Andando na luz – Renunciando ao mundanismo

Verso Central: “Não amem o mundo nem o que nele há. Se alguém ama o mundo, o amor do Pai não está nele” (1Jo 2:15).

Leituras da semana: Dn 5:13; Jo 15:19; Cl 1:14; 2:8, 13; 2Pe 3:10-12; 1Jo 2:12-17

I - Introdução

Em 1933, o escritor francês André Malraux publicou "A Condição do Homem", história sobre uma insurreição marxista mal-sucedida em Xangai, China, na década de 1920. Na história, um terrorista marxista, Ch'en, estava caminhando rua abaixo quando seu primeiro professor, um ministro cristão, se aproximou dele e começou uma conversa sobre a fé que Ch'en havia perdido. Mal sabia o professor que, naquele momento, Ch'en, estava levando uma bomba a caminho de um assassinato político! Ch'en respondeu que não perdera a fé; ele simplesmente a dedicava à política.

– Qual fé política – seu antigo professor perguntou com tristeza – poderia destruir a morte?

Em outras palavras, não importam suas ideias políticas, não importa a utopia que espera criar, você nunca derrotará o grande açoite da humanidade: a morte.

Enquanto continua a nos mostrar o que significa “andar na luz”, os textos desta semana nos lembram que nossa vida é passageira, em contraste com a vida eterna que só pode ser encontrada em Deus.

Prévia da semana: Em que base podemos saber que nossos pecados estão perdoados? O que significa conhecer a Deus? O que significa não amar as coisas do mundo? Qual é o destino do mundo?

II - “Por causa do Seu nome”

“Filhinhos, eu vos escrevo, porque os vossos pecados são perdoados, por causa do Seu nome” (1Jo 2:12).

Em 1 João 2:12-15, João se dirige aos “filhinhos”, aos “pais” e aos “jovens”. Apesar das várias sugestões feitas sobre quem João tinha em mente por essa divisão, sugerimos que “filhinhos” se refere a todos os membros da igreja, porque, em sua epístola, João usa a palavra filhinhos neste sentido (1Jo 2:1, 12, 28; 3:7; 4:4; 5:21). Os “pais” representariam os membros mais idosos da igreja, e os “jovens”, os membros mais jovens. Em resumo, ele se dirige a todos.

1. Em 1 João 2:12, ele diz a todos que seus pecados estão perdoados. Em que base esse perdão é obtido? Por que é tão importante para os cristãos saber que seus pecados estão perdoados? Veja também At 5:31; Rm 4:7; Ef 4:32; Cl 1:14; 2:13.

João queria que seus ouvintes, isto é, os membros fiéis da igreja, tivessem certeza absoluta da salvação. Ele estava se referindo novamente à discussão sobre a questão do pecado, encontrada em 1 João 1:9 e 2:1, 2, destacando que ser cristão significa ter esse perdão. Os cristãos não negam sua pecaminosidade mas aceitam a salvação por meio de Jesus Cristo e, então, vivem com a certeza de ter sido perdoados.

O mais importante é que os cristãos entendam que a base de sua salvação é encontrada unicamente em Jesus e no que Jesus fez por eles. É por isso que João diz que eles foram perdoados – não por causa de suas boas ações, nem por suas convicções, e nem mesmo por causa de seu conhecimento de Deus, mas por “causa do Seu nome”; isto é, por causa de Jesus e do que Ele fez por eles. Assim, no meio de todo o discurso de João sobre a vitória, sobre a obediência, ele preserva diante deles a ênfase de que a salvação vem unicamente por causa de Jesus.

Qual é a importância de saber que você tem o perdão dos pecados? Onde você estaria hoje se tivesse dúvidas sobre o perdão? Da mesma forma, por que você deve sempre se lembrar de que a base do perdão está em Jesus, e não em você mesmo?

III - Vencendo o Maligno

2. Que mensagens João tem para os pais? Para os jovens? Para os “filhinhos”? 1Jo 2:13, 14. Como podemos aplicar essas mensagens a nós mesmos?

