A Igreja


A Igreja é a comunidade de crentes que confessam a Jesus Cristo como Senhor e Salvador. Em continuidade do povo de Deus nos tempos do Antigo Testamento, somos chamados para fora do mundo; e nos unimos para prestar culto, para comunhão, para instrução na Palavra, para a celebração da Ceia do Senhor, para o serviço a toda a humanidade e para a proclamação mundial do Evangelho. A Igreja recebe sua autoridade de Cristo, o qual é a Palavra encarnada, e das Escrituras, que são a Palavra escrita. A Igreja é a família de Deus; adotados por Ele como filhos, seus membros vivem com base no novo concerto. A Igreja é o corpo de Cristo, uma comunidade de fé, da qual o próprio Cristo é a Cabeça. A Igreja é a Noiva pela qual Cristo morreu para que pudesse santificá-la e purificá-la. Em Sua volta triunfal, Ele a apresentará a Si mesmo Igreja gloriosa, os fiéis de todos os séculos, a aquisição de Seu sangue, sem mácula, nem ruga, porém santa e sem defeito.

A Igreja

Dominado pela ira, o idoso homem risca a grande rocha que tem diante de si com a vara que carrega nas mãos. Erguendo-a, vibra-a no ar e exclama: “Ouvi, agora, rebeldes: porventura, faremos sair água desta rocha para vós outros?” (Núm. 20:10).

Mal a vara fere a rocha, uma torrente de água salta dela, satisfazendo as necessidades do povo de Israel. Mas, uma vez que atribuiu a si próprio o mérito da água, em vez de atribuí-lo à Rocha, Moisés cometeu pecado. Em virtude desse pecado, não pôde entrar na Terra Prometida (Núm. 20:7-12).

A Rocha era Cristo, o fundamento sobre o qual Deus estabeleceu o Seu povo, tanto individual quanto coletivamente. Essa imagem perpassa toda a Escritura.

Em seu último sermão apresentado ao povo de Israel, Moisés – talvez recapitulando o incidente – utilizou a metáfora da rocha para descrever a estabilidade e confiabilidade de Deus:

“Engrandecei o nosso Deus.
Eis a Rocha!
Suas obras são perfeitas,
Porque todos os Seus caminhos são juízo;
Deus é fidelidade, e não há nEle injustiça;
É justo e reto” (Deut. 32:3 e 4).

Séculos mais tarde, Davi ecoou o mesmo tema – seu Salvador visto como a rocha:
“De Deus dependem a minha salvação e a minha glória; Estão em Deus a minha forte rocha E o meu refúgio” (Sal. 62:7).

Isaías utilizou a mesma imagem para falar do Messias vindouro: “Eis que Eu assentei em Sião uma pedra, pedra já provada, pedra preciosa, angular, solidamente assentada” (Isa. 28:16).

Pedro testificou que Cristo preencheu esta predição, não na qualidade de pedra comum, mas de “pedra que vive, rejeitada, sim, pelos homens, mas para com Deus eleita e preciosa” (I Ped. 2:4). Paulo identificou-O como o único fundamento seguro, dizendo: “Porque ninguém pode lançar outro fundamento, além do que foi posto, o qual é Jesus Cristo” (I Cor. 3:11). Referindo-se à rocha que foi ferida por Moisés, ele afirmou: “E beberam da mesma fonte espiritual; porque bebiam de uma pedra espiritual que os seguia. E a pedra era Cristo” (I Cor. 10:4).

O próprio Jesus Cristo utilizou a imagem diretamente ao declarar: “Sobre esta pedra edificarei a Minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mat. 16:18). Ele estabeleceu a Igreja Cristã sobre Si próprio, a Rocha Viva. Seu próprio corpo deveria ser sacrificado pelos pecados do mundo – isso seria o ato de ferir a Rocha. Coisa alguma poderia prevalecer contra uma igreja construída sobre tão sólido fundamento, por Ele mesmo representado. Dessa Rocha as águas vivificadoras haveriam de fluir para o dessedentamento das nações (cf. Ezeq. 47:1- 12; João 7:37 e 38; Apoc. 22:1-5).

Quão débil e fraca era a Igreja quando Cristo pronunciou essas palavras! Ela consistia de uns poucos discípulos cansados, duvidosos e preocupados em se autopromoverem; de umas poucas mulheres; e da multidão instável que se dispersou quando a Rocha foi ferida. Ainda assim a igreja foi construída, não sobre a frágil sabedoria e ingenuidade humanas, mas sobre a Rocha dos Séculos. O tempo demonstraria que coisa alguma seria capaz de destruir Sua igreja ou mesmo detê-la em Sua missão de glorificar a Deus e conduzir homens e mulheres ao Salvador (Atos 4:12, 13, 20-33).

O Significado Bíblico da “Igreja”

Nas Escrituras a palavra igreja[1] é uma tradução do grego ekklesia, que significa “chamado”. Essa expressão era comumente usada em relação a qualquer assembléia que se reunisse através da prática de convidar as pessoas para o encontro.

A Septuaginta – versão grega do Antigo Testamento hebraico, e que era muito popular nos dias de Jesus – utilizou o termo ekklesia para traduzir o hebraico qahal, que significava “reunião”, “assembléia” ou “congregação” (Deut. 9:10; 18:16; I Sam. 17:47; I Reis 8:14; I Crôn. 13:2).[2]

Essa utilização foi ampliada no Novo Testamento. Observe como este usa o termo igreja: (1) crentes reunidos para adoração num lugar específico (I Cor. 11:18; 14:19 e 28); (2) crentes que viviam em certa localidade (I Cor. 16:1; Gál. 1:2; I Tess. 2:14); (3) um grupo de crentes reunidos no lar de um indivíduo (I Cor. 16:19; Col. 4:15; Fil. 2); (4) um grupo de congregações situadas em determinada área geográfica (Atos 9:31);[3] (5) todo o corpo de crentes em redor do mundo (Mat. 16:18; I Cor. 10:32; 12:28; Efés. 4:11-16); (6) toda a criação fiel, tanto nos Céus quanto na Terra (Efés. 1:20-22; cf. Filip. 2:9-11).

A Natureza da Igreja

A Bíblia retrata a Igreja como uma instituição divina, chamando-a de “igreja de Deus” (Atos 20:28; I Cor. 1:2). Jesus investiu a igreja com divina autoridade (Mat. 18:17 e 18). Conseguimos compreender a natureza da igreja cristã quando observamos suas raízes no Antigo Testamento e as várias metáforas que o Novo Testamento utiliza ao falar a seu respeito.

