Deus sobre o mundo (Apoc. 11:18) está relacionado com a abertura do templo celestial, e seu respectivo focalizar da arca e dos Dez Mandamentos; trata-se, efetivamente, de uma figura apropriada da magnificação da lei de Deus como padrão de julgamento.

A Lei e o Evangelho

Salvação é um dom que vem pela graça, através da fé, e não depende das obras da lei (Efés. 2:8). “Não por obras de justiça praticadas por nós, nem por qualquer esforço que nos recomende, nem por boas obras – não importa se muitas ou poucas – pode o pecador ser de alguma forma justificado (Tito 3:5; Rom. 3:20).”[18]

Ao longo de toda a Escritura existe perfeita harmonia entre a lei e o evangelho, cada um deles confirmando o outro.

A Lei e o Evangelho Antes do Sinai. Quando Adão e Eva pecaram, ficaram sabendo o que significavam a culpa, o temor e a necessidade (Gên. 3:10). Deus respondeu a suas necessidades não através da anulação da lei que os condenava; ao contrário, ofereceu-lhes o evangelho que os restauraria à comunhão e obediência relacionadas com Ele.

O evangelho consistia da promessa de redenção através de um Salvador, o Descendente da mulher, que apareceria em alguma ocasião futura e triunfaria sobre o mal (Gên. 3:15). O sistema de sacrifícios que Deus os instruiu a praticar, ensinar-lhes-ia uma importante verdade a respeito da expiação: o perdão poderia ser conseguido tão-somente mediante o derramamento de sangue – ou seja, através da morte do Salvador. Ao crerem que o animal simbolizava a morte expiatória do Salvador em favor deles, foi-lhes possível obter o perdão dos pecados.[19] Foram salvos pela graça.

Essa promessa de evangelho representava o centro do eterno concerto de graça oferecido por Deus à humanidade (Gên. 12:1-3; 15:4 e 5; 17:1-9). Achava-se ela intimamente relacionada com a obediência à lei de Deus (Gên. 18:18 e 19; 26:4 e 5). O fiador do concerto divino era o Filho de Deus que, na qualidade de ponto focal do evangelho, representava o “Cordeiro de Deus que foi morto desde a fundação do mundo” (Apoc.13:8). Desse modo, a graça de Deus começou a operar tão logo Adão e Eva pecaram. Disse Davi: “A misericórdia do Senhor é de eternidade a eternidade, sobre os que O temem... para com os que guardam a Sua aliança e para com os que se lembram dos Seus preceitos e os cumprem” (Sal. 103:17 e 18).

A Lei e o Evangelho no Sinai. Existe íntima relação entre o Decálogo e o evangelho. O preâmbulo da lei, por exemplo, refere-se a Deus como o Redentor (Êxo. 20:1). Após a proclamação dos Dez Mandamentos, Deus instruiu os israelitas a erigirem um altar e começarem a oferecer os sacrifícios que lhes haveriam de revelar a Sua graça redentora.

Foi no Monte Sinai que Deus deu a Moisés grande parte das leis cerimoniais relacionadas com a construção do santuário, no qual Deus habitaria em meio a Seu povo e com eles Se encontraria, compartilhando Suas bênçãos e perdoando os seus pecados (Êxo. 24:9 a 31:18). Essa ampliação dos sacrifícios simples que haviam sido praticados antes do Sinai, antecipava a obra mediatória de Cristo pela redenção dos pecadores e a vindicação da autoridade e santidade da lei de Deus.

O lugar de habitação de Deus seria o lugar santíssimo do santuário terrestre, sobre o propiciatório que cobria a arca – dentro da qual se achavam os Dez Mandamentos. Cada aspecto dos serviços do santuário simbolizava o Salvador. As sangrentas vítimas apontavam a Sua morte expiatória, a qual redimiria a raça humana da condenação da lei (veja os capítulos 4 e 9 deste livro).