Os filhos são lembradas de que conhecem o Pai, enquanto os pais são lembrados de que conhecem aquele que é desde o princípio. Obviamente, essa pessoa é Jesus. A expressão “no princípio” é atribuída a Jesus em 1 João 1:1. Parece ter mais sentido quando nestes versos o Pai e aquele que é desde o princípio (Jesus) são duas pessoas diferentes. Quando os jovens são mencionados pela segunda vez, a frase “vocês venceram o Maligno”(NVI) é repetida, mas a declaração é expandida. Os jovens não apenas venceram o mal mas o próprio Satanás, porque pertencem a Cristo e reivindicam Sua vitória. A língua original indica que a vitória foi alcançada no passado, mas as consequências são uma realidade contínua. Os jovens também são espiritualmente fortes, e a “palavra de Deus” permanece neles.

A Palavra de Deus aponta para seu autor, o Espírito Santo (Ef 6:17; 2Pe 1:21). Então, alguns comentaristas sugerem que nesses versos é encontrada uma referência implícita à Trindade: Deus o Pai, Jesus, aquele que é desde o princípio, e o Espírito Santo, representado pela Palavra de Deus. No fim, os verdadeiros crentes vieram a conhecer a Deus e continuam a conhecê-Lo; isto é, mantêm um relacionamento íntimo com Ele.

Assim, nestes versos, recebemos a essência da vida cristã: perdão dos pecados, conhecimento da Divindade, vitória sobre o pecado e a Palavra de Deus que habita em nós.

Visto que os crentes sabem que Deus e Sua Palavra habitam neles, estão prontos para o desafio dos versos 15-17. Enquanto os versos 12-14 contêm declarações afirmativas, o verso 15 começa com um imperativo, um chamado ou ordem: “Não ameis o mundo”.

IV - Renunciando ao amor do mundo (1Jo 2:15)

3. Os cristãos são aconselhados a não amar o mundo. Como as Escrituras definem a palavra mundo? Jo 12:19; 15:19; At 17:24; Rm 1:20; Cl 2:8; 1Tm 6:7; Tg 4:4; Ap 11:15

A palavra kosmos (traduzida por mundo) designa o Universo, a Terra, a humanidade, o reino da existência e o estilo de vida oposto a Deus. A palavra ocorre mais de 20 vezes em 1 e 2 João. O mundo precisa de salvação (1Jo 4:14), mas é hostil a Deus e Seu povo (1Jo 3:13). Jaz no poder do Maligno (1Jo 5:19), e falsos profetas, anticristos e enganadores estão no mundo (1Jo 4:1, 3; 2Jo 7). Não é errado possuir os bens do mundo, mas eles devem ser partilhados com os necessitados (1Jo 3:17). Finalmente, o mundo precisa ser vencido (1Jo 5:4, 5). Nas epístolas de João, a palavra mundo é predominantemente um termo negativo, porque o mundo está em rebelião contra Deus.

Existe uma contradição interessante nas Escrituras a respeito de nosso relacionamento com o mundo. Por um lado, somos aconselhados a não amar o mundo, mas, por outro lado, a Bíblia é clara em dizer que Deus ama o mundo (Jo 3:16). Enquanto isso, a Bíblia diz que não devemos amar as coisas do mundo, mas nos aconselha, repetidas vezes nas Escrituras, a amar as pessoas, e as pessoas certamente estão no mundo!

4. Como você entende essa contradição? Como devemos amar as pessoas e não amar o mundo, quando o mundo é constituído principalmente de pessoas? Existem algumas coisas no mundo, além das pessoas, que podemos amar? O quê?

O fim do verso 15 e o seguinte nos ajudam a entender o que João tinha em mente. Ele não disse que devemos odiar os seres humanos ou menosprezar o Planeta Terra; ao contrário, devemos odiar as coisas do mundo que, se forem sobrevalorizadas por nós, nos impedirão de conhecer e experimentar por nós mesmos o amor de Deus. Isto é, precisamos nos afastar das coisas do mundo que nos impedem de manter uma relação de salvação com Deus.

