Maria mãe de Jesus
                                Esperança desafiada


A honra de ser a mãe do Messias não a preparou para a dor de perdê-Lo

Ela era apenas mais uma jovem — ninguém importante de algum lugar interessante. A Escritura apresenta Maria sem ostentação, mencionando apenas seu iminente casamento com José, o carpinteiro. Evidentemente, ela tinha poucas razões ou chances para esperar muito mais do que isso. A constante luta para sobreviver nas escarpadas montanhas ao redor de Nazaré a mantinha sempre ocupada carregando água, cuidando da colheita, preparando comida, fiando e tecendo.

Contudo, ao se assentar na sinagoga a cada sábado, Maria ouvia palavras que a acompanhavam durante toda a semana. As leituras da Lei relembravam a redenção do povo de Deus, enquanto as leituras dos profetas a comoviam com a promessa de redenção e julgamento futuros. Alguns até mesmo argumentavam que essa redenção logo viria com a chegada do Messias (O Ungido), enviado por Deus. "Será que eu verei esse dia chegar?"; Maria deve ter pensado.

Proclamação e chegada da esperança

Nada poderia ter preparado Maria para a aparição inesperada de um anjo, portando uma mensagem inimaginável de Deus. Sua primeira reação foi ficar completamente perplexa enquanto, solenemente, o anjo lhe assegurava o favor divino. Suas palavras ditas em seguida não fizeram sentido de forma alguma para uma virgem solteira. Ele prometeu: “Você ficará grávida e dará à luz um filho” E continuou proferindo palavras que fizeram sua cabeça “girar” “Ele será grande e será chamado Filho do Altíssimo. O Senhor Deus Lhe dará o trono de seu pai Davi, e Ele reinará para sempre sobre o povo de Jacó; Seu reino jamais terá fim” (Lucas 1:30-33).

Um turbilhão de emoções deve ter invadido a mente de Maria: espanto, medo, alegria e uma radiante esperança de um futuro repentinamente alcançável, com o qual mal ousara sonhar. “Como acontecerá isso, se sou virgem?” ela prosseguiu (verso 34). Mas o anjo confirmou que realmente aconteceria assim. Os instantes de Maria com o anjo são únicos entre os pontos altos da história humana. Porém, a maioria de nós também conserva lembranças de momentos em que o amoroso plano de Deus se tornou inegavelmente pessoal em meio à rotina de nossa própria vida. Momentos em que Deus afastou a névoa das preocupações diárias para irromper em nossa vida com chamados inconfundíveis, que não ousamos negar; irradiando promessas de Sua presença, que teríamos sido tolos se houvéssemos resistido. E, assim como Maria, respondemos agradecidos, temerosos, confiantes: “Sim” — muitas vezes sem ter a mínima idéia de onde nos estávamos colocando.

Conforme seu corpo se modificava, Maria foi gradualmente se acostumando à inexplicável experiência pela qual passava. Numa visita à sua também abençoada prima Isabel, maravilhou-se com o surpreendente carinho de Deus por ela e pelos outros oprimidos entre Seu povo. Exultou em louvor ao pensar que Ele estava para vir em auxílio ao Seu povo, exatamente como havia prometido. Através dos agonizantes dias de dúvida de José, ela sobreviveu pela esperança, agarrando-se firmemente à vívida lembrança do anjo e de suas impactantes palavras.

O nascimento do Prometido, seu próprio filhinho Jesus, conduziu-a triunfantemente através da dor e da vergonha de dar à luz em um estábulo. A experiência de segurar Jesus nos braços e admirar Seu perfeito rostinho fez parecer insignificante até mesmo o esplendor das histórias contadas pelos pastores, magos e justos com os quais Deus escolheu para celebrar Seu nascimento. Muitas vezes, Maria teve que parar e esquadrinhar seus pensamentos e experiências, buscando assimilar a doce infantilidade de Jesus e a realidade de Seu papel como Filho de Deus e Rei eterno (ver Lucas 2:19).

