A Experiência da Salvação


Em infinito amor e misericórdia, Deus fez com que Cristo, que não conheceu pecado, Se tornasse pecado por nós, para que nEle fôssemos feitos justiça de Deus. Guiados pelo Espírito Santo, sentimos nossa necessidade, reconhecemos nossa pecaminosidade, arrependemo-nos de nossas transgressões e temos fé em Jesus como Senhor e Cristo, como Substituto e Exemplo. Essa fé que aceita a salvação, advém do divino poder da Palavra e é o dom da graça de Deus. Por meio de Cristo, somos justificados, adotados como filhos e filhas de Deus, e libertados do domínio do pecado. Por meio do Espírito, nascemos de novo e somos santificados; o Espírito renova nossa mente, escreve a lei de Deus, a lei de amor, em nosso coração, e recebemos o poder para levar uma vida santa. Permanecendo nEle, tornamo-nos participantes da natureza divina e temos a certeza da salvação agora e no Juízo.

A Experiência da Salvação

Há séculos, o Pastor de Hermas sonhou com uma velha senhora que vivera havia muito tempo. Em seu sonho, à medida que o tempo transcorria, ela começou a modificar-se: embora seu corpo ainda parecesse idoso e seus cabelos continuassem brancos, a face era mais jovem. Ela acabou sendo restaurada à sua juventude.

T. F. Torrance vinculou a idosa senhora à igreja.[1] Os cristãos não podem ser estáticos. Se o Espírito de Cristo reina dentro de nós (Rom. 8:9), estaremos sempre em processo de mudança.

Paulo disse: “Cristo amou a igreja e a Si mesmo Se entregou por ela, para que a santificasse, tendo-a purificado por meio da lavagem de água pela palavra, para a apresentar a Si mesmo igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, porém santa e sem defeito” (Efés. 5:25-27). Semelhante purificação é o objetivo da igreja. Desta forma, os crentes que compõem a igreja podem testificar que “mesmo que o nosso homem exterior se corrompa, contudo, o nosso homem interior se renova de dia em dia” (II Cor. 4:16). “Todos nós, com o rosto desvendado, contemplando, como por espelho, a glória do Senhor, somos transformados, de glória em glória, na Sua própria imagem, como pelo Senhor, o Espírito” (II Cor. 3:18). Essa transformação é o verdadeiro Pentecostes íntimo.

Ao longo das Escrituras as descrições das experiências do crente – salvação, justificação, santificação, purificação e redenção – são focalizadas como (1) já alcançadas, (2) sendo realizadas presentemente e (3) estando por ocorrer no futuro. Uma compreensão dessas três perspectivas contribui para a solução das aparentes tensões geradas pelas ênfases relativas em justificação e santificação. Este capítulo, portanto, acha-se dividido em três seções principais, que tratam da salvação vista sob a experiência passada, presente e futura do crente.

A Experiência da Salvação e o Passado

O conhecimento fatual acerca de Deus e de Seu amor e benevolência é insuficiente. A tentativa de desenvolvermos o bem em nós, separados de Cristo, é contraproducente. A experiência da salvação que alcança as profundezas da alma, provém tão-somente de Deus. Falando dessa experiência, Cristo disse: “Em verdade, em verdade te digo que, se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus... Quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar no reino de Deus” (João 3:3 e 5).

Tão-somente através de Jesus Cristo pode alguém experimentar a salvação: “Não há salvação em nenhum outro; porque abaixo do Céu não existe nenhum outro nome, dado entre os homens, pelo qual importa que sejamos salvos” (Atos 4:12). Jesus afirmou: “Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai senão por Mim” (João 14:6).

A experiência da salvação envolve arrependimento, confissão, perdão, justificação e santificação.

Arrependimento. Pouco tempo antes de Sua crucifixão, Jesus prometeu a Seus discípulos o Espírito Santo, o qual Se revelaria ao convencer “o mundo do pecado, da justiça e do juízo” (João 16:8). Quando, por ocasião do Pentecostes, o Espírito Santo convenceu as pessoas de sua necessidade em relação a um Salvador e elas perguntaram a Pedro o que deveriam fazer, a resposta do apóstolo foi: “Arrependei-vos” (Atos 2:37 e 38; cf. Atos 3:19).

1. Que é o arrependimento? A palavra arrependimento é a tradução do termo hebraico nacham, “sentir-se triste”. O termo grego equivalente, metanoeo, significa “modificar a mente”, “sentir remorso”. Genuíno arrependimento resulta numa radical mudança de atitude em relação a Deus e ao pecado. O Espírito de Deus convence aqueles que O recebem, da seriedade do pecado, ao fazer-lhes sobrevir um senso da justiça de Deus e de sua própria condição sem esperança. Assim eles sentem tristeza e culpa. Reconhecendo a veracidade da afirmação: “O que encobre as suas transgressões jamais prosperará, mas o que as confessa e deixa alcançará misericórdia” (Prov. 28:13), eles confessam pecados específicos. Através do exercício decidido de sua vontade, eles se rendem totalmente ao Salvador e renunciam a todo comportamento pecaminoso. Dessa forma, o arrependimento alcança o clímax na conversão – o volver-se do pecador em direção a Deus (do grego epistrophe, “volver-se em direção a”, cf. Atos 15:3).[2]

O arrependimento de Davi face a seus pecados de adultério e assassinato, exemplifica vividamente como esta experiência prepara o caminho para a vitória sobre o pecado. Convencido pelo Espírito, ele deplorou e lamentou seu pecado e suplicou a purificação: “Pois eu conheço as minhas transgressões, e o meu pecado está sempre diante de mim. Compadece-Te de mim, ó Deus, segundo a Tua benignidade; e, segundo a multidão das Tuas misericórdias, apaga as minhas transgressões. Cria em mim, ó Deus, um coração puro e renova dentro de mim um espírito inabalável” (Sal. 51:3, 1 e 10). A experiência subseqüente de Davi demonstrou que o perdão divino não apenas apaga os pecados como também provê o poder para manter a pessoa afastada do pecado.

