A Natureza do Homem


O homem e a mulher foram formados à imagem de Deus com individualidade, o poder e a liberdade de pensar e agir. Conquanto tenham sido criados como seres livres, cada um é uma unidade indivisível de corpo, mente e alma, e dependente de Deus quanto à vida, respiração e tudo o mais. Quando nossos primeiros pais desobedeceram a Deus, negaram sua dependência dEle e caíram de sua elevada posição abaixo de Deus. A imagem de Deus, neles, foi desfigurada, e tornaram-se sujeitos à morte. Seus descendentes partilham dessa natureza caída e de suas conseqüências. Nascem com fraquezas e tendências para o mal. Mas Deus, em Cristo, reconciliou consigo o mundo e por meio de Seu Espírito restaura nos mortais penitentes a imagem de seu Criador. Criados para a glória de Deus, são chamados para amá-Lo e uns aos outros, e para cuidar de seu ambiente

A Natureza do Homem

“Também disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança”(Gên. 1:26). Deus não trouxe Sua principal criatura à existência através de ordens. Em vez de assim proceder, ocupou-Se amoravelmente em dar ao homem o formato, com Suas próprias mãos, utilizando para isto o pó da Terra.

O mais criativo escultor da face da Terra jamais conseguiria produzir uma criatura tão nobre. Talvez algum Miguel Ângelo conseguisse dar formato às linhas exteriores, mas o que dizer da anatomia e da fisiologia cuidadosamente preparadas, além da beleza desta figura?

A escultura perfeita ali jazia, completa: cada fio de cabelo, sobrancelhas, unhas no devido lugar – mas Deus não havia concluído o trabalho. Este homem não deveria ser um amontoado de pó, antes deveria viver, pensar, criar e crescer em glória.

Inclinando-Se sobre a magnificente figura, o Criador lhe “soprou nas narinas o fôlego de vida, e o homem passou a ser alma vivente” (Gên. 2:7; cf. 1:26). Compreendendo a necessidade de companhia por parte do homem, Deus preparou-lhe uma companheira, semelhante a ele. Deus fez recair sobre Adão um sono profundo e então retirou uma costela do homem, convertendo-a na mulher (Gên. 2:18, 21 e 22). “Criou Deus, pois, o homem à Sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou” (Gên. 1:27). Depois disso Deus os abençoou, dizendo-lhes: “Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a Terra e sujeitai-a; dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves do Céu, e sobre todo animal que rasteja sobre a terra.” O lar do jardim – mais precioso do que qualquer palácio dos dias atuais – foi concedido a Adão e Eva. Ali existiam árvores, vinhedos, flores, montanhas, vales – e tudo havia sido adornado pelo próprio Artífice. Duas árvores especiais – a árvore da vida e a árvore da ciência do bem e do mal – ali se encontravam. Deus concedeu a Adão e Eva plena liberdade para o uso dos frutos daquelas árvores, exceto no que dizia respeito à árvore da ciência do bem e do mal (Gên. 2:8, 9 e 17).

Completara-se, dessa forma, o evento culminante da Criação. Depois desse ato, “viu Deus tudo quanto fizera, e eis que era muito bom” (Gên. 1:31).

A Origem do Homem

Embora a maioria creia, nos dias atuais, que o homem se originou das formas inferiores de vida animal e é o resultado de processos naturais que se estenderam ao longo de bilhões de anos, semelhante idéia não pode, de forma alguma, ser harmonizada com o relato bíblico. O fato de que os seres humanos têm sido sujeitados a um processo de degeneração, é crucial para a visão bíblica da natureza do homem.[1]

Deus Criou o Homem. A origem da raça humana é encontrada num concílio divino. “Façamos o homem à nossa imagem” (Gên. 1:26). O verbo e o pronome aparecem no plural, indicando o trinitarismo da Divindade – Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo (veja o capítulo 2 deste livro). Sendo Um em propósito, portanto, Deus começou a criação do primeiro ser humano (Gên. 1:27).

Criado do Pó da Terra. Deus formou o homem “do pó da terra” (Gên. 2:7), utilizando matéria pré-existente mas não outras formas de vida, tais como a de animais marinhos ou animais terrestres. Não foi senão depois de haver formado cada órgão e colocado a cada um deles em seu devido lugar, que Deus introduziu nele o “fôlego de vida”, que transformou o homem numa criatura vivente.

Criado Segundo o Modelo Divino. Deus criou todos os outros animais – peixes, pássaros, répteis, insetos, mamíferos, etc. – “segundo as suas espécies” (Gên. 1:21, 24 e 25). Cada espécie possuía feições que lhe eram características, bem como a habilidade de reproduzir-se dentro da espécie. O homem, entretanto, foi criado segundo a imagem divina, e não de acordo com algum tipo do reino animal. Disse Deus: “Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança” (Gên. 1:26). Existe uma clara descontinuidade entre os seres humanos e o reino animal. A listagem genealógica de Lucas descreve a origem da raça humana e expressa a mencionada diferença em termos simples, mas profundos: “Adão, filho de Deus” (Luc. 3:38).

A Exaltada Posição do Homem. A criação do homem representou o zênite de todo o processo de criação. Deus incumbiu o homem, criado à imagem do soberano Deus, de tomar conta do planeta Terra e de toda a vida animal. L. Berkhof declara a respeito de Adão: “Era seu dever e privilégio fazer com que toda a natureza e todos os seres criados que se achavam sob seu domínio – subservientes a sua vontade e propósitos – contribuíssem para magnificar o poderoso Criador e Senhor do Universo (Gên. 1:28; Sal. 8:4-9).”[2]

A Unidade da Raça Humana. As genealogias do Gênesis demonstram que as sucessivas gerações que vieram após Adão e Eva, originaram-se do primeiro par. Como seres humanos, todos nós compartilhamos a mesma natureza, que constitui uma unidade genética ou genealógica. Paulo escreveu: “De um só fez [Deus] toda a raça humana para habitar sobre toda a face da Terra” (Atos 17:26).

Adicionalmente, podemos observar outras indicações da unidade orgânica de nossa raça nas assertivas bíblicas de que a transgressão de Adão trouxe o pecado e a morte sobre todos, e que a provisão salvífica de Cristo é destinada a todos (Rom. 5:12 e 19; I Cor. 15:21 e 22).

A Unidade da Natureza Humana

Quais são as porções características dos seres humanos? São eles constituídos de várias partes independentes, tais como um corpo, uma alma e um espírito?

O Fôlego de Vida. Deus “formou... o homem do pó da terra e lhe soprou nas narinas o fôlego de vida, e o homem passou a ser alma vivente” (Gên. 2:7).

Quando Deus converteu os elementos da terra em um ser vivente, “soprou” o “fôlego de vida” nas narinas de Adão, até então um ser inanimado. Esse fôlego de vida é o “sopro do Todo-poderoso” (Jó 33:4) – a centelha de vida. Podemos compará-la com as correntes de eletricidade que fluem através dos vários componentes elétricos e que convertem um quieto e inanimado painel de vidro, encaixado numa armação de madeira e metal, numa vibrante sucessão de cores e ação – sempre que ligamos o botão do televisor. A eletricidade traz som e movimento àquilo que antes era apenas material morto.

Homem – uma Alma Vivente. O que realizou o fôlego de vida? Quando Deus formou o ser humano do pó da terra, todos os órgãos se achavam presentes: coração, pulmões, rins, fígado, baço, cérebro, etc. – todos perfeitos, mas sem vida. Então Deus assoprou Seu próprio fôlego de vida para dentro desse ser inanimado, e o homem “tornou-se alma vivente”.

A equação escriturística é muito clara: o pó da terra (elementos terrestres) + fôlego de vida = ser vivente ou alma vivente. A união dos elementos da terra com o fôlego de vida resultou numa criatura vivente, ou alma.