Raízes da Igreja Cristã. O Antigo Testamento retrata a Igreja como a congregação organizada do povo de Deus. Desde os primeiros tempos a família temente a Deus – através da linhagem de Adão, Sete, Noé, Sem e Abraão – representou os guardiães da verdade divina. Essas famílias, nas quais o pai funcionava como sacerdote, podem ser consideradas como a Igreja em miniatura. A Abraão, Deus concedeu as ricas promessas através das quais essa família de Deus se converteu gradualmente em nação. A missão de Israel seria simplesmente uma extensão daquela que a Abraão fora atribuída: ser uma bênção para todas as nações da Terra (Gên. 12:1-3), demonstrando o amor de Deus perante o mundo.

A nação que Deus tirou do Egito foi chamada de “congregação [ou ‘igreja’] no deserto” (Atos 7:38). Seus membros foram considerados “um reino de sacerdotes e nação santa” (Êxo. 19:6), o “povo santo” de Deus (Deut. 28:9; cf. Lev. 26:12) – Sua igreja.

Deus os localizou na Palestina, o centro das principais civilizações do mundo. Três grandes continentes – Europa, Ásia e África – encontravam-se na Palestina. Ali os judeus deveriam ser “servos” de outras nações, estendendo-lhes o convite para que a eles se unissem como povo de Deus. Em resumo, Deus os chamara para fora a fim de que as demais nações pudessem ser chamadas para dentro (Isa. 56:7). Seu desejo, através de Israel, era criar a mais ampla igreja da Terra – uma igreja onde os representantes de todas as nações do mundo viriam para adorar, aprender a respeito do Deus verdadeiro e retornar a suas nações e a seu próprio povo com a mensagem de salvação.

A despeito do contínuo envolvimento de Deus com Seu povo, Israel envolveu-se com a idolatria, isolacionismo, nacionalismo, orgulho e egoísmo. O povo de Deus fracassou no desempenho de sua missão.

Com a vinda de Jesus, Israel foi colocado sobre uma linha divisória. O povo de Deus esperava um Messias que viria para libertar a nação, mas não um Messias que os libertasse de si mesmos. Na cruz, a bancarrota do Israel espiritual tornou-se evidente. Ao crucificarem a Cristo, demonstraram externamente a decadência que grassava no íntimo. Quando clamaram: “Não temos rei, senão César!” (João 19:15), recusaram-se a permitir que Deus governasse sobre eles.

Na cruz duas missões opostas atingiram o clímax: a primeira dizia respeito a uma igreja equivocada, tão centralizada em si mesma que não conseguiu ver o próprio Ser que a trouxera à existência; a segunda foi a missão de Cristo, tão centralizado no amor às pessoas que Se ofereceu para morrer no lugar delas a fim de poder conceder-lhes existência eterna.

Ao passo que a cruz significou o fim da missão de Israel, a ressurreição de Cristo inaugurou a igreja cristã e sua missão: a proclamação do evangelho de salvação através do sangue de Cristo. Quando os judeus perderam sua missão, tornaram-se como qualquer outra nação e deixaram de ser a Igreja de Deus. Em seu lugar Deus estabeleceu uma nova nação, a Igreja, a qual deveria levar avante Sua missão em favor do mundo (Mat. 21:41 e 43).

A Igreja do Novo Testamento, intimamente relacionada com a comunidade de fé do antigo Israel,[4] foi edificada tanto com judeus convertidos quanto com gentios que creram em Jesus Cristo. Assim, o verdadeiro Israel é composto de todos aqueles que pela fé aceitam a Cristo (Gál. 3:26-29). Paulo ilustra o novo relacionamento orgânico dessas diversas pessoas através da imagem de duas árvores – a oliveira natural e a oliveira silvestre, Israel e os Gentios, respectivamente. Os judeus que não aceitaram a Cristo, não mais seriam filhos de Deus (Rom. 9:6-8) e eram representados pelos ramos quebrados da boa oliveira, ao passo que os judeus que aceitaram a Cristo permaneceram ligados à árvore.

Paulo retrata os gentios que aceitaram a Cristo como ramos da oliveira silvestre, que foram enxertados na boa oliveira (Rom. 11:17-25). Ele orienta estes novos cristãos gentios a que respeitem a herança espiritual dos instrumentos escolhidos por Deus: “Se for santa a raiz, também os ramos o serão. Se, porém, alguns dos ramos foram quebrados, e tu, sendo oliveira brava, foste enxertado em meio deles e te tornaste participante da raiz e da seiva da oliveira, não te glories contra os ramos; porém, se te gloriares, sabe que não és tu que sustentas a raiz, mas a raiz, a ti” (Rom. 11:16-18).

A Igreja do Novo Testamento difere significativamente de sua congênere do Antigo Testamento. A igreja apostólica tornou-se uma organização independente, separada da nação israelita. Fronteiras nacionais foram removidas, concedendo à Igreja um caráter universal. Em lugar de uma igreja nacional, tornou-se ela uma igreja missionária, cuja existência tinha em vista cumprir o propósito original de Deus, e que foi reafirmado por divino mandato de seu fundador, Jesus Cristo: “Fazei discípulos de todas as nações” (Mat. 28:19).

Descrições Metafóricas da Igreja. As descrições metafóricas da igreja do Novo Testamento lançam luz sobre a sua natureza.

1. A Igreja como um corpo. A metáfora do corpo salienta a unidade da Igreja e o posicionamento funcional de cada membro em relação ao todo. A cruz reconciliou todos os crentes “em um só corpo com Deus” (Efés. 2:16). Através do Espírito Santo, são “batizados um só corpo” (I Cor. 12:13) a Igreja. Como corpo, a Igreja é nada menos que o corpo de Cristo (Efés. 1:23). Ela é o organismo através do qual Ele compartilha de Sua plenitude. Os crentes são os membros de Seu corpo (Efés. 5:30). Conseqüentemente, Ele concede vida espiritual por intermédio de Seu poder e graça, a cada crente genuíno. Cristo é a “cabeça do corpo” (Col. 1:18), a “cabeça da igreja” (Efés. 5:23).

Em Seu amor, Deus concedeu a cada membro de Sua igreja-corpo pelo menos um dom espiritual, que habilita o membro a desempenhar uma função vital. Da mesma forma como cada órgão é vital para o todo que é o corpo humano, o completo êxito da missão da Igreja depende do funcionamento de cada um dos dons espirituais concedidos aos membros. Quão bom pode ser um organismo sem o coração? Quanto perde ele de sua eficiência na falta de um olho ou de uma perna? Se os membros não desenvolverem seus dons, a Igreja será morta, ou cega, ou – pelo menos – aleijada. Contudo, há que se observar que esses dons especiais, distribuídos por Deus, não constituem um fim em si mesmos (veja o capítulo 16 deste livro).

