A Ceia do Senhor


A Ceia do Senhor é uma participação nos emblemas do corpo e do sangue de Jesus, como expressão de fé nEle, nosso Senhor e Salvador. Nesta experiência de comunhão, Cristo está presente para encontrar-Se com Seu povo e fortalecê-lo. Participando da Ceia, proclamamos alegremente a morte do Senhor até que Ele volte. A preparação envolve o exame de consciência, o arrependimento e a confissão. O Mestre instituiu a cerimônia do lava-pés para representar renovada purificação, para expressar a disposição de servir um ao outro em humildade semelhante à de Cristo, e para unir nossos corações em amor. O Serviço da Comunhão é franqueado a todos os crentes cristãos.

Com os pés empoeirados eles chegaram ao aposento superior a fim de celebrar a Páscoa. Alguém havia providenciado um cântaro com água, uma bacia e uma toalha para a prática normal da lavagem dos pés; o problema é que ninguém desejava executar o papel de criado.

Tendo plena consciência da proximidade de Sua morte, Jesus falou, tristemente: “Tenho desejado ansiosamente comer convosco esta Páscoa, antes do Meu sofrimento. Pois vos digo que nunca mais a comerei, até que ela se cumpra no reino de Deus” (Luc. 22:15 e 16).

A inveja que os discípulos nutriam uns contra os outros, enchia o coração de Cristo com amarga tristeza. Ele sabia que a contenda existente entre eles ainda tinha a ver com quem seria o maior no Seu reino (Luc. 22:24; Mat. 18:1; 20:21). Era a disputa por posições, o orgulho e a auto-estima, que impediam os discípulos de se humilharem, substituindo o servo ausente e dispondo-se a lavar os pés dos companheiros. Será que algum dia eles aprenderiam que no reino de Deus a verdadeira grandeza é revelada pela humildade e pelo amorável serviço?

“Durante a ceia” (João 13:2 e 4)[1] Jesus ergueu-Se calmamente, tomou a toalha que cabia ao servo, despejou água na bacia, ajoelhou-Se e começou a lavar os pés dos discípulos. O Mestre como servo! Compreendendo a muda repreensão, os discípulos encheram-se de vergonha. Depois de haver completado Seu trabalho, Ele retornou a Seu lugar e disse: “Se Eu, sendo o Senhor e o Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns dos outros. Porque Eu vos dei o exemplo, para que, como Eu vos fiz, façais vós também. Em verdade, em verdade vos digo que o servo não é maior do que seu senhor, nem o enviado, maior do que aquele que o enviou. Ora, se sabeis estas coisas, bem-aventurados sois se as praticardes” (João 13:14-17).

Naquele momento, Jesus instituiu, em lugar da Páscoa, o serviço que seria o memorial do Seu grande sacrifício: a Ceia do Senhor. Tomando nas mãos o pão sem fermento, Ele o abençoou, “o partiu, e o deu aos discípulos, dizendo: Tomai, comei; isto é o Meu corpo... que é dado por vós; fazei isto em memória de Mim”. Então tomou Ele o copo de bênção e, “tendo dado graças, o deu aos discípulos, dizendo: Bebei dele todos; porque isto é o Meu sangue, o sangue da nova aliança, derramado em favor de muitos, para remissão de pecados. ... Fazei isto, todas as vezes que o beberdes, em memória de Mim. Porque, todas as vezes que comerdes este pão e beberdes o cálice, anunciais a morte do Senhor, até que Ele venha” (Mat. 26:26-28; I Cor. 11:24-26; cf. I Cor. 10:16).

As ordenanças do Lava-pés e da Ceia do Senhor constituem o serviço da Comunhão. Portanto, Cristo instituiu essas duas ordenanças para nos assistir ao entrarmos em comunhão com Ele.

A Ordenança do Lava-pés

O costume requeria que, por ocasião da celebração da Páscoa, as famílias judaicas removessem de casa todo fermento e todo pecado, antes do primeiro dia da Semana dos Pães Asmos (Êxo. 12:15, 19 e 20). Da mesma forma devem os crentes confessar todos os seus pecados e deles arrepender-se – incluindo o orgulho, rivalidade, inveja, espírito de ressentimento e egoísmo – antes que possam experimentar o espírito correto, que os conduzirá à comunhão com Cristo em seu mais profundo nível.