Ao mesmo tempo em que o Decálogo foi colocado dentro da arca, as leis cerimoniais, junto com as leis civis outorgadas por Deus, foram escritas no “Livro da Lei” e colocadas ao lado da arca do concerto como “testemunhas contra” o povo (Deut. 31:26). Sempre que pecassem, essa “testemunha” condenava suas ações e provia instruções detalhadas para a reconciliação com Deus. Do Sinai até a morte de Cristo, os transgressores do Decálogo encontravam esperança, perdão e purificação pela fé no evangelho retratado nos serviços do santuário, desempenhados através da lei cerimonial.

A Lei e o Evangelho Depois da Cruz. Conforme muitos cristãos têm percebido, a Bíblia indica que – enquanto a morte de Cristo aboliu a lei cerimonial – essa mesma morte afirmou a contínua validade da lei moral.[20] Observe as evidências:

1. A lei cerimonial. Quando Cristo morreu, cumpriu os simbolismos proféticos do sistema sacrifical. O tipo encontrou o antítipo, e as leis cerimoniais chegaram ao fim. Séculos antes, Daniel havia predito que a morte do Messias faria “cessar o sacrifício e a oferta de manjares” (Dan. 9:27; veja o capítulo 4 deste livro). Na morte de Cristo, o véu do templo foi rasgado de alto a baixo, em duas partes, através de meios sobrenaturais (Mat. 27:51), indicando o fim do significado espiritual dos serviços do templo.

Embora as leis cerimoniais desempenhassem papel vital antes da morte de Cristo, eram deficientes sob vários aspectos, representando apenas a “sombra dos bens vindouros” (Heb. 10:1). Serviram a um propósito temporário e foram concedidas ao povo de Deus até a vinda do “tempo oportuno de reforma” (Heb. 9:10; cf. Gál. 3:19) – até o tempo em que Cristo morreu na qualidade de verdadeiro Cordeiro de Deus.

Na morte de Cristo, a vigência da lei cerimonial chegou ao fim. Seu sacrifício expiatório providenciou perdão para todos os pecados. Esse ato cancelou “o escrito de dívida, que era contra nós e que constava de ordenanças, o qual nos era prejudicial, removeu-o inteiramente, encravando-o na cruz” (Col. 2:14; cf. Deut.

31:26). Não mais era necessário executar as elaboradas cerimônias que, de todos os modos, não eram capazes de remover pecados ou purificar consciências (Heb. 10:4; 9:9 e 14). Não mais deveria haver preocupação com as leis cerimoniais, com seus complexos requisitos no tocante a manjares e bebidas, celebração de vários festivais (Páscoa, Pentecostes, etc.), luas novas, ou sábados cerimoniais (Col. 2:16; cf. Heb. 9:10), pois todas essas coisas eram apenas “sombra das coisas que haviam de vir” (Col. 2:17).[21]


Com a morte de Jesus, os crentes já não tinham qualquer necessidade de lidar com sombras – essas apontavam à realidade de Cristo. Agora podiam aproximar-se diretamente do Salvador em pessoa, porque “o corpo é de Cristo” (Col. 2:17).

Do modo como foram interpretadas pelos judeus, as leis cerimoniais tornaram-se uma barreira entre eles e as demais nações. Haviam-se constituído em grande obstáculo à missão que lhes fora atribuída, de constituírem-se na luz que iluminaria o mundo com a glória de Deus. A morte de Cristo aboliu essa “lei de mandamentos que continha ordenanças”, derrubando o “muro de separação” existente entre gentios e judeus, e criando assim uma nova família de crentes, reconciliados em “um só corpo com Deus, por intermédio da cruz” (Efés. 2:14-16).

2. O Decálogo e a cruz. Ao mesmo tempo em que a morte de Cristo fez cessar a autoridade da lei cerimonial, ela estabeleceu a autoridade dos Dez Mandamentos. Cristo removeu a maldição da lei, libertando assim os crentes de sua condenação. O ato de Ele assim proceder, contudo, não significou que a lei foi abolida, autorizando-nos a violar os seus princípios. O abundante testemunho das Escrituras com relação à perpetuidade da lei, refuta semelhante ponto de vista.

