A igreja: feitura de Deus

Verso Central: : "Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie" (Efés. 2:8 e 9).

Leituras da semana: Rom. 3:24-28; 6:8-11; II Cor. 5:18; Efés. 2:1-10; Col. 2:12 e 13

I - Introdução

O francês Michel Foucault certa vez propôs que se derrubassem todas as prisões e deixasse os prisioneiros em liberdade. Por quê? Foucault cria que os conceitos de moralidade, certo e errado, bem e mal, eram puramente humanos, invenções humanas criadas por pessoas que estavam no poder a fim de oprimir os outros. Então, levando as convicções à sua conclusão lógica, declarou que até mesmo a idéia de criminalidade era invenção humana, e assim, todos os prisioneiros deveriam ser libertados.

Por mais extrema que seja essa idéia, indica o sentimento prevalecente em muitos lugares de que não existe pecado, e que idéias como moralidade e certo e errado são meras opiniões, nada mais.

Evidentemente, o apóstolo Paulo não sabia nada dessa tolice, e a lição desta semana – embora termine com uma nota esperançosa e positiva – começa com uma clara expressão da realidade do pecado e da inevitabilidade da sua conseqüência: a morte (que dificilmente seria mera invenção humana). Nesta semana, vamos ver o que Paulo tem a dizer, não apenas sobre o mal mas também sobre a única solução para ele.

II - Mortos nos pecados (Efés. 2:1-3)

Desde quando Adão e Eva decidiram seguir sua própria vontade, em vez da vontade de Deus, o pecado se tornou a sorte da raça humana. "Assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado, a morte, assim também a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram" (Rom. 5:12). E porque o pecado é universal (Rom. 3:23), a morte é também.

1. O que os versos seguintes revelam sobre a natureza do pecado?
              a. I João 3:4               b. Tiago 1:15               c. Isa. 59:2               d. Rom. 14:23


Efésios 2:2 e 3 diz três coisas sobre os incrédulos. Primeira, eles viviam "segundo a maneira de viver deste mundo" (v. 2, Bíblia Vozes) em desobediência a Deus e desunidos entre si. Ser amigo do mundo é ser inimigo de Deus (Tiago 4:4), e, como inimigos, eles viviam em escuridão e alienação.

Segunda, eles seguiam "o príncipe da potestade do ar" (Efés. 2:2). O príncipe é Satanás. Jesus o chamou de príncipe deste mundo (João 12:31). Enquanto querem afirmar que Satanás não passa de mito, a Bíblia diz que ele é realidade – um "leão que ruge" para devorar o povo de Deus (I Ped. 5:8) e "acusador de nossos irmãos" (Apoc. 12:10). que leva homens e mulheres a desobedecer a Deus (Efés. 2:2).

Terceira, eles são corruptos e, "por natureza, filhos da ira" (v. 3). O pecado corrompe tudo – mente, pensamento, ações, desejos, vontade etc. – e, como tal, a natureza deles é depravada; dentro deles existe conflito perpétuo. Essa natureza espiritualmente corrupta e falida torna os pecadores "filhos da ira" (v. 3) – filhos que merecem o juízo de Deus.

Então, qual é a condição dos incrédulos? Estão mortos no pecado. Selaram seu destino decidindo viver "segundo as inclinações da... carne" (v. 3) e tornando-se filhos sujeitos à ira de Deus. Estão mortos – mortos em sentido de finalidade, humanamente falando.

Leia Tiago 4:4. O que significa ser "amigo do mundo"? Como os cristãos devem entender esse ponto importante (afