As Escrituras Sagradas


As Escrituras Sagradas, o Antigo e o Novo Testamentos, são a Palavra de Deus escrita, dada por inspiração divina por intermédio de santos homens de Deus que falaram e escreveram ao serem movidos pelo Espírito Santo. Nesta Palavra, Deus transmitiu ao homem o conhecimento necessário para a salvação.

As Escrituras Sagradas são a infalível revelação de Sua vontade. Constituem o padrão de caráter, a prova da experiência, o autorizado revelador de doutrinas e o registro fidedigno dos atos de Deus na História.

Nenhum livro foi jamais tão amado, tão odiado, tão reverenciado e tão perseguido quanto a Bíblia. Muitas pessoas foram mortas em favor da Bíblia, outras tantas mataram por sua causa. Ela tem inspirado as maiores e mais nobres ações humanas, ao mesmo tempo em que é acusada por seus atos mais danosos e degenerados. Guerras têm sido travadas em virtude da Bíblia, revoluções têm-se orientado a partir de suas páginas, e reinos vieram abaixo com base em suas idéias.

Pessoas de todos os pontos de vista – de teólogos da libertação a capitalistas, de fascistas a marxistas, de ditadores a libertadores, de pacifistas a militaristas – percorrem avidamente as suas páginas à procura de palavras que justifiquem os seus feitos.

Mas a singularidade da Bíblia não provém de suas incomparáveis influências políticas, culturais e sociais, exercidas sobre o mundo; provém, antes, de sua fonte original e dos assuntos de que trata. É a revelação divina do Deus-homem único: o Filho de Deus, Jesus Cristo – o Salvador do mundo.

Revelação Divina

A despeito das muitas questões desafiadoras que têm sido levantadas acerca de Deus, ao longo da História o homem tem testificado confiantemente de Sua existência, verificando que Ele existe e que Se revelou de várias formas. De que modo Deus Se revelou à raça humana e em que grau pode Ele ser compreendido?

Revelação Geral

Muitos vêem canais da auto-revelação de Deus na Natureza, na História, no comportamento e consciência do homem. Vislumbres da natureza de Deus, obtidos através dessas avenidas, são freqüentemente identificados como “revelação geral”, uma vez que tal revelação se encontra disponível para todos e apela à própria razão humana.

Para milhões de pessoas, a beleza natural representa prova da existência de um Deus amorável. O brilho do Sol, a chuva, as montanhas e as correntes de águas, todos testificam de um amorável Criador. “Os Céus proclamam a glória de Deus, e o firmamento anuncia as obras das Suas mãos” (Sal. 19:1). “Porque os atributos invisíveis de Deus, assim o Seu eterno poder, como também a Sua própria divindade, claramente se reconhecem, desde o princípio do mundo, sendo percebidos por meio das coisas que foram criadas” (Rom. 1:20).

Outros percebem evidências de um Deus que zela por Seus filhos, através do feliz relacionamento e extraordinário amor manifestado entre amigos, membros da família, esposo e esposa, pais e filhos. “Como alguém a quem sua mãe consola, assim Eu vos consolarei” (Isa. 66:13). “Como um pai se compadece de seus filhos, assim o Senhor Se compadece dos que O temem” (Sal. 103:13).

Contudo, os mesmos raios de sol podem derramar-se sobre a Terra, convertendo-a em imensos desertos, a mesma chuva pode converter-se em torrentes que afogam famílias inteiras; as mesmas montanhas altaneiras podem fender-se, tremer e desmoronar. As relações humanas acham-se muitas vezes impregnadas de inveja, ciúme, ira, ódio e manifestações assassinas.

O mundo que nos cerca provê sinais confusos, apresentando ao mesmo tempo, perguntas e respostas. Ele manifesta o conflito entre o bem e o mal, mas não explica de que modo o conflito começou, quem se encontra envolvido na luta, por que, e quem finalmente vencerá a batalha.

Revelação Especial

O pecado limita a auto-revelação de Deus manifestada através da criação, pelo fato de obscurecer a habilidade humana em interpretar o testemunho de Deus. Portanto, tendo em vista auxiliar os indivíduos na compreensão das coisas divinas, Deus apresentou uma “revelação especial” de Si próprio. Ele decidiu apresentar-Se diante da humanidade por um meio específico, o qual não deixaria margem a questões no tocante a Seu caráter ou Seu amor pela humanidade – e Deus o fez através das Escrituras do Antigo e do Novo Testamentos. No princípio a Sua revelação veio através dos profetas; depois ela foi transmitida por intermédio de Sua revelação última, a pessoa de Jesus Cristo (Heb. 1:1 e 2).