Calvino observou apropriadamente que “não devemos imaginar que a vinda de Cristo nos libertou da autoridade da lei, pois ela é a regra eterna de toda vida devota e santa e deve, portanto, ser tão imutável quanto a justiça de Deus.[22]

Paulo descreve o relacionamento existente entre a obediência e o evangelho da graça salvadora. Ao chamar os crentes para a santidade de vida, ele os desafia a se apresentarem a si mesmos “a Deus, como instrumentos de justiça. Porque o pecado não terá domínio sobre vós; pois não estais debaixo da lei e sim da graça” (Rom. 6:13 e 14). Assim, os cristãos não observam a lei a fim de obter a salvação – aqueles que tentarem esse esquema conseguirão tão-somente tornar-se escravos do pecado. “Enquanto o homem se mantiver sob a lei, permanecerá também sob o domínio do pecado, pois a lei é incapaz de salvar alguém, quer seja da condenação, quer seja do poder do pecado. Mas aqueles que se encontram sob a graça não apenas escapam da condenação (Rom. 8:1), como também recebem o poder para triunfar (Rom. 6:4). Portanto, o pecado não mais exerce domínio sobre eles.”[23]

Paulo acrescenta: “Porque o fim da lei é Cristo, para justiça de todo aquele que crê” (Rom. 10:4). Portanto, todo aquele que crê em Cristo compreende que Ele é o fim da lei como meio de obtenção de justiça. De nós próprios somos pecadores, mas em Jesus Cristo somos feitos justos, por meio de Sua justiça imputada.[24]

O fato de estarem os crentes sob a graça, não lhes dá o direito de permanecer “no pecado, para que seja a graça mais abundante” (Rom. 6:1). Ao contrário, a graça provê o poder que torna possível a obediência e a vitória sobre o pecado. “Agora, pois, já nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus” (Rom. 8:1).

A morte de Cristo exaltou a lei, evidenciando sua autoridade universal. Se o Decálogo pudesse ser alterado, Ele não precisaria haver morrido. Uma vez, porém, que a lei é absoluta e imutável, a morte era requerida como cumprimento da penalidade imposta. Essa exigência foi plenamente satisfeita pela morte de Cristo na cruz, tornando disponível a vida eterna a todos aqueles que aceitam o Seu estupendo sacrifício.

Obediência à Lei

As pessoas não conseguem obter a salvação como resultado de seus méritos manifestados em obras. A obediência é o fruto da salvação em Cristo. Por meio dessa extraordinária graça, especialmente revelada na cruz, Deus libertou Seu povo da penalidade e da maldição do pecado. Embora sejam eles pecadores, Cristo ofereceu Sua vida a fim de prover-lhes o dom da vida eterna. O abundante amor de Deus faz despertar no pecador arrependido um tipo de resposta que se manifesta em amorável obediência através do poder da graça tão abundantemente derramada. Os crentes que compreenderem o valor atribuído por Cristo à lei e as bênçãos resultantes da obediência, serão fortemente motivados a desenvolver vida cristã efetiva.

Cristo e a Lei. Cristo tinha na mais alta consideração os Dez Mandamentos. Na qualidade de grande EU SOU, foi Ele próprio que proclamou a lei moral do Pai no Monte Sinai (João 8:58; Êxo. 3:14; veja o capítulo 4 deste livro). Uma parcela de Sua missão na Terra foi “engrandecer a lei e fazê-la gloriosa” (Isa. 42:21). Um texto do Antigo Testamento, que o Novo Testamento aplica a Cristo, mostra muito bem qual a atitude de Cristo face à lei: “Agrada-Me fazer a Tua vontade, ó Deus Meu; dentro em Meu coração, está a Tua lei” (Sal. 40:8; cf. Heb. 10:5 e 7).

Seu evangelho produziu uma fé que sustentou firmemente a validade do Decálogo. Paulo escreveu: “Anulamos, pois, a lei pela fé? Não, de maneira nenhuma! Antes, confirmamos a lei” (Rom. 3:31).