Foi com essa finalidade que Jesus instituiu a ordenança do Lava-pés. Ele não apenas deixou o exemplo como também insistiu em que deveríamos segui-lo, prometendo-nos uma bênção se o fizermos: “Ora, se sabeis estas coisas, bem- aventurados sois se as praticardes” (João 13:17). Essa ordenança, que precede a Ceia do Senhor, cumpre a injunção de que todos devem examinar a si próprios de modo a poderem participar “dignamente” dos serviços (cf. I Cor. 11:27-29).

O Significado da Ordenança. Esta ordenança revela algo tanto no que diz respeito à missão de Cristo quanto à experiência dos participantes.

1. Memorial da condescendência de Cristo. A cerimônia do Lava-pés é um memorial da humilhação experimentada por Cristo em Sua encarnação e vida de serviço.[2] Embora Ele tivesse toda a glória celestial junto ao Pai, “a Si mesmo Se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-Se em semelhança de homens” (Filip. 2:7).

Foi muito humilhante para o Filho de Deus oferecer-Se de modo tão altruísta e tão amoroso, tão-somente para ser rejeitado pela maioria daqueles que viera salvar. Ao longo de todo o ministério terrestre de Cristo, Satanás determinara-se a causar-Lhe aflições no mais elevado grau. Quão tremenda mortificação deve ter- Lhe causado – a Ele, o Inocente – o fato de ser crucificado como um criminoso!

A vida de Cristo caracterizou-se sempre por serviço altruísta. Ele “não veio para ser servido, mas para servir” (Mat. 20:28). Através do ato do Lava-pés, mostrou Ele que estava disposto a desempenhar qualquer serviço – não importava quão baixo fosse – desde que pudesse salvar as pessoas. Foi dessa forma que Ele imprimiu Sua vida de trabalho e bondade na mente de Seus seguidores.

Ao transformar essa cerimônia preparatória numa ordenança, era intenção de Cristo conduzir os crentes a um estado de ternura e amor, de forma que se dispusessem a servir os outros. Essa ordenança estimula os que refletem quanto ao seu significado, no sentido de tratarem os outros com humildade e sensibilidade. Ao seguirmos a Cristo na prática do Lava-pés, professamos o Seu espírito: “Sede... servos uns dos outros, pelo amor” (Gál. 5:13).

Embora a participação nessa cerimônia indique submissão, de modo algum é degradante. Quem não se sentiria privilegiado em poder ajoelhar-se diante de Cristo e lavar os próprios pés que foram pregados na cruz? Jesus afirmou: “Sempre que o fizestes a um destes Meus pequeninos irmãos, a Mim o fizestes” (Mat. 25:40).

2. Símbolo de uma purificação mais ampla. A lavagem dos pés operava mais que a limpeza dos pés. Ela representava uma purificação mais elevada – a purificação do coração. Quando Pedro solicitou que Jesus lavasse o corpo inteiro, o Mestre respondeu: “Quem já se banhou não necessita de lavar senão os pés; quanto ao mais, está todo limpo” (João 13:10).

Aquele que toma banho está limpo. Contudo, as sandálias abertas expõem os pés, e estes em breve sujam-se, necessitando ser lavados outra vez. Assim ocorria com os discípulos. Seus pecados haviam sido lavados pelo batismo, mas a tentação os levara a acariciar o orgulho, a inveja e o mal no coração. Eles não se achavam preparados para desfrutar de íntima comunhão com seu Senhor, nem para aceitar o novo concerto que estava a ponto de ser celebrado. Por meio da lavagem dos pés, desejava Cristo prepará-los para poderem participar da Ceia do Senhor. Com exceção de Judas, o traidor, o coração de cada um foi purificado do egoísmo e orgulho através da graça de Cristo, de modo que se uniram em amor uns aos outros; face ao humilde ato de Jesus eles se humilharam e puderam receber as lições espirituais que o Mestre lhes desejava transmitir.

À semelhança dos discípulos, quando aceitamos a Cristo e fomos batizados, Seu sangue nos purificou. Contudo, enquanto andamos na vida cristã, experimentamos fracassos. Nossos pés tornam-se sujos. Necessitamos vir novamente a Cristo, permitindo-Lhe lavar-nos de toda impureza mediante Sua graça. Contudo, não necessitamos ser batizados novamente, pois “quem já se banhou não necessita de lavar senão os pés” (João 13:10).[3] O Lava-pés, como ordenança, nos faz lembrar da necessidade de purificação regular e de que somos totalmente dependentes do sangue de Cristo. A lavagem dos pés, por si mesma, não nos pode purificar do pecado. Somente Cristo é capaz de fazê-lo.