Na Bíblia, Deus Se revela a Si próprio em pessoa, bem como por meio de proposições que declaram a verdade a Seu respeito. Ambos os tipos de revelação se fazem necessários por que as pessoas necessitam conhecer Deus através de Jesus (João 17:3), bem como a verdade “segundo é... em Jesus” (Efés. 4:21). Essas revelações permitem que Deus quebre as limitações mentais, morais e espirituais dos seres humanos e comunique Seu desejo de salvá-los.

O Ponto Focal das Escrituras

A Bíblia expõe a humanidade e revela a Deus. Expõe a condição humana e revela a solução divina. Os seres humanos são mostrados como perdidos, separados de Deus, enquanto Jesus é apresentado como Aquele que localiza o perdido e o traz de volta.

Jesus Cristo é o ponto focal das Escrituras. No Antigo Testamento Ele é o Messias, o Redentor do mundo; no Novo Testamento Ele é revelado como Jesus Cristo, o Salvador. Cada página – quer através de símbolos, quer em realidades concretas – revela algum aspecto de Jesus Cristo, alguma fase de Sua obra ou traço de Seu caráter. Na cruz do Calvário, a principal revelação dessa obra e o caráter de Deus são dramaticamente demonstrados através da morte de Jesus.

A cruz representa o mais central de todos os pontos focalizados pela Bíblia, pois ela faz convergir para o mesmo local a inominável maldade humana e a incomparável bondade do amor de Deus. Poderia haver vislumbre mais profundo da falibilidade humana? O que melhor poderia revelar o pecado? Poderia existir maior sacrifício? Ou mais abrangente demonstração de amor?

Efetivamente, o foco central da Bíblia é a pessoa de Jesus Cristo. Ele ocupa a posição central de todo o drama cósmico. Em breve, quando o conflito entre luz e trevas chegar ao fim, o triunfo de Cristo no Calvário irá culminar com a erradicação do mal. Seres humanos e Deus terão outra vez restaurado a unidade entre si.

O tema do amor de Deus, particularmente conforme visto na morte sacrifical de Cristo no Calvário – e esta é a maior verdade do Universo – representa o ponto focal da Bíblia. Todas as grandes verdades bíblicas, portanto, deveriam ser estudadas a partir dessa perspectiva.

A Autoria das Escrituras

A autoridade da Bíblia como regra de fé e prática decorre de sua origem. Os escritores bíblicos viam as Escrituras como situando-se numa categoria única, distinta e separada de toda a literatura restante. Eles se referiram à Bíblia como as “Sagradas Escrituras” (Rom. 1:2), “sagradas letras” (II Tim. 3:15) e os “oráculos de Deus” (Rom. 3:2; Heb. 5:12).

A singularidade das Escrituras baseia-se em sua origem e fonte. Os autores bíblicos destacaram freqüentemente o fato de que não eram os originadores de suas mensagens. Eles as recebiam das fontes divinas. Através da revelação divina, eles haviam sido habilitados a “ver” estas verdades (Isa. 1:1; Amós 1:1; Miq. 1:1; Hab. 1:1; Jer. 38:21).

Os escritores bíblicos indicaram o Espírito Santo como sendo a fonte de suas revelações. Ele Se comunicava com o povo através dos profetas (Nee. 9:30; cf. Zac. 7:12). Davi declarou: “O Espírito do Senhor fala por meu intermédio, e a Sua palavra está na minha língua” (II Sam. 23:2). Ezequiel escreveu: “Então, entrou em mim o Espírito”, “caiu, pois, sobre mim o Espírito do Senhor”, “depois, o Espírito de Deus me levantou” (Ezeq. 2:2; 11:5 e 24). E Miquéias testificou: “Eu, porém, estou cheio do poder do Espírito do Senhor” (Miq. 3:8).

O Novo Testamento reconhece o papel desempenhado pelo Espírito Santo na produção do Antigo Testamento. Jesus disse que Davi fora inspirado pelo Santo Espírito (Mar. 12:36). Semelhantemente, Paulo percebeu que o Espírito Santo falara “através de Isaías” (Atos 28:25). Pedro salientou o fato de que o Espírito Santo não operara por intermédio de uns poucos homens selecionados, e sim através de todos os profetas (I Ped. 1:10 e 11; II Ped. 1:21). Por vezes a figura do autor humano desaparece completamente, e apenas o verdadeiro autor – o Santo Espírito – passa a falar: “Assim, pois, como diz o Espírito Santo”; “querendo com isto dar a entender o Espírito Santo...” (Heb. 3:7; 9:8).