Compreendemos assim que Cristo veio não apenas redimir o homem, como também vindicar a autoridade e santidade da lei de Deus, apresentando sua magnificência e glória perante as pessoas e oferecendo o exemplo de correto relacionamento com ela. Na qualidade de Seus seguidores, devem os cristãos igualmente magnificar a lei de Deus em sua vida. Tendo Ele próprio vivido uma existência de amorável obediência, Cristo insistiu em que Seus seguidores deveriam observar os mandamentos. Quando Lhe foi perguntado no tocante aos requisitos para entrar na vida eterna, Ele respondeu: “Se queres, porém, entrar na vida, guarda os mandamentos” (Mat. 19:17). Ele advertiu igualmente contra a violação desse princípio: “Nem todo o que Me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos Céus, mas aquele que faz a vontade de Meu Pai, que está nos Céus.” Aos transgressores da lei será recusada a admissão no reino celestial (Mat. 7:21-23).

O próprio Cristo cumpriu a lei, não por destruí-la, mas por viver obedientemente. Ele nos faz lembrar: “Porque em verdade vos digo: Até que o Céu e a Terra passem, nem um i ou um til jamais passará da lei, até que tudo se cumpra” (Mat. 5:18). Cristo enfatizou fortemente que o grande objeto da lei de Deus deve ser sempre conservado em mente: amar o Senhor nosso Deus de todo o coração, alma e entendimento, e ao nosso próximo como a nós mesmos (Mat. 22:37 e 38). Contudo, Ele não queria que os Seus seguidores amassem uns aos outros do modo como o mundo interpreta o termo amor – de modo egoísta ou sentimental. A fim de explicar a que tipo de amor fazia referência, Cristo deu aos discípulos um “novo mandamento” (João 13:34). Esse novo mandamento não deveria ocupar o lugar do Decálogo, mas prover os crentes com “um exemplo daquilo que realmente é o amor altruísta, amor tal como jamais havia sido testemunhado sobre a Terra. Nesse sentido o Seu mandamento poderia ser descrito como novo. Ele não apenas lhes ordenou: ‘Que vos ameis uns aos outros’, mas ‘que vos ameis uns aos outros, assim como Eu vos amei’ (João 15:12).Estritamente falando, temos aqui simplesmente mais uma evidência de como Cristo magnificou o amor de Seu Pai.”[25]

A obediência revela tal espécie de amor. Jesus disse: “Se Me amais, guardareis os Meus mandamentos” (João 14:15). “Se guardardes os Meus mandamentos, permanecereis no Meu amor; assim como também Eu tenho guardado os mandamentos de Meu Pai e no Seu amor permaneço” (João 15:10).

Semelhantemente, se amamos o povo de Deus, amaremos a Deus e guardaremos “os Seus mandamentos” (I João 2:3).

Somente se permanecermos em Cristo nos será possível prestar obediência de coração. Jesus deixou claro este ponto: “Como não pode o ramo produzir fruto de si mesmo se não permanecer na videira, assim, nem vós o podeis dar, se não permanecerdes em Mim. ... Quem permanece em Mim, e Eu, nele, esse dá muito fruto; porque sem Mim nada podeis fazer” (João 15:4 e 5). Para permanecer em Cristo temos de ser crucificados com Ele e experimentar aquilo de que Paulo escreveu: “Já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim” (Gál. 2:20). Em relação aos que se acham nessa condição, pode Cristo cumprir as promessas de Seu novo concerto: “Na sua mente imprimirei as Minhas leis, também sobre o seu coração as inscreverei; e Eu serei o seu Deus, e eles serão o Meu povo” (Heb. 8:10).

Bênçãos da Obediência. A obediência desenvolve caracteres cristãos e produz um senso de bem-estar, fazendo com que os crentes cresçam como “crianças récem-nascidas” e sejam transformados à imagem de Deus (I Ped. 2:2; II Cor. 3:18). Essa transformação de pecadores em filhos de Deus, testemunha da efetividade do poder de Cristo.

