Unidade no Corpo de Cristo


A Igreja é um corpo com muitos membros, chamados de toda nação, tribo,língua e povo. Em Cristo somos uma nova criação; distinções de raça, cultura e nacionalidade, e diferenças entre altos e baixos, ricos e pobres, homens e mulheres, não devem ser motivo de dissensões entre nós. Todos somos iguais em Cristo, o qual por um só Espírito nos uniu numa comunhão com Ele e uns com os outros; devemos servir e ser servidos sem parcialidade ou restrição. Mediante a revelação de Jesus Cristo nas Escrituras, partilhamos a mesma fé e esperança e estendemos um só testemunho para todos. Essa unidade encontra sua fonte na unidade do Deus triúno, que nos adotou como Seus filhos.

Unidade no Corpo de Cristo

Tendo Jesus concluído Sua obra na Terra (João 17:4), continuou sentindo agonia quanto à condição dos discípulos, mesmo na tardinha que antecedeu Sua morte.

A inveja levou a discussões quanto a quem era o maior e quem deveria receber a posição mais elevada no reino de Cristo. A explanação feita por Jesus, de que a humildade representava a substância de Seu reino, e que Seus verdadeiros seguidores deveriam ser servos, oferecendo espontaneamente de si próprios, sem esperar nem mesmo uma palavra de gratidão em troca, parecia haver caído em ouvidos moucos (Luc. 17:10). Mesmo o Seu exemplo, de dispor-Se a lavar os pés dos discípulos quando nenhum deles manifestou disposição de fazê-lo em vista do que o ato implicava, parecia ter sido em vão (veja o capítulo 16 deste livro).

Jesus é amor. Era a Sua simpatia que mantinha as massas à Sua procura. Não podendo compreender esse amor tão abnegado, os discípulos achavam-se possuídos de profundo preconceito contra não-judeus, mulheres, “pecadores” e os pobres; isto cegava-lhes os olhos para o todo-abrangente amor de Cristo, até mesmo em relação àqueles que eram tão detestados. Quando os discípulos O encontraram conversando com uma mulher samaritana de baixa reputação, ainda não haviam aprendido que os campos, maduros para a colheita, incluíam grãos de todas as variedades, prontos para serem recolhidos.

Mas a opinião de Cristo não poderia ser modificada pela tradição, pelos conceitos populares ou mesmo pelo controle da família. Seu irrepreensível amor atingiu as profundezas e restaurou a humanidade alquebrada. Tal amor, que os tornaria distintos em relação ao público indiferente, seria a evidência de que eram verdadeiros discípulos. Assim como Ele amara, deveriam eles amar. O mundo seria eternamente capaz de distinguir os genuínos cristãos – não por causa de sua profissão, mas pela revelação, neles, do amor de Cristo (cf. João 13:34 e 35).

Assim, mesmo no jardim do Getsêmani, a principal preocupação na mente de Cristo era a unidade de Sua Igreja – aqueles que haviam saído “do mundo” (João 17:6). Ele pleiteou com o Pai em favor de uma unidade, no seio da Igreja, que fosse semelhante àquela experimentada pela Divindade. Ele orou para que todos fossem um; “e como és Tu, ó Pai, em Mim e Eu em Ti, também sejam eles em nós; para que o mundo creia que Tu Me enviaste” (João 17:21).

Semelhante unidade é o mais poderoso testemunho que a Igreja pode oferecer, pois ele provê a evidência do abnegado amor de Cristo pela humanidade. Ele afirmou: “Eu neles, e Tu em Mim, a fim de que sejam aperfeiçoados na unidade, para que o mundo conheça que Tu Me enviaste e os amaste, como também amaste a Mim” (João 17:23).

Unidade Bíblica e a Igreja

Que tipo de unidade tinha Cristo em mente para a Igreja visível da atualidade? De que forma é possível tal amor e unidade? Qual o seu fundamento? Quais os seus aspectos componentes? Porventura requer ela a uniformidade, ou permite a diversidade? De que modo funciona a unidade?

Unidade do Espírito. O Espírito Santo é a força impelente por detrás da unidade da Igreja. Por Seu intermédio são os crentes conduzidos para a Igreja. Através dEle são todos os crentes “batizados em um corpo” (I Cor. 12:13). Esses membros batizados devem possuir uma unidade que Paulo descreve como “a unidade do Espírito” (Efés. 4:3).

O apóstolo relaciona os principais componentes da unidade do Espírito. Diz ele: “Há somente um corpo e um Espírito, como também fostes chamados numa só esperança da vossa vocação; há um só Senhor, uma só fé, um só batismo; um só Deus e Pai de todos, o qual é sobre todos, age por meio de todos e está em todos” (Efés. 4:4-6). A repetição da palavra um [uma, numa], que ocorre sete vezes, serve de ênfase para a completa unidade vislumbrada por Paulo.

Ao chamar os membros de todas as nacionalidades e etnias, o Espírito Santo batiza-os num único corpo – o corpo de Cristo, a Igreja. À medida que eles crescem em Cristo, as diferenças culturais não mais causam divisão. O Espírito Santo quebra as barreiras entre ricos e pobres, altos e baixos, homens e mulheres. Compreendendo que à vista de Deus todos eles são iguais, eles mantêm estima uns pelos outros.

Essa unidade também funciona ao nível de corporação. Significa que todas as igrejas locais são iguais, mesmo que algumas delas sejam recebedoras de fundos e de missionários enviados de outros países. Semelhante união não conhece hierarquia. Habitantes locais e missionários são iguais diante de Deus.

A Igreja unificada possui uma esperança – a “bendita esperança” da salvação que será concretizada na “manifestação da glória do nosso grande Deus e Salvador Cristo Jesus” (Tito 2:13). Esta esperança é fonte de alegria e paz, e provê uma poderosa motivação para o testemunho unificado (Mat. 24:41). Conduz à transformação, pois “a si mesmo se purifica todo o que nEle tem esta esperança, assim como Ele é puro” (I João 3:3).

É através da fé comum – fé pessoal no sacrifício expiatório de Jesus Cristo – que todos se tornam parte do corpo. O batismo único que simboliza a morte e a ressurreição de Cristo (Rom. 6:3-6), expressa perfeitamente esta fé, testemunhando da união com o corpo de Cristo.

Finalmente, a Escritura ensina que existe um só Espírito, um só Senhor, e um só Deus e Pai. Todos os aspectos da unidade da Igreja encontram seu fundamento na unidade da Trindade divina. “Ora, os dons são diversos, mas o Espírito é o mesmo. E também há diversidade nos serviços, mas o Senhor é o mesmo. E há diversidade nas realizações, mas o mesmo Deus é quem opera tudo em todos” (I Cor. 12:4-6).

A Abrangência da Unidade. Os crentes experimentam unidade de mente e julgamento. Observe as seguintes exortações: “Ora, o Deus de paciência e consolação vos conceda o mesmo sentir de uns para com os outros, segundo Cristo Jesus, para que concordemente e a uma voz glorifiqueis ao Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo” (Rom. 15:5 e 6). “Rogo-vos, irmãos, pelo nome de nosso Senhor Jesus Cristo, que faleis todos a mesma coisa e que não haja entre vós divisões; antes, sejais inteiramente unidos, na mesma disposição mental e no mesmo parecer” (I Cor. 1:10). “Aperfeiçoai-vos, consolai-vos, sede do mesmo parecer, vivei em paz, e o Deus de amor e de paz estará convosco” (II Cor. 13:11).

Portanto, a Igreja de Deus deve revelar unidade de sentimentos, pensamentos e ação. Porventura significa isto que os membros deveriam possuir identidade de sentimentos, pensamentos e ações? Porventura a unidade bíblica implica em uniformidade?

Unidade na Diversidade. A unidade bíblica não implica em uniformidade. A própria metáfora utilizada na Bíblia para a Igreja – a do corpo humano – demonstra que a igreja experimenta unidade mediante a diversidade.

O corpo possui muitos órgãos, todos eles contribuindo para o desempenho ótimo do corpo. Todos eles preenchem uma função vital, embora suas tarefas sejam diferentes; nenhum deles é inútil.