Seja honesto consigo mesmo. Quais são algumas das coisas do mundo que você ama e que sabe que estão erradas? Ou existem coisas do mundo que, em si mesmas, não são más, no entanto, lhes dedica mais amor do que a Deus? O que será necessário para que você as abandone?

V - Problemas com o mundo

“Porque tudo que há no mundo, a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida, não procede do Pai, mas procede do mundo” (1Jo 2:16)

Enquanto o verso 15 é uma advertência ampla contra o amor ao mundo, o verso 16 trata de alguns detalhes. O que significa amar o mundo? João menciona três coisas: (1) a cobiça da carne, (2) a cobiça dos olhos e (3) a ostentação dos bens (NVI). João diz que essas três coisas não são do Pai mas do mundo; contudo a carne como os olhos e a vida vêm todos de Deus. Então, qual é o problema? Contra que João está nos advertindo?

A cobiça da carne, obviamente, se refere às paixões, embora não precise estar limitada somente a isso (veja Gl 5:19-21).

No entanto, a cobiça dos olhos, certamente ligada à carne, aprofunda os sentimentos, pois se refere aos pensamentos, desejos das coisas que vemos e queremos para nós mesmos (veja Êx 20:17).

5. O que João quer dizer com “a soberba da vida”? O que é isso, e por que é tão ruim? Veja Jó 12:10; At 17:28

A ideia da “soberba da vida” supõe independência de Deus. É como se nós mesmos criássemos nossa vida e, consequentemente, a glória e a honra de algumas de nossas realizações pertencessem a nós mesmos. “Sabei que o Senhor é Deus; foi Ele quem nos fez, e dEle somos” (Sl 100:3). Em contraste, quando percebemos que toda respiração, toda batida do coração, tudo que podemos ter ou ser vem unicamente de Deus, de quem dependemos totalmente, o orgulho não encontrará lugar em nosso coração. Como seres pecadores, caídos, cuja própria existência depende inteiramente da graça e da beneficência de Deus, como seres absolutamente incapazes de salvar a nós mesmos da morte e da destruição eterna, devemos ser humildes e submissos quanto à nossa vida, e não nos encher de orgulho a esse respeito. Foi o orgulho que trouxe a queda de Lúcifer a um mundo perfeito; como seres em um mundo imperfeito, devemos fugir dele como da peste.

Qual é seu maior problema? Cobiça da carne? Cobiça dos olhos? Ostentação dos bens? Ou uma combinação de alguns deles? Qual é sua única esperança? O que você está esperando para fazer as mudanças necessárias?

VI - Um mundo passageiro (1Jo 2:17)

No verso 16 o apóstolo apresenta a primeira razão por que não devemos amar o mundo: o amor do mundo e o amor do Pai são incompatíveis. No verso 17, João acrescenta uma segunda razão: Não faz sentido amar o mundo, porque o mundo é passageiro. É melhor e mais sábio escolher o que permanece. Fazendo isso, nós mesmos também permaneceremos – isto é, viveremos para sempre.

A humanidade é tentada a viver o momento, ser cativada pelo mundo material e entesourar só o que pode ser visto. Então, Paulo se une a João dizendo: “Procurem as coisas que são do alto, onde Cristo está assentado à direita de Deus. Mantenham o pensamento nas coisas do alto, e não nas coisas terrenas. Pois vocês morreram, e agora sua vida está escondida com Cristo em Deus. Quando Cristo, que é a sua vida, for manifestado, então vocês também serão manifestados com Ele em glória” (Cl 3:1-4) e: “assim, fixamos os olhos não naquilo que se vê, mas no que não se vê. Pois o que se vê é transitório, mas o que não se vê é eterno” (2Co 4:18).