As Escrituras declaram “bem-aventurados” todos os que “andam na lei do Senhor” (Sal. 119:1), cujo “prazer está na lei do Senhor” e que “na Sua lei” medita de dia e de noite” (Sal. 1:2). As bênçãos da obediência são muitas: (1) iluminação e sabedoria (Sal. 119:98 e 99); (2) paz (Sal. 119:165; Isa. 48:18); (3) justiça (Deut. 6:25; Isa 48:18); (4) vida moral pura (Prov. 7:1-5); (5) conhecimento da verdade (João 7:17); (6) proteção face a enfermidade (Êxo. 15:26); (7) longevidade (Prov. 3:1 e 2; 4:10 e 22); e (8) a certeza de que as orações da pessoa serão atendidas (I João 3:22; cf. Sal. 66:18).

Convidando-nos à obediência, Deus promete abundantes bênçãos (Lev. 26:3- 10; Deut. 28:1-12). Quando respondemos positivamente, tornamo-nos Seu “especial tesouro” – um “reino de sacerdotes e nação santa” (Êxo. 19:5 e 6; cf. I Ped. 2:5 e 9), elevados “sobre todas as nações da Terra”, colocados “por cabeça e não por cauda” (Deut. 28:1 e 13).

Referências:
[1]. Holbrook, “What God’s Law Means to Me”, Adventist Review, 15 de janeiro de 1987, pág. 16.
[2]. E. G. White, Mensagens Escolhidas, vol. 1, pág. 235.
[3]. Ibidem, pág. 218.
[4]. Cf. The Westminster Confession of Faith, 1647 d.C., Capítulo XIX, in Philip Schaff, The Creeds of Christendom, vol. 3, págs. 640 e 644.
[5]. Veja Taylor G. Bunch, The Ten Commandments (Washington, D.C.: Review and Herald, 1944), págs. 35 e 36.
[6]. “Ten Commandments”, SDA Bible Dictionary, edição revista, pág. 1.106.
[7]. A lei de Moisés pode também se referir à divisão do Antigo Testamento chamada Pentateuco – os cinco primeiros livros da Bíblia (Luc. 24:44; Atos 28:23).
[8]. Incluídas no livro do concerto achavam-se certas leis civis e regulamentos cerimoniais. Os preceitos civis não representavam adições ao Decálogo, mas apenas aplicações específicas daqueles princípios abrangentes. Os preceitos cerimoniais simbolizam o evangelho ao prover os meios da graça para os pecadores. Portanto, é o Decálogo que domina o concerto. Cf. Jer. 7:21-23; Francis D. Nichol, Answers to Objections (Washington, D.C.: Review and Herald, 1952), págs. 62-68.
[9]. Arnold V. Wallenkampf, “Is Conscience a Safe Guide?”, Review and Herald, 11 de abril de 1983, pág. 6.
[10]. Alguns têm interpretado a afirmação de Paulo, “porque o fim da lei é Cristo, para justiça de todo aquele que crê”, como significando que o fim ou propósito da lei é conduzir-nos ao ponto em que podemos perceber nossa pecaminosidade e assim nos dirigirmos a Cristo para obter perdão e, pela fé, recebermos a Sua justiça. (Esse uso da palavra “fim” [do grego telos] também é encontrado em I Tess. 1:5; Tia. 5:11 e I Ped. 1:9). Veja também a nota 23.
[11]. Cf. SDA Bible Commentary, edição revista, vol. 6, pág. 961; E. G. White, Mensagens Escolhidas, vol. 1, pág. 233. A lei cerimonial representava também um aio que conduzia o indivíduo a Cristo através de diferentes meios. Os serviços do santuário, com suas ofertas sacrificais, apontavam aos pecadores o perdão de pecados que o sangue do vindouro Cordeiro de Deus, Jesus Cristo, haveria de prover, levando-os, portanto, à compreensão da graça do evangelho. Era seu desígnio desenvolver amor pela lei de Deus enquanto as ofertas sacrificais deveriam constituir dramática ilustração do amor de Deus em Cristo.
[12]. E. G. White, Mensagens Escolhidas, vol. 1, pág. 213.