Esse mesmo princípio opera na Igreja. Deus distribui Seus dons “como Lhe apraz, a cada um, individualmente” (I Cor. 12:11), criando uma saudável diversidade que beneficia a congregação. Nem todos os membros pensam da mesma forma, como também nem todos são qualificados para desempenhar as mesmas tarefas. Todos, entretanto, funcionam sob a direção do mesmo Espírito, edificando a Igreja com o melhor dos dons que Deus lhes concedeu.

Para realizar sua missão, a Igreja necessita da contribuição de todos os dons. Juntos, provêem o impulso evangelístico total. O sucesso da Igreja não depende de que todos os membros sejam a mesma coisa e façam o mesmo que os demais; pelo contrário, ele depende de que todos os membros executem as tarefas que Deus atribuiu a cada um.

Na natureza, a videira e seus ramos provêem boa ilustração de unidade na iversidade. Jesus utilizou a metáfora da vinha para ressaltar a união dos crentes com Ele (João 15:1-6). Os ramos, representando os crentes, constituem extensões da Videira Verdadeira – Cristo. À semelhança de cada ramo ou folha, o cristão individual difere dos demais, mas ainda assim existe a unidade, uma vez que todos recebem nutrição a partir do mesmo tronco, a Videira. Os ramos da vinha estão individualmente separados e não se fundem uns com os outros; ainda assim cada ramo está em comunicação com os demais, desde que todos eles se reúnam no mesmo tronco básico, comum a todos. Eles recebem nutrição da mesma fonte: assimilam as mesmas propriedades fornecedoras de vida.

Dessa forma, a unidade cristã depende do enxerto dos membros em Cristo. DEle provém o poder que vitaliza a vida cristã. Ele é a fonte do talento e do poder necessários para que a Igreja cumpra sua missão. Estar ligados a Ele significa que serão moldados todos os gostos, hábitos e estilo de vida dos cristãos. Por intermédio dEle, todos os membros se vinculam uns aos outros, unindo-se na missão comum. À medida que os membros permanecem nEle, o egoísmo é afastado e se estabelece a unidade cristã, que habilita os membros para o desempenho da divina missão.

Assim, embora existam diferentes temperamentos no seio da Igreja, todos trabalham sob a mesma Cabeça. Embora existam muitos dons, o Espírito é apenas um. Ainda que os dons sejam diferentes, existe ação harmoniosa. “O mesmo Deus é quem opera tudo em todos” (I Cor. 12:6).

Unidade de Fé. A diversidade de dons não implica, porém, em diversidade de crenças. Nos últimos dias a Igreja de Deus será composta por pessoas que compartilham a plataforma do evangelho eterno – suas vidas serão caracterizadas pela observância dos “mandamentos de Deus e a fé em Jesus” (Apoc. 14:12). Juntos, eles proclamam ao mundo o convite à salvação procedente de Deus.

Quão Importante é a Unidade da Igreja?

A unidade é essencial à Igreja. Sem ela a Igreja fracassará no desempenho de sua sagrada missão.

A Unidade Torna Eficazes os Esforços da Igreja. Num mundo caracterizado pelas dissensões e conflitos, o amor e a unidade manifestados entre os membros da Igreja – mesmo possuindo estes, diferentes personalidades, temperamentos e disposições – testemunham mais poderosamente em favor da mensagem apresentada pela Igreja do que qualquer outra coisa. Essa unidade provê evidências irrefutáveis da ligação dessas pessoas com o Céu, e da validade de suas credenciais como discípulos de Cristo (João 13:35). Ela prova o poder da Palavra de Deus.

Conflitos entre os professos cristãos provocam desgosto nos descrentes, e têm sido, provavelmente, o maior obstáculo para que estes aceitem a fé cristã. Verdadeira unidade entre os crentes elimina essa atitude. Tal unidade, segundo mostrou Jesus, é para o mundo a maior evidência de que Ele é o Salvador de Seu povo (João 17:23).