Esse “fôlego de vida” não está limitado às pessoas. Todas as criaturas vivas o possuem. A Bíblia, por exemplo, atribui o fôlego de vida tanto aos animais que entraram na arca de Noé, quanto àqueles que ali não entraram (Gên. 7:15 e 22).

O termo hebraico de Gênesis 2:7, aqui traduzido como “alma vivente” ou “ser vivente”, é nephesh chayyah. Essa expressão não designa exclusivamente o homem, pois também é aplicada a animais marinhos, insetos, répteis e bestas (Gên. 1:20 e 24; 2:19).

Nephesh, traduzido como “ser” ou “alma”, provém de naphash, que significa “respirar”. O termo grego equivalente em o Novo Testamento, é psuche. “Uma vez que a respiração é a mais evidente manifestação de vida, nephesh designa basicamente o homem como uma criatura vivente, uma pessoa.”[3] Quando utilizada para animais, tal como na história da Criação, a palavra os descreve como criaturas viventes, criadas por Deus.

É importante destacar que a Bíblia afirma que o homem passou a ser uma alma vivente. Coisa alguma no relatório da Criação indica que o homem recebeu uma alma – alguma espécie de entidade separada que, na Criação, foi unida ao corpo do homem.

Uma Unidade Indivisível. A importância do relato da Criação para a correta compreensão da natureza do homem, não pode ser superestimada. Ao salientar a unidade orgânica do homem, as Escrituras o retratam como um todo. De que forma, pois, a alma e o espírito se relacionam com a natureza do homem?

1. O significado bíblico de alma. Conforme já mencionamos, no Antigo Testamento “alma” é a tradução do hebraico nephesh. Em Gênesis 2:7, o termo denota o homem como um ser vivente depois que o fôlego de vida penetrou no corpo físico, formado com os elementos da terra. “Similarmente, uma nova alma vem à existência sempre que nasce uma criança, sendo cada ‘alma’ uma nova unidade de vida, completamente única e distinta de todas as outras unidades similares. Esta qualidade da individualidade em cada ser vivente, o qual constitui uma entidade única, parece ser a idéia enfatizada pelo termo hebraico nephesh. Quando utilizado nesse sentido, nephesh não representa parte de uma pessoa; é a própria pessoa, sendo, em muitos casos, traduzido exatamente como ‘pessoa’(Gên. 14:21; Núm. 5:6; Deut. 10:22; cf. Sal. 3:2) ou ‘eu’ (a própria pessoa) (Lev. 11:43; I Reis 19:4; Isa. 46:2, etc.).

“Por outro lado, expressões tais como ‘minha alma’, ‘vossa alma’, ‘sua alma’, etc., são geralmente expressões que equivalem aos pronomes pessoais ‘eu’, ‘me’, ‘vós’, ‘ele’, etc. (Gên. 12:13; Lev. 11:43 e 44; 19:8; Jos. 23:11; Sal. 3:2; Jer. 37:9, etc.). Em mais de 100 ocorrências dentre as 755 que acontecem no Antigo Testamento, nephesh é traduzido como ‘vida’ (Gên. 9:4 e 5; I Sam. 19:5; Jó 2:4 e 6; Sal. 31:13, etc.).

“Freqüentemente nephesh refere-se a desejos, apetites ou paixões (cf. Deut. 23:24; Prov. 23:2; Ecl. 6:7). Pode referir-se também à sede das afeições (Gên. 34:3; Cant. 1:7, etc), e por vezes o termo representa a parte volitiva do homem, como quando traduzido por ‘desejo’ (Deut. 23:24; Sal. 105:22; Jer. 34:16). Em Números 31:19 nephesh é ‘morte’ e em Juízes 16:30 (traduzido como ‘eu’) ela morre. Em Números 5:2 (‘morto’) e no capítulo 9:6 (‘corpo morto’) o termo se refere a um cadáver (cf. Lev. 19:28; Núm. 9:7 e 10).

“O uso do termo grego psuche em o Novo Testamento é similar àquele de nephesh no Antigo. É utilizado tanto para a vida animal quanto para a vida humana (Apoc. 16:3). Na versão (inglesa) King James, a palavra é traduzida quarenta vezes simplesmente como ‘vida’ ou ‘vidas’ (Mat. 2:20; 6:25; 16:25, etc.). Em algumas oportunidades, seu uso se refere simplesmente a ‘pessoa’ (Atos 7:14; 27:37; Rom. 13:1; I Ped. 3:20, etc.), e ainda em outros casos ela equivale a um pronome pessoal (Mat. 12:18; II Cor. 12:15, etc.). Algumas vezes refere-se a emoções (Mar. 14:34; Luc. 2:35), à mente (Atos 14:2; Filip. 1:27), ou ao coração (Efés. 6:6).”[4]

Psuche não é imortal, mas sujeita à morte (Apoc.16:3). Pode ser destruída (Mat. 10:28).

A evidência bíblica indica que por vezes nephesh e psuche podem referir-se a toda a pessoa, enquanto noutras oportunidades o termo se restringe a aspectos particulares do homem, tais como afeições, emoções, apetites e sentimentos. Tal forma de utilização, contudo, de nenhuma maneira demonstra que o ser humano é composto de duas partes distintas. O corpo e a alma existem em conjunto; ambos formam uma união indivisível. A alma não possui consciência separada do corpo. Não existe qualquer texto que indique a possibilidade de a alma sobreviver ao corpo, mantendo-se como entidade consciente.

2. O significado bíblico de espírito. Ao passo que o termo hebraico nephesh – traduzido como alma – denota individualidade ou personalidade, o termo hebraico ruach, do Antigo Testamento – e que aparece traduzido como espírito –, refere-se à energizante centelha de vida que é essencial à existência de um indivíduo. É um termo que representa a energia divina, ou princípio vital, que anima os seres humanos.

“Ruach ocorre 377 vezes no Antigo Testamento, e com maior freqüência é traduzido como ‘espírito’, ‘vento’ ou ‘fôlego’ (Gên. 8:1, etc.). É também um termo utilizado para denotar vitalidade (Juí. 15:19), coragem (Jos. 2:11), temperamento ou ira (Juí. 8:3), disposição (Isa. 54:6), caráter moral (Ezeq. 11:19) e a sede das emoções (I Sam. 1:15). “No sentido de respiração, o ruach do homem é idêntico ao ruach dos animais (Ecl. 3:19). O ruach do homem abandona o corpo por ocasião da morte (Sal. 146:4) e retorna a Deus (Ecl. 12:7; cf. Jó 34:14). Ruach é utilizado freqüentemente para identificar o Espírito de Deus, como em Isaías 63:10. Jamais no Antigo Testamento, no que diz respeito ao homem, ruach denota uma entidade inteligente, capaz de existência independente do corpo físico.

“O equivalente neotestamentário de ruach é pneuma, ‘espírito’, proveniente de pneo, ‘soprar’ ou ‘respirar’. Tal como ocorre com ruach, não há coisa alguma inerente à palavra pneuma que possa denotar uma entidade capaz de existência consciente separada do corpo, tampouco o uso que o Novo Testamento faz da palavra, com respeito ao homem, de alguma forma implica em tal conceito. Em passagens tais como Rom. 8:15; I Cor. 4:21; II Tim. 1:7 e I João 4:6, pneuma denota ‘humor’, ‘atitude’ ou ‘estado de sentimentos’. É também usada em vários aspectos relacionados com a personalidade, como em Gál. 6:1; Rom. 12:11, etc. Tal como ocorre com ruach, pneuma é devolvida ao Senhor por ocasião da morte (Luc. 23:46; Atos 7:59). Tal como ocorre com ruach, pneuma também aparece em conexão com o Espírito de Deus (I Cor. 2:11 e 14; Efés. 4:30; Heb. 2:4; I Ped. 1:12; II Ped. 1:21; etc.).”[5]

3. Unidade de corpo, alma e espírito. Qual é a relação existente entre corpo, alma e espírito? Qual é a influência desse relacionamento sobre a unidade do homem?

a. União dupla. Embora a Bíblia veja a natureza do homem como uma unidade, ela não define precisamente o relacionamento entre corpo, alma e espírito. Por vezes alma e espírito são usados como sinônimos. Observe o paralelismo existente na expressão de regozijo de Maria, logo após a Anunciação: “A minha alma engrandece ao Senhor, e o meu espírito se alegrou em Deus, meu Salvador” (Luc. 1:46 e 47).