Os autores do Novo Testamento reconheceram o Espírito Santo como o autor de suas mensagens. Paulo se refere a Ele como a fonte da revelação que recebeu, dizendo: “Ora, o Espírito afirma expressamente que, nos últimos tempos, alguns apostatarão da fé” (I Tim. 4:1). João inicia o relato de sua visão dizendo: “Achei-me em Espírito, no dia do Senhor”(Apoc. 1:10). E a comissão de Jesus a Seus apóstolos, veio-lhes através do agenciamento do Espírito Santo (Atos 1:2; Efés. 3:3-5).

O abundante testemunho bíblico afirma que Deus, na pessoa do Espírito Santo, revelou-Se a Si mesmo ao longo das Sagradas Escrituras. Ele as escreveu, não com Sua própria mão, mas com o auxílio das mãos de outros – cerca de quarenta pares – ao longo de um período de mais de 1.500 anos. E, no sentido de que Ele inspirou os escritores, Deus é o Autor da Bíblia.

A Inspiração das Escrituras

Diz Paulo que “toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino” (II Tim. 3:16). A palavra grega theopneustos, aqui traduzida como “inspirada”, significa literalmente “proveniente do fôlego de Deus”. Deus “inspirou” a verdade nas mentes dos homens, os quais expressaram estas mesmas verdades em suas próprias palavras, que foram consolidadas nas Escrituras. Portanto, inspiração é o processo através do qual Deus comunica Sua verdade eterna.

O Processo de Inspiração

A revelação divina foi concedida através da inspiração de Deus, ou – conforme Pedro menciona, tendo em mente a revelação profética – “homens santos falaram da parte de Deus, movidos pelo Espírito Santo” (II Ped. 1:21). Eles traduziram estas revelações em linguagem humana com todas as limitações e imperfeições de que esta se acha revestida, mas ainda assim aquele era o testemunho de Deus. Os homens – não as palavras – foram inspirados.

Porventura era o profeta alguém meramente passivo e despido de vontade própria, à semelhança de um fantoche, tendo de repetir exatamente aquilo que vira ou ouvira? Em algumas vezes os profetas receberam ordens no sentido de relatar exatamente aquilo que Deus ordenara, mas em outras oportunidades eles foram instruídos a descrever aquilo que haviam ouvido e visto. Parece-nos mais que natural, portanto, que nesse último caso o profeta dispunha da faculdade de utilizar seu próprio estilo e palavras para dizer as coisas.

Paulo observou que “os espíritos dos profetas estão sujeitos aos próprios profetas” (I Cor. 14:32). Genuína inspiração não parece obliterar a individualidade humana, ou a humana razão, ou a integridade personalística do profeta.

O relacionamento entre Moisés e Arão talvez possa ilustrar em certo grau o relacionamento existente entre o Espírito Santo e o autor. Deus disse a Moisés: “Eis que te tenho posto por Deus sobre Faraó; e Arão, teu irmão, será o teu profeta” (Êxo. 7:1; cf. 4:15 e 16). Moisés deveria informar Arão acerca das ordenanças divinas, e Arão deveria utilizar seu próprio vocabulário e estilo ao apresentar as mensagens de Deus perante Faraó. A mensagem seria de Moisés, mas o envoltório ou “embalagem” caberia a Arão através da linguagem deste. Essa experiência representa um paralelo daquela vivida pelos profetas bíblicos. Eles podiam expressar os mandamentos, pensamentos, idéias e interesses de Deus em sua própria linguagem e estilo. Torna-se evidente tal fato quando observamos a variedade de estilos e termos que aparecem nos vários livros da Bíblia – trata-se, na verdade, de um reflexo da educação e cultura dos vários autores.

Isso significa que a Bíblia “não é a maneira de pensar e exprimir- se de Deus.... Os homens dirão muitas vezes que tal expressão não é própria de Deus. Ele, porém, não Se pôs à prova na Bíblia em palavras, em lógica, em retórica. Os escritores da Bíblia foram os instrumentos de Deus, não Sua pena”.[1]

“A inspiração não atua nas palavras do homem ou em suas expressões, mas no próprio homem que, sob a influência do Espírito Santo, é possuído de pensamentos. As palavras, porém, recebem o cunho da mente individual. A mente divina é difusa. A mente divina, bem como Sua vontade, é combinada com a mente e a vontade humanas; assim as declarações do homem são a Palavra de Deus.”[2] Existe uma exceção: os Dez Mandamentos. Estes são de composição divina, não humana. Foram pronunciados pelo próprio Deus e escritos por Sua própria mão (Êxo. 20:1-17; 31:18; Deut. 10:4 e 5). Mesmo assim, foram expressos tendo em vista as limitações da linguagem humana.