A Unidade Revela a Realidade do Reino de Deus. Uma Igreja verdadeiramente unida sobre a Terra, revela que seus membros levam a sério a expectativa de viverem juntos no Céu. Unidade na Terra demonstra a realidade do eterno reino de Deus. Em relação àqueles que vivem desta maneira, cumpriu-se a Escritura: “Oh! Como é bom e agradável viverem unidos os irmãos!” (Sal. 133:1).

A Unidade Demonstra a Força da Igreja. Unidade traz consigo força, ao passo que a desunião provoca enfraquecimento. Uma igreja é verdadeiramente próspera e forte quando seus membros estão unidos a Cristo e uns aos outros, operando harmonicamente em favor da salvação do mundo. Então, e somente então, serão eles, no mais completo sentido, “cooperadores de Deus” (I Cor. 3:9).

A unidade cristã representa um desafio ao nosso mundo cada vez mais desunido, retalhado por egoísmo. A igreja unificada representa a resposta adequada para uma sociedade dividida pela cultura, etnia, sexo e nacionalidade. A igreja unificada resistirá aos ataques satânicos. Efetivamente, os poderes das trevas são impotentes contra uma igreja cujos membros amam uns aos outros, assim como Cristo os amou.

O efeito positivo e benéfico da igreja unida pode ser comparado com o desempenho de uma orquestra. Nos momentos que antecedem o aparecimento do maestro, enquanto os músicos afinam e aquecem seus instrumentos, o som produzido é estranho e desagradável. Entretanto, ao aparecer o maestro, desaparecem os ruídos caóticos, e todos os olhares se voltam para ele. Cada membro da orquestra fica atento, pronto para obedecer à direção do maestro. Sob o comando deste, toda a orquestra produz música bonita e harmoniosa.

“Unidade no corpo de Cristo significa incorporar o instrumento de minha vida à grande orquestra dos que foram ‘chamados para fora’, sob a batuta do divino Maestro. Sob Sua regência, seguindo a partitura original da criação, temos o privilégio de executar perante a humanidade a sinfonia do amor de Deus.”[1]

Alcançando a Unidade

Se a Igreja deve experimentar a unidade, tanto a Divindade quanto os crentes devem estar envolvidos em desenvolvê-la. Qual é a fonte da unidade e como pode ela ser obtida? Qual é o papel desempenhado pelos crentes?

A Fonte da Unidade. As Escrituras mostram que a unidade encontra suas origens em (1) o poder guardador do Pai (João 17:11), (2) a glória do Pai que Jesus concedeu a Seus seguidores (João 17:22) e (3) na habitação de Cristo no íntimo dos crentes (João 17:23). O Santo Espírito, o “Espírito de Cristo” que atua no meio do corpo de Cristo, é o poder coesivo e a presença que mantém em união cada segmento.

Tal como ocorre com o cubo e os raios de uma roda, quanto mais próximos os membros (raios) estiverem do cubo (Cristo), mais próximos estarão uns dos outros. “O segredo da verdadeira união na Igreja e na família não é a diplomacia, o trato habilidoso, o sobre-humano esforço para vencer dificuldades – embora haja muito disto a ser feito – mas a união com Cristo.”[2]

O Espírito Santo Como Unificador. Na qualidade de “Espírito de Cristo” e “Espírito de verdade”, o Santo Espírito produz unidade.

1. O foco da unidade. Quando o Espírito entra nos crentes, faz com que eles transponham os preconceitos de cultura, etnia, sexo, cor, nacionalidade e situação social (Gál. 3:26-28). Ele consegue isto ao trazer Cristo para o íntimo da pessoa. Aqueles em quem Ele habita, focalizarão a Jesus, e não a si próprios. Sua união com Cristo estabelece o vínculo da união de uns com os outros – o fruto da morada interior do Espírito. Isso minimizará as diferenças existentes entre eles e uni-los-á na missão de glorificar a Jesus.

2. O papel dos dons espirituais na obtenção da unidade. Até que ponto pode ser alcançado o alvo da unidade na Igreja? Quando Cristo iniciou Sua obra mediatória ao lado de Seu Pai no Céu, garantiu que o alvo de ter Seu povo unido não era alguma ilusão. Através do Santo Espírito, Ele concedeu dons especiais, cujo propósito particular era estabelecer a “unidade da fé” entre os crentes.