3. Uma associação de perdão. A atitude perdoadora entre os participantes indica que a purificação simbolizada pela ordenança tornou-se efetiva. Somente quando perdoamos é que podemos experimentar o perdão divino: “Porque, se perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai celeste vos perdoará; se, porém, não perdoardes aos homens as suas ofensas, tampouco vosso Pai vos perdoará as vossas ofensas” (Mat. 6:14 e 15).

Jesus instruiu: “Deveis lavar-vos os pés uns dos outros” (João 13:14). Devemos estar dispostos tanto a lavar os pés dos outros quanto a ter nossos pés lavados por eles. No último caso, estaremos admitindo nossa necessidade de auxílio espiritual.

Quando o serviço termina, a fé nos assegura que estamos purificados, uma vez que nossos pecados foram removidos. Por quem? Por Cristo. Mas são os nossos companheiros de jornada que nos administram os símbolos do ministério de Cristo, de tal modo que o serviço se torna uma associação de perdão.[4]

4. Companheirismo com Cristo e com os crentes. O serviço do Lava-pés demonstrou o amor de Cristo por Seus seguidores “até ao fim” (João 13:1). Quando Pedro inicialmente se recusou a ter os pés lavados por Jesus, Cristo respondeu: “Se Eu não te lavar, não tens parte comigo” (João 13:8). Não haveria purificação, nem companheirismo. Aqueles que desejam desfrutar de contínuo companheirismo com Cristo, devem participar da ordenança.

Naquela mesma tarde, Jesus disse: “Novo mandamento vos dou: que vos ameis uns aos outros; assim como Eu vos amei, que também vos ameis uns aos outros” (João 13:34). A mensagem contida nessa cerimônia é clara: “Através do amor servi uns aos outros” (cf. Gál. 5:13). Possuir essa espécie de amor significa que concederemos o lugar mais elevado aos nossos vizinhos, pois apreciaremos mais aos outros do que a nós mesmos (Filip. 2:3). Ela nos ordena que amemos àqueles que diferem de nós. Ela nos habilita a não possuirmos sentimentos de supremacia ou parcialidade. Nosso estilo de vida irá refletir o amor que nutrimos pelos companheiros de fé e jornada. Ajoelhando-nos diante deles, regozijamo-nos com o fato de que haveremos de viver com eles por toda a eternidade. Todos aqueles que seguem o exemplo de Cristo e participam desta ordenança, de algum modo experimentarão o que significa amar como Cristo amou. E tal amor pode representar um poderoso testemunho.

Um monge budista pediu certa vez a um missionário que sugerisse uma cena capaz de representar o cristianismo. Alguns artistas deveriam decorar os muros do mosteiro com quadros e relevos que representariam as grandes religiões do mundo. Depois de refletir um pouco, o missionário começou a relatar a história de João 13. O monge “nada falou enquanto eu lia”, mencionou depois o missionário, “mas senti uma estranha e solene quietude e poder enquanto lia a passagem que descreve o ato de Jesus lavar os pés de Seus discípulos”. Naquela cultura, discutir em público qualquer coisa que tenha a ver com os pés, é considerado como falta de etiqueta.

“Quando concluí a leitura, houve um momento de silêncio. Ele me olhou com ar de incredulidade e disse: ‘Você está querendo dizer que o Fundador de sua religião lavou os pés de Seus alunos?’

“‘Sim’, respondi. A face de lua cheia, usualmente plácida, com sobrancelhas e cabeça rapadas, enrugou-se, com surpresa e espanto. Ele ficou sem fala, o mesmo ocorrendo comigo. Eu engoli em seco várias vezes, e ambos fomos transportados para o drama descrito na cena. Enquanto eu o mirava, percebi que seu olhar de incredulidade se convertia em reverente admiração. Jesus, o Fundador do cristianismo, havia tocado e até mesmo lavado os pés sujos de pescadores! Depois de alguns momentos, ele reassumiu o controle de si próprio e levantou-se. ‘Agora posso perceber a essência do cristianismo.’”[5]

A Celebração da Ceia do Senhor

Entre os protestantes, o nome comum para designar o serviço da Comunhão é “Ceia do Senhor” (I Cor. 11:20). Outros nomes são “a mesa do Senhor” (I Cor. 10:21), o “partir do pão” (Atos 20:7; 2:42),[6] e Eucaristia – uma referência aos aspectos de ações de graça e bênção presentes no serviço (Mat. 26:26 e 27; I Cor. 10:16; 11:24).