Embora o arrependimento preceda o ato de perdão, o pecador não consegue, mediante o arrependimento, fazer-se merecedor das bênçãos de Deus. Efetivamente, o pecador não pode, de si próprio, operar o arrependimento – este é um dom de Deus (Atos 5:31; cf. Rom. 2:4). O Espírito Santo conduz o pecador a Cristo, de modo que ele possa encontrar arrependimento, ou verdadeira tristeza pelo pecado cometido.

2. Motivação para o arrependimento. Jesus afirmou: “Eu, quando for levantado da terra, atrairei todos a Mim mesmo” (João 12:32). O coração é amaciado e subjugado quando percebemos que a morte de Cristo nos justifica e nos liberta da penalidade do pecado, a morte. Imagine os sentimentos de um condenado à morte que aguarda a execução quando, repentinamente, recebe a notícia de que seu crime foi perdoado!

Em Cristo o pecador arrependido é não apenas perdoado, como também absolvido – ele é declarado justo! Ele não merece e nem pode merecer tal tratamento. Conforme destaca Paulo, Cristo morreu pela nossa justificação sendo nós ainda fracos, pecaminosos, maus e inimigos de Deus (Rom. 5:6-10). Coisa alguma atinge tão profundamente a alma quanto a sensação do amor perdoador de Cristo. Quando os pecadores contemplam esse insondável amor divino, exposto na cruz, recebem a mais poderosa motivação possível para arrepender-se. Essa é a bondade de Deus que nos conduz ao arrependimento (Rom. 2:4).

Justificação. Em Seu infinito amor e misericórdia, Deus fez a Cristo “pecado por nós; para que, nEle, fôssemos feitos justiça de Deus” (II Cor. 5:21). Por intermédio da fé em Jesus, os corações são ocupados pelo Seu Espírito. Através dessa mesma fé, que é um dom da graça de Deus (Rom. 12:3; Efés. 2:8), os pecadores arrependidos são justificados (Rom. 3:28). O termo justificação representa a tradução do grego dikaioma, que significa “exigência de justiça”, “regulação”, “sentença judicial”, “ato de ,justiça”, e do termo dikaiosis, cujo significado é “justificação”, “vindicação”, “absolvição”. O verbo correlato, dikaioo, que significa “ser pronunciado justo ou tratado como justo”, “ser absolvido”, “ser colocado em liberdade, feito puro”, “justificar”, “vindicar”, “fazer justiça”, provê vislumbres adicionais quanto ao significado do termo.[3]

Em geral, a palavra justificação, conforme utilizada teologicamente, é “o ato divino pelo qual Deus declara justo um pecador penitente, ou o trata como justo. Justificação é o oposto de condenação (Rom. 5:16)”.[4] A base para semelhante justificação é, não a nossa obediência, e sim a de Cristo, pois “por um só ato de justiça, veio a graça sobre todos os homens para a justificação que dá vida. ... Por meio da obediência de um só [Homem], muitos se tornarão justos” (Rom. 5:18 e 19). Ele concede a Sua obediência àqueles crentes que são “justificados gratuitamente, por Sua graça” (Rom. 3:24). “Não por obras de justiça praticadas por nós, mas segundo Sua misericórdia, Ele nos salvou” (Tito 3:5).

1. O papel da fé e das obras. Muitos acreditam erradamente que a sua posição diante de Deus depende de suas boas ou más obras. Abordando a questão de como as pessoas são justificadas diante de Deus, Paulo declara inequivocamente que ele perdera “todas as coisas... para ganhar a Cristo e ser achado nEle, não tendo justiça própria, que procede de lei, senão a que é mediante a fé em Cristo, a justiça que procede de Deus, baseada na fé” (Filip. 3:8 e 9). Ele apontou o exemplo de Abraão, que “creu em Deus, e isso lhe foi imputado para justiça” (Rom. 4:3; cf. Gên. 15:6). Ele foi justificado antes de submeter-se à circuncisão, e não em virtude da mesma (Rom. 4:9 e 10).

Que espécie de fé possuía Abraão? As Escrituras revelam que “pela fé, Abraão... obedeceu” quando Deus o chamou, deixando sua terra natal e viajando “sem saber aonde ia” (Heb. 11:8-10; cf. Gên. 12:4; 13:18). O fato de que ele possuía uma fé genuína e viva em Deus, foi demonstrado através de sua obediência. Foi com base nessa fé dinâmica que ele recebeu a justificação.

O apóstolo Tiago adverte contra uma compreensão incorreta da justificação pela fé: imaginar que alguém possa ser justificado pela fé sem manifestar as obras correspondentes. Ele demonstrou que a fé genuína não pode existir sem as obras. Tal como Paulo, Tiago ilustrou esse ponto a partir da experiência de Abraão. O fato de o patriarca oferecer seu filho (Tia. 2:21) foi uma demonstração de sua fé. “Vês como a fé operava juntamente com as suas obras”, afirma Tiago; “com efeito foi pelas obras que a fé se consumou” (Tia. 2:22). “A fé, se não tiver obras, por si só está morta” (Tia. 2:17).