Ao analisar esses dons, Paulo disse que Cristo “concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas e outros para pastores e mestres”.

Esses dons foram concedidos à Igreja com vistas “ao aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço, para a edificação do corpo de Cristo, até que todos cheguemos à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, à perfeita varonilidade, à medida da estatura da plenitude de Cristo” (Efés. 4:11-13).

Esses dons particulares são designados para desenvolver a “unidade do Espírito” em “unidade da fé” (Efés. 4:3 e 13), de modo que os crentes sejam amadurecidos e firmes, “não mais... como meninos, agitados de um lado para outro, e levados ao redor por todo vento de doutrina, pela artimanha dos homens, pela astúcia dos que induzem ao erro” (Efés. 4:14; veja o capítulo 17 deste livro).

Por intermédio desses dons, os crentes falam a verdade no amor e crescem em Cristo, o Cabeça da igreja – desenvolvendo assim uma unidade dinâmica em amor. Em Cristo, disse Paulo, “todo o corpo, bem ajustado e consolidado pelo auxílio de toda junta, segundo a justa cooperação de cada parte, efetua o seu próprio aumento para a edificação de si mesmo em amor” (Efés. 4:16).

3. A base para a unidade. É na qualidade de “Espírito de verdade” (João 15:26) que o Espírito Santo opera a fim de cumprir a promessa de Cristo. Sua tarefa é guiar os crentes em toda a verdade (João 16:13). Claramente, portanto, a verdade centralizada em Cristo é a base para a unidade.

A missão do Espírito é conduzir os crentes à “verdade tal como se encontra em Jesus”.[3] Contudo, simplesmente o estudo da verdade não é suficiente para operar a genuína unidade. Somente quando cremos, vivemos e pregamos a verdade conforme encontrada em Jesus, é que ocorre a união. Companheirismo, dons espirituais e o amor são todos muito importantes, mas a plenitude destes ocorre através dAquele que disse “Eu sou o caminho, a verdade, e a vida” (João 14:6). Cristo orou: “Santifica-os na verdade; a Tua palavra é a verdade” (João 17:17). Portanto, para que possam experimentar a unidade, devem os crentes receber a luz conforme brilha a partir da Palavra. À medida que esta verdade, conforme encontrada em Cristo, habita no coração do crente, seu efeito será refinar, elevar e purificar a vida, e eliminar todo preconceito e atrito.

O Novo Mandamento de Cristo. Tal como o homem, a Igreja foi feita à imagem de Deus. Assim como todos os membros da Divindade possuem amor uns pelos outros, assim os membros da Igreja amarão uns aos outros. Cristo ordenou aos crentes que demonstrassem amor a Deus mediante a demonstração de amor uns aos outros (Mat. 22:39).

O próprio Jesus levou o princípio do amor até suas últimas conseqüências no Calvário. Horas antes de Sua morte, Ele ampliou a injunção que havia estabelecido anteriormente, ordenando a Seus discípulos um novo mandamento: “Que vos ameis uns aos outros, assim como Eu vos amei” (João 15:12; cf. João 13:34). É como se Ele lhes estivesse dizendo: “Eu vos estou instruindo a não procurar os vossos direitos, cobrar o que vos é devido e a mover processos se isto não ocorrer. Peço-vos que ofereçais as vossas costas aos açoites, que deixeis que vos batam na outra face, que suporteis acusações falsas, zombaria, ferimentos, quebraduras, crucifixão e morte, se isto vos levar a amar os outros. Pois este é o amor que Eu vos tenho demonstrado.”

1. A impossível possibilidade. De que modo podemos nós amar como Cristo amou? Impossível! Cristo está pedindo o impossível, mas Ele é capaz de efetuar o impossível. É Sua a promessa: “E Eu, quando for levantado da terra, atrairei todos a Mim” (João 12:32). Isso significa que a unidade do corpo de Cristo depende da encarnação; é a unidade dos crentes com Deus através da Palavra que Se fez carne. Trata-se também de uma unidade relacional, a unidade dos crentes através de suas raízes comuns na Videira. Finalmente, essa unidade acha-se enraizada na cruz: o amor do Calvário que se implanta no íntimo dos crentes.