Outros pensamentos desconfortáveis também devem ter penetrado em suas reflexões. Onde estavam as boas-vindas que o Rei e Salvador divino merecia? Por que Deus trouxera pastores e pessoas insignificantes em vez dos líderes de Seu povo? Essas perguntas não se dissiparam enquanto Jesus crescia. Embora Sua crescente sabedoria e Seu jeito cativante lhe trouxessem alegria, Maria lutou com a amarga experiência de assistir Jesus deixando de Se submeter primeiramente a ela e a José para Se sujeitar a Seu Pai celestial (Lucas 2:46-50). Ela se fortaleceu para o inevitável, quando Ele deixasse o lar para cumprir a obra que Deus Lhe havia dado.

Embora Ele tenha permanecido com ela 30 maravilhosos anos, não foi fácil quando seu amado Filho disse adeus e foi embora do vilarejo. Ela O via ocasionalmente, é claro, pois o lar que Lhe servia de base era próximo ao lago de Cafarnaum. O coração de Maria, muitas vezes, enchia- se de orgulho quando viajantes lhe contavam de Seus impressionantes milagres e excelentes ensinos.

Maria regozijava-se com o trabalho que Jesus estava fazendo. Porém, embora Ele fosse constantemente amável quando a via, ela precisava esquecer os velhos tempos que haviam passado juntos. Na verdade, Maria jamais sonhou com os caminhos que seria chamada a abandonar. Os chamados e promessas de Deus, como ela estava descobrindo, nem sempre garantem uma senda livre de dor, construída de acordo com os desejos e expectativas de alguém. Ainda assim, quando a esperança da salvação prometida de Jesus parecia impossível ou distante, Maria se apegou à promessa do anjo e à fidelidade de Deus, que O havia enviado.

Esperança crucificada

Notícias de declarações cada vez mais perturbadoras feitas por Jesus chegavam aos ouvidos de Maria, juntamente com as notícias de crescentes conflitos com os líderes religiosos. A visita de Jesus a Nazaré foi um desastre. O povo — alguns entre os próprios amigos e parentes de Maria — quase chegou a lançá-Lo de um penhasco. Como Ele poderia cumprir Sua missão quando corriam boatos de que algumas pessoas procuravam matá-Lo? Maria lutou para controlar o pânico quando ficou sabendo que Jesus estava percorrendo Seu caminho rumo a Jerusalém.

Maria estava em Jerusalém para a Páscoa quando chegou a notícia de que Jesus fora preso. Como uma impotente mulher, a única coisa que ela podia fazer era orar e correr para ficar ao Seu lado. Ainda a uma certa distância, porém, ela percebeu que suas orações não mais adiantariam. Voltadas para o céu, na parte de fora de Jerusalém, estavam três cruzes assustadoras. Na cruz do centro, reconheceu a preciosa imagem de seu Amado, seu pequenino Filho. Torrentes de escuridão sobrevieram-lhe ao se curvar junto aos pés dilacerados e ensangüentados de Jesus. Por um momento, o horror se apartou dela quando, volvendo Seu amável olhar para ela, Ele a chamou e disse: “Aí está o seu filho’ E, depois, para uma figura familiar que estava por perto: ‘Aí está a sua mãe” (João 19:26 e 27). Esse último ato de bondade inundou-lhe de gratidão, mas novamente o sufocante peso do horror a envolveu quando Ele falou Suas últimas palavras, inclinou a cabeça e morreu.

De alguma forma, Maria deixou- se levar da cruz através das ruas de Jerusalém para uma humilde residência, onde algumas pessoas amáveis fizeram tudo que podiam para confortá-la. Mas não havia conforto; seu Filho Se fora. Nesses momentos, quando a realidade era difícil, a dor em seu coração ameaçou traga -la Toda uma vida de amor, sonhos e esperanças havia sido destruída. E quanto ao trono perpétuo de Davi? E a salvação que Deus prometera? Teria ela falhado? Falhara Deus? O fato de seguir o caminho de Deus aparentemente trouxera à Maria, como num pesadelo, o fim de todos os seus sonhos. Na cruz, assim como muitos outros ao longo dos séculos, Maria foi chamada a desistir totalmente de sua última expectativa de que Deus atuasse em sua vida e a esperar em desolação perante Ele.