A Bíblia é, pois, a verdade divina expressa em linguagem humana. Imagine o que seria a tentativa de ensinar física quântica a um bebê. Esse é o tipo de problema que Deus enfrenta em Seu esforço de comunicar verdades divinas à humanidade limitada e pecadora. É a nossa limitação que restringe aquilo que Ele consegue comunicar-nos. Existe um paralelismo entre Jesus feito carne e a Bíblia:

Jesus combinou em Si Deus e o homem; o divino e o humano tornaram-se Um. De modo similar, a Bíblia também reúne o divino e o humano em um só. O mesmo que foi dito de Cristo, pode ser afirmado da Bíblia: “o Verbo Se fez carne e habitou entre nós” (João 1:14). Essa combinação divino-humana faz com que a Bíblia assuma um lugar absolutamente singular na literatura.

Os Autores das Escrituras

O Espírito Santo preparou certas pessoas para que recebessem a comunicação das verdades divinas. A Bíblia não explica em detalhes de que forma o indivíduo recebia a qualificação, mas através do Espírito Santo estabeleceu-se uma união entre os agentes divino e humano.

De que modo qualificava-se alguém para ser um escritor bíblico? A qualificação não dependia de talentos naturais. A revelação divina recebida não convertia a pessoa ou lhe assegurava a vida eterna. Balaão proclamou uma revelação divina, recebida sob inspiração, mas agiu de forma contrária aos conselhos de Deus (Núm. 22-24). Davi, que foi amplamente usado pelo Espírito Santo, cometeu grandes crimes em sua vida (o que pode ser verificado em suas próprias palavras, no Sal. 51). Todos os autores bíblicos foram pessoas que possuíram natureza pecaminosa, necessitando diariamente da graça de Deus (de acordo com Rom. 3:12).

A inspiração dos autores bíblicos não deve ser vista simplesmente como iluminação ou orientação divina, pois estas são prometidas a todos os que buscam a verdade. De fato, a inspiração dos escritores bíblicos ocorreu mesmo em situações em que eles não compreenderam a divina mensagem (I Ped. 1:10-12).

A resposta do autor à mensagem recebida nem sempre era uniforme. Por vezes o profeta sentia-se grandemente perplexo (Dan. 8:27; Apoc. 5:4); outras vezes ele pesquisava o significado tanto das revelações recebidas por ele próprio quanto as recebidas por outras pessoas (I Ped. 1:10). Algumas vezes os profetas sentiam-se temerosos de proclamar a mensagem e até mesmo argumentavam com Deus a respeito dela (Hab. 1; Jon. 1:1-3; 4).

Método e Conteúdo da Inspiração.

Freqüentemente o Espírito Santo comunicou o conhecimento divino por intermédio de visões e sonhos (Núm. 12:6).

Outras vezes Ele falou audivelmente ou através de impressões íntimas. Samuel recebeu em seus ouvidos a informação divina (I Sam. 9:15; cf. I Sam. 16:7). Zacarias recebeu representações simbólicas, junto com as devidas explicações (Zac. 4). Paulo e João receberam visões celestiais acompanhadas de instruções orais (II Cor. 12:1-4; Apoc. 4 e 5). A Ezequiel foram mostrados eventos que efetivamente estavam ocorrendo em outro lugar (Ezeq. 8). Alguns até mesmo participaram de suas visões, desempenhando certas funções que constituíam uma parte da visão (Apoc. 10). Quanto ao conteúdo, a alguns o Espírito revelou eventos futuros (Dan. 2, 7, 8 e 12). Em outros momentos os escritores registraram eventos históricos, tanto com base em suas experiências pessoais quanto a partir de registros históricos já existentes (Juízes, I Samuel, II Crônicas, os Evangelhos, Atos dos Apóstolos).

Inspiração e História.

A afirmativa bíblica de que “toda a Escritura é inspirada por Deus” e é útil e plena em autoridade para servir de base à vida moral e espiritual (II Tim. 3:16), não levanta nenhuma questão no tocante à orientação divina para a seleção de todos os materiais que se acham registrados na Bíblia. Quer os dados tenham sido colhidos através de observação pessoal, informação oral, fontes escritas ou revelação direta, todas as informações chegaram ao escritor através da orientação do Espírito Santo. Portanto, a inspiração divina na seleção dos materiais garante a plena confiabilidade das Escrituras.