2. A igreja como um templo. A Igreja é o “edifício de Deus”, o “templo de Deus” no qual habita o Espírito Santo. Jesus Cristo é o seu fundamento e a “pedra angular” (I Cor. 3:9-16; Efés. 2:20). Esse templo não é uma estrutura morta; antes apresenta crescimento dinâmico. Assim como Cristo é a “pedra viva”, no dizer de Pedro, assim os crentes são “pedras vivas” que constituem a “casa espiritual” (cf. I Ped. 2:4-6).

O edifício ainda não foi completado. Novas pedras vivas estão sendo agregadas constantemente ao templo, que está sendo edificado “para habitação de Deus no Espírito” (Efés. 2:22). Paulo insiste em que os crentes utilizem os melhores materiais de construção nesse templo, de modo que ele possa suportar o teste de fogo do Dia do Juízo (I Cor. 3:12-15).

A metáfora do templo enfatiza tanto a santidade da congregação local quanto a da Igreja no seu todo. O templo de Deus é santo, diz Paulo. “Se alguém destruir o santuário de Deus, Deus o destruirá” (I Cor. 3:17). Alianças íntimas com os descrentes são contrárias ao seu sagrado caráter, observa Paulo, e dessa forma deveriam ser eliminadas, pois “que sociedade pode haver entre a justiça e a iniqüidade? ... Que ligação há entre o santuário de Deus e os ídolos?” (II Cor. 6:14 e 16). (Este conselho aplica-se tanto a relações comerciais quanto a relações matrimoniais.) A Igreja deve ser mantida em grande respeito, pois ela é o objeto do mais sublime interesse de Deus.

3. A igreja como noiva. A Igreja é representada como noiva, e o Senhor como noivo. O Senhor Se compromete solenemente: “Desposar-te-ei comigo para sempre; desposar-te-ei comigo em justiça, e em juízo, e em benignidade, e em misericórdias” (Osé. 2:19). Outra vez Ele assegura: “Eu sou o vosso esposo” (Jer. 3:14).

Paulo utiliza as mesmas figuras: “Tenho [vos] preparado para vos apresentarcomo virgem pura a um só esposo, que é Cristo” (II Cor. 11:2). O amor de Cristo por Sua Igreja é tão profundo e duradouro que Ele “a Si mesmo Se entregou por ela”. Ele efetuou esse sacrifício “para que a santificasse, tendo-a purificado por meio da lavagem de água pela palavra” (Efés. 5:25 e 26).

Através da santificadora influência da verdade encontrada na palavra de Deus (João 17:17) e da purificação que o batismo provê, Cristo pode purificar os membros da Igreja, removendo suas vestes imundas e vestindo-os com as roupas de Sua perfeita justiça. Dessa forma, pode Ele preparar a Igreja para ser a Sua noiva – “igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, porém santa e sem defeito” (Efés. 5:27). A plena glória e esplendor da Igreja não serão vistos até o retorno de Cristo.

4. A igreja como “Jerusalém celestial” (Heb. 12:22). As Escrituras identificam a cidade de Jerusalém como Sião. Ali Deus habita no meio de Seu povo (Sal. 9:11); é de Sião que provém a salvação (Sal. 14:7; 53:6). Essa cidade deveria ser “a alegria de toda a Terra” (Sal. 48:2).

O Novo Testamento vê a Igreja como a “Jerusalém lá de cima”, a contrapartida espiritual da Jerusalém terrestre (Gál. 4:26). Os cidadãos desta Jerusalém possuem sua “pátria... nos Céus” (Filip. 3:20). Eles são os “filhos da promessa”, que são “nascidos segundo o Espírito”, e desfrutam da liberdade pela qual Cristo os tornou livres (cf. Gál. 4:28 e 29; 5:1). Os cidadãos dessa cidade não mais se encontram sob a escravidão de serem tentados a buscar a justificação pela lei (Gál. 4:22, 26 e 31; 5:4); “pelo Espírito”, eles almejam avidamente a “esperança da justiça que provém da fé”. Compreendem que em Cristo Jesus é “a fé que atua pelo amor”, que lhes confere a cidadania (Gál. 5:5 e 6).

Aqueles que são parte dessa gloriosa multidão, têm “chegado ao monte Sião e à cidade do Deus vivo, à Jerusalém celestial, e a incontáveis hostes de anjos, e à universal assembléia e igreja dos primogênitos arrolados nos Céus” (Heb. 12:22 e 23).

5. A igreja como uma família. A igreja nos Céus e na Terra é considerada como uma família (Efés. 3:15). Duas metáforas são utilizadas para descrever de que forma as pessoas se juntam a esta família: adoção (Rom. 8:14-16; Efés. 1:4-6) e novo nascimento (João 3:8). Por intermédio da fé em Cristo, aqueles que foram batizados não mais são escravos, mas filhos do Pai celestial (Gál. 3:26 a 4:7) que vivem com base no novo concerto. Agora eles pertencem à “família de Deus” (Efés. 2:19), a “família da fé” (Gál. 6:10).

Os membros dessa família dirigem-se a Deus como “Pai” (Gál. 4:6) e relacionam-se uns com os outros como irmãos e irmãs (Tia. 2:15; I Cor. 8:11; Rom. 16:1). Pelo fato de haver conduzido a muitos para dentro da Igreja, Paulo referiu-se a si próprio como um pai espiritual. “Eu, pelo evangelho, vos gerei em Cristo Jesus” (I Cor. 4:15). Dirigiu-se àqueles que trouxera para a Igreja como “filhos meus amados” (I Cor. 4:14; cf. Efés. 5:1).

Uma característica especial da Igreja como família é o companheirismo. Companheirismo cristão (koinonia, em grego) não é meramente socialização e sim “cooperação no evangelho” (Filip. 1:5). Envolve genuíno companheirismo com Deus Pai, Seu Filho e o Espírito Santo (I João 1:3; I Cor. 1:9; II Cor. 13:13), bem como com os crentes (I João 1:3 e 7). Portanto, os membros estendem a todos aqueles que se tornam parte da família, “a destra da comunhão” (Gál. 2:9).

A metáfora da família revela uma igreja interessada pelas pessoas, onde “as pessoas são amadas, respeitadas e reconhecidas como alguém. Um lugar onde as pessoas reconhecem que necessitam umas das outras. Onde os talentos são desenvolvidos. Onde as pessoas crescem. Onde cada um é suprido”.[5] Ela também implica em responsabilidade, respeito pelos pais espirituais, a vigilância em favor dos irmãos e irmãs espirituais. Finalmente, ela significa que cada um dos membros terá em relação aos demais aquele tipo de amor que engendra profunda lealdade, que sustenta e fortalece.