Esperança viva

Imagine a tremenda alegria, a expressão de espanto de Maria quando teve certeza de que Jesus realmente estava vivo de novo! O fim de seus sonhos não foram o fim da promessa de Deus. Com os olhos da imaginação, podemos vê-la pulando e dançando como uma garotinha. Todas as perguntas e recriminações de seu coração se esvaíram. Em vez disso, sentiu uma profunda paz, mais profunda e tranqüila que qualquer outra que ela conhecia.

Encontrando-se regularmente com os apóstolos e outros crentes, Maria ouviu suas histórias, examinou as Escrituras, para as quais Jesus havia apontado, e orou pedindo Sua sabedoria e orientação. Começou a perceber que a morte de seu Filho, longe de indicar o fracasso das promessas de Deus, havia, na verdade, consumado a vitória absoluta, a salvação da própria morte. Essa constatação inundou seu coração. Mesmo a notícia de Seu desaparecimento nas nuvens do céu não a desanimou. Regozijou-se de que Jesus pudesse assumir Seu lugar ao lado de Seu verdadeiro Pai, disponibilizando a vida eterna a todos os que viessem até Ele pela fé. Maria não sabia o que o futuro lhes reservava, mas Jesus havia prometido estar sempre com eles. O triunfo de Sua morte e a esperança de Seu Espírito os deixaram confiantes de que Ele prevaleceria. Ele havia prometido.

A luta que Maria atravessou naqueles dias tenebrosos, quando sua esperança pareceu desafiada pela primeira vez e, depois, totalmente despedaçada, é a luta que todo crente deve atravessar, quer seja grande ou pequena. Assim como Deus falou através do anjo a Maria, Ele declara a nós também que nos sustém em Sua providência. Assim como fez com Maria, Ele nos chama para um lugar especial em Seu serviço. Assim como aconteceu com Maria, haverá momentos em nossa vida em que os caminhos de Deus definitivamente não farão sentido algum.

Nesses momentos, não temos outra solução senão render nossas vãs tentativas de dirigir nossa vida e abandonar toda possessão terrena que nos sentimos no direito de reivindicar. Somente nos esvaziando e nos sujeitando ao nosso Senhor, que morreu e ressuscitou, podemos encontrar verdadeira paz e liberdade. Somente nEle podemos encontrar o total perdão e insondável amor pelo qual anseia nosso coração.

Assim como Maria, podemos sentir que “vivemos por viver” sem ter sentido, sem saber para onde ir e muito menos qual caminho seguir. As boas- novas são que Jesus veio buscar os perdidos e quer transformá-los.

Já reparou que dificilmente uma pessoa que tem um “passado escuro” repleto de erros e pecados, recebe cargos de confiança? Isso ocorre porque rotulamos as pessoas. É bem provável que você já tenha escutado esse tipo de comentário:”Ali está a menina que usava drogas” - O Sr. Francisco é aquele que roubava” Ou: “como é mesmo o nome daquela prostituta que comprou um perfume caro e derramou nos pés de Jesus?” Algum desses rótulos, ou mesmo outro, pode estar associado a você. No entanto, Jesus prega que não importa como você viveu, Ele acredita em você, vê seu coração.

Apeguemo-nos à esperança da presença vivificante de Cristo quando parecer que nosso compromisso com Ele nos traz apenas pobreza e dor. Apeguemo-nos à esperança de Sua presença quando o serviço que começamos para Ele estiver mergulhado em fracasso e desespero. Seu amor nos envolve; Seus braços nos fortalecem. E de manhã, quando O virmos face a face, nosso esforço terá valido a pena.



(Teresa Reeve)