A experiência de Abraão revelou que as obras constituem evidência de um genuíno relacionamento com Deus. A fé que conduz à justificação é, pois, uma fé viva, que opera (Tia. 2:24).

Paulo e Tiago estão de acordo no tocante à justificação pela fé. Enquanto Paulo destaca a falácia de se buscar a justificação através das obras, Tiago salienta com o perigo correspondente de se pretender a justificação sem as obras correspondentes. Nem as obras e nem a fé morta podem conduzir à justificação. Ela pode ser obtida unicamente através de genuína fé, aquela que opera por amor (Gál. 5:6) e purifica a alma.

2. A experiência da justificação. Através da justificação pela fé em Cristo, Sua justiça nos é imputada. Tudo está em ordem conosco diante de Deus porque Cristo Se tornou o nosso substituto. Segundo o dizer de Paulo, Deus fez pecado por nós “Aquele que não conheceu pecado... para que, nEle, fôssemos feitos justiça de Deus” (II Cor. 5:21). Na qualidade de pecadores arrependidos, experimentamos pleno e completo perdão. Estamos reconciliados com Deus!

A visão obtida por Zacarias quanto ao sumo sacerdote Josué, ilustra de modo muito belo a justificação. Josué achavase em pé diante do anjo do Senhor, vestido com roupas sujas, as quais representavam a contaminação do pecado. Estando ele ali, de pé, Satanás reclamou a sua condenação. As acusações de Satanás estavam corretas – Josué não merecia absolvição. Mas Deus, manifestando Sua divina misericórdia, repreendeu a Satanás: “Não é este um tição tirado do fogo?” (Zac. 3:2). Não é esta a Minha aquisição preciosa que estou preservando de maneira especial?

O Senhor ordenou que aquelas vestimentas sujas fossem imediatamente removidas e declarou: “Eis que tenho feito que passe de ti a tua iniquidade e te vestirei de finos trajes” (Zac. 3:4). Nosso amorável e todo-misericordioso Salvador afasta as acusações de Satanás, justifica o tremente pecador e cobre-o com as vestes da justiça de Cristo. Assim como as roupas sujas de Josué representavam o pecado, assim as novas roupagens representam a nova experiência do crente em Cristo. No processo de justificação, os pecados confessados e perdoados são transferidos para o puro e santo Filho de Deus, o Cordeiro que carrega sobre Si os nossos pecados. “Contudo, o imerecedor mas arrependido crente é vestido com a justiça imputada de Cristo. Essa troca de vestes, esta transação divina e salvadora, constitui a doutrina bíblica da justificação pela fé.”[5] O crente justificado experimentou o perdão e foi purificado de seus pecados.

Os Resultados. Quais são os resultados do arrependimento e da justificação?

1. Santifïcação. A palavra “santificação” é tradução dos termos hagiasmos (cujo significado é “santidade”, “consagração” e “santificação”) e do verbo hagiazo (“tornar santo”, “consagrar”, “santificar”, “colocar à parte”). O termo hebraico equivalente é qadash, “separar para uso especial”.[6]

Verdadeiro arrependimento e justificação levam à santificação. Justificação e santificação acham-se intimamente relacionadas,[7] distintas mas jamais separadas. Elas designam duas fases da salvação: justificação é aquilo que Deus faz por nós, enquanto santificação é aquilo que Deus faz em nós.

Nem a justificação, nem a santificação resultam de obras meritórias. Ambas são devidas unicamente à graça e à justiça de Cristo. “É imputada a justiça pela qual somos justificados; aquela pela qual somos santificados, é comunicada. A primeira é nosso título para o Céu; a segunda, nossa adaptação para ele.”[8]

As três fases da santificação apresentadas na Bíblia são: (1) um ato realizado no passado da experiência do crente; (2) um processo na experiência presente do crente; (3) o resultado final da experiência do crente por ocasião do retorno de Cristo.

Quanto ao passado do crente, no momento da justificação ele é também santificado “em o nome do Senhor Jesus Cristo e no Espírito do nosso Deus” (I Cor. 6:11). A pessoa se torna “santa”. Nesse ponto o novo crente é redimido e pertence completamente a Deus.

Como resultado do chamamento divino (Rom. 1:7), os crentes são tratados como “santos” porque estão “em Cristo” (Filip. 1:1; cf. João 15:1-7), e não por haverem alcançado um estado de ausência de pecado. A salvação é uma experiência do presente. Diz Paulo que “segundo Sua misericórdia, Ele nos salvou mediante o lavar regenerador e renovador do Espírito Santo” (Tito 3:5), colocando-nos à parte e consagrando-nos para um propósito santo e para andarmos com Cristo.

2. Adoção na família de Deus. Ao mesmo tempo, os novos crentes recebem o “Espírito de adoção”. Deus os adotou como Seus filhos e filhas, o que significa que os crentes são agora filhos e filhas do Rei! Ele os tornou Seus herdeiros, e “co-herdeiros com Cristo” (Rom. 8:15 e 17). Que imenso privilégio, honra e alegria!

3. Certeza da salvação. A justificação traz também a certeza da aceitação do crente. Traz consigo a alegria de uma união com Deus agora. Não importa quão pecaminoso tenha sido o passado, Deus perdoa todos os pecados e nós não mais nos encontramos sob a condenação e maldição da lei. A redenção tornou-se uma realidade: “No qual temos a redenção, pelo Seu sangue, a remissão dos pecados, segundo a riqueza da Sua graça” (Efés. 1:7).