A participação como membros na família da Igreja habilita indivíduos que variam amplamente, em natureza e disposição, a se apoiarem mutuamente. Os membros da família da Igreja aprendem a viver em unidade, embora não percam a sua individualidade.

6. A igreja como pilar e alicerce da verdade. A Igreja do Deus vivo é a “coluna e baluarte da verdade” (I Tim. 3:15). É a depositária e cidadela da verdade, servindo para proteger esta dos ataques inimigos. A verdade, contudo, é dinâmica, e não estática. Se os membros pretendem haver recebido nova luz – uma nova doutrina ou uma nova interpretação das Escrituras – aqueles de mais experiência deveriam testar os nossos ensinos, comparando-os com o padrão das Escrituras (Isa. 8:20). Se a nova luz se coaduna com os padrões, deve a Igreja aceitá-la; caso contrário, deve rejeitá-la. Todos os membros deveriam submeter-se a esse julgamento baseado na Bíblia, pois “na multidão de conselheiros há segurança” (Prov. 11:14).

Ao espalhar a luz que possui, isto é, através de seu testemunho, a Igreja se torna “a luz do mundo”, “a cidade edificada sobre um monte” que não pode ser escondida, e “o sal da Terra” (Mat. 5:13-15).

7. A igreja como um exército – militante e triunfante. A Igreja é, sobre a Terra, semelhante a um exército engajado em batalha. É chamada a guerrear contra as trevas espirituais: “Porque a nossa luta não é contra o sangue e a carne, e sim contra os principados e potestades, contra os dominadores deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal, nas regiões celestes” (Efés. 6:12). Os cristãos devem tomar “toda a armadura de Deus”, a fim de que possam “resistir no dia mau e, depois de ter vencido tudo, permanecer inabaláveis” (Efés. 6:13).

Através dos séculos, a Igreja tem enfrentado a necessidade de batalhar contra o inimigo, tanto o interno quanto o externo (Atos 20:29 e 30; I Tim. 4:1). Ela tem obtido memoráveis progressos e deslumbrantes vitórias, mas ainda não é a igreja triunfante. Infelizmente, a Igreja ainda possui muitos defeitos. Através de uma outra metáfora, Jesus explanou as imperfeições existentes na Igreja: “O reino dos Céus é semelhante a um homem que semeou boa semente no seu campo; mas, enquanto os homens dormiam, veio o inimigo dele, semeou o joio no meio do trigo e retirou-se” (Mat. 13:24 e 25). Quando os servos pretenderam arrancar as ervas daninhas, o fazendeiro lhes disse que, ao tentarem eliminar o joio, poderiam também arrancar junto com ele o trigo. Portanto, a sua orientação foi: “Deixai-os crescer juntos até à colheita” (Mat. 13:29 e 30).

Joio e trigo crescem juntos no mundo. Enquanto Deus conduz os convertidos para a Igreja, Satanás traz para dentro dela os inconversos. Esses dois grupos influenciam todo o corpo – um deles trabalha em favor da purificação, o outro em favor da corrupção. O conflito entre esses grupos – dentro da Igreja – continuará até a colheita, por ocasião do Segundo Advento.

A guerra externa da Igreja, por sua vez, ainda está em pleno andamento. Tribulações e lutas estão à frente. Sabendo que pouco tempo lhe resta, Satanás se acha grandemente irado contra a Igreja de Deus (Apoc. 12:12 e 17), e trará contra ela “um tempo de angústia, qual nunca houve, desde que houve nação”. Mas Cristo interferirá em favor de Seu povo fiel, o qual será livrado, “todo aquele que se achar escrito no livro” (Dan. 12:1). Jesus nos garantiu que “aquele... que perseverar até o fim, esse será salvo” (Mat. 24:13).

Por ocasião do retorno de Cristo, emergirá a Igreja triunfante. Naquela ocasião, Ele estará apto a apresentá-la “a Si mesmo igreja gloriosa” – os fiéis de todos os tempos, os comprados por Seu sangue, “sem mácula, nem ruga, ... porém santa e sem defeito” (Efés. 5:27).

A Igreja Visível e Invisível. Os termos visível e invisível têm sido utilizados para distinguir dois aspectos da Igreja sobre a Terra. As metáforas que analisamos anteriormente aplicam-se particularmente à Igreja visível.

1. A igreja visível. A igreja visível é a igreja de Deus organizada para o serviço. É ela que preenche a grande comissão de Cristo no sentido de levar o evangelho a todo o mundo (Mat. 28:18-20), e prepara as pessoas para o Seu glorioso retorno (I Tess. 5:23; Efés. 5:27).

Ela é a testemunha especialmente escolhida por Cristo que ilumina o mundo e ministra assim como Ele fez, pregando o evangelho ao pobre, curando os quebrantados de coração, apregoando libertação aos cativos e restaurando a vista aos cegos, pondo em liberdade os oprimidos e anunciando o ano aceitável do Senhor (Luc. 4:18 e 19).

2. A igreja invisível. A igreja invisível, também conhecida como igreja universal, é composta dos filhos de Deus em todo o mundo. Inclui os crentes que estão dentro da Igreja visível e muitos outros que, embora não pertencendo à Igreja visível, têm seguido a luz que Cristo lhes concedeu (João 1:9). Este último grupo inclui aqueles que jamais tiveram a oportunidade de aprender a respeito de Jesus Cristo, mas que têm respondido ao Espírito Santo e têm procedido “por natureza, de acordo com a lei” (Rom. 2:14).

A existência da Igreja invisível demonstra que a adoração a Deus é, no mais elevado sentido, espiritual. Jesus expôs nestas palavras a questão: “Vem a hora e já chegou, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade; porque são estes que o Pai procura para Seus adoradores” (João 4:23). Tendo em vista a natureza espiritual da adoração, os seres humanos não são capazes de calcular exatamente quem constitui e quem não constitui parte da Igreja de Deus.

Por intermédio do Espírito Santo, Deus conduz Seu povo da Igreja invisível para uma união com Sua Igreja visível. “Ainda tenho outras ovelhas, não deste aprisco; a Mim Me convém conduzi-las; elas ouvirão a Minha voz; então haverá um rebanho e um Pastor” (João 10:16). É somente na Igreja visível que eles poderão experimentar plenamente as verdades de Deus, Seu amor e companheirismo, já que Ele concedeu à Igreja visível os dons espirituais que edificam seus membros coletiva e individualmente (Efés. 4:4-16). Após a conversão de Paulo, Deus o colocou em contato com a Igreja visível e então lhe indicou a missão que deveria desempenhar em favor da Igreja (Atos 9:10-22). Da mesma forma pretende Ele hoje conduzir Seu povo para a Igreja visível, caracterizada pela lealdade aos mandamentos de Deus e pela posse da fé de Jesus, de modo que todos possam participar no término de Sua missão sobre a Terra (Apoc. 14:12; 18:4; Mat. 24:14; veja o capítulo 12 deste livro).