A Ceia do Senhor deve representar uma ocasião festiva, não um período de tristeza. O serviço precedente do Lava-pés já propiciou a oportunidade para auto- exame, confissão de pecados, reconciliação de diferenças e perdão. Tendo recebido a certeza de haverem sido purificados pelo sangue do Salvador, os crentes acham-se prontos para ingressar em comunhão especial com o seu Senhor. Dirigem-se a Sua mesa com alegria, postando-se sob a luz – e não sob as sombras – da cruz, prontos para comemorar a redentiva vitória de Cristo.

O Significado da Ceia do Senhor. A Ceia do Senhor ocupou o lugar da Páscoa praticada no Antigo Testamento. A Páscoa encontrou seu cumprimento quando Cristo, o Cordeiro pascal, ofereceu Sua vida. Antes de Sua morte, foi o próprio Cristo quem efetuou a substituição, que significava o grande festival do Israel espiritual sob o novo concerto. Portanto, as raízes de grande parte do simbolismo da Ceia do Senhor estendem-se para o passado, para a comemoração dos serviços da Páscoa.

1. Comemoração da libertação do pecado. Assim como o festival da Páscoa comemorava a libertação de Israel da escravidão egípcia, assim a Ceia do Senhor comemora a libertação do Egito espiritual, a escravidão do pecado.

O sangue do cordeiro pascal, aplicado às ombreiras e verga das portas, protegeu os habitantes da casa diante da morte; a nutrição que eles obtiveram da carne do cordeiro, deu-lhes forças para escaparem do Egito (Êxo. 12:3-8). Da mesma forma, o sacrifício de Cristo traz a libertação da morte; os crentes são salvos ao participarem tanto do corpo quanto do sangue de Cristo (João 6:54). A Ceia do Senhor proclama que a morte de Cristo na cruz providenciou-nos salvação, perdão e a garantia de vida eterna.

Jesus disse: “Fazei isto em memória de Mim” (I Cor. 11:24). Esta ordenança enfatiza a dimensão substitutiva da expiação realizada por Cristo. “Isto é o Meu corpo”, disse Jesus, “que é dado por vós” (I Cor. 11:24; cf. Isa. 53:4-12). Na cruz, o Inocente substituiu o pecador, o Justo ocupou o lugar dos injustos. Esse ato magnânimo satisfez as demandas da lei que exigia a morte do pecador, provendo perdão, paz e certeza de vida eterna ao pecador penitente. A cruz removeu nossa condenação e concedeu-nos as vestes da justiça de Cristo, bem como o poder para sobrepujarmos o mal.

a. O pão e o fruto da vide. Jesus utilizou muitas metáforas para ensinar diferentes verdades a Seu próprio respeito. Ele disse: “Eu sou a porta” (João 10:7), “Eu sou o caminho” (João 14:6), “Eu sou a videira” (João 15:1) e “Eu sou o Pão da vida” (João 6:35). Não podemos tomar qualquer dessas expressões em sentido literal, pois Ele não Se encontra presente em nenhuma porta, caminho ou vinha. Essas figuras, contudo, ilustram verdades espirituais profundas.

Na oportunidade em que alimentou miraculosamente a multidão de cinco mil pessoas, Jesus revelou o significado mais profundo de Seu corpo e sangue. Sendo o Pão verdadeiro, Ele declarou: “Em verdade, em verdade vos digo: não foi Moisés quem vos deu o pão do Céu; o verdadeiro pão do Céu é Meu Pai quem vós dá. Porque o pão de Deus é o que desce do Céu e dá vida ao mundo. Então, lhe disseram: Senhor, dá-nos sempre desse pão. Declarou-lhes, pois, Jesus: Eu sou o Pão da vida; o que vem a Mim jamais terá fome; e o que crê em Mim jamais terá sede” (João 6:32-35). Ele ofereceu Seu corpo e Seu sangue a fim de satisfazer a fome e a sede de nossas mais profundas necessidades e anseios (João 6:50-54).