4. O início de uma vida nova e vitoriosa. Quando percebemos que o sangue do Salvador cobre todo o nosso passado pecaminoso, isto nos traz cura à alma, mente e corpo. Sentimentos de culpa podem ser totalmente dispensados, pois em Cristo tudo é perdoado, tudo é feito novo. Ao conceder-nos diariamente Sua graça, Cristo inicia o processo de transformar-nos à imagem de Deus.

À medida que cresce nossa fé nEle, nossa cura e transformação progride, e Ele nos concede crescentes vitórias sobre os poderes das trevas. O fato de Ele haver vencido o mundo nos assegura a libertação da escravidão do pecado (João 16:33).

5. O dom da vida eterna. Nosso novo relacionamento com Cristo traz consigo o dom da vida eterna. João afirmou: “Aquele que tem o Filho tem a vida; aquele que não tem o Filho de Deus não tem a vida” (I João 5:12). Alguém já Se encarregou de nosso passado pecaminoso; por intermédio da habitação interior do Espírito Santo, podemos desfrutar das bênçãos da salvação.

A Experiência da Salvação e o Presente

Uma vez que o sangue de Cristo traz purificação, justificação e santificação, o crente é agora “nova criatura; as coisas antigas já passaram; eis que se fizeram novas” (II Cor. 5:17).

O Chamado Para uma Vida de Santificação. A santificação inclui o viver uma vida santificada, com base naquilo que Cristo já alcançou no Calvário. Paulo apelou a todos os crentes para que vivessem uma vida consagrada à santidade ética e conduta moral (I Tess. 4:7). A fim de habilitá-los para a experiência de santificação, Deus concedeu aos crentes o “Espírito de santidade” (Rom. 1:4).

Paulo escreveu: “Para que, segundo a riqueza da Sua glória, vos conceda que sejais fortalecidos com poder, mediante o Seu Espírito no homem interior; e, assim, habite Cristo no vosso coração, pela fé, estando vós arraigados e alicerçados em amor” (Efés. 3:16 e 17).

Sendo produto de uma nova criação, os crentes devem assumir novas responsabilidades. Ou, no dizer do apóstolo: “Assim como oferecestes os vossos membros para a escravidão da impureza e da maldade para a maldade, assim oferecei, agora, os vossos membros para servirem à justiça para a santificação” (Rom. 6:19). Agora eles devem viver “no Espírito” (Gál. 5:25).

Crentes cheios do Espírito não andam “segundo a carne, mas segundo o Espírito” (Rom. 8:4; cf. Rom. 8:1). Eles são transformados, uma vez que “o pendor da carne dá para a morte, mas o do Espírito, para a vida e paz” (Rom. 8:6). Através da habitação interior do Espírito de Deus, eles não são da carne, e sim do Espírito (Rom. 8:9).

O mais elevado objetivo da vida que está cheia do Espírito é agradar a Deus (I Tess. 4:1). Paulo diz que a santificação “é a vontade de Deus” para nós. Portanto, devemos abster-nos da prostituição; não devemos ofender ou defraudar a nossos irmãos, “porquanto Deus não nos chamou para a impureza, e sim para a santificação” (I Tess. 4:3, 6 e 7).

A Mudança Interior. Por ocasião do Segundo Advento, seremos modificados – transformados – fisicamente. Nosso corpo mortal e corruptível será tornado imortal e incorruptível (I Cor. 15:51-54). Entretanto, nosso caráter deve experimentar transformação durante o período de preparo para o Segundo Advento.

A transformação do caráter envolve os aspectos mentais e espirituais da imagem de Deus, a natureza interior que deve ser renovada diariamente (cf. II Cor. 4:16; Rom. 12:2). Portanto, à semelhança da velha senhora na história do Pastor de Hermas, a igreja torna-se cada vez mais jovem no interior à medida que cresce – cada um dos cristãos verdadeiramente submetidos a Cristo vai sendo transformado de glória em glória até que, por ocasião do Segundo Advento, a transformação da pessoa em imagem de Deus será completada.

1. O envolvimento de Cristo e do Espírito Santo. Somente o Criador pode empreender a obra de transformar nossa vida (I Tess. 5:23). Contudo, Ele não o faz sem a nossa participação. Temos de colocar-nos a nós próprios sob a influência da obra do Espírito, e podemos alcançar isso mediante a contemplação de Cristo. Enquanto meditamos sobre a vida de Cristo, o Santo Espírito restaura nossas faculdades físicas, mentais e espirituais (cf. Tito 3:5). A obra do Espírito Santo inclui a revelação de Cristo e a restauração, em nós, da imagem de Deus (cf. Rom. 8:1-10).

Deus deseja viver no coração de Seu povo. Foi em virtude de Ele haver prometido: “Habitarei e andarei entre eles” (II Cor. 6:16; cf. I João 3:24; 4:12), que Paulo pôde dizer: “Cristo vive em mim” (Gál. 2:20; cf. João 14:23). A morada do Criador no íntimo da pessoa renova-a interiormente todos os dias (II Cor. 4:16), e esta é uma renovação da mente (Rom. 12:2; cf. Filip. 2:5).