O conceito de Igreja invisível tem abrangido também a união das igrejas do Céu e da Terra (Efés. 1:22 e 23) e a Igreja escondida durante tempos de perseguição (Apoc. 12:6 e 14).

A Organização da Igreja

A ordem de Cristo para que o evangelho fosse levado a todo o mundo, envolve também a nutrição espiritual daqueles que uma vez aceitaram o evangelho. Os novos membros devem ser estabelecidos na fé e deve-se-lhes ensinar o uso dos talentos concedidos por Deus, no desempenho de Sua comissão. Uma vez que “Deus não é de confusão”, antes deseja que todas as coisas sejam feitas “com decência e ordem” (I Cor. 14:33 e 40), a Igreja deve dispor de uma organização simples mas eficaz.

A Natureza da Organização. Consideremos a qualidade de membro e a organização.

1. Qualidades do membro de igreja. Quando os conversos alcançam determinadas qualificações, tornam-se membros da comunidade de fé do novo concerto. O fato de alguém ser membro envolve a aceitação de novos relacionamentos com outras pessoas, com o Estado e com Deus.

a. Qualificações do membro. As pessoas que desejam tornar-se membros de Sua igreja, devem aceitar a Jesus Cristo como o seu Salvador, devem arrepender-se de seus pecados e receber o batismo (Atos 2:36-41; cf. Atos 4:10-12). Espera-se que tenham experimentado o novo nascimento e aceitado a comissão de Cristo, de ir e ensinar outras pessoas a observar todas as coisas que Ele ordenou (Mat. 28:20).

b. Igualdade e serviço. Em harmonia com a declaração de Cristo, de que “vós todos sois irmãos” e “o maior dentre vós será vosso servo” (Mat. 23:8 e 11), os membros são orientados a se relacionarem uns com os outros com base na igualdade. Por outro lado, devem compreender que seguir o exemplo de Cristo significa que necessitam ministrar em favor das necessidades de outros, conduzindo-os ao Mestre.

c. Sacerdócio de todos os crentes. Mediante o ministério de Cristo no santuário celestial, a eficácia do sacerdócio levítico chegou ao fim. Agora a Igreja se tornara “sacerdócio santo” (I Ped. 2:5). O apóstolo prosseguiu: “Vós, porém, sois raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus, a fim de proclamardes as virtudes dAquele que vos chamou das trevas para a Sua maravilhosa luz” (I Ped. 2:9).

Essa nova ordem – o sacerdócio de todos os crentes – não autoriza cada indivíduo a pensar, crer e ensinar o que bem lhe parece, sem consideração para com o corpo de crentes. Significa que cada membro da Igreja possui a responsabilidade de ministrar a outros em nome de Deus, e de comunicar-se diretamente com Ele, sem a necessidade de qualquer intermediário humano. Aqui é enfatizada a interdependência dos membros da Igreja, tanto quanto a sua independência. Esse sacerdócio não estabelece distinções qualitativas entre clérigos e leigos, embora deixe espaço para diferenças de funções entre estas duas categorias.

d. Obediência a Deus e ao Estado. A Bíblia reconhece a mão de Deus no estabelecimento dos governos e exorta os crentes a respeitarem e obedecerem as autoridades civis. Aquele que tem nas mãos a autoridade civil é “ministro de Deus para teu bem... para castigar o que pratica o mal”. Portanto, os membros da Igreja devem pagar “a todos o que lhes é devido: a quem tributo, tributo; a quem imposto, imposto; a quem respeito, respeito; a quem honra, honra” (Rom. 13:4 e 7).

Em suas atitudes para com o Estado, os membros são orientados pelo princípio de Cristo: “Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus” (Mat. 22:21). Mas se o Estado interferir nos mandamentos divinos, o primeiro dever de obediência deve ser exercido para com Deus. Os apóstolos disseram: “Antes, importa obedecer a Deus do que aos homens” (Atos 5:29).

2. A função principal da organização da Igreja. A Igreja foi organizada a fim de cumprir o plano de Deus, de encher este mundo com o conhecimento da glória de Deus. Somente a Igreja visível pode prover uma série de funções vitais para o cumprimento desta finalidade.

a. Adoração e exortação. Ao longo de sua história, tem sido a Igreja uma agência na qual as pessoas se reúnem, aos sábados, para adorar o Criador. Cristo e os apóstolos seguiram esta prática de adoração, e as Escrituras admoestam os crentes da atualidade a não abandonarem a congregação, “como é costume de alguns; antes, façamos admoestações e tanto mais quando vedes que o dia se aproxima” (Heb. 10:25; cf. Heb. 3:13). A adoração congregacional traz ao adorador refrigério, encorajamento e alegria.

b. Companheirismo cristão. Por intermédio da Igreja, as mais profundas necessidades de companheirismo dos membros individuais são satisfeitas. “Cooperação no evangelho” (Filip. 1:5) transcende todas as demais relações, pois provê relacionamento íntimo com Deus, e também com os outros da mesma fé (I João 1:3, 6 e 7).

c. Instrução nas Escrituras. Cristo entregou à Igreja “as chaves do reino dos Céus” (Mat. 16:19). Estas chaves são as palavras de Cristo – todas as palavras da Bíblia. Mais especificamente, incluem “a chave da ciência” referente a como entrar no reino do Céu (Luc. 11:52). As palavras de Jesus são espírito e vida para aquele que as recebe (João 6:63). Trazem a vida eterna (João 6:68).[6]

Quando a Igreja proclama as verdades bíblicas, essas chaves da salvação possuem o poder para ligar e desligar, para abrir e fechar o Céu, uma vez que elas declaram os critérios pelos quais as pessoas são recebidas ou rejeitadas, salvas ou perdidas. Portanto, a proclamação do evangelho por parte da Igreja libera “aroma de vida para vida” ou “cheiro de morte para morte” (II Cor. 2:16).

Jesus conhecia a importância de viver de acordo com “toda palavra que procede da boca de Deus” (Mat. 4:4). Somente ao assim proceder pode a Igreja cumprir o mandado de Jesus, de ensinar a todas as nações a observância de “todas as coisas que vos tenho ordenado” (Mat. 28:20).

d. Administração das ordenanças divinas. A Igreja é o instrumento de Deus para administrar as ordenanças do batismo – rito de entrada na Igreja (veja o capítulo 14 deste livro) e da Ceia do Senhor e lava-pés (veja o capítulo 15 deste livro).

e. Proclamação mundial do evangelho. A Igreja é organizada para a missão de serviço, a fim de cumprir o papel em relação ao qual Israel fracassou. Conforme observamos na vida do Mestre, o maior serviço que a Igreja provê ao mundo é o pleno comprometimento com a ordem de levar o evangelho “a todas as nações” (Mat. 24:14), sob o poder do batismo do Santo Espírito.