Em certo momento o homem é caracterizado por Jesus como corpo e alma (Mat. 10:28), e noutro momento Paulo o identifica como corpo e espírito (I Cor. 7:34). No primeiro texto, alma se refere às mais elevadas faculdades do homem, presumivelmente a mente, através da qual ele se comunica com Deus. No segundo texto, espírito é que se refere às mais nobres faculdades. Em ambos os casos o corpo inclui os aspectos físicos – e emocionais – da pessoa.

b. União tripla. Existe uma exceção à caracterização geral do homem como sendo composto de uma união dupla. Paulo, que falou da união dupla de corpo e espírito, também falou em termos de uma unidade tripla. Ele declara: “O mesmo Deus da paz vos santifique em tudo; e o vosso espírito, alma e corpo sejam conservados íntegros e irrepreensíveis na vinda de nosso Senhor Jesus Cristo” (I Tess. 5:23). Essa passagem sintetiza o desejo de Paulo de que nenhum dos aspectos da pessoa fosse excluído do processo de santificação.

Nessa passagem, espírito pode ser compreendido como “o mais elevado princípio de inteligência e pensamentos, do qual o homem está revestido, e através do qual Deus pode comunicar-Se por intermédio do Seu Espírito (Rom. 8:16). É através da renovação da mente, por intermédio das atividades do Espírito Santo, que o indivíduo é transformado à semelhança de Cristo (Rom. 12:1 e 2).

“Por ‘alma’... quando considerada separadamente do espírito, podemos entender a porção da natureza humana que encontra sua expressão através de instintos, emoções e desejos. Essa porção da natureza da pessoa também pode ser santificada. Quando, através da operação do Espírito Santo, a mente é trazida à conformidade com a mente de Deus, e a razão santificada se impõe à natureza inferior, os impulsos – que de outra forma seriam contrários a Deus – tornam-se sujeitos à Sua vontade.”[6]

O corpo, que tanto pode ser controlado pela natureza superior quanto pela inferior, é a constituição física – a carne, o sangue e os ossos.

A seqüência apresentada por Paulo – primeiro o espírito, então a alma e finalmente o corpo – não é mera coincidência. Quando o espírito é santificado, a mente se encontra sob o controle divino. A mente santificada, por sua vez, exercerá influência santificadora sobre a alma, ou seja, os desejos, sentimentos e emoções. A pessoa em cuja vida a santificação está presente, não irá abusar do corpo, de modo que a saúde física também florescerá. Portanto, o corpo se torna um instrumento santificado através do qual o cristão pode servir a seu Senhor e Salvador. O apelo de Paulo no tocante à santificação acha-se claramente embasado no conceito da unidade da natureza humana e revela que a efetiva preparação para o segundo advento de Cristo necessita do preparo de toda a pessoa – espírito, alma e corpo.

c. União indivisível e harmoniosa. Torna-se claro que todo ser humano é uma união indivisível. Corpo, alma e espírito funcionam em íntima cooperação, revelando um relacionamento intensamente harmonioso entre as faculdades espirituais, mentais e físicas da pessoa. Deficiências em uma área criarão embaraços nas outras duas. Um espírito ou mente doente, impuro, terá efeitos deletérios sobre a saúde física ou emocional da pessoa. O inverso também é verdade. Uma constituição física enfraquecida, doente ou sofredora, em geral afetará a saúde emocional ou espiritual da pessoa. O impacto que as faculdades exercem umas sobre as outras, significa que todos os indivíduos receberam de Deus a responsabilidade de manter estas mesmas faculdades em suas melhores condições. Proceder assim constitui parte vital no processo de restauração da imagem do Criador sobre a criatura.

Homem à Imagem de Deus

Os seres viventes que Deus criou no sexto dia, foram feitos “à imagem de Deus” (Gên. 1:27). Ser criado à imagem de Deus – o que significa isso?

Criado à imagem e semelhança de Deus. Tem sido freqüentemente sugerido que as dimensões moral e espiritual do homem revelam algo a respeito da natureza moral e espiritual de Deus. Uma vez, porém, que a Bíblia ensina que o homem representa uma unidade indivisível de corpo, mente e alma, as características físicas do homem devem também, em certa medida, refletir a imagem de Deus.

Mas... não é Deus um espírito? De que modo poderia um espírito estar associado com alguma forma física?

Um breve estudo a respeito dos anjos mostrará que eles, à semelhança de Deus, são também espíritos (Heb. 1:7 e 14). Ainda assim, sempre aparecem em forma humana (Gên. 18:1 a 19:22; Dan. 9:21; Luc. 1:11-38; Atos 12:5-10). Poderia ocorrer de um ser espiritual possuir um “corpo espiritual” ao qual se associassem forma física e feições (cf. I Cor. 15:44)?

A Bíblia indica que algumas pessoas puderam ver partes da pessoa de Deus. Moisés, Arão, Nadabe, Abiú e os setenta anciãos viram os Seus pés (Êxo. 24:9-11). Embora Ele Se recusasse a mostrar Sua face, depois de cobrir Moisés com Sua própria mão, Deus permitiu que Suas costas fossem vistas enquanto Ele passava (Êxo. 33:20-23). Deus apareceu a Daniel numa visão que focalizava cenas do juízo; ali Ele foi visto como o Ancião de Dias, assentado num trono (Dan. 7:9 e 10). Cristo é descrito como “a imagem do Deus invisível” (Col. 1:15) “e a expressão exata do Seu Ser” (Heb. 1:3). Essas passagens parecem indicar que Deus é um ser pessoal e possui forma pessoal. Isso não deveria supreender-nos, uma vez que o homem foi criado à imagem de Deus.

O homem foi criado “um pouco menor do que os anjos” (Heb. 2:7), uma indicação de que deve ter sido dotado de dons mentais e espirituais. Embora faltassem a Adão a experiência, visão e caráter desenvolvido, foi feito “reto”, o que deve significar uma referência a sua retidão moral.[7] Sendo a imagem moral de Deus, era justo e santo (cf. Efés. 4:24), e constituía parte daquela criação que Deus identificou como “muito boa” (Gên. 1:31).

Uma vez que o homem foi criado à imagem moral de Deus, foi-lhe dada oportunidade de demonstrar seu amor e lealdade a seu Criador. Tal como Deus, possuía a liberdade de escolha – o direito de pensar e agir de acordo com imperativos morais. Assim, achava-se ele livre para amar e obedecer ou para desconfiar e desobedecer. Deus teve de correr o risco de ver o homem assumir a decisão errada, pois tão-somente a liberdade de escolha poderia levar o homem a demonstrar plenamente o princípio do amor que representa a essência do próprio Deus (I João 4:8). O destino do homem era alcançar a mais elevada expressão da imagem de Deus: amar a Deus de todo o seu coração, alma e mente, e amar aos outros como a si mesmo (Mat. 22:36-40).

