Eva
              A chama da esperanca acesa


Somente Deus nos da esperança para a jornada

De vez em quando, penso em como teria sido a vida no Jardim do Eden antes da presença danosa do pecado em nosso mundo. A narrativa bíblica é breve, mas muito rica, e pressupõe harmonia perfeita, integridade e alegria em toda a criação, e claramente sugere que Adão e Eva eram pessoas curiosas.

Essa curiosidade deve tê-los motivado a andar pelo jardim de modo a explorar as maravilhas da criação. O ambiente era ideal para desenvolver o potencial com que Deus os dotara. Sua caminhada diária lhes providenciava constante crescimento em união com Deus e com eles próprios. Além disso, lhes abria a percepção para novas possibilidades e a descoberta de novos aspectos de sua personalidade.

Na narrativa, Eva parece ser uma personagem extremamente curiosa. Adão é retratado como uma pessoa quieta. Sua voz foi ouvida pela primeira vez ao ele conhecer Eva (Gên. 2:23). Em sua caminhada eles se conheceram na companhia do Senhor. Após esse encontro, são as ações e a voz de Eva que se destacaram.

Carente de esperança salvadora

A história indica que Eva saiu a caminhar sozinha (Gên. 3:1), dando a entender que a força está na união. Ela saiu a caminhar em busca do conhecimento, procurando satisfazer uma curiosidade dada por Deus. Ao envolver-se em diálogo com a serpente, chegou a uma encruzilhada. Todos nos deparamos com tais encruzilhadas em nossas jornadas diárias. São momentos de profundo significado que terão grande impacto na qualidade e no futuro de nossa vida.

A serpente insinuou que, sob aquelas atuais circunstâncias, ela não teria um futuro que lhe permitiria desenvolver seu pleno potencial. Mostrou que ela andaria em círculos, sem ir a lugar algum. Afirmou que sua caminhada por este planeta a levaria, segundo o plano divino, a uma vida tediosa e sem sentido, porque Deus lhe estaria restringindo o desenvolvimento de seu potencial (versos 3-5). Aos olhos do inimigo, a jornada de Eva em busca do desenvolvimento, em união com Deus, seria uma fantasia.

Eva defendeu inteligentemente a integridade de Deus e as atribuições que Ele dera a ela e a seu marido (versos 2 e 3). Estava satisfeita com a natureza e o objetivo de sua caminhada. Mas também se perguntou sobre a natureza da nova caminhada que a serpente estava lhe oferecendo. Ela estava se sentindo tentada a começar uma viagem sozinha, que lhe permitisse descobrir seu potencial sem a presença importuna e restritiva do Criador. O objetivo dessa nova viagem era fascinante: ela seria igual a Deus (verso 5). Ela finalmente deu o primeiro passo nessa viagem, estendendo a mão e comendo do fruto proibido (verso 6). Foi um simples passo, de conseqüências inimagináveis.

A decisão de Eva significou que ela assumiu a responsabilidade por sua própria vida, em total independência de Deus. Havia começado um capítulo inteiramente novo — e triste — de sua vida. Seu marido uniu-se a ela. Ambos foram ao encontro do desconhecido sozinhos, e logo perceberam que sua nova viagem terminaria na morte. Estavam caminhando rumo à extinção total, separados de Deus, a Fonte de vida, amor e paz.

Então, a voz de Deus foi ouvida ao andar Ele no jardim (verso 8). Deus lhes falou, a fim de ajudá-los a compreender a gravidade de sua condição. Ele caminhava sozinho, porque seus rumos agora não eram mais os mesmos. Caminhava sozinho pela trilha que havia preparado para Adão e Eva, e que eles haviam abandonado para seguir os próprios caminhos. A nova jornada de Eva se tornou cheia de temor, quebrantamento social e espiritual, e morte.

A esperança acesa

A última palavra de Deus para nós nunca é condenação. Ele busca o que se havia perdido com julgamento e salvação. A escolha é nossa. Graças ao amor de Deus e à Sua infinita graça, Ele ofereceu esperança a Adão e Eva (verso 15). Era disto que eles precisavam. E esta é a necessidade fundamental dos seres humanos rebeldes.

Essa esperança não é a racionalização de um desejo nem a exposição de um sonho que sabemos jamais se tornará realidade. Não, não! A esperança é a configuração de um futuro glorioso que Deus planejou para nós.

Deus plantou no coração desolado de Adão e Eva uma esperança com a qual eles simplesmente não contavam. A esperança se acha enraizada nas promessas de Deus, e estas sempre causam impacto sobre a atual existência humana. A esperança como expectativa faz com que sua presença seja sentida em nossa condição presente. E a que Deus ofereceu a Adão e Eva causou um efeito imediato em ambos: criou inimizade com os poderes malignos.