O pão pascal comido por Jesus era sem fermento, e o fruto da vide era sem álcool.[7] O fermento, que faz a massa de pão crescer, era considerado como símbolo do pecado (I Cor. 5:7 e 8); conseqüentemente, seria um símbolo inapropriado do Cordeiro “sem defeito e sem mácula” (I Ped. 1:19).[8] Somente o pão sem fermento poderia simbolizar o corpo de Cristo sem pecado. Da mesma forma, somente o puro suco de uva – fruto não fermentado da vide – poderia simbolizar apropriadamente a imaculada perfeição do purificador sangue de Cristo.[9]

b. O comer e o beber. “Se não comerdes a carne do Filho do homem e não beberdes o Seu sangue, não tendes vida em vós mesmos. Quem comer a Minha carne e beber o Meu sangue tem a vida eterna, e Eu o ressuscitarei no último dia” (João 6:53 e 54).

Comer a carne de Cristo e beber o Seu sangue é uma linguagem simbólica aplicável à assimilação da Palavra de Deus, por meio da qual os crentes mantêm comunhão com o Céu e se habilitam a desenvolver uma vida espiritual. Ele afirmou: “As palavras que Eu vos tenho dito são espírito e são vida” (João 6:63). “Não só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus” (Mat. 4:4).

Os crentes alimentam-se de Cristo, o Pão da vida, ao participarem da Palavra da vida – a Bíblia. Com esta Palavra vem o poder vivificador de Cristo. Nos serviços da Comunhão também participamos de Cristo ao assimilarmos Sua Palavra por intermédio do Espírito Santo. Por isso a pregação da Palavra acompanha cada cerimônia da Ceia do Senhor.

Uma vez que nos apropriamos do sacrifício expiatório de Cristo pela fé, a Ceia do Senhor representa muito mais que uma simples ceia memorativa. Participação nos serviços da Comunhão significa a revitalização de nossa vida por meio do poder sustentador de Cristo, o qual nos provê com vida e alegria. Em resumo, o simbolismo mostra que “somos tão dependentes de Cristo no tocante à vida espiritual, quanto dependemos do alimento e da bebida no tocante à vida física”.[10]

Durante os serviços da Comunhão nós “abençoamos” o cálice (I Cor. 10:16). Isso significa que, assim como Cristo “deu graças” pelo cálice (cf. Mat. 26:27), assim expressamos gratidão pelo sangue de Jesus.

2. Comunhão coletiva com Cristo. Num mundo cheio de lutas e dissensões, nossa participação nessas celebrações coletivas contribui para a unidade e estabilidade da igreja, pois aí demonstramos verdadeira comunhão com Cristo e uns com os outros. Salientando esta comunhão, Paulo disse: “Porventura, o cálice da bênção que abençoamos não é a comunhão do sangue de Cristo? O pão que partimos não é a comunhão do corpo de Cristo? Porque nós, embora muitos, somos unicamente um pão, um só corpo; porque todos participamos do único pão” (I Cor. 10:16 e 17).

“Essa é uma alusão ao fato de que o pão da comunhão é partido em muitos pedaços, os quais são comidos pelos participantes, e que todos os pedaços provêm do mesmo pão; dessa forma, os crentes que participam da comunhão são unidos nAquele cujo corpo partido tipifica o pão partido. Ao compartilharmos dessa ordenança, mostramos publicamente que mantemos a união e que pertencemos à grande família cuja cabeça é Cristo.”[11]

Todos os membros da Igreja deveriam participar dessa sagrada Comunhão, pois nela, através do Espírito Santo, “Cristo Se encontra com Seu povo, e os revigora por Sua presença. Corações e mãos indignos podem mesmo dirigir a ordenança; todavia Cristo ali Se encontra para ministrar a Seus filhos. Todos quantos ali chegam com a fé baseada nEle, serão grandemente abençoados. Todos quantos negligenciam esses períodos de divino privilégio, sofrerão prejuízo. Deles se poderia quase dizer: ‘Nem todos estais limpos’ (João 13:11).”[12]