Criado Para o Relacionamento com Outros. Disse Deus: “Não é bom que o homem esteja só” (Gên. 2:18), pelo que fez a Eva. Da mesma forma como os três membros da Divindade Se acham unidos através de amorável relacionamento, assim fomos nós criados para o companheirismo encontrado na amizade e no matrimônio (Gên. 2:18). Através de tal relacionamento, temos a oportunidade de viver em favor de outros. Ser genuinamente humano significa ser orientado no sentido de relacionamento com outros. O desenvolvimento desse aspecto da imagem de Deus é uma parte da harmonia e prosperidade do reino de Deus.

Criado Para Ser o Administrador do Ambiente. Disse Deus: “Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; tenha ele domínio sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus, sobre os animais domésticos, sobre toda a terra e sobre todos os répteis que rastejam pela terra” (Gên. 1:26). Aqui Deus menciona a imagem divina do homem e o seu domínio sobre todas as formas inferiores de vida, fazendo-o num só estirão. Foi na qualidade de representante de Deus que o homem foi colocado como regente das formas inferiores de vida. O reino animal não é capaz de entender a soberania de Deus, mas muitos animais são capazes de amar e servir o ser humano.

Davi, referindo-se ao domínio do homem, declara: “Deste-lhe domínio sobre as obras da Tua mão e sob seus pés tudo lhe puseste” (Sal. 8:6-8). A elevada posição do homem era um indicativo da glória e honra com as quais foi ele criado (Sal. 8:5). Era sua responsabilidade governar graciosamente sobre o mundo, refletindo a imagem do beneficente governo de Deus sobre todo o Universo.

Portanto, não somos vítimas das circunstâncias, dominados pelas forças do meioambiente. Pelo contrário, Deus nos comissionou a contribuirmos positivamente para a configuração do ambiente, ao utilizarmos cada situação na qual somos colocados como uma oportunidade para levar à realização da vontade de Deus.

Esses pensamentos provêem a chave capaz de melhorar as relações humanas num mundo em que as rupturas são abundantes. Também encontramos aí a resposta para a devastação egoísta dos recursos naturais e da desconsiderada poluição do ar e da água, o que tem levado à crescente deterioração da qualidade de vida. A adoção da perspectiva bíblica no tocante à natureza humana, provê a única segurança de um futuro próspero.

Criado Para Imitar a Deus. Como seres humanos, devemos agir à semelhança de Deus, pois fomos feitos à Sua semelhança.

Embora sejamos humanos, e não divinos, devemos refletir o nosso Criador, dentro de nossos limites, sob todas as formas possíveis. O quarto mandamento apela a esta obrigação: devemos seguir o exemplo de nosso Autor trabalhando seis dias e descansando no sétimo (Êxo. 20:8-11).

Criado com Imortalidade Condicional. Na Criação os nossos primeiros pais receberam a imortalidade, embora sua conservação estivesse condicionada à obediência. Tendo recebido acesso à árvore da vida, destinavam-se eles a viver para sempre. A única forma pela qual poderiam ameaçar seu estado de imortalidade, seria através da transgressão da ordem que lhes proibia comer da árvore da ciência do bem e do mal. Desobediência conduzi-los-ia à morte (Gên. 2:17; cf. Gên. 3:22).

A Queda

Embora tivessem sido criados perfeitos e à imagem de Deus, e ainda tivessem sido colocados num ambiente perfeito, Adão e Eva tornaram-se transgressores. De que forma ocorreu uma transformação tão radical e tão terrível?

A Origem do Pecado. Se Deus criou um mundo perfeito, de que modo pôde aparecer o pecado?

1. Deus e a origem do pecado. Porventura é Deus, o Criador, também o autor do pecado? A Escritura salienta que Deus é santo por natureza (Isa. 6:3) e que nEle não existe qualquer injustiça. “Suas obras são perfeitas, porque todos os Seus caminhos são juízo; Deus é fidelidade, e não há nEle injustiça; é justo e reto” (Deut. 32:4). A Escritura afirma ainda: “Longe de Deus o praticar Ele a perversidade, e do Todo-poderoso o cometer injustiça” (Jó 34:10). “Deus não pode ser tentado pelo mal e Ele mesmo a ninguém tenta” (Tia. 1:13); Ele odeia o pecado (Sal. 5:4; 11:5). A Criação original de Deus era “muito boa” (Gên. 1:31). Portanto, longe dEle está a autoria do pecado, pois Ele é o “Autor da salvação eterna para todos os que Lhe obedecem” (Heb. 5:9).

2. O autor do pecado. Deus poderia ter evitado o surgimento do pecado, e para tanto bastaria que houvesse criado um Universo de robôs, que tão-somente pudessem fazer aquilo para o que estivessem programados. Mas o amor de Deus demandava que Suas criaturas tivessem o direito de responder livremente a Seu amor – e tal tipo de resposta somente é possível quando os seres possuem a liberdade de escolha.

Ao prover Sua criação com esse tipo de liberdade, Deus correu o risco de que alguma de Suas criaturas se voltasse contra Ele. Desgraçadamente, Lúcifer – um ser muitíssimo exaltado no mundo angélico – tornou-se orgulhoso (Ezeq. 28:17; cf. I Tim. 3:6). Insatisfeito com a posição que ocupava no governo de Deus (cf. Jud. 6), ele começou a cobiçar o lugar do próprio Deus (Isa. 14:12-14). Numa tentativa para assumir o controle do Universo, esse anjo caído semeou descontentamento entre seus companheiros anjos, chegando a obter a simpatia de muitos deles. O conflito celestial daí resultante finalizou quando Lúcifer, agora conhecido como Satanás, o adversário, foi expulso do Céu junto com os seus anjos (Apoc. 12:4, 7-9; veja também o capítulo 8).

3. A origem do pecado na raça humana. Não tendo sido detido em seus maus propósitos mediante a expulsão que enfrentou no Céu, Satanás tomou a decisão de instigar outros na rebelião contra o governo de Deus. Sua atenção foi desviada para a recém-criada raça humana. De que forma poderia ele levar Adão e Eva à rebelião contra Deus? Eles viviam num mundo perfeito, no qual todas as suas necessidades eram supridas pelo Criador. De que forma poderiam chegar a sentir-se descontentes e a desconfiar dAquele que era a fonte de sua felicidade? O registro do primeiro pecado provê a resposta.

Em seu assalto aos primeiros seres humanos, Satanás decidiu apanhá-los com as defesas em baixa. Aproximando-se de Eva, quando esta se achava nas proximidades da árvore da ciência do bem e do mal, Satanás – disfarçado de serpente – questionou-a com relação à proibição divina relativa ao uso do fruto daquela árvore que diante dela se encontrava. Quando Eva afirmou que Deus dissera que eles morreriam no dia em que comessem do fruto da árvore, Satanás desafiou a proibição divina, dizendo: “Certamente não morrereis.” Ele despertou a curiosidade da mulher, sugerindo que Deus estava tentando privá-los de uma nova e extraordinária experiência: tornarem-se iguais a Deus (Gên. 3:4 e 5). Imediatamente surgiram dúvidas quanto à lisura do caráter de Deus. Eva tornou-se enfatuada com as grandes possibilidades que o fruto parecia oferecer.

A tentação começou a funcionar arrasadoramente em sua mente santificada. A crença nas palavras de Deus converteu-se agora em crença nas palavras de Satanás. Repentinamente ela começou a imaginar “que a árvore era boa para se comer, agradável aos olhos e árvore desejável para dar entendimento”. Descontente com sua posição, cedeu à tentação de tornar-se igual a Deus. “Tomou-lhe do fruto e comeu e deu também ao marido, e ele comeu” (Gên. 3:6).

Confiando em seus sentimentos, ao invés de confiar na palavra de Deus, Eva rompeu sua dependência de Deus, decaiu de sua elevada posição e mergulhou no pecado. A queda da raça humana, portanto – quer em sua primeira experiência, quer em todas as oportunidades subseqüentes – foi caracterizada pela quebra da fé em Deus e em Sua palavra. Essa descrença conduz à desobediência, resultando num relacionamento rompido e, finalmente, na separação entre Deus e o homem.