2. Participando da natureza divina. As “preciosas e mui grandes promessas” de Cristo servem de penhor para que o Seu divino poder complete a transformação de nosso caráter (II Ped. 1:4). Esse acesso ao poder divino habilita-nos a associar diligentemente a nossa fé à “virtude; com a virtude, o conhecimento; com o conhecimento, o domínio próprio; com o domínio próprio, a perseverança; com a perseverança, a piedade; com a piedade, a fraternidade; com a fraternidade, o amor.” Prossegue o apóstolo: “Porque estas coisas, existindo em vós e em vós aumentando, fazem com que não sejais nem inativos, nem infrutuosos no pleno conhecimento de nosso Senhor Jesus Cristo. Pois aquele a quem estas coisas não estão presentes é cego” (II Ped. 1:5-9).

a. Somente através de Cristo. O que transforma seres humanos em imagens de seu Criador é a habitação íntima ou participação do Senhor Jesus Cristo (Rom. 13:14; Heb. 3:14), a renovação do Espírito Santo (Tito 3:5). É o aperfeiçoamento do amor de Deus em nós (I João 4:12). Aqui encontramos um mistério semelhante ao da encarnação do Filho de Deus. Assim como o Santo Espírito habilitou o divino Cristo a participar da natureza humana, assim o Espírito nos habilita a participar dos divinos traços de caráter. Essa apropriação da natureza divina renova a pessoa interior, tornando-nos semelhantes a Cristo, embora num nível diferente: enquanto Cristo Se tornou humano, os crentes não podem tornar-se divinos. Em vez disso, tornam-se semelhantes a Deus em caráter.

b. Um processo dinâmico. A santificação é progressiva. Através de oração e estudo da Palavra, podemos crescer constantemente no companheirismo com Deus.

O mero entendimento intelectual do plano da salvação não é suficiente. Cristo tornou bem claro este ponto: “Se não comerdes a carne do Filho do homem e não beberdes o Seu sangue, não tendes vida em vós mesmos. Quem comer a Minha carne e beber o Meu sangue tem a vida eterna, e Eu o ressuscitarei no último dia. Pois a Minha carne é verdadeira comida, e o Meu sangue é verdadeira bebida. Quem comer a Minha carne e beber o Meu sangue permanece em Mim, e Eu, nele.” (João 6:53-56).

A imagem transmitida vividamente é a de que o crente deve assimilar as palavras de Cristo. Jesus acrescentou: “As palavras que Eu vos tenho dito são espírito e são vida” (João 6:63; cf. Mat. 4:4).

O caráter é composto daquilo que a mente “come e bebe”. Quando digerimos o pão da vida, somos transformados à semelhança de Cristo.

3. As duas transformações. Em 1517, o mesmo ano em que Lutero pregou suas 95 teses na porta da igreja-castelo de Wittenberg, na Alemanha, Rafael começou a pintar seu famoso quadro da Transfiguração em Roma. Esses dois eventos possuíam algo de comum entre si. O ato de Lutero marcou o início do Protestantismo, e o quadro de Rafael, embora não intencionalmente, resumiu o espírito da Reforma.

A pintura mostra Cristo em pé sobre o monte, com os endemoninhados olhando esperançosamente para Ele desde o vale (cf. Mar. 9:2-29). Os dois grupos de discípulos – um na montanha, o outro no vale – retratam dois tipos de cristãos.

Os discípulos da montanha desejavam permanecer com Cristo, mais ou menos indiferentes às necessidades que ocorriam no vale. Ao longo dos séculos, muitos têm construído no alto da “montanha”, muito afastados das necessidades do mundo. Sua experiência é a das orações desacompanhadas de obras.

Por outro lado, os discípulos do vale trabalhavam sem oração – e seus esforços em desalojar os demônios provaram-se um fracasso. Multidões têm sido vencidas tanto pela tentação de trabalhar em favor dos outros sem o poder da oração, quanto pela tentação de muito orar sem trabalhar pelos outros. Ambos os tipos de cristãos necessitam que a imagem de Deus seja neles restaurada.

a. A verdadeira transformação. Deus espera converter seres caídos em imagens Suas, através da transformação de sua vontade, mente, desejos e caracteres. O Espírito Santo traz aos crentes uma decisiva mudança de aparência. Seus frutos: “amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio” (Gál. 5:22 e 23) constituem agora o estilo de vida destes cristãos – mesmo tendo em vista que eles continuarão sendo mortais corruptíveis até o retorno de Cristo.

Se não Lhe resistirmos, Cristo “por tal forma Se identificará com os nossos pensamentos e ideais, dirigirá nosso coração e espírito em tanta conformidade com o Seu querer, que, obedecendo-Lhe, não estaremos senão seguindo nossos próprios impulsos. A vontade, refinada, santificada, encontrará seu mais elevado deleite em fazer o Seu serviço.”[9]

b. Os dois destinos. A transfiguração de Cristo revela outro marcante contraste. Cristo foi transfigurado mas, em certo sentido, também o foi o garoto no vale. O menino foi transfigurado numa imagem demoníaca (Mar. 9:1-29). Aqui podemos ver claramente dois planos opostos – o plano divino de restaurar-nos e o plano satânico de arruinar-nos. As Escrituras dizem que Deus é capaz de guardarnos “de tropeços” (Jud. 24). Satanás, por sua vez, faz tudo o que a seu alcance está para manter-nos no estado decaído.

A vida envolve constantes mudanças. Não existe terreno neutro. Ou estaremos sendo enobrecidos, ou degradados. Ou seremos “escravos do pecado”, ou “escravos da justiça” (Rom. 6:17 e 18). Quem quer que ocupe nossa mente, estará ocupando todo o nosso ser. Se, através do Espírito Santo, Cristo ocupar nossa mente, tornar-nos-emos pessoas semelhantes a Cristo – pois uma vida cheia do Espírito apresenta “cativo todo pensamento à obediência de Cristo” (II Cor. 10:5). Mas se estivermos sem Cristo, separar-nos-emos da fonte de vida e nossa destruição última será inevitável.