Experimentamos os mais fortes e profundos sentimentos de comunidade junto à mesa do Senhor. Ali nos encontramos em terreno comum, onde são quebradas as barreiras que nos separam. Ali nos damos conta de que, embora na sociedade existam muitas coisas capazes de nos separar, em Cristo se encontra tudo aquilo que é necessário para nos unir. Enquanto compartilhava o cálice da Comunhão, Jesus ofereceu aos discípulos o novo concerto. “Bebei dele todos; porque isto é o Meu sangue, o sangue da nova aliança, derramado em favor de muitos, para remissão de pecados” (Mat. 26:27 e 28; Luc. 22:20). Do modo como o antigo concerto foi ratificado pelo sangue de animais (Êxo. 24:8), assim o novo concerto foi ratificado pelo sangue de Cristo. Por ocasião dessas ordenanças, os crentes renovam seus votos de fidelidade a seu Senhor, reconhecendo novamente que fazem parte do maravilhoso acordo em que, por intermédio de Jesus, Deus Se vinculou à humanidade. Sendo eles uma parte desse concerto, têm os crentes algo a comemorar. Portanto, a Ceia do Senhor é tanto um memorial quanto um ato de ação de graças pelo selamento do eterno concerto da graça. As bênçãos recebidas guardam proporção direta com a fé dos participantes.

3. Antegozo da segunda vinda. “Porque, todas as vezes que comerdes este pão e beberdes o cálice, anunciais a morte do Senhor, até que Ele venha” (I Cor. 11:26). O serviço da Comunhão cobre o espaço entre o Calvário e o Segundo Advento. Vincula a cruz ao reino. Une o “já ocorrido” com o “ainda por ocorrer”, o que constitui a essência da visão de mundo do Novo Testamento. Mantém unidos o sacrifício do Salvador e a Sua segunda vinda – salvação já suprida e salvação consumada. Proclama que Cristo Se encontra presente através do Espírito, até que Sua Pessoa Se torne visível.

As palavras de Cristo, “e digo-vos que, desta hora em diante, não beberei deste fruto da videira, até aquele dia em que o hei de beber, novo, convosco no reino de Meu Pai” (Mat. 26:29), são proféticas. Elas voltam nossa fé em direção à celebração futura da ceia da Comunhão com nosso Salvador em Seu reino. A ocasião é o grande festival da “ceia das bodas do Cordeiro” (Apoc. 19:9).

No tocante à preparação para esse evento, Cristo instruiu: “Cingido esteja o vosso corpo, e acesas, as vossas candeias. Sede vós semelhantes a homens que esperam pelo seu senhor, ao voltar ele das festas de casamento; para que, quando vier e bater à porta, logo lha abram. Bem-aventurados aqueles servos a quem o senhor, quando vier, os encontre vigilantes; em verdade vos afirmo que ele há de cingir-se, dar-lhes lugar à mesa e, aproximando-se, os servirá” (Luc.12:35-37).

Tendo os Seus seguidores reunidos à volta da mesa do banquete, Cristo celebrará a Ceia assim como o fez em Jerusalém. Por tanto tempo aguardou Ele essa ocasião, e agora ela aí está! Ele ergue-Se de Seu trono e começa a servi-los. Todos se enchem de admiração reverente. Sentem-se totalmente indignos de serem honrados, com Cristo servindo-os. Eles protestam, dizendo: “Deixe-nos servir!” Mas Cristo mansamente os dissuade e faz com que tornem a assentar-se.

“Em nenhuma outra ocasião foi Cristo maior na Terra do que durante a memorável ocasião da Ceia do Senhor, quando assumiu o lugar de humilde servo. Jamais será Cristo maior no Céu do que quando ministrar a ceia a Seus santos.”[13] Esse é o evento supremo ao qual nos aponta a Ceia do Senhor: o gozo da futura glória que viveremos através de companheirismo pessoal com Cristo em Seu reino sempiterno.

