O batismo de meu pai

Eu tinha uns 7 anos de idade quando meu pai foi embora. De casa e da igreja. Ficamos minha mãe e dois irmãos menores. Em casa e na igreja. Foi traumático para todos nós. Minha mãe e cada um dos filhos fomos impactados emocionalmente de diferentes maneiras. No meu caso, o mais velho dos meninos, o golpe foi extremamente duro. Enfiei-me dentro de um buraco de solidão, medo e, sobretudo, timidez. Ainda carrego alguns traços visíveis dessa sombra implacável que me persegue.

Meu pai afundou na lama do pecado. Perdeu os bens materiais e a promissora carreira financeira. Do outro lado, ficamos quase sem nada. Era remota a possibilidade de que um dia a história teria um final feliz. Os dias, meses e anos passaram inexoravelmente. Restavam a oração e a fé. Durante, praticamente, 40 anos!

Há 14 anos meu pai machucou as costas, numa queda. O médico disse que deveria ser operado na coluna. E foi. Da forma errada. Ficou paralítico da cintura para baixo. A dor e a reflexão sobre o que fizera e vivera até então o levaram à Bíblia. Livro esse que ele pediu-me após o acidente. Junto, uma promessa que eu pensei ser fruto apenas da situação difícil que estava enfrentando: “Um dia você será pastor ordenado e fará meu batismo”.

Os anos passaram. Leu, a partir daí, 12 vezes a Bíblia Sagrada. De capa a capa. Naquela primeira e em outra que, anos depois, a substituiu. Nesse último sábado, dia 4 de setembro, entreguei a terceira bíblia. Após o seu batismo.

Confesso que foi um momento aguardado com muita ansiedade e emoção. O sábado começou com chuva e frio, bem característicos do Rio Grande do Sul, nessa época do ano. A possibilidade do adiamento para as férias, no próximo verão, era a alternativa mais convidativa. O sol, porém, à tarde, mostrou seu brilho, diminuindo um pouco o frio, mas não a preocupação de batizar alguém – o próprio pai – dentro de um tanque com águas mornas, mas em cima de uma cadeira. Diferentemente do convencional.

“Você pregou o sermão da sua vida”, disse-me alguém, referindo-se a mensagem anterior ao batismo. Falei sobre o filho pródigo, de Lucas 15. Perdeu tudo e também afundou-se na lama do pecado. Dediquei parte da mensagem para falar do irmão mais velho do filho pródigo. Também perdido. Dentro de casa e dentro da igreja! E que recebe com indiferença e amargura o retorno do irmão pecador. Atitudes que, infelizmente, ainda permeiam os círculos cristãos, hoje em dia. Porém, não poderia deixar de falar do principal personagem da parábola, que, segundo minha ótica, é o pai amoroso de ambos os filhos perdidos. Da graça paterna que resgata, transforma e perdoa incondicionalmente!

Foram três os batizados naquela tarde. Meu pai e um primo, com problemas de visão e audição, e Rose, que vive com meu pai e cuida dele. Com a ajuda de um parente e de meu mano do meio, Carlos Roberto, meu pai foi colocado no tanque e, acomodado em uma cadeira, tive a alegria e a emoção única de batizá-lo.

Ali, e em todos os lugares onde conto minha história, tenho visto pessoas motivadas a continuarem perseverantes na oração por seus queridos. Nada é impossível, caro leitor. Ninguém vai tão longe que não possa ser alcançado (se quiser) pela graça maravilhosa de Deus. Acredite nisso! Nunca deixe de orar por seu filho, filha, pai, mãe, marido, esposa, familiar ou amigo. O Pai do Céu é o maior interessado em tê-los de volta. Do jeito dEle. Na hora dEle.

Pastor Amilton Menezes