O Impacto do Pecado. Quais foram as conseqüências imediatas e as de longo prazo, do pecado? De que forma essa experiência afetou a natureza humana? Qual é a perspectiva de eliminar o pecado e melhorar a natureza humana?

1. As conseqüências imediatas. A primeira conseqüência do pecado foi a alteração da natureza humana, a qual afetou os relacionamentos interpessoais, bem como o relacionamento de Adão e Eva com Deus. A experiência nova e extasiante fez com que Adão e Eva abrissem de fato os olhos e percebessem que estavam nus, sentindo vergonha um do outro (Gên. 3:7). Em vez de se tornarem iguais a Deus, conforme prometera Satanás, tornaram-se eles temerosos e tentaram esconder-se (Gên. 3:8-10).

Quando Deus interrogou Adão e Eva no tocante a seu pecado, em vez de admitir sua culpa eles tentaram passar adiante a responsabilidade. Adão respondeu: “A mulher que me deste por esposa, ela me deu da árvore, e eu comi” (Gên. 3:12). Suas palavras implicavam em que Eva – e, indiretamente, o próprio Deus – era a responsável pelo seu pecado, mostrando claramente que o pecado interrompera o seu relacionamento com sua esposa e com o próprio Criador. Eva, por seu turno, culpou a serpente (Gên. 3:13).

As horrendas conseqüências que sobrevieram a nossos primeiros pais, revelam a gravidade de sua transgressão. Deus amaldiçoou o médium de Satanás, a serpente, condenando-a a rastejar sobre a terra, como perpétua recordação da queda (Gên. 3:14). À mulher disse Deus: “Multiplicarei sobremodo os sofrimentos da tua gravidez; em meio de dores darás à luz filhos; o teu desejo será para o teu marido, e ele te governará” (Gên. 3:16). E pelo fato de haver escutado a voz de sua mulher, em desatenção à voz de Deus, Adão teve de ouvir a maldição a que a Terra estaria sujeita por sua causa; seus labores e ansiedades seriam aumentados: “Maldita é a terra por tua causa; em fadigas obterás dela o sustento durante os dias de tua vida. Ela produzirá também cardos e abrolhos, e tu comerás a erva do campo. No suor do rosto comerás o teu pão, até que tornes à terra, pois dela foste formado; porque tu és pó e ao pó tornarás” (Gên. 3:17-19).

Ao reafirmar a imutabilidade de Sua lei e o fato de que qualquer transgressão da mesma conduziria certamente à morte, Deus disse: “Porque tu és pó, e ao pó tornarás” (Gên. 3:19). Ele executou Seu veredicto expulsando os transgressores de seu lar edênico, interrompendo também a sua comunicação direta com Deus (Gên. 3:8) e evitando assim que eles tornassem a fazer uso da árvore da vida, fonte de vida eterna. Assim foi que Adão e Eva se tornaram sujeitos à morte (Gên. 3:22).

2. O caráter do pecado. Muitas passagens escriturísticas, incluindo particularmente o relato da Queda, tornam claro que o pecado é um mal moral – o resultado de um agente moral livre que decide violar a vontade revelada de Deus (Gên. 3:1-6; Rom. 1:18-22).

a. Definição de pecado. A definição bíblica de pecado o apresenta como “a transgressão da lei” (I João 3:4), uma falha nas ações de qualquer um “que sabe que deve fazer o bem e não o faz” (Tia. 4:17), bem como “tudo o que não provém de fé” (Rom. 14:23). Uma definição abrangente de pecado é: “Qualquer desvio da conhecida vontade de Deus, quer seja por negligência em fazer aquilo que Ele ordena seja feito, quer seja por fazer aquilo que Ele proíbe especificamente.”[8]

O pecado não conhece a neutralidade. Cristo declara: “Quem não é por Mim é contra Mim” (Mat. 12:30). Deixar de crer nEle é pecado (João 16:9). O pecado é absoluto em seu caráter porque é a rebelião contra Deus e Sua vontade manifestada.

Qualquer pecado, pequeno ou grande, resulta no veredicto “culpado”. Portanto, “qualquer que guarda toda a lei, mas tropeça em um só ponto, se torna culpado de todos” (Tia. 2:10).

b. O pecado envolve tanto pensamentos quanto ações. Freqüentemente ouvimos referências ao pecado como sendo apenas os atos concretos e visíveis de transgressão da lei. Mas Cristo afirmou que qualquer manifestação de ira contra alguém viola o sexto mandamento do Decálogo, “Não matarás” (Êxo. 20:13), e que os desejos pecaminosos transgridem o mandamento “Não adulterarás” (Êxo. 20:14). Portanto, o pecado envolve não apenas a desobediência aberta, manifestada em ações, como também os pensamentos e desejos.

c. Pecado e culpa. O pecado produz culpa. Sob a perspectiva bíblica, culpa significa que alguém que cometeu pecado está sujeito à punição. Uma vez que todos somos pecadores, o mundo inteiro acha-se “culpável perante Deus” (Rom. 3:19).

Se não tratada corretamente, a culpa devasta as faculdades físicas, mentais e espirituais. Em última análise, se não solucionada, a culpa produz morte – uma vez que “o salário do pecado é a morte” (Rom. 6:23).

O antídoto para a culpa é o perdão (Mat. 6:12), o qual resulta em consciência limpa e paz mental. A disposição perdoadora de Deus anseia por garantir o perdão aos pecadores arrependidos. Cristo convida graciosamente a raça culpada e subjugada pelo pecado: “Vinde a Mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e Eu vos aliviarei” (Mat. 11:28).

d. O centro de controle do pecado. A sede do pecado é aquilo que a Bíblia identifica como “coração” – o mesmo que hoje chamamos “mente”. Do coração “procedem as saídas da vida” (Prov. 4:23). Cristo revela que são os pensamentos da pessoa que contaminam, “porque do coração procedem maus desígnios, homicídios, adultérios, prostituição, furtos, falsos testemunhos, blasfêmias” (Mat. 15:19). É através do coração que a pessoa inteira – o intelecto, a vontade, as afeições, emoções e o corpo – são influenciados. Uma vez que o coração é enganoso, “mais do que todas as coisas, e desesperadamente corrupto” (Jer. 17:9), a natureza humana pode ser descrita como corrupta, depravada e inteiramente pecaminosa.

3. Efeitos do pecado sobre a humanidade. Alguns poderão imaginar que a sentença de morte foi demasiado severa para a penalidade de comer um fruto proibido. Entretanto, somente podemos avaliar a gravidade da transgressão à luz dos efeitos que o pecado de Adão e Eva ocasionou sobre a raça humana.

O filho mais velho de Adão e Eva cometeu assassinato. Seus descendentes em breve estavam violando a sagrada união matrimonial e se envolvendo em poligamia; não demorou muito que a maldade e a violência tomassem conta da Terra (Gên. 4:8 e 23; 6:1-5, 11-13). Os apelos divinos para que se praticasse arrependimento e reforma não foram atendidos, e apenas oito pessoas foram salvas das águas do Dilúvio, que destruíram os impenitentes. A história da raça humana após o Dilúvio, com poucas exceções, representa um deplorável relato de resultados crescentes da pecaminosa natureza humana.

a. A pecaminosidade universal da humanidade. A história revela que os descendentes de Adão compartilharam da pecaminosidade de sua natureza. Davi assim se expressou em oração: “À Tua vista não há justo nenhum vivente” (Sal. 143:2; cf. 14:3). “Pois não há homem que não peque” (I Reis 8:46). Salomão acrescentou: “Quem pode dizer: Purifiquei o meu coração, limpo estou do meu pecado?” (Prov. 20:9). “Não há homem justo sobre a Terra que faça o bem e que não peque” (Ecl. 7:20). O Novo Testamento é igualmente claro ao declarar que “todos pecaram e carecem da glória de Deus” (Rom. 3:23) e que “se dissermos que não temos pecado nenhum, a nós mesmos nos enganamos, e a verdade não está em nós” (I João 1:8).

b. É a pecaminosidade herdada ou adquirida? Paulo observou que “em Adão, todos morrem” (I Cor. 15:22). Em outro ponto ele mostra que “Assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado, a morte, assim também a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram” (Rom. 5:12).