A Perfeição de Cristo. O que é a perfeição bíblica? Como pode ela ser recebida?

1. Perfeição bíblica. As palavras “perfeito” e “perfeição” representam traduções do termo hebraico tam ou tamim, que significam “completo”, “correto”, “cheio de paz”, “sadio”, “inteiro” ou “sem mancha”. Em geral o termo grego teleios significa “completo”, “perfeito”, “plenamente crescido”, “maduro”, “plenamente desenvolvido” e “que atingiu o seu propósito”.[10]

No Antigo Testamento, quando aplicada a seres humanos, a palavra possui sentido relativo. Noé, Abraão e Jó foram sucessivamente descritos como perfeitos ou sem mancha (Gên. 6:9; 17:1; 22:18; Jó 1:1 e 8), embora todos eles revelassem imperfeições (Gên. 9:21; 20; Jó 40:2-5).

No Novo Testamento a palavra perfeito muitas vezes descreve pessoas amadurecidas, que viveram à luz da melhor verdade conhecida e assim alcançaram elevado potencial espiritual, mental e físico (cf. I Cor. 14:20; Filip. 3:15; Heb.

5:14). Os crentes devem ser perfeitos em sua esfera finita, disse Cristo, assim como Deus é perfeito em Sua esfera absoluta e infinita (cf. Mat. 5:48). À vista de Deus, pessoa perfeita é aquela cujo coração e vida se encontram em plena submissão à adoração e ao serviço de Deus; pessoas que estão crescendo constantemente em conhecimento divino e que, por intermédio da graça de Deus, estão vivendo à altura de toda a luz que receberam enquanto se regozijam numa vida de vitória (cf. Col. 4:12; Tia. 3:2).

2. Plena perfeição em Cristo. De que modo podemos tornar-nos perfeitos? O Espírito Santo nos traz a perfeição de Cristo. Pela fé, o caráter perfeito de Cristo torna-se nosso. As pessoas jamais poderão pretender a perfeição independentemente de Cristo, como se ela fosse algum dote interior do indivíduo, ou lhe pertencesse por direito. Perfeição é um dom de Deus.

Separados de Cristo, não podem os seres humanos alcançar uma vida de justiça. O Mestre deixou claro: “Quem permanece em Mim, e Eu, nele, esse dá muito fruto; porque sem Mim nada podeis fazer” (João 15:5). É Cristo em nós quem Se “tornou, da parte de Deus, sabedoria, e justiça, e santificação, e redenção” (I Cor. 1:30).

Em Cristo essas qualidades constituem nossa perfeição. Ele completa, de uma vez por todas, nossa santificação e redenção. Ninguém é capaz de acrescentar algo àquilo que Ele já fez. Nossas vestes festivais, ou mantos de justiça, foram confeccionados pela vida, morte e ressurreição de Cristo. Agora o Espírito Santo toma o produto acabado e o faz funcionar na vida cristã. Dessa forma, podemos ser “tomados de toda a plenitude de Deus” (Efés. 3:19).

3. Andando rumo à perfeição. Qual é o papel que nós, como crentes, devemos desempenhar em tudo isso? Através da habitação interior de Cristo, crescemos em maturidade espiritual. Através dos dons divinos destinados à Sua igreja, podemos desenvolver-nos até atingir a “perfeita varonilidade, à medida da estatura da plenitude de Cristo” (Efés. 4:13). Necessitamos crescer para além de nossa experiência espiritual incipiente, a da meninice (Efés. 4:14), para além das verdades básicas do cristianismo, preparando-nos para receber o “alimento sólido” preparado para cristãos amadurecidos (Heb. 5:14). “Por isso”, diz Paulo, “pondo de parte os princípios elementares da doutrina de Cristo, deixemo-nos levar para o que é perfeito” (Heb. 6:1). E acrescentou: “Também faço esta oração: que o vosso amor aumente mais e mais em pleno conhecimento e toda a percepção, para aprovardes as coisas excelentes e serdes sinceros e inculpáveis para o dia de Cristo, cheios do fruto de justiça, o qual é mediante Jesus Cristo, para a glória e louvor de Deus” (Filip. 1:9-11).

A vida santificada não é isenta de severas dificuldades e obstáculos. Paulo advertiu os crentes: “Desenvolvei a vossa salvação com temor e tremor.” Ele acrescentou, porém, as estimuladoras palavras: “Porque Deus é quem efetua em vós tanto o querer como o realizar, segundo a Sua boa vontade” (Filip. 2:12 e 13).

Noutro ponto ele acrescenta: “Exortai-vos mutuamente cada dia, durante o tempo que se chama Hoje, a fim de que nenhum de vós seja endurecido pelo engano do pecado. Porque nos temos tornado participantes de Cristo, se, de fato, guardamos firme até ao fim, a confiança que, desde o princípio, tivemos” (Heb. 3:13 e 14; cf. Mat. 24:13).

As Escrituras nos advertem: “Se vivermos deliberadamente em pecado, depois de termos recebido o pleno conhecimento da verdade, já não resta sacrifício pelos pecados; pelo contrário, certa expectação horrível de juízo e fogo vingador” (Heb. 10:26 e 27).

Essas exortações tornam evidente que os cristãos “necessitam mais que apenas uma justificação ou santificação legal. Eles necessitam santidade de caráter, mesmo considerando que a salvação sempre vem pela fé. O título para o Céu repousa sobre a justiça de Cristo apenas. Em adição à justificação, o plano de salvação de Deus provê por intermédio deste título uma habilitação para o Céu através do Cristo que vive no interior.