Qualificações Para a Participação. Duas grandes ordenanças beneficiam a fé cristã – Batismo e Ceia do Senhor. O primeiro é a porta de entrada para a Igreja, ao passo que a última favorece àqueles que são membros.[14] Jesus administrou a Comunhão apenas a Seus professos seguidores. Os serviços da Comunhão pertencem, portanto, aos crentes cristãos. Crianças normalmente não participam dessas ordenanças, a menos que sejam batizadas.[15]

A Bíblia instrui os crentes a que participem desses serviços possuídos de profunda reverência para com o Senhor, pois aquele que “comer o pão ou beber o cálice do Senhor, indignamente, será réu do corpo e do sangue do Senhor” (I Cor. 11:27). Esta forma “indigna” de participação pode referir-se tanto a conduta inadequada (cf. verso 21) ou à falta de fé ativa e vital no sacrifício expiatório de Cristo.[16] Semelhante comportamento mostra desrespeito ao Senhor e pode ser considerado como rejeição ao Salvador, o que leva a pessoa a compartilhar a culpa daqueles que O crucificaram.

Participação inadequada traz consigo o desprazer de Deus. Aqueles que comem e bebem de maneira indigna, comem e bebem “juízo para si”, sem discernir o corpo do Senhor (I Cor. 11:29). Esses fracassam em distinguir entre alimentos comuns e os consagrados emblemas que simbolizam a morte expiatória de Cristo. “Os crentes não devem tratar a ordenança meramente como uma cerimônia comemorativa de certo acontecimento da história. Ela representa isso, e muito mais; ela constitui uma lembrança de quanto o pecado custou a Deus e quanto o homem deve ao Salvador. Também representa um meio para manter vivo na memória do crente o seu dever de oferecer testemunho público de sua fé na morte expiatória do Filho de Deus.”[17]

Em vista dessas admoestações, Paulo aconselha que todos os crentes devem “examinar-se a si mesmos” antes de participarem da Ceia do Senhor (cf. I Cor. 11:28). Antes de tomarem parte, devem os crentes orar e rever cuidadosamente sua experiência cristã, confessando seus pecados e restaurando relacionamentos estremecidos.

A experiência dos pioneiros adventistas revela quão grande bênção pode ser obtida por semelhante exame da vida: “Nos dias primitivos do movimento do advento, quando éramos poucos em número, a celebração das ordenanças tornava- se uma ocasião das mais proveitosas. Na sexta-feira anterior, todo membro da igreja buscava remover tudo quanto contribuísse para separá-lo de seus irmãos e de Deus. Examinavam o coração rigorosamente; faziam-se orações fervorosas pela divina revelação de pecados ocultos; e faziam-se confissões de deslizes no comércio, de palavras imprudentes proferidas com precipitação, de pecados acariciados. O Senhor Se manifestava e éramos grandemente fortalecidos e animados.”[18]

Esse exame constitui trabalho pessoal. Outros não podem efetuá-lo, pois, quem é capaz de ler o coração ou distinguir o joio do trigo? Cristo, nosso exemplo, rejeitou a exclusividade por ocasião da Ceia. Embora pecados abertos excluam a pessoa da participação (I Cor. 5:11), o próprio Jesus estendeu o pão a Judas – exteriormente um professo seguidor, interiormente um ladrão e traidor.

O que caracteriza aqueles que estão qualificados a participar dos serviços da Comunhão, portanto, é a condição do coração – plena entrega a Cristo e fé em Seu sacrifício; não é a condição de membro de qualquer igreja em particular. Conseqüentemente, crentes cristãos de todas as igrejas podem tomar parte na Ceia do Senhor. Todos são convidados a celebrar com regularidade esse grande festival do concerto cristão, e através de sua participação, testemunhar de que aceitaram a Cristo como seu Salvador pessoal.[19]