Essa missão inclui a proclamação da mensagem de preparação para o retorno de Cristo, que é dirigida tanto à própria Igreja (I Cor. 1:7 e 8; II Ped. 3:14; Apoc. 3:14-22; 14:5) quanto ao restante da humanidade (Apoc. 14:6- 12; 18:4).

O Governo da Igreja

Após a ascensão de Jesus, a liderança da Igreja repousou nas mãos dos apóstolos. O primeiro ato organizacional, em conselho com os demais crentes, foi a eleição de outro apóstolo para assumir o lugar de Judas (Atos 1:15-26).

À medida que a Igreja foi crescendo, os apóstolos perceberam a impossibilidade de atender simultaneamente a pregação do evangelho e as necessidades temporais da Igreja. Decidiram então deixar os encargos temporais imediatos da Igreja nas mãos de sete diáconos apontados pela Igreja. Embora a Igreja distinguisse entre “ministrar a palavra” e “servir às mesas” (cf. Atos 6:1-4), não fez nenhuma tentativa no sentido de separar o ministério do corpo de leigos, no desempenho da missão eclesiástica. De fato, dois dos sete diáconos – Estêvão e Filipe – notabilizaram-se pela pregação e evangelismo (Atos 7 e 8).

A expansão da Igreja na Ásia e Europa exigiu novos passos na organização. Com o estabelecimento de numerosas igrejas novas, anciãos foram ordenados “em cada igreja” a fim de assegurar uma liderança estável (Atos 14:23).

Quando uma crise mais ampla se desenvolvia, as partes envolvidas tinham o direito de levar suas posições a um concílio geral, composto pelos apóstolos e anciãos que representavam a Igreja em geral. As decisões do concílio eram vistas como se aplicando a todas as partes, e eram aceitas como representativas da voz de Deus (Atos 15:1-29). O incidente mencionado no texto ilustra o fato de que, ao surgir um assunto que afetava toda a Igreja, o conselho e a autoridade de um nível mais alto do que o da igreja local, fazia-se necessário. Nesse caso específico, a decisão do concílio surgiu do acordo alcançado entre os representantes das partes envolvidas (Atos 15:22 e 25).

O Novo Testamento deixa claro que, à medida que as necessidades aparecem, Deus orienta a liderança de Seu trabalho. Sob Sua direção e em conselho com a Igreja, os líderes formavam o governo da Igreja. Este modelo, seguido hoje, ajudará a salvaguardar a Igreja da apostasia e a capacitará a cumprir sua grande missão.

Princípios Bíblicos de Administração da Igreja

1. Cristo é a Cabeça da igreja. A liderança de Cristo sobre a Igreja está baseada primariamente em Sua obra de mediação. Desde Sua vitória sobre Satanás na cruz, foi concedida a Cristo “toda a autoridade”, “no Céu e na Terra” (Mat. 28:18). Deus colocou “todas as coisas debaixo dos pés, e para ser o cabeça sobre todas as coisas, O deu à igreja” (Efés. 1:22; cf. Filip. 2:10 e 11). Ele é, portanto, “Rei dos reis” e “Senhor dos senhores” (Apoc. 17:14).

Cristo é também a cabeça da Igreja em virtude de ser ela o Seu corpo (Efés. 1:23; Col. 1:18). Os crentes são “membros de Seu corpo”, ou Sua carne e Seus ossos (Efés. 5:30). Ela deve manter íntima ligação com Ele, pois é dEle que a Igreja é nutrida e bem suprida “por suas juntas e ligamentos” (Col. 2:19).

2. Cristo é a fonte de toda autoridade. Cristo demonstrou Sua autoridade (a) pelo estabelecimento da Igreja cristã (Mat. 16:18), (b) pela instituição das ordenanças que a Igreja deve ministrar (Mat. 26:26-30; 28:19 e 20; I Cor. 11:23- 29; João 13:1-17), (c) pela concessão à Igreja de autoridade divina para agir em Seu nome (Mat. 16:19; 18:15-18; João 20:21-23), (d) pelo envio do Espírito Santo para guiar a Igreja sob Sua autoridade (João 15:26; 16:13-15), (e) pela concessão, dentro da igreja, de certos dons especiais, de modo que alguns indivíduos pudessem funcionar como apóstolos, profetas, evangelistas, pastores e professores, de modo a preparar os membros para o serviço, e para edificar o “corpo de Cristo” até que este atinja a unidade da fé e experimente a “plenitude de Cristo” (Efés. 4:7-13).

3. As Escrituras possuem a autoridade de Cristo. Embora Cristo conduza Sua Igreja através do Espírito Santo, a Palavra de Deus é o único padrão através do qual toda a Igreja deve operar. Todos os seus membros devem obedecer à Palavra, pois ela é lei no mais absoluto sentido. Todas as tradições humanas, costumes e práticas culturais, devem sujeitar-se à autoridade das Escrituras (II Tim. 3:15-17).

4. A autoridade de Cristo e os oficiais da igreja. Cristo exerce Sua autoridade através de Sua Igreja e de Seus servos especialmente indicados para isto, mas jamais transfere o Seu poder. Ninguém possui autoridade independente, separada de Cristo e de Sua palavra.

As congregações adventistas do sétimo dia elegem seus oficiais. Contudo, embora estes oficiais funcionem como representantes da Igreja, sua autoridade provém de Cristo. Sua eleição simplesmente confirma o chamado que receberam de Cristo. O dever primário dos oficiais eleitos é ver se as instruções bíblicas no tocante à adoração, doutrina, disciplina e proclamação do evangelho estão sendo observadas. Uma vez que a Igreja é o corpo de Cristo, devem buscar o conselho da Igreja no tocante a suas decisões e ações.

Os Oficiais da Igreja do Novo Testamento. O Novo Testamento menciona dois grupos de oficiais de igreja – os anciãos e os diáconos. A importância destes oficiais é vislumbrada a partir dos elevados requisitos morais e espirituais que deveriam ser encontrados naqueles que ocupariam estes cargos. A Igreja reconhecia a santidade do chamado à liderança mediante a ordenação, ou imposição de mãos (Atos 6:6; 13:2 e 3; I Tim. 4:14; 5:22).