A habilitação deve ser revelada no caráter moral do homem, como evidência de que a salvação aconteceu.”[11]

O que significa isso, em termos humanos? Contínua oração é indispensável para se poder viver uma vida santificada, perfeita a cada estágio de seu desenvolvimento. “Por esta razão, também nós... não cessamos de orar por vós... a fim de viverdes de modo digno do Senhor, para o Seu inteiro agrado, frutificando em toda boa obra e crescendo no pleno conhecimento de Deus” (Col. 1:9 e 10).

Justificação Diária. Todos os crentes que desenvolvem a vida santificada, cheia do Espírito (dominada por Cristo), possuem contínua necessidade de justificação diária (sustentada por Cristo). Necessitamos dessa providência em virtude de transgressões conscientes e em virtude de erros que cometemos involuntariamente. Compreendendo a pecaminosidade do coração humano, Davi suplicou pelo perdão de suas “faltas ocultas” (Sal. 19:12; cf. Jer. 17:9). Falando especificamente dos pecados dos crentes, Deus nos assegura que “se... alguém pecar, temos Advogado junto ao Pai, Jesus Cristo, o justo” (I João 2:1).

A Experiência da Salvação e o Futuro

Nossa salvação será final e plenamente operada quando formos glorificados na ressurreição ou quando formos transformados vivos, antes de nossa trasladação para o Céu. Através da glorificação, Deus compartilhará com os redimidos Sua própria glória radiante. Essa é a esperança que todos nós, como filhos de Deus, podemos antecipar. Paulo escreveu: “Gloriemo-nos na esperança da glória de Deus” (Rom. 5:2).

Essa experiência será atingida no Segundo Advento, quando Cristo aparecer “segunda vez, sem pecado, aos que O aguardam para a salvação” (Heb. 9:28).

Glorificação e Santificação. A habitação de Cristo em nossos corações é uma das condições para a futura salvação – a glorificação de nossos corpos mortais. Paulo assim situa o ponto: “Cristo em vós” é “a esperança da glória” (Col. 1:27). Noutro lugar ele oferece a explicação: “Se habita em vós o Espírito dAquele que ressuscitou a Jesus dentre os mortos, esse mesmo que ressuscitou a Cristo Jesus dentre os mortos vivificará também o vosso corpo mortal, por meio do Seu Espírito, que em vós habita” (Rom. 8:11). Paulo nos garante que “Deus vos escolheu desde o princípio para a salvação, pela santificação do Espírito e fé na verdade, ... para alcançardes a glória de nosso Senhor Jesus Cristo” (II Tess. 2:13 e 14).

Em Cristo, achamo-nos sempre na sala do trono do Universo (Col. 3:1-4). Aqueles que são “participantes do Espírito Santo”, na verdade já provaram “os poderes do mundo vindouro” (Heb. 6:4 e 5). Ao contemplarmos a glória do Senhor e fixarmos os olhos na atrativa beleza do caráter de Cristo, “somos transformados, de glória em glória, na Sua própria imagem, como pelo Senhor, o Espírito” (II Cor. 3:18) – estamos sendo preparados para a transformação que experimentaremos por ocasião do Segundo Advento.

Nossa redenção final e adoção como filhos de Deus ocorrerá no futuro. Diz Paulo: “A ardente expectativa da criação aguarda a revelação dos filhos de Deus”, acrescentando que “igualmente gememos em nosso íntimo, aguardando a adoção de filhos, a redenção do nosso corpo” (Rom. 8:19 e 23; cf. Efés. 4:30).

Esses eventos culminantes ocorrerão no tempo “da restauração de todas as coisas” (Atos 3:21). Cristo identifica a oportunidade como a “regeneração” (Mat. 19:28). Então “a própria criação será redimida do cativeiro da corrupção, para a liberdade da glória dos filhos de Deus” (Rom. 8:21).

A visão escriturística de que em certo sentido a adoção e a redenção – ou a salvação – “já” ocorreram e, por outro lado, em certo sentido, elas ainda não ocorreram, tem levado alguns à confusão. Um estudo do pleno escopo do trabalho de Cristo como Salvador provê a resposta. “Paulo relaciona nossa salvação presente com a primeira vinda de Cristo. Por meio da cruz histórica, da ressurreição e do ministério celestial de Cristo, nossa justificação e santificação são asseguradas por completo e para todos. Nossa salvação futura, a glorificação de nossos corpos, é relacionada por Paulo com a segunda vinda de Cristo. “Por esta razão, Paulo pode dizer simultaneamente: ‘Estamos salvos’, em vista da cruz de Cristo no passado; e diz também ‘ainda não estamos salvos’ à vista do futuro retorno de Cristo a fim de redimir os nossos corpos.”[12] Se enfatizarmos nossa presente salvação e excluirmos nossa salvação futura, criaremos uma compreensão incorreta e desafortunada no tocante à salvação completa em Cristo.

Glorificação e Perfeição. Alguns crêem incorretamente que a perfeição última, que será trazida pela glorificação, já se encontra à disposição do ser humano. Entretanto, Paulo – o dedicado homem de Deus – escreveu a seu próprio respeito, próximo ao final de sua vida: “Não que eu o tenha já recebido ou tenha já obtido a perfeição; mas prossigo para conquistar aquilo para o que também fui conquistado por Cristo Jesus. Irmãos, quanto a mim, não julgo havê-lo alcançado; mas uma coisa faço: esquecendo-me das coisas que para trás ficam e avançando para as que diante de mim estão, prossigo para o alvo, para o prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus” (Filip. 3:12-14).