Essa esperança, através do poder de Deus, produziu na desesperada condição daquele casal um profundo ódio para com o poder escravizador do pecado. Deus decidiu preservar a liberdade humana e não permitiu que o inimigo os subjugasse totalmente. Esperança pressupõe liberdade humana, a capacidade de escolher o nosso rumo e destino.

A natureza dessa esperança é importante na narrativa. Seu conteúdo não é simplesmente uma idéia religiosa abstrata que eles deviam entender e preservar. A esperança que Deus ofereceu a Adão e Eva estava numa Pessoa. Na verdade, a Pessoa era a esperança, a qual feriria a cabeça da serpente — a causa da morte e da desesperança (verso 15). Essa esperança se centraliza no Descendente da mulher, que também é o Filho de Deus. Conseqüentemente, a concretização dessa esperança não deveria ser um triunfo intelectual, mas a vitória de uma Pessoa sobre a ameaça que paira sobre a humanidade criada por Deus.

A caminhada natural do ser humano o leva fatalmente à morte. Mas Deus estabeleceu para Adão e Eva, durante a sua jornada por este mundo de pecado e morte, um maravilhoso alvo que conduz a um glorioso reencontro. Em vez de desamparo e morte, todo ser humano pode, se quiser, caminhar na direção de um reencontro com o Filho de Deus, nossa única esperança. Adão e Eva abraçaram essa esperança e permitiram que Deus os vestisse com vestimentas preparadas por Ele (verso 21).

Caminhando com esperança

Foi ali, na presença de Deus, que Eva iniciou sua jornada de esperança, que a conduziria por terrenos pedregosos, caracterizados por fortes sentimentos de culpa e solidão, experimentando a dor de ver um de seus filhos tirar a vida do outro, e presenciando a morte em todos os lugares. Mas a esperança a susteve! Ela sabia que aquilo que estava vendo e sentindo não duraria para sempre. Algo glorioso estava para vir. A esperança produziu forte impacto em sua existência e lhe deu novo ânimo em meio ao conflito contra o mal. Deu-lhe liberdade para resistir às tentações da natureza pecaminosa, rejeitar os propósitos do inimigo e escolher andar em união com Deus. Ela agora aguardava um futuro glorioso.

Deus deixou claro a Eva que a esperança pela qual ela aguardava com ansiedade, viria na Pessoa de um descendente dela. Podemos imaginar a enorme expectativa que essa promessa deve ter gerado em seu coração. Quando ficou grávida de seu primeiro filho, ela provavelmente concluiu que ele seria o Prometido (ver Gên. 4:1). Mas não era. A esperança transcende a frustração e nos mantém na expectativa de algo melhor. E a expectativa mantém a esperança vibrante, abraçando a possibilidade de que, a qualquer momento, ela poderá se realizar. Uma das mais sérias ameaças que enfrentamos é perder a esperança. Quando isto acontece, começamos a perder o significado de nossa existência, e corremos o risco de, lentamente, ser impelidos rumo à morte. Ter esperança é viver em expectativa, é viver com a firme convicção de que as promessas de Deus são confiáveis e poderão se cumprir a qualquer momento que Ele decidir.

Em sua jornada de esperança, Eva foi acompanhada de seus muitos descendentes. Ela não imaginava que poderia esperar muito. O plano divino requeria que a vinda do Filho de Deus, a encarnação da esperança ocorreria num momento específico do conflito cósmico (Gál. 4:4). O Filho prometido foi nascido de mulher. No mesmo lugar em que o pecado teve acesso à raça humana, no íntimo de uma mulher, o próprio Deus penetrou através do mistério da Encarnação e plantou ali a realidade da divina esperança para o mundo todo. Que tremendo privilégio Deus concedeu a Eva! Exatamente onde ocorreu a Queda Deus iniciou o mistério da redenção.

Mas a caminhada continua. Nossa esperança se encaminha para o seu total cumprimento, na segunda vinda de Cristo. Nós, à semelhança de Eva, participamos de uma jornada de esperança. Sua jornada é nossa também. Ao redor do mundo, o povo de Deus viaja na mesma direção, com a mesma visão e alegria. Todos têm a mesma esperança, partilham-na e aguardam seu breve cumprimento. Todos aguardam seu lar celestial: “Morar para sempre nesse lar dos bem-aventurados, trazer no corpo, alma e espírito, não os negros traços do pecado e da maldição, mas a perfeita semelhança de nosso Criador, e, através dos séculos intérminos, prosseguir na sabedoria, no conhecimento e em santidade, explorando sempre novos campos do pensamento, e sempre encontrando novas maravilhas e novas magnificências; ampliando sempre a capacidade de conhecer, gozar e amar; e saber que ainda temos diante de nós alegria, amor e sabedoria infinitos — tal é o alvo a que aponta a esperança do cristão:’

Se você ainda não abraçou essa esperança, eu o convido, hoje, a se unir a nós nessa jornada.


(Jan Paulsen)