[13]. E. G. White, O Desejado de Todas as Nações, pág. 329.
[14]. Cf. E. G. White, Educação, págs. 173-184.
[15]. As confissões de fé históricas que sustentam a sua validade são “The Waldensean Catechism, c. 1500 d.C.; Luther’ s Small Catechism, 1529 d.C.; the Anglican Catechism, 1549 e 1662 d.C.; the Scottish Confession of Faith, 1560 d.C. (Reformada); the Heidelberg Catechism, 1563 d.C. (Reformada); the Second Helvetic Confession, 1566 d.C. (Reformada); the Thirty-nine Articles of Faith, 1571 d.C. (Igreja da Inglaterra); the Formula of Concord, 1576 d.C. (Luterana); the Irish Articles of Faith, 1615 d.C. (Irish Episcopal Church); the Westminster Confession of Faith, 1647 d.C.; the Westminster Shorter Catechism, 1647 d.C.; the Confession of the Waldenses, 1655 d.C.; the Savoy Declaration 1658 d.C. (Congregacional); the Confession of the Society of Friends, 1675 d.C. (Quakers); the Philadelphia Confession, 1688 d.C. (Batista); the Twenty-five Articles of Religion; 1784 d.C. (Metodista); the New Hampshire Conference, 1833 d.C. (Batista); the Longer Catechism of the Ortodox, Catholic, Eastern Church, 1839 d.C. (Greek-Russian Church), conforme citados em Creeds of Christendom, edição de Philip Schaff (Grand Rapids, MI: Baker Book House, 1983), vols. 1-3.
[16]. No tocante a referências para o primeiro e segundo mandamentos, veja Gên. 35:1-4; quanto ao quarto, Gên. 2:1-3; quanto ao quinto, Gên. 18:29; quanto ao sexto, Gên. 4:8-11; quanto ao sétimo, Gên. 39:7-9; 19:1-10; quanto ao oitavo, Gên. 44:8; quanto ao nono, Gên. 12:11-20; 20:1-10; e quanto ao décimo, Gên. 27.
[17]. Froom, Prophetic Faith of Our Fathers, vol. 1, págs. 456 e 894; vol. 2, págs. 528 e 784; vol. 3, págs. 252 e 744; vol. 4, págs. 392 e 846.
[18]. Questions on Doctrine, pág. 142.
[19]. Caim e Abel achavam-se plenamente familiarizados com o sistema sacrifical (Gên. 4:3-5; Heb. 11:4). É muito provável que Adão e Eva tenham obtido suas primeiras vestes (Gên. 3:21) da pele dos animais sacrificados como propiciação pelos seus pecados.
[20]. Veja, por exemplo, as seguintes confissões de fé históricas: The Westminster Confession of Faith, The Irish Articles of Religion, The Savoy Declaration, The Philadelphia Confession, e The Methodist Articles of Religion.
[21]. Cf. SDA Bible Commentary, edição revista, vol. 6, pág. 204; E. G. White, Patriarcas e Profetas, pág. 365.
[22]. Calvino, Commenting on a Harmony of the Evangelists, tradução de William Pringle (Grand Rapids: Wm. B. Eerdmans, 1949), vol. 1, pág. 277.
[23]. SDA Bible Commentary, edição revista, vol. 6, págs. 541 e 542.
[24]. Outros têm interpretado Cristo como sendo o fim da lei, no sentido de ser Cristo o alvo ou o objetivo da lei (cf. Gál. 3:24), ou o cumprimento da lei (cf. Mat. 5:17). Entretanto, o ponto de vista de que Cristo é o término da lei como meio de salvação (cf. Rom. 6:14) parece preencher melhor o contexto de Rom. 10:4. “Paulo está contrastando o meio divino de justificação pela fé com as tentativas do homem, de obter justificação através da lei. A mensagem do evangelho é que Cristo é o fim da lei como um meio para a justificação de todo aquele que crê” (SDA Bible Commentary, edição revista, vol. 6, pág. 595). Cf. E. G. White, Mensagens Escolhidas, vol. 1, pág. 394.
[25]. Nichol, Answers to Objections, págs. 100 e 101.