2. Unidade junto à cruz. A unidade da Igreja ocorre junto à cruz. Somente quando compreendemos que não amamos como Jesus, e que não conseguimos fazê-lo, podemos admitir nossa necessidade de Sua permanente presença – e cremos naquilo que Ele já antecipara: “Sem Mim nada podeis fazer” (João 15:5). Junto à cruz damo-nos conta de que Ele não apenas morreu por nós, mas por todas as pessoas sobre a face da Terra. Isso significa que Ele amou todas as nacionalidades, etnias, cores e classes. Ele ama igualmente a todos, quaisquer que sejam as diferenças existentes entre eles. É por isso que a unidade encontra suas raízes em Deus. A visão estreita do homem tende a separar as pessoas. A cruz enfrenta a cegueira humana e coloca sobre os seres humanos a etiqueta de preço de Deus. Mostra que ninguém é sem valor. Todos são desejados. Se Cristo assim os ama, devemos fazê-lo também.

Quando Cristo predisse que Sua crucifixão atrairia a Ele todas as pessoas, Seu pensamento era de que o vigoroso poder magnético manifestado no maior de todos os sofrimentos, seria o fator de unidade em Seu corpo, a Igreja. O vasto abismo existente entre o Céu e nós, o abismo atravessado por Cristo, torna insignificante o pequeno trecho de rua que nós temos de caminhar para podermos alcançar o nosso irmão.

O Calvário significa: “Levai as cargas uns dos outros” (Gál. 6:2). Ele suportou o fardo completo de toda a humanidade, o qual Lhe roubou a vida, de modo que Ele pudesse conceder-nos vida e libertar-nos para que auxiliemos uns aos outros.

Passos Rumo à Unidade. A unidade não ocorre automaticamente. Os crentes necessitam dar certos passos a fim de assegurá-la.

1. Unidade no lar. O campo de treinamento ideal para a unidade da Igreja é o lar (veja o capítulo 23 deste livro). Se aprendermos a exercer sabiamente a direção, a bondade, a gentileza, a paciência e o amor – tendo como centro a cruz – em nosso lar, estaremos aptos a desenvolver os mesmos princípios em nível de Igreja.

2. Disposição para a unidade. Jamais alcançaremos a unidade a menos que conscientemente trabalhemos no sentido de consegui-la. E jamais devemos considerar complacentemente que já a alcançamos. Necessitamos orar diariamente pela unidade, cultivando-a cuidadosamente.

Deveríamos minimizar as diferenças e evitar questionamentos no tocante a aspectos não essenciais. Em vez de focalizarmos aquilo que nos divide, deveríamos falar sobre as preciosas verdades que nos unem. Falemos sobre a unidade e oremos para que a oração de Cristo se cumpra. Assim procedendo, acabaremos conseguindo a unidade e a harmonia que Deus almeja que tenhamos.

3. Trabalho unido rumo a um objetivo comum. A Igreja não viverá a unidade até que, agindo como um todo, se envolva na proclamação do evangelho de Jesus Cristo. Tal missão provê o treinamento ideal para se aprender a harmonia. Ela ensina aos crentes que todos eles constituem partes individuais da grande família de Deus e que a felicidade do todo depende do bem-estar de cada crente. Em Seu ministério, Cristo mesclou a restauração da alma e a restauração do corpo. Quando enviou Seus discípulos à missão que lhes designara, insistiu numa ênfase similar: pregar e curar (Luc. 9:2; 10:9).

Dessa forma, a Igreja de Cristo deve conduzir a dupla obra de pregar – o ministério da palavra; e de curar – a obra médico-missionária. Nenhum desses aspectos da obra de Deus deve ser conduzido independentemente, nem deve tornar-se todo-absorvente. Tal como nos dias de Cristo, nossas ações em favor das almas devem ser caracterizadas pelo equilíbrio e harmonia nestes dois aspectos do trabalho.