A Bíblia revela o plano de Deus em Sua dinâmica interação com a raça humana, não numa coleção de doutrinas abstratas.

Sua auto-revelação acha-se intimamente entretecida com eventos reais que ocorreram em momentos de tempo e localidades definidos. Isto quer dizer que a confiabilidade dos dados históricos é extremamente importante, já que eles formam a infra-estrutura de toda a compreensão humana do caráter de Deus e do destino que Ele reserva para a humanidade. Uma visão adequada e correta desses aspectos pode conduzir a pessoa à vida eterna, e por outro lado uma visão incorreta pode levar à confusão no que tange ao caminho da salvação.

Deus ordenou a certos homens que escrevessem a história de Seu relacionamento com a humanidade, ou mais especificamente com o povo de Israel. Essa prática continuou sendo observada na experiência subseqüente do referido povo. Na verdade, os relatos desse relacionamento constituem parcela importante da Bíblia. Núm. 33:1 e 2; Jos. 24:25 e 26; Ezeq. 24:2.

Essas narrativas provêem à humanidade uma história acurada e objetiva, baseada na perspectiva divina. O Espírito Santo concedeu aos autores compreensão especial para que pudessem registrar os eventos espiritualmente significativos, através dos quais ficasse demonstrado o caráter de Deus ao longo do conflito entre o bem e o mal, tendo em vista guiar o povo em busca da salvação.

Os incidentes históricos foram registrados para o nosso benefício. Eles constituem “tipos” e “exemplos”, e foram escritos “para advertência nossa, de nós outros sobre quem os fins dos séculos têm chegado” (I Cor. 10:11). Paulo diz: “Pois tudo quanto, outrora, foi escrito para o nosso ensino foi escrito, a fim de que, pela paciência, e pela consolação das Escrituras, tenhamos esperança” (Rom. 15:4). Portanto, a destruição de Sodoma e Gomorra deveria servir-nos “como exemplo” ou advertência (II Ped. 2:6; Jud. 7). A experiência de Abraão no tocante à justificação deve constituir um exemplo para todo verdadeiro crente (Rom. 4; Tia. 2:14-22). Mesmo as leis civis do Antigo Testamento encontram-se repletas de profundo significado espiritual e aplicam-se a condições existentes na igreja cristã (I Cor. 9:8 e 9).

Na introdução que preparou à sua história do evangelho, Lucas menciona que foi seu desejo oferecer um relato da vida de Jesus “para que tenhas plena certeza das verdades em que foste instruído” (Luc. 1:4). O critério adotado por João para a seleção de incidentes da vida de Cristo, foi “para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em Seu nome” (João 20:31). Vemos assim que a inspiração divina habilitou os autores bíblicos a apresentar a história de tal forma que ela oferecesse a perspectiva do destino último da humanidade.

As biografias das personalidades bíblicas constituem outra evidência de divina inspiração. Esses relatos delineiam cuidadosamente o verdadeiro caráter das pessoas, pois apresentam tanto as suas virtudes quanto suas fraquezas. Seus pecados são registrados com tanta fidelidade quanto seus sucessos.

Nenhum encobrimento é feito da falta de autocontrole de Noé ou dos enganos de Abraão. Os temperamentos de Moisés, Paulo, Tiago e João não são passados por alto. Os trágicos fracassos do mais sábio rei de Israel são expostos plenamente, bem como as fragilidades dos doze patriarcas ou dos doze apóstolos. Nenhuma escusa ou tentativa de minimização dos erros é oferecida. Todos são retratados do modo como realmente eram em seu íntimo, e aquilo que vieram a tornar-se – ou deixaram de tornar-se – pela graça de Deus. A partir de tais evidências somos forçados a concluir que sem a inspiração divina nenhum biógrafo teria sido capaz de prover tal análise.

Todas as narrativas históricas são vistas pelos autores bíblicos como eventos reais que efetivamente ocorreram, e não como símbolos ou mitos. Muitas pessoas demonstram-se hoje totalmente céticas no tocante ao relato de Adão e Eva, a experiência de Jonas, Noé, a arca e o dilúvio; Jesus, porém, aceitou esses registros como historicamente verdadeiros e considerou-os como tendo grande importância, plenos de lições espirituais para os que desejam viver triunfantemente na presença de um Deus santo. (Mat. 12:39-41; 19:4-6; 24:37-39).

A Bíblia não ensina que existe inspiração parcial ou graus de inspiração. Essas teorias, sem evidência bíblica, representam apenas especulações que tentam roubar às Escrituras a sua divina autoridade.