6. O que a Bíblia ensina em outros textos sobre a natureza transitória do mundo e do planeta Terra? Dn 2:35; 1Co 7:31; 2Pe 3:10-12

Em 1 João 2:8, João já havia declarado que as trevas se vão dissipando. Agora, ele usa o mesmo verbo e diz que o mundo está passando, inclusive sua cobiça. Chegou uma nova era com a encarnação de Jesus: a luz. As coisas deste mundo estão passando; isso deve ser óbvio para todos. Em um mundo que está passando, e nós juntamente com ele, as soluções políticas nunca podem ser a solução final.

Se o mundo está passando, como podemos sobreviver? João responde: a solução está em fazer a vontade de Deus. Embora a teologia correta seja importante e João tente refutar os falsos mestres com sua compreensão equivocada de Jesus e do pecado, também é importante viver em obediência. A ética não pode ser separada da teologia. Palavras bondosas e doutrinas corretas não são suficientes. Nossa teologia deve ser vivida.

Não vamos nos sentir tão à vontade aqui a ponto de esquecer nosso alvo eterno; não vamos comprometer nosso amor a Deus sendo atraídos àquelas coisas e atitudes que são hostis a Ele.

Que exemplos da natureza passageira das coisas na Terra você vê todo dia? O que eles lhes dizem? Por que – quando é tão evidente que as coisas aqui não duram – achamos tão fácil viver como se fossem durar por toda a eternidade?

VII - Estudo adicional

”Cristãos professos gastam anualmente soma considerável com inúteis e perniciosas condescendências, enquanto as pessoas estão perecendo à falta da Palavra da Vida. Deus é roubado nos dízimos e ofertas, enquanto consomem no altar das destruidoras concupiscências mais do que dão para socorrer os pobres ou para o sustento do evangelho. ... O mundo está entregue à satisfação de si mesmo. ‘A concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos, e a soberba da vida’ dominam as massas populares. Os seguidores de Cristo, porém, são dotados de uma vocação mais elevada. ... À luz da Palavra de Deus estamos autorizados a declarar que não pode ser genuína a santificação que não opere a completa renúncia de todo desejo pecaminoso e prazeres do mundo" (O Grande Conflito, p. 475).

Falando positivamente, nossa passagem nos diz: Os cristãos genuínos têm um relacionamento íntimo com a Divindade, manifestam obediência amorosa, recebem forças para vencer o mal e têm em si a habitação da Palavra de Deus. Seus pecados foram perdoados. Negativamente, não amam o mundo mas o rejeitam onde ele é hostil a Deus e Sua causa.

Perguntas para consideração

1. Nosso mundo é totalmente transitório. Não vai durar para sempre; até a ciência – com todas as suas fraquezas – nos diz isso. Que esperança, porém, a Bíblia oferece e que a ciência não pode oferecer?
2. Alguns, ouvindo o conselho contra o amor ao mundo, dele se isolam tanto quanto podem, se mudam para mosteiros ou comunidades radicalmente separadas da “norma”. Essa é uma boa ideia? Ou má? Pode ser bom em alguns casos?
3. Por que a vitória sobre o pecado é tão importante para quem deseja “andar na luz”? Como você por obter essa vitória?

Respostas sugestivas para as perguntas:

Pergunta 1: Nossos pecados são perdoados pela expiação de Cristo, que pagou nossas culpas. Temos a certeza da salvação.
Pergunta 2: Os pais conhecem a Deus; os jovens são vencedores; os “filhinhos” são todos os crentes, eles conhecem o Pai.
Pergunta 3: “Mundo” tanto pode ser o mundo natural, como as pessoas que nele habitam. Também representa os que seguem Satanás.
Pergunta 4: Não devemos amar o mal que há no mundo, mas, sim, as pessoas por quem Cristo morreu.
Pergunta 5: A tentativa de viver independente de Deus. Essa independência só pode levar à ruína.
Pergunta 6: O mundo passa, e assim também os que vivem suas ilusões.