Santificação é um processo de toda a vida. Podemos possuir a perfeição agora, mas somente em Cristo. Entretanto, a transformação última, todo-abrangente de nossa vida, que se transformará na genuína imagem de Deus, deverá ocorrer por ocasião do Segundo Advento. Paulo adverte: “Aquele, pois, que pensa estar em pé veja que não caia” (I Cor. 10:12). A história do povo de Israel e as vidas de Davi, Salomão e Pedro representam sérias advertências para nós. “Enquanto a vida persistir, existe a necessidade de guardarmos as afeições e as paixões com decidido propósito. Existe corrupção íntima, existem as tentações exteriores, e sempre que a obra de Deus avançar, Satanás planejará arranjar as circunstâncias de modo que a tentação possa de alguma forma sobrepujar a alma.

Em nenhum momento podemos estar seguros a menos que repousemos em Deus, tendo a vida escondida com Cristo em Deus.”[13]

Nossa transformação criadora final acontecerá quando nos apossarmos da incorruptibilidade e da imortalidade, quando o Espírito Santo restaurar completamente a criação original.

A Base de Nossa Aceitação Diante de Deus

Nem os traços cristãos do caráter, nem um comportamento isento de falhas representam a base pela qual somos aceitos diante de Deus. A justiça salvadora provém do único Homem justo, Cristo Jesus, e nos é transferida pelo Espírito Santo. Em nada podemos contribuir com o dom da justiça de Cristo; podemos apenas recebê-lo. Nenhum outro ser, além de Cristo, é justo (Rom. 3:10); a justiça humana independente não passa de trapos de imundícia (Isa. 64:6; cf. Dan. 9:7, 11 e 20; I Cor. 1:30).[14]

Mesmo aquilo que fazemos em resposta ao salvífico amor não pode constituir a base para nossa aceitação diante de Deus. Esta aceitação é identificada com a obra de Cristo. Ao trazer-nos Cristo, o Espírito Santo traz também essa aceitação.

É a nossa aceitação baseada na justificadora justiça de Cristo, ou em Sua santificadora justiça, ou em ambas? João Calvino destacou que, assim como “Cristo não pode ser dividido em duas partes, assim as duas coisas – justificação e santificação, que nEle percebemos unidas – são inseparáveis”.[15] O ministério de Cristo deve ser visto em sua totalidade. Isso se torna um parâmetro que evita especulações no tocante a esses dois termos, como “a tentativa em se definir minúsculos pontos de distinção entre justificação e santificação. ... Por que tentarmos ser mais minuciosos do que a Inspiração na vital questão da justificação pela fé?”[16]

O Espírito Santo traz para dentro de nós o “Está consumado” do Calvário, aplicando a nós a experiência única da aceitação que Deus faz da humanidade. Esse “está consumado”, pronunciado na cruz, coloca em xeque todas as outras tentativas humanas de se obter aceitação. Ao administrar o Crucificado ao nosso íntimo, o Espírito traz a única base para nossa aceitação diante de Deus, providenciando o único título genuíno e válido para a salvação que nos está disponível.

Referências:
[1]. T. F. Torrance, Royal Priesthood, Scottish Journal of Theology Occasional Papers, n° 3 (Edinburg: Oliver and Boyd, 1963), pág. 48.
[2]. Veja “Conversion” e “Repent, Repentance”, SDA Bible Dictionary, edição revista, págs. 235 e 933.
[3]. W. E. Vine, An Expository Dictionary of the New Testament Words (Old Tappan, NJ; Fleming H. Revell, 1966), págs. 284-286; William F., Arndt e F. Wilbur Gingrich, A Greek-English Lexicon of the New Testament and Other Early Christian Literature (Chicago, IL: University of Chicago Press, 1973), pág. 196.
[4]. “Justification”, SDA Bible Dictionary, edição revista, pág. 635.
[5]. LaRondelle, pág. 47.
[6]. “Sanctification”, SDA Bible Dictionary, edição revista, pág. 979.
[7]. Ibidem.
[8]. E. G. Wh/ite, Mensagens aos Jovens (Casa Publicadora Brasileira), pág. 35.
[9]. E. G. White, O Desejado de Todas as Nações (Casa Publicadora Brasileira), pág. 668.
[10]. “Perfect, Perfection”, SDA Bible Dictionary, edição revista, pág. 864.
[11]. LaRondelle, pág. 77.
[12]. Idem, pág. 89.
[13]. E. G. White, em SDA Bible Commentary, edição revista, vol. 2, pág. 1.032.
[14]. Comentando a respeito de Cristo – nosso Sumo Sacerdote – White diz: “Os cultos, as orações, o louvor, a penitente confissão dos pecados, sobem dos crentes fiéis, como incenso ao santuário celestial, mas ao passar através dos corruptos canais da humanidade, ficam tão maculados que, a menos que sejam purificados por sangue, jamais podem ser de valor perante Deus. Não ascendem em imaculada pureza, e a menos que o Intercessor, que está à direita de Deus, apresente e purifique tudo por Sua justiça, não será aceitável a Deus. Todo o incenso dos tabernáculos terrestres tem de ser umedecido com as purificadoras gotas do sangue de Cristo” (Mensagens Escolhidas, vol. 1, pág. 344).
[15]. J. Calvino, Institutes of the Christian Religion (Grand Rapids, MI: Associated Publishers and Authors, Inc., sem data), III, 11, 6.
[16]. E. G. White, em SDA Bible Commentary, edição revista, vol. 6, pág. 1.072.