A Exatidão das Escrituras.

Assim como Jesus “Se fez carne e habitou entre nós” (João 1:14), foi a Bíblia oferecida em linguagem humana para que pudéssemos compreender suas verdades. A inspiração da Bíblia garante sua confiabilidade.

Até que ponto teria Deus protegido a transmissão do texto sem garantir que as mensagens continuavam sendo verdadeiras e válidas? Torna-se claro, a partir da condição dos originais antigos, que Deus não protegeu Suas mensagens de leituras diferentes ou variadas, desde que as idéias e verdades essenciais fossem preservadas.[3] Evidências reveladas pela arqueologia bíblica têm ajudado a demonstrar que muitos supostos erros representavam apenas uma compreensão equivocada dos eruditos. Por vezes os problemas foram causados porque a leitura dos antigos costumes bíblicos foi efetuada à luz dos costumes atuais do Ocidente. Importante é reconhecer, pois, que os seres humanos podem compreender apenas parcialmente, e que sua visão das operações divinas é necessariamente limitada.

Devemos ser muito cuidadosos em não permitir que supostas discrepâncias minem nossa confiança nas Escrituras. Muitas vezes elas representam apenas nossa incapacidade de ver o quadro total diante de nossos olhos. Porventura coloca-Se Deus em julgamento através de uma sentença que não pode ser plenamente compreendida? Os seres humanos jamais serão capazes de explanar todos os textos escriturísticos, e na verdade não necessitarão fazê-lo. Evidências suficientemente amplas, sobretudo no cumprimento de profecias, asseguram-nos a veracidade da Escritura e a veracidade de seus conceitos e verdades.

A Bíblia tem sido preservada com estupenda e miraculosa precisão, a despeito de todas as tentativas de destruí-la. A comparação dos manuscritos do Mar Morto com manuscritos de elaboração posterior, tem contribuído para comprovar que a Bíblia que hoje estamos lendo é a mesma que as pessoas liam há milhares de anos.[4] Isso confirma a fidedignidade e confiabilidade das Escrituras como sendo a infalível revelação da vontade de Deus.

A Autoridade das Escrituras

As Escrituras possuem autoridade divina porque nelas Deus fala através do Espírito Santo, fazendo com que a Bíblia seja a Palavra escrita de Deus. Onde podemos encontrar as evidências de tal pretensão? Quais são as implicações dessa pretensão em nossa vida e na busca do conhecimento que efetuamos?

As Reivindicações das Escrituras.

Os autores bíblicos testificam que o seu testemunho não se origina com eles próprios, mas que suas mensagens provêm diretamente de Deus. Foi a “palavra do Senhor” que veio a Jeremias, Ezequiel, Oséias e outros (Jer. 1:1 e 2; Ezeq. 1:3; Osé. 1:1; Joel 1:1; Jon. 1:1). Eles foram mensageiros do Senhor (Ageu 1:13; II Crôn. 36:16). Foi-lhes ordenado que falassem em nome do Senhor dizendo: “Assim diz o Senhor Deus” (Ezeq. 2:4; Isa. 7:7). Essas são as credenciais divinas de sua autoridade.

Por vezes o ser humano que está sendo utilizado por Deus, passa a ocupar apenas o plano oculto. Citando Isaías 7:14, Mateus alude à autoridade que está por detrás da citação, dizendo: “Tudo isto aconteceu para que se cumprisse o que fora dito pelo Senhor por intermédio do profeta” (Mat. 1:22). O Senhor é visto como o Agente direto – Ele é a autoridade; o profeta representa o agente indireto.

Pedro classifica os escritos de Paulo como sendo Escritura (II Ped. 3:15 e 16). O próprio Paulo reivindica a revelação para o evangelho que proclama, dizendo: “Porque eu não o recebi [o Evangelho], nem o aprendi de homem algum, mas mediante revelação de Jesus Cristo” (Gál. 1:12). As palavras de Cristo são mencionadas como Escritura e colocadas no mesmo plano que os escritos do Antigo Testamento (I Tim. 5:18; Luc. 10:7).

Jesus e a Autoridade das Escrituras.

Ao longo de todo o Seu ministério, Jesus salientou a autoridade das Escrituras. Quer estivesse sendo tentado por Satanás, quer estivesse debatendo-Se com os oponentes, a Escritura sempre era utilizada por Cristo como autoridade final. “Está escrito”, foi uma expressão que Ele utilizou tanto com propósitos defensivos quanto de ataque (Mat. 4:4, 7, 10;Luc. 20:17). “Não só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus” (Mat. 4:4). Quando Lhe foi perguntado como poderia alguém entrar na vida eterna, Ele respondeu: “Que está escrito na lei? Como interpretas?” (Luc. 10:26).