Aqueles que se acham envolvidos nas várias fases do trabalho da Igreja, devem cooperar intimamente uns com os outros, caso desejem que o convite do evangelho seja poderoso perante o mundo. Alguns sentem que a unidade implica em consolidação, tendo em vista a eficiência. Entretanto, a metáfora do corpo indica que cada órgão, pequeno ou grande, é importante. Cooperação – e não rivalidade – é o plano de Deus para a Sua obra de extensão mundial. Desse modo a unidade no corpo de Cristo torna-se uma demonstração do abnegado amor que Ele tão magnificentemente revelou na cruz.

4. Desenvolvimento de uma perspectiva global. A Igreja não terá desenvolvido verdadeira unidade a menos que seja ativa em edificar a obra de Deus em todas as partes da Terra. A Igreja deveria fazer qualquer coisa a seu alcance no sentido de desarraigar o isolacionismo cultural, nacional ou regional. Para poderem obter unidade de julgamento, propósito e ação, os crentes de diferentes nacionalidades devem mesclar-se e servir uns aos outros.

A Igreja deve ser cuidadosa em não fomentar interesses nacionais separatistas, os quais poderiam ameaçar seu impulso unido, de extensão mundial. A liderança da Igreja deveria operar de tal modo que preservasse a igualdade e a unidade, tomando o cuidado de não desenvolver programas ou facilidades em determinada área, que tivessem de ser financiados às custas do progresso do trabalho em outras áreas do mundo.

5. Evitar atitudes que causem divisão. Atitudes de egoísmo, orgulho, confiança própria, auto-suficiência, superioridade, preconceito, crítica, denúncia e acusações entre os crentes, contribuem para a desunião da Igreja. Freqüentemente a perda do primeiro amor na experiência cristã acha-se subjacente a estas atitudes. Contemplando o refrigerante amor de Deus manifestado no dom de Cristo no Calvário, podemos renovar o amor de uns para com os outros (I João 4:9-11). A graça de Deus mediada pelo Espírito Santo é capaz de subjugar essas fontes de desunião existentes no coração natural.

Quando uma das igrejas do Novo Testamento apresentou o problema da desunião, Paulo aconselhou a Igreja: “Andai no Espírito” (Gál. 5:16). Através de constante oração, devemos buscar a orientação do Espírito, e Este nos conduzirá em unidade. Andar no Espírito produz os frutos do Espírito – amor, alegria, paz, paciência, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio – e estes representam poderoso antídoto contra a desunião (Gál. 5:22 e 23).

Tiago falou contra outra fonte de desunião: tratarmos os indivíduos de acordo com a sua posição ou riqueza. Ele denuncia semelhante favoritismo em termos duros: “Se, todavia, fazeis acepção de pessoas, cometeis pecado, sendo arguidos pela lei como transgressores” (Tia. 2:9). Uma vez que Deus é imparcial (Atos 10:34), não devemos conceder distinção a certos membros da Igreja em virtude de sua posição, riqueza ou habilidades. Devemos respeitá-los, mas evitemos considera-los mais preciosos diante de nosso Pai celestial, do que o mais humilde filho de Deus. As palavras de Cristo mostram-nos a perspectiva correta: “Sempre que o fizestes a um destes Meus pequeninos irmãos, a Mim o fizestes” (Mat. 25:40). Ele Se acha representado na pessoa do mais humilde – assim como na do mais destacado – dentre os membros da Igreja. Todos são Seus filhos, desta forma igualmente importantes para Ele.

Exatamente do modo como nosso Senhor, o Filho do homem, tornou-Se Irmão de cada filho ou filha de Adão, assim os Seus seguidores são chamados para alcançar a unidade de mente e missão, que se manifestará em ação redentiva para com nossos irmãos e irmãs de “cada nação, e tribo, e língua, e povo” (Apoc. 14:6).

Referências:
[1]. Benjamin F. Reaves, “What Unity Means to Me”, Adventist Review, 4 de dezembro de 1986, pág. 20.
[2]. E. G. White, O Lar Adventista (Casa Publicadora Brasileira), pág. 179.
[3]. E. G. White, Evangelismo (Casa Publicadora Brasileira), pág. 121.