A corrupção do coração humano afeta a pessoa em sua totalidade. É à luz desta realidade que Jó exclama: “Quem da imundícia poderá tirar coisa pura? Ninguém!” (Jó 14:4). Davi observou: “Eu nasci na iniqüidade, em pecado me concebeu minha mãe” (Sal. 51:5). Paulo afirmou que “o pendor da carne é inimizade contra Deus, pois não está sujeito à lei de Deus, nem mesmo pode estar. Portanto, os que estão na carne não podem agradar a Deus” (Rom. 8:7 e 8). Antes da conversão, fez notar o apóstolo, os crentes eram “por natureza, filhos da ira” (Efés. 2:3), assim como o restante da humanidade.

Embora, como crianças, adquiramos comportamento pecaminoso através da imitação, os textos anteriores afirmaram que já herdamos nossa pecaminosidade básica. A universal pecaminosidade da raça humana constitui evidência de que por natureza tendemos ao mal, e não ao bem.

c. A erradicação do comportamento pecaminoso. Quão bem-sucedidas conseguem ser as pessoas na remoção do pecado de sua vida e da sociedade?

Todos os esforços para se alcançar uma vida de justiça através dos próprios méritos, são condenados. Cristo declarou que todos aqueles que pecaram são “escravos do pecado”. Somente o divino poder pode emancipar-nos dessa escravidão. Entretanto, Cristo nos assegura: “Se o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres” (João 8:36). Ele disse que somente seremos capazes de produzir a justiça se permanecermos nEle, porque “sem Mim nada podeis fazer” (João 15:4 e 5).

Até mesmo o apóstolo Paulo fracassou na tentativa de desenvolver vida justa através de seus esforços. Ele conhecia o perfeito padrão da lei de Deus, mas não se sentia habilitado a preenchê-lo. Ao recapitular os esforços que havia empreendido, declarou: “Porque nem mesmo compreendo o meu próprio modo de agir, pois não faço o que prefiro, e sim o que detesto.” “Porque não faço o bem que prefiro, mas o mal que não quero, esse faço.” Depois salientou o impacto do pecado sobre sua vida: “Mas, se eu faço o que não quero, já não sou eu quem o faz, e sim o pecado que habita em mim.” A despeito de seus fracassos, ele admirava o perfeito padrão de Deus, dizendo: “Porque, no tocante ao homem interior, tenho prazer na lei de Deus; mas vejo, nos meus membros, outra lei que, guerreando contra a lei de minha mente, me faz prisioneiro da lei do pecado que está nos meus membros. Desventurado homem que sou! Quem me livrará do corpo desta morte?” (Rom. 7:15, 19, 20, 22-24).

Paulo finalmente compreendeu que era necessário o poder divino para torna-lo vitorioso. Por intermédio de Cristo, deixou de lado a vida segundo a carne e começou uma nova vida de acordo com o Espírito (Rom. 7:25; 8:1).

Essa nova vida segundo o Espírito é o transformador dom de Deus. Através da graça divina, nós que estamos “mortos... nos delitos e pecados”, nos tornamos vitoriosos (Efés. 2:1, 3, 8-10). O novo nascimento espiritual transforma de tal modo a vida (João 1:13; 3:5) que podemos até mesmo falar de uma nova criação – as “coisas antigas já passaram; eis que se fizeram novas” (II Cor. 5:17). A vida renovada, contudo, não exclui a possibilidade de se cometer pecado (I João 2:1).

4. Evolução e queda do homem. Desde o início, Satanás tem confundido muitos através do enfraquecimento da confiança destes nos relatos escriturísticos da origem da raça humana e da queda do homem. Poderíamos identificar a evolução como a visão “natural” da humanidade, um ponto de vista baseado na presunção de que a vida começou por acaso e que os humanos, através de um longo processo evolucionista, emergiram a partir de formas inferiores de vida. Por intermédio de um processo de sobrevivência dos mais capazes, a vida evoluiu até atingir o presente estágio. Uma vez que os seres humanos ainda não atingiram seu pleno potencial, encontram-se em pleno processo evolutivo.

Crescente número de cristãos têm adotado a evolução teísta, segundo a qual Deus utilizou a evolução para operar a Criação relatada em Gênesis. Aqueles que aceitam a evolução teísta não vêem os primeiros capítulos de Gênesis como sendo literais; consideram-nos, antes, como alegoria ou mito.

a. A visão bíblica do homem e da evolução. Cristãos criacionistas preocupam-se com o impacto da teoria evolucionista sobre a fé cristã. James Orr escreveu: “O cristianismo defronta se, hoje, não com ataques isolados contra algumas de suas doutrinas... mas com uma visão oposta global e estrutural do mundo, que pretende repousar sobre fundamentos científicos, habilmente construída e defendida, e que em suas idéias fundamentais golpeia as próprias raízes do sistema cristão.”[9]

A Bíblia rejeita a interpretação alegórica ou mítica do Gênesis. Os escritores bíblicos sempre interpretaram Gênesis 1 a 11 como sendo história literal. Adão, Eva, a serpente e Satanás são todos vistos como caracteres históricos no drama do grande conflito (Jó 31:33; Ecl. 7:29; Mat. 19:4 e 5; João 8:44; Rom. 5:12, 18 e 19; II Cor. 11:3; I Tim. 2:14; Apoc. 12:9).

b. Calvário e evolução. A evolução, qualquer que seja a sua forma ou versão, contradiz os fundamentos básicos do cristianismo. Ou, conforme assegurou Leonard Verduin: “Em lugar da história de uma ‘queda’, aparece a história de uma ‘ascensão’.”[10] Cristianismo e evolução encontram-se em diametral oposição. Ou nossos primeiros pais foram criados à imagem de Deus e experimentaram a queda nas malhas do pecado, ou isso não aconteceu. Se não aconteceu, que razão há para sermos cristãos?

O Calvário questiona da forma mais radical a evolução. Se não existiu queda, por que haveria necessidade de Deus morrer em nosso lugar? Não é apenas a morte em geral, mas particularmente a morte de Cristo que afirma que nem tudo vai bem com a humanidade. Deixados por nossa própria conta, continuaríamos em processo de deterioração até que a raça humana fosse aniquilada.

Nossa esperança repousa sobre o Homem que foi pendurado no Calvário. Tão-somente a Sua morte nos abre a possibilidade de uma vida melhor e mais ampla, e que jamais terá fim. O Calvário declara que necessitamos de um substituto para podermos ser libertos.

c. A encarnação e a evolução. Talvez a demanda criação-versus-evolução seja melhor respondida quando contemplamos a humanidade sob o ponto de vista da encarnação. Ao fazer com que Cristo, o segundo Adão, ingressasse na história, Deus Se encontrava em plena obra criadora. Se Deus foi capaz de trazer a lume Seu milagre supremo, não deveria haver qualquer questionamento quanto à Sua capacidade de formar o primeiro Adão.

d. Proveio o homem das eras? Os evolucionistas destacam, com freqüência, o enorme progresso científico ocorrido nos últimos séculos como constituindo evidência de que o homem parece o árbitro de seu próprio destino. Se a ciência é capaz de suprir todas as suas necessidades, desde que lhe seja concedido tempo suficiente, o homem será capaz de resolver todos os problemas do mundo.