1. Os anciãos.

a. Que é um ancião? Os “anciãos” (do grego presbuteros) ou “bispos” (episkopos) eram os mais importantes oficiais da Igreja. O termo ancião significa “mais velho”, implicando em dignidade e respeito. Sua posição era equivalente àquela exercida por quem supervisionava a sinagoga. O termo bispo significa “supervisor”. Paulo utiliza os dois termos alternadamente, igualando anciãos a supervisores ou bispos (Atos 20:17 e 28; Tito 1:5 e 7).

Aqueles que mantinham essa posição supervisionavam as novas igrejas, recentemente formadas. Ancião refere-se a um estado ou posição, enquanto bispo denota o dever ou responsabilidade do ofício – “supervisionar”.[7] Uma vez que os apóstolos também são identificados como anciãos (I Ped. 5:1; II João 1; III João 1), aparentemente desempenhavam eles tanto a função de anciãos locais e de anciãos itinerantes, ou anciãos plenos (gerais). Ambos os tipos de anciãos, porém, funcionavam como pastores das congregações.

b. As qualificações. A fim de apresentar-se qualificado para o ofício, deveria o ancião ser “irrepreensível, esposo de uma só mulher, temperante, sóbrio, modesto, hospitaleiro, apto para ensinar; não dado ao vinho, não violento, porém cordato, inimigo de contendas, não avarento; e que governe bem a própria casa, criando os filhos sob disciplina, com todo respeito (pois, se alguém não sabe governar a própria casa, como cuidará da igreja de Deus?); não seja neófito, para não suceder que se ensoberbeça e incorra na condenação do diabo. Pelo contrário, é necessário que ele tenha bom testemunho dos de fora, a fim de não cair no opróbrio e no laço do diabo” (I Tim. 3:2-7; cf. Tito 1:5-9).

Antes da indicação para o cargo, portanto, o candidato deveria haver demonstrado sua habilidade de liderança em relação a seu próprio lar. “Dever-se-ia considerar a família de alguém sugerido para o cargo. Acha-se ela em sujeição? Consegue o homem governar sua própria casa com honra? Qual o caráter dos filhos? Honrarão eles a influência paterna? Se ele não possui tato, sabedoria ou poder de bondade em casa, ao manejar sua própria família, será bastante seguro concluir que exerceria a mesma administração não-santificada na igreja.”[8] O candidato, se casado, deveria demonstrar liderança em casa antes de se lhe poder confiar a responsabilidade mais abrangente, a liderança da “família de Deus” (cf. I Tim. 3:15).

Tendo em vista a importância desse oficio, Paulo advertiu: “A ninguém imponhais precipitadamente as mãos” (I Tim. 5:22).

c. Responsabilidade e autoridade do ancião. O ancião é antes de mais nada, e principalmente, um líder espiritual. É escolhido “para pastoreardes a igreja de Deus” (Atos 20:28). Sua responsabilidade inclui a sustentação dos membros fracos (Atos 20:35), a admoestação dos desobedientes (I Tess. 5:12) e estar alerta contra quaisquer ensinamentos que causariam divisão (Atos 20:29-31). Anciãos devem ser exemplos de vida cristã (Heb. 13:7; I Ped. 5:3) e de liberalidade (Atos 20:35).

d. Atitude em relação aos anciãos. Em grande medida, a liderança eclesiástica efetiva depende da lealdade do corpo de membros. Paulo estimulou os crentes a respeitarem os seus líderes e a tê-los “com amor em máxima consideração, por causa do trabalho que realizam” (I Tess. 5:13).

As Escrituras deixam bem claro o dever de respeitar a liderança da Igreja: “Obedecei aos vossos guias e sede submissos para com eles; pois velam por vossa alma, como quem deve prestar contas” (Heb. 13:17; cf. I Ped. 5:5). Quando os membros se comportam de modo a dificultar o exercício das tarefas atribuídas por Deus à liderança, uns e outros experimentarão pesar e perderão a alegria da prosperidade de Deus.

Os crentes são estimulados a observar o estilo de vida cristã dos líderes. “Observem bem o resultado da vida que tiveram e imitem a sua fé.” (Heb. 13:7, Nova Versão International). Eles não devem prestar atenção a mexericos. “Não aceites denúncias contra presbítero, senão exclusivamente sob o depoimento de duas ou três testemunhas” (I Tim. 5:19).

2. Diáconos e diaconisas. O nome diácono provém do grego diakonos, cujo significado é “servo” ou “ajudador”. O ofício dos diáconos foi instituído para permitir que os apóstolos pudessem dedicar-se inteiramente “à oração e ao ministério da palavra” (Atos 6:4). Embora os diáconos devessem atender os assuntos temporais da Igreja, deveriam ser também ativos nos esforços evangelísticos (Atos 6:8; 8:5-13, 26-40).

A forma feminina do termo aparece em Romanos 16:1.[9] Os tradutores apresentam essa palavra tanto sob a forma “serva” quanto “diaconisa”. “A palavra e sua utilização nesse texto sugerem que o ofício de diaconisa pode ter sido instituído na igreja por volta do tempo em que Paulo escreveu o livro de Romanos.”[10]

Tal como os anciãos, os diáconos devem ser escolhidos pela igreja com base em suas qualificações morais e espirituais (I Tim. 3:8-13).

A Disciplina da Igreja. Cristo concedeu à Igreja autoridade para disciplinar os membros e estabelecer os princípios corretos para assim proceder. Ele espera que a Igreja implemente esses princípios sempre que necessário a fim de manter o amorável chamado que ela recebeu, para ser “sacerdócio santo” e “nação santa” (cf. Mat. 18:15-18; I Ped. 2:5 e 9). Por outro lado, deve a Igreja preocupar-se em fazer com que o membro errante compreenda sua necessidade de arrependimento e mudança. Cristo elogiou a igreja de Éfeso porque esta não pôde “suportar homens maus” (Apoc. 2:2), ao mesmo tempo que repreendeu a igreja de Pérgamo porque ela tolerou aqueles que ensinavam e praticavam coisas erradas. O mesmo aconteceu com a igreja de Tiatira (Apoc. 2:14, 15 e 20). Observe os seguintes conselhos bíblicos no tocante à disciplina:

1. No tratamento de ofensas particulares. Quando um membro ofende a outro (Mat. 18:15-17), Cristo aconselha o ofendido a ir em busca do ofensor – a ovelha que se desviou – procurando persuadi-la a modificar seu comportamento. Se não for bem-sucedido, deve o irmão empreender uma segunda tentativa, acompanhado de duas ou três testemunhas imparciais. Se essa tentativa também falhar, o caso deve ser trazido perante toda a congregação.