Referências:
[1]. Veja Robert Odom, “The First Celebration of the Ordinance of the Lord’s House”, Ministry, janeiro de 1953, pág. 20; E. G. White, O Desejado de Todas as Nações, págs. 643-646.
[2]. Ibidem, pág. 650.
[3]. Existe uma relação entre o Batismo e a Ceia do Senhor. O Batismo precede a admissão do membro, enquanto o Lava-pés beneficia aqueles que já são membros da Igreja. Durante essa ordenança será muito apropriado que meditemos sobre nossos votos batismais.
[4]. Veja C. Mervyn Maxwell, “A Fellowship of Forgiveness”, Review and Herald, 29 de junho de 1961, págs. 6 e 7.
[5]. Jon Dybdahl, Missions: A Two-Way Street (Boise, ID: Pacific Press, 1986), pág. 28.
[6]. Embora se entenda geralmente que em Atos 20:7 a expressão se aplique à celebração da Ceia do Senhor, a referência não pertence exclusivamente a essa ordenança. Em Luc. 24:35, ela se refere a uma refeição comum.
[7]. Baseando-se na suposição de que nos tempos bíblicos as pessoas não teriam sido capazes de preservar o suco de uva da fermentação durante considerável período de tempo, no clima quente da Palestina – ou seja, desde a colheita das uvas no outono até a Páscoa na primavera – muitos consideram como certo que os judeus celebravam a Páscoa com vinho fermentado. A suposição não é válida. Em todo o mundo antigo os sucos eram preservados em estado não-fermentativo através de vários métodos, durante consideráveis períodos. Um dos métodos consistia em concentrar o suco através de fervura, transformando-o numa espécie de xarope. Armazenado em lugar frio, esse concentrado não fermentava. Simplesmente diluindo-o em água quando isso fosse desejado, obtinha-se “vinho doce” não alcoólico. Veja William Patton, Bible Wines – Laws of Fermentation (Oklahoma City, OK: Sane Press, sem data), págs. 24-41; veja também C. A. Christoforides, “More on Unfermented Wine”, Ministry, abril de 1955, pág. 34; Lael O. Caesar, “The Meaning of Yayin in the Old Testament” (Dissertação de Mestrado não publicada, Andrews University, 1986), págs. 74-77; E. G. White, O Desejado de Todas as Nações, pág. 653. O vinho da Páscoa poderia também ser feito de passas (F. C. Gilbert, Practical Lessons From the Experience of Israel for the Church of To-Day (Nashville, TN: Southern Publ. Assn., 1972), págs. 240 e 241.
[8]. A partir dessa perspectiva não é sem significado que Cristo tenha evitado utilizar a palavra usual para vinho (oinos, no grego), mas tenha empregado a frase “o fruto da vide” (Mar. 14:25). Ao passo que oinos pode aplicar-se ao vinho tanto em seu estado fermentado quanto não fermentado, o fruto da vide refere-se ao puro suco de uva – símbolo apropriado do sangue de Cristo, que a Si mesmo Se identificou como a Videira Verdadeira (João 15:1).
[9]. O fermento causa também a fermentação do suco de uva. Os esporos do fermento, carregados livremente através do ar pelos insetos, prendem-se à cobertura de cerume das cascas da uva. Quando as uvas são esmagadas, os esporos misturam-se com o suco. À temperatura ambiente, as células do fermento se multiplicam rapidamente, ocasionando a fermentação do vinho (veja Martin S. Peterson, Arnold H. Johnson, editores, Encyclopedia of Food Technology (Westport, CT: Avi Publ. Co., 1974), vol. 2, págs. 61-69; idem, Encyclopedia of Food Science (Westport, CT: Avi Publ. Co., 1978), vol. 3, pág. 878.
[10]. R. Rice, Reign of God, pág. 303.
[11]. SDA Bible Commentary, edição revista, vol. 6, pág. 746.
[12]. E. G. White, O Desejado de Todas as Nações, pág. 656; cf. pág. 661.
[13]. M. L. Andreasen, “The Ordinances of the Lord’s House”, Ministry, janeiro de 1947, págs. 44 e 46.
[14]. Cf. E. G. White, Evangelismo, pág. 273.
[15]. Veja, por exemplo, Frank Holbrook, “For Members Only?”, Ministry, fevereiro de 1987, pág. 13.
[16]. SDA Bible Commentary, edição revista, vol. 6, pág. 765.
[17]. Ibidem.
[18]. E. G. White, Evangelismo, pág. 274; cf. SDA Bible Commentary, edição revista, vol. 6, pág. 765.
[19]. A Bíblia não especifica a freqüência com a qual deve ser celebrada a Ceia do Senhor (I Cor. 11:25 e 26).
Os adventistas têm acompanhado a prática comum entre muitos protestantes de celebrar esta ordenança quatro vezes por ano. “Ao adotarem a freqüência trimestral, os primeiros crentes adventistas sentiram que celebrar o serviço com maior freqüência poderia significar risco de formalidade e fracasso na compreensão da solenidade do serviço.” Esta parece ser uma decisão equilibrada – um ponto equidistante da freqüência excessiva e da prática apenas a cada longo período como, por exemplo, um ano (W. E. Read, “Frequency of the Lord’s Supper”, Ministry, abril de 1955, pág. 43).