Jesus situou a Bíblia acima das tradições e opiniões humanas. Reprovou constantemente os líderes judeus pelo fato de eles se desviarem da autoridade das Escrituras (Mar. 7:7-9). Apelou muitas vezes a Seus oponentes para que estudassem mais cuidadosamente as Escrituras, dizendo: “Nunca lestes nas Escrituras?” (Mat. 21:42; cf. Mar. 12:10 e 26).

Ele cria firmemente na autoridade da palavra profética e revelou que esta apontava para Ele próprio. As Escrituras, disse Ele, “testificam de Mim”. “Porque, se, de fato, crêsseis em Moisés, também creríeis em Mim; porquanto ele escreveu a Meu respeito” (João 5:39 e 46). As mais vigorosas reivindicações de Jesus no tocante a Sua missão divina como Salvador, basearam-se no cumprimento das profecias do Antigo Testamento (Luc. 24:25-27).

Assim, Cristo aceitou sem qualquer reserva as Escrituras Sagradas como sendo a revelação autorizada da vontade de Deus em relação à raça humana. Ele a compreendia como um conjunto de verdades, uma revelação objetiva, concedida para guiar a humanidade para fora das trevas geradas por tradições e mitos falhos, conduzindo-a à verdadeira luz de um conhecimento redentor.

O Espírito Santo e a Autoridade das Escrituras.

Durante Sua vida terrestre, a verdadeira identidade de Jesus não foi discernida pelos líderes religiosos ou pela multidão descuidada. Alguns criam que Ele era um profeta, à semelhança de João Batista, Elias ou Jeremias – ou seja, apenas um homem. Quando Pedro confessou: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”, o Mestre deixou claro que aquela confissão resultava de uma revelação divina (Mat. 16:16). Paulo diz que tão somente por meio de iluminação divina pode alguém obter uma perspectiva correta de Jesus Cristo: “Ninguém pode dizer: Senhor Jesus!, senão pelo Espírito Santo” (I Cor. 12:3).

O mesmo ocorre com a Palavra de Deus escrita. Sem a iluminação da mente humana pelo Santo Espírito, a Bíblia jamais poderá ser corretamente entendida ou reconhecida como a expressão autorizada da vontade de Deus.[5] Uma vez que “as coisas de Deus, ninguém as conhece, senão o Espírito de Deus” (I Cor. 2:11), conclui-se que “o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, porque lhe são loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente” (I Cor. 2:14). Conseqüentemente, “a palavra da cruz é loucura para os que se.perdem” (I Cor. 1:18).

Tão-somente com o auxílio do Espírito Santo, que pesquisa “até mesmo as profundezas de Deus” (I Cor. 2:10) pode alguém chegar a convencer-se da autoridade da Bíblia como revelação de Deus e de Sua vontade. É dessa forma que a cruz se torna o “poder de Deus” (I Cor. 1:18) e a pessoa pode unir-se a Paulo no testemunho de que “não temos recebido o espírito do mundo, e sim o Espírito que vem de Deus, para que conheçamos o que por Deus nos foi dado gratuitamente” (I Cor. 2:12).

As Sagradas Escrituras e o Santo Espírito jamais poderão ser separados. Deus, através do Espírito Santo, é tanto o autor quanto o revelador da Bíblia.

A autoridade das Escrituras sobre a vida de alguém aumenta ou diminui, em decorrência do conceito de inspiração que esta pessoa possui. Se a Bíblia for percebida apenas como uma coleção de testemunhos humanos, ou se a sua autoridade depende, de alguma forma, do modo como a pessoa se sente ou das emoções que manifesta, então a autoridade da Palavra é grandemente enfraquecida, senão completamente destruída. Mas quando ela é vista como a voz divina falando através dos autores, segundo eles mesmos declaram, então as Escrituras se tornam a autoridade absoluta em matéria de doutrina, reprovação, correção e instrução em justiça. (II Tim. 3:16).

O Escopo da Autoridade Escriturística.