Se o membro errante rejeita a sabedoria e a autoridade da Igreja de Cristo, ele próprio aparta-se da comunhão de seus irmãos. Ao desligar a pessoa culpada, a igreja simplesmente confirma a decisão da pessoa. Se a igreja atendeu cuidadosamente os conselhos bíblicos, sob a orientação do Espírito Santo, suas decisões serão reconhecidas no Céu. Cristo o afirma: “Em verdade vos digo que tudo o que ligardes na Terra terá sido ligado nos Céus, e tudo o que desligardes na Terra terá sido desligado nos Céus” (Mat. 18:18).

2. No tratamento de ofensas públicas. Embora seja verdade que “todos pecaram e carecem da glória de Deus” (Rom. 3:23), ofensas flagrantes e rebeldes, que trazem opróbrio para a Igreja, devem ser imediatamente tratadas com o desligamento do ofensor do corpo de membros.

O desligamento tanto remove o mal – que de outra forma poderia funcionar como fermento – e assim restaura a pureza da Igreja, como também age à semelhança de remédio redentor em relação ao ofensor. Depois de ter sido informado de um caso de imoralidade na igreja de Corinto, o apóstolo Paulo requereu ação imediata, dizendo: “Em nome do Senhor Jesus, reunidos vós e o meu espírito, com o poder de Jesus, nosso Senhor, entregue [tal pessoa] a Satanás para a destruição da carne, a fim de que o espírito seja salvo no dia do Senhor Jesus. Lançai fora o velho fermento, para que sejais nova massa” (I Cor. 5:4, 5 e 7). Ele ainda recomenda que não nos associemos com qualquer pessoa que, dizendo-se a si mesmo crente, seja “impuro, ou avarento, ou idólatra, ou maldizente, ou beberrão, ou roubador; com esse tal, nem ainda comais. ... Expulsai, pois, de entre vós o malfeitor” (I Cor. 5:11 e 13).

3. Tratamento com as pessoas que causam divisões. Um membro que causa “divisões e escândalos” (Rom. 16:17), “que ande desordenadamente”, recusando-se a obedecer aos conselhos bíblicos, deveria ser evitado, “para que fique envergonhado” de sua atitude. Entretanto, o apóstolo prossegue: “Não o considereis por inimigo, mas adverti-o como irmão” (II Tess. 3:6, 14 e 15). Se a pessoa “causadora de divisão” se recusar a ouvir uma segunda admoestação da Igreja, deve ela ser rejeitada, sabendo-se “que tal pessoa está pervertida, e vive pecando, e por si mesma está condenada” (Tito 3:10 e 11).

4. Restauração dos ofensores. Os membros da Igreja não deveriam despistar, evitar ou negligenciar os ex-membros. Em vez disso, deveriam esforçar-se por restaurar o relacionamento dessas pessoas com Cristo, através do arrependimento e de um novo nascimento. Pessoas desligadas da Igreja podem ser restauradas à comunhão da mesma quando revelarem suficientes evidências de que experimentaram genuíno arrependimento (II Cor. 2:6-10).

A graça, glória e poder de Deus são revelados de modo particular quando pecadores são restaurados à comunhão da Igreja. Deus almeja libertar os cativos do pecado, transferindo-os do reino das trevas para o reino da luz. A Igreja de Deus, o teatro do Universo, expõe o poder do sacrifício expiatório de Cristo, exercido na vida de homens e mulheres.

Nos dias atuais, Cristo – através de Sua Igreja – convida a todos para que se tornem parte de Sua família. “Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir a Minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e cearei com ele, e ele, comigo” (Apoc. 3:20).

Referências:
[1]. A respeito da origem do termo igreja, Berkhof escreveu (referindo-se aos termos “church”, em inglês, e “kirche” em alemão): “Esses termos provêm da palavra kuriake, que significa “pertencente ao Senhor”. Isso salienta o fato de que a Igreja é a propriedade de Deus. O nome to kuriakon ou he kuriake em primeiro lugar designava o lugar em que a congregação se reunia. Esse lugar era considerado como pertencendo ao Senhor” (Systematic Theology, pág. 557).
[2]. “Church Nature of”, SDA Encyclopedia, edição revista, pág. 302; “Church”, SDA Bible Dictionary, edição revista, pág. 224.
[3]. De acordo com as traduções modernas, que aceitam a posição de Tisschendorf (leitura no singular), baseada no Codex Sinaiticus, Alexandrinus, Vaticanus e Ephraemi Rescriptus.
[4]. Exceto no tocante a seu ensinamento de Cristo, as crenças da igreja primitiva eram muito semelhantes às do judaísmo. Tanto os cristãos judeus quanto os cristãos gentios continuaram adorando nas sinagogas aos sábados, enquanto ouviam a exposição do Antigo Testamento (Atos 13:42-44; 15:13, 14 e 21). O rasgar do véu no Templo significou que os rituais haviam encontrado o Antítipo. O livro de Hebreus tenta desviar a mente dos cristãos, dos tipos para a realidade subjacente aos mesmos: a morte expiatória de Cristo, Seu sacerdócio no Céu e Sua graça salvadora. A era do Novo Testamento representava um período transicional, e embora os apóstolos por vezes participassem dos rituais do Antigo Testamento, a decisão do primeiro concílio em Jerusalém mostra que eles não perceberam nesses rituais qualquer valor salvífico.
[5]. Charles E. Bradford, “What the Church Means to Me”, Adventist Review, 20 de novembro de 1986, pág. 15.
[6]. Veja SDA Bible Commentary, edição revista, vol. 5, pág. 432.
[7]. Veja SDA Bible Commentary, edição revista, vol. 6, págs. 26 e 38.
[8]. E. G. White, Testimonies, vol. 5, pág. 618.
[9]. Diakonos pode ser de gênero masculino ou feminino; portanto, o gênero é determinado pelo contexto. Pelo fato de Febe aparecer como “nossa irmã” e também como diakonos, esta palavra deve ser feminina, mesmo que seja pronunciada como um nome da segunda declinação.
[10]. “Deaconess”, SDA Bible Dictionary, edição revista, pág. 277. Nos tempos do Novo Testamento, o termo diakonos possuía amplo significado. “Ela era ainda empregada para descrever todos os que serviam a igreja em qualquer ofício. Paulo, embora apóstolo, freqüentemente descreve a si próprio (I Cor. 3:5; II Cor. 3:6; 6:4; 11:23; Efés. 3:7; Col. 1:23) e a Timóteo... (I Tim. 4:6) como diakonoi (plural de diakonos).” (SDA Bible Commentary, edição revista, vol. 7, pág. 300). Nesses casos o termo foi traduzido como “ministros” ou “servos”, em vez de “diáconos."