Contudo, há que se observar que o papel messiânico da tecnologia está enfrentando crescente ceticismo – pois a verdade é que a tecnologia lançou o planeta às bordas da aniquilação. A humanidade fracassou completamente na subjugação e no controle do coração pecaminoso. Conseqüentemente, todo o progresso científico tão-somente conseguiu tornar o mundo mais perigoso.

De modo crescente, as filosofias do niilismo e do desespero parecem válidas. A expressão de Alexander Pope: “A esperança borbulha eternamente no coração humano”, soa hoje como algo irreal. Jó possuía uma visão mais acurada da realidade – o tempo passa enquanto os dias “se findam sem esperança” (Jó 7:6). O mundo dos homens corre em direção descendente. Alguém deverá aparecer de fora dos quadros da história humana, invadi-la e trazer à luz uma nova realidade.

Raios de Esperança. Quão grande se tornou a depravação da humanidade? Na cruz os seres humanos assassinaram o seu Criador – o parricídio extremo! Mas Deus não deixou a humanidade sem esperança.

Davi contemplou as possibilidades humanas na Criação. Impressionado inicialmente com a vastidão do Universo, ele considerou o homem como insignificante. Percebeu, então, a verdadeira posição do homem. Referindo-se à presente relação do homem com Deus, disse ele: “Fizeste-o, no entanto, por um pouco, menor do que Deus e de glória e de honra o coroaste. Deste-lhe domínio sobre as obras da Tua mão e sob seus pés tudo lhe puseste” (Sal. 8:5 e 6; cf. Heb. 2:7).

A despeito da Queda, resta ainda um senso de dignidade humana. Embora obliterada, a semelhança divina não foi completamente extinta. Embora decaído, corrupto, pecaminoso, o homem ainda é o representante de Deus na Terra. Sua natureza é menos que divina, mas ele ainda mantém a elevada posição de encarregado divino da criação terrestre. Ao perceber isso, Davi respondeu com louvor e ações de graças: “Ó Senhor, Senhor nosso, quão magnífico em toda a Terra é o Teu nome!” (Sal. 8:9).

O Concerto da Graça

Por meio da transgressão, o primeiro par tornou-se pecador. Não mais tendo forças para resistir a Satanás, poderiam eles algum dia libertar-se outra vez, ou seriam deixados a perecer? Haveria alguma esperança?

O Concerto Firmado por Ocasião da Queda. Antes que Deus pronunciasse a punição que deveria recair sobre o casal pecador, proveu-lhes Ele esperança, ao apresentar-lhes o concerto da graça. Disse Deus: “Porei inimizade entre ti [Satanás] e a mulher, entre a tua descendência e o seu descendente. Este te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar” (Gên. 3:15).

A mensagem de Deus trouxe encorajamento porque anunciou que, embora Satanás houvesse conseguido subjugar a humanidade sob seu maligno tacão, em última análise ele seria derrotado. O concerto foi feito entre Deus e a humanidade. Em primeiro lugar, Deus prometeu, através de Sua graça, um baluarte contra o pecado. Ele criaria profunda inimizade entre a serpente e a mulher; entre os seguidores de Satanás e o povo de Deus. Isso haveria de tornar negativas as relações entre o homem e Satanás, abrindo caminho para um novo relacionamento do homem com Deus.

Através dos séculos, deveria prosseguir a guerra entre a igreja de Deus e Satanás. O conflito atingiria a culminância por ocasião da morte de Jesus Cristo, que era a personificação profetizada da Semente da mulher. No Calvário, Satanás foi derrotado. Embora a Semente da mulher fosse ferida, o autor do mal havia sido derrotado.

Todos os que aceitam o oferecimento da graça divina, experimentarão profunda inimizade contra o pecado, e esta os tornará vitoriosos na batalha contra Satanás. Através da fé, compartilharão da vitória do Salvador no Calvário.

O Concerto Estabelecido Antes da Criação. O concerto da graça não foi desenvolvido após a Queda. As Escrituras salientam que, mesmo antes da Criação, a Divindade já havia estabelecido entre Si o concerto de que a raça humana seria resgatada, caso viesse a cair em pecado. Paulo diz que Deus “nos escolheu nEle [em Cristo] antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis

perante Ele, e em amor nos predestinou para Ele, para a adoção de filhos, por meio de Jesus Cristo, segundo o beneplácito de Sua vontade, para louvor da glória de Sua graça, que Ele nos concedeu gratuitamente no Amado” (Efés. 1:4-6; cf. II Tim. 1:9). Falando acerca do sacrifício expiatório de Cristo, Pedro disse que ele foi “conhecido, com efeito, antes da fundação do mundo, porém manifestado no fim dos tempos, por amor de vós” (I Ped. 1:20).

O concerto baseou-se sobre um fundamento inamovível: a promessa e o juramento do próprio Deus (Heb. 6:18). Jesus Cristo foi o fiador do concerto (Heb. 7:22). Fiador é alguém que assume o débito ou obrigação no caso de o devedor não poder saldar a dívida. Cristo servindo como fiador significava que, se o ser humano caísse em pecado, Ele teria de suportar a punição. Ele pagaria o preço pela redenção de seus pecados; faria propiciação por eles; preencheria os requisitos da lei divina violada. Nenhum ser humano ou anjo celestial poderia assumir tal responsabilidade. Somente Cristo, o Criador, o cabeça e representante da raça, poderia assumir tão pesado fardo (Rom. 5:12-21; I Cor. 15:22).

O Filho de Deus é não apenas o fiador do concerto; é também o mediador ou executor. Sua própria descrição de Sua missão como o Filho do homem encarnado revela esse aspecto de Seu papel. Ele disse: “Porque Eu desci do Céu, não para fazer a Minha própria vontade, e sim a vontade dAquele que Me enviou” (João 6:38; cf. 5:30 e 43). A vontade do Pai “é que todo homem que vir o Filho e nEle crer tenha a vida eterna” (João 6:40). Completando o pensamento, Ele mostrou que “a vida eterna é esta: que Te conheçam a Ti, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste” (João 17:3). Ao final de Sua missão, Ele testificou quanto ao cumprimento que dera à comissão do Pai, dizendo: “Eu Te glorifiquei na Terra, consumando a obra que Me confiaste para fazer” (João 17:4).

Na cruz Cristo Jesus preencheu plenamente o papel de fiador que assumira no concerto, em favor do ser humano. Seu brado: “Está consumado!” (João 19:30) assinalou o completo preenchimento de Sua missão. Com Sua própria vida Ele havia pago a penalidade que a violada lei de Deus requeria, garantindo a salvação para a raça humana arrependida. Naquele momento, o sangue de Cristo ratificou o concerto da graça. Por meio da fé em Seu sangue expiador, os pecadores arrependidos poderiam ser adotados como filhos e filhas de Deus, tornando-se dessa forma herdeiros da vida eterna.

Esse concerto de graça demonstra o infinito amor de Deus pela humanidade. Estabelecido antes da Criação, o concerto foi revelado após a Queda. Naquela oportunidade, num sentido muito especial, Deus e a humanidade tornaram-se parceiros.

A Renovação do Concerto.

Desgraçadamente a humanidade rejeitou o magnificente concerto da graça tanto antes quanto depois do Dilúvio (Gên. 6:1-8; 11:1-9). Quando Deus ofereceu novamente o concerto, fê-lo através de Abraão. Novamente afirmou Ele a promessa da redenção: “[Na tua descendência] serão benditas todas as nações da Terra, porquanto obedeceste à Minha voz” (Gên. 22:18; cf. 12:3; 18:18).