Contradições entre as Escrituras e a ciência são freqüentemente o resultado de especulação. A incapacidade de harmonizar a ciência com as Escrituras advém de “uma compreensão imperfeita, tanto da ciência quanto da revelação; corretamente entendidas, elas se encontram em perfeita harmonia”.[6]

Toda a sabedoria humana está sob a autoridade da Escritura. As verdades bíblicas são a norma pela qual todas as demais idéias devem ser provadas. Através dos séculos as men tes finitas têm tentado julgar a Palavra de Deus de acordo com os seus padrões humanos, o que se assemelha a uma fita métrica que pretende medir as estrelas. A Bíblia não se encontra sujeita aos padrões humanos. Ela é superior a toda a sabedoria e literatura humana. Em vez de julgar a Bíblia, todas as pessoas serão por ela julgadas, uma vez que ela é o padrão de caráter e teste de toda a experiência e pensamento do homem.

Finalmente, as Sagradas Escrituras possuem autoridade sobre todos os dons espirituais que procedem do Espírito Santo, inclusive a orientação que nos vem através do dom de profecia (I Cor. 12; 14:1; Efés. 4:7-16). O Espírito Santo não foi prometido com o objetivo de sobrepor-se à Bíblia; na verdade, todos os dons do Espírito devem ser testados pela Bíblia; se não estiverem de acordo com ela, devem ser descartados. “À lei e ao testemunho! Se eles não falarem desta maneira, jamais verão a alva” (Isa. 8:20).

A Unidade das Escrituras

A leitura superficial das Escrituras conduzirá a uma compreensão superficial. Lida apenas descuidadamente, a Bíblia parecerá uma mixórdia de histórias ecléticas, sermões e história. Entretanto, aqueles que se encontram abertos à iluminação do Espírito de Deus, aqueles que se dispõem a cavar em busca das verdades escondidas através de paciente pesquisa e muita oração, descobrirão que a Bíblia apresenta uma estupenda harmonia. Existe unidade nos princípios da verdade salvadora, mesmo diante do fato de que a Bíblia foi escrita por várias dezenas de pessoas, ao longo de um período de mais de 1.500 anos. A Bíblia não apresenta uniformidade monótona, antes uma rica e colorida diversidade de testemunhos harmoniosos, todos eles revelando rara e distinta beleza. E em virtude dessa variedade de perspectivas, a Palavra de Deus é capaz de melhor satisfazer as necessidades humanas, confirmando sua relevância universal através de todos os tempos.

Deus não Se revelou à humanidade através de uma cadeia contínua de testemunhos ininterruptos, mas gradativamente, ao longo de sucessivas gerações. Quer tenha sido escrita por Moisés nos campos de Midiã, ou por Paulo numa prisão romana, a Bíblia foi escrita por homens que receberam inspiração do mesmo Espírito Santo. A compreensão desta “revelação progressiva” contribui para a compreensão da Bíblia e de sua unidade.

Um exemplo claro de revelação progressiva é demonstrado através da harmonia existente entre o Antigo e o Novo Testamentos – a Palavra de Deus escrita. Embora tenham sido escritos no intervalo de várias gerações, eles são inseparáveis e não apresentam qualquer contradição nas verdades que revelam. Eles são um só, já que Deus é o mesmo. O Antigo Testamento, através de profecias e símbolos, revela o evangelho de um Salvador vindouro; o Novo Testamento, através da vida de Jesus, revela o Salvador que viera – ou seja, o evangelho tornado realidade. Ambos revelam o mesmo Deus. O Antigo Testamento é o alicerce do Novo. É a chave que abre o Novo. Por outro lado, o Novo Testamento explica os mistérios do Antigo.

Cristo nos oferece um gracioso convite para pesquisarmos as Escrituras e nos tornarmos familiarizados com Ele. Podemos obter a preciosíssima bênção de termos assegurada a nossa salvação e de descobrirmos por nós mesmos que a Escritura é “útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça”. Através dela podemos ser perfeitos e perfeitamente habilitados “para toda boa obra” (II Tim. 3:16 e 17).


Referências:
[1]. Mensagens Escolhidas, vol. 1, pág. 21.
[2]. Ibidem.
[3]. Para descobrir por que existem formas variáveis de leitura, veja Primeiros Escritos, págs. 220 e 221.
[4]. Veja Siegfried H. Horn, The Spade Confirms the Book, Review and Herald, 1980.
[5]. Para a compreensão da Igreja Adventista do Sétimo Dia, no tocante à interpretação bíblica, veja A Symposium on Biblical Hermeneutics, edição de G. M. Hyde (Washington, D.C.: Review and Herald, 1974); Gerhard F. Hasel, Understanding the Living Word of God (Mountain View, Califórnia; Pacific Press, 1980); Associação Geral dos Adventistas do Sétimo Dia, “Methods of Bible Study Report”, 1986.
[6]. Patriarcas e Profetas, pág. 114.