As Escrituras prestam especial relevo à fidelidade de Abraão às condições do concerto. Abraão creu em Deus e “isso lhe foi imputado para justiça” (Gên. 15:6). Que a participação de Abraão nas bênçãos do concerto – ainda que alicerçada na graça de Deus – também dependia de sua obediência às condições, é um bom indicador de que o concerto mantém a autoridade da lei de Deus (Gên. 17:1; 26:5).

A fé de Abraão foi de tal qualidade, que lhe foi atribuído o título de “pai de todos os que crêem” (Rom. 4:11). Ele é o modelo que Deus utilizou para a justificação pela fé que se auto-revela através da obediência (Rom. 4:2 e 3; Tia. 2:23 e 24). O concerto da graça não derramou automaticamente suas bênçãos sobre os descendentes naturais de Abraão, mas apenas sobre aqueles que seguiram o seu exemplo de fé. “Sabei, pois, que os da fé é que são filhos de Abraão” (Gál. 3:7). Cada indivíduo que vive na Terra, pode experimentar as promessas de salvação do concerto, mediante o preenchimento das condições: “Se sois de Cristo, também sois descendentes de Abraão e herdeiros segundo a promessa” (Gál. 3:29). Do lado divino do concerto, no Sinai ocorreu uma renovação do concerto de graça feito com Abraão. Esse concerto sinaítico tem sido também identificado como “a primeira aliança” (Heb. 9:1). Mas Israel perverteu-o, transformando-o num concerto de obras (Gál. 4:22-31).

O Novo Concerto.

Passagens escriturísticas posteriores falam de “um novo ou melhor concerto”.[11] Ao assim fazê-lo, não querem estes textos dizer que o concerto eterno havia sido modificado, e sim que (1) através da infidelidade de Israel o eterno concerto de Deus havia-se pervertido, caindo num sistema de obras; (2) este se achava associado com uma nova revelação do amor de Deus, manifestada na encarnação, vida, morte, ressurreição e mediação de Jesus Cristo (cf. Heb. 8:6-13); e (3) não foi senão na cruz que este concerto recebeu a ratificação por meio do sangue de Cristo (Dan. 9:27; Luc. 22:20; Rom. 15:8; Heb. 9:11-22).[12]

É grandioso o oferecimento deste concerto àqueles que o aceitam. Através da graça de Deus, ele lhes oferece o perdão de seus pecados. Oferece também o trabalho do Espírito Santo, que escreverá os Dez Mandamentos sobre seus corações e fará restaurar nos pecadores arrependidos a imagem de seu Autor (Jer. 31:33). A experiência do novo concerto, ou novo nascimento, traz consigo a justiça de Cristo e a experiência da justificação pela fé.

A renovação do coração que o concerto propicia, transforma indivíduos de tal modo que passam a produzir os frutos do Espírito: “amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio” (Gál. 5:22 e 23). Através do poder da salvadora graça de Cristo, eles poderão andar como Cristo andou, desfrutando diariamente das coisas que agradam a Deus (João 8:29). A única esperança da humanidade decaída é aceitar o convite de Deus e entrar com Ele no concerto da graça. Através da fé em Cristo Jesus, podemos experimentar esse relacionamento que nos assegura adoção como filhos de Deus e herdeiros com Cristo em Seu reino.

Referências:
[1]. A doutrina do homem tem sido um termo teológico há muito tempo utilizado para discutir os componentes da família humana. Nesta discussão, “homem” não necessariamente significa “sexo masculino”, com exclusão do sexo feminino, mas o termo foi mantido devido à facilidade de uso e em continuidade à tradição e semântica teológicas.
[2]. Berkhof, Systematic Theology, pág. 183.
[3]. “Soul”, SDA Encyclopedia, edição revista, pág. 1.361.
[4]. “Soul”, SDA Bible Dictionary, edição revista, pág. 1.061.
[5]. Ibidem, pág. 1.064.
[6]. SDA Bible Commentary, edição revista, vol. 7, pág. 257.
[7]. Ibidem, edição revista, vol. 3, pág. 1.090.
[8]. “Sin, I”, SDA Bible Dictionary, edição revista, pág. 1.042.
[9]. James Orr, God’s Image in Man (Grand Rapids, MI: Wm. B. Eerdmans, 1948), págs. 3 e 4.
[10]. Leonard Verduin, Somewhat Less than God: The Biblical View of Man (Grand Rapids, MI: Wm. B. Eerdmans, 1970), pág. 69.
[11]. O Novo Testamento associa a experiência de Israel no Monte Sinai com o velho concerto (Gál. 4:24 e 25). No Sinai Deus renovou Seu eterno concerto de graça a Seu povo que havia sido libertado (I Crôn. 16:14-17; Sal. 105:8-11; Gál. 3:15-17). Deus lhes prometeu: “Se diligentemente ouvirdes a Minha voz, e guardardes a Minha aliança, então sereis a Minha propriedade peculiar dentre todos os povos; porque toda a Terra é Minha; vós Me sereis reino de sacerdotes e nação santa” (Êxo. 19:5 e 6; cf. Gên. 17:7, 9 e 19). O concerto baseava-se na justificação pela fé (Rom. 10:6-8; Deut. 30:11-14) e a lei deveria ser escrita em seus corações (Deut. 6:4-6; 30:14).
O concerto da graça está sempre sujeito à perversão, e isso ocorre quando os crentes se voltam para um sistema de salvação pelas obras. Paulo utilizou a falta de fé de Abraão em Deus – a dependência dele em relação a suas próprias obras para a solução de problemas – como uma ilustração do velho concerto (Gên. 16; 12:10-20; 20; Gál. 4:22-25). Efetivamente, a experiência da justificação pelas obras existe desde que o pecado entrou no mundo, quando o concerto eterno foi quebrado (Osé. 6:7).
Ao longo da história de Israel, a maioria do povo tentou “estabelecer sua própria justiça” através das “obras da lei” (Rom. 9:30 a 10:4). Eles viviam de acordo com a letra, não de acordo com o Espírito (II Cor. 3:6). Tentando justificar-se a si mesmos através da lei (Gál. 5:4), viviam sob a condenação da lei e achavam-se em escravidão, não em liberdade (Gál. 4:21-23). Assim eles perverteram o concerto do Sinai.
O livro aos Hebreus aplica o primeiro (ou velho) concerto à experiência de Israel desde o Sinai, e revela sua natureza temporária. O livro mostra que o sacerdócio levítico era temporário, desempenhando uma função simbólica até que a realidade de Cristo chegasse (Heb. 9 e 10). Lamentavelmente, muitos deixaram de perceber que as cerimônias, eram, em si mesmas, sem valor (Heb. 10:1). A firme adesão ao sistema de “sombras” fez com que, quando o tipo encontrou o antítipo – quando a sombra se defrontou com a realidade –, a verdadeira missão de Cristo fosse distorcida. É por essa razão que o livro utiliza linguagem tão forte para salientar a superioridade do novo ou melhor concerto em relação ao concerto sinaítico.
O velho concerto pode, portanto, ser descrito em termos negativos ou positivos. Negativamente, refere-se à perversão do povo no tocante à compreensão do eterno concerto de Deus. Positivamente, representou o ministério terrestre temporário estabelecido por Deus para solucionar a emergência criada pelo fracasso da raça humana. Veja também E. G. White, Patriarcas e Profetas, págs. 370-373; E. G. White, Our Work, Review and Herald, 23 de junho de 1904, pág. 8; E. G. White, “A Holy Purpose to Restore Jerusalem”, Southern Watchman, 1º de março de 1904, pág. 142; Hasel, Covenant in Blood (Mountain View, CA: Pacific Press, 1982); cf. Wallenkampf, Salvation Comes From the Lord (Washington, D.C.: Review and Herald, 1983), págs. 84-90.

[12]. Cf. Hasel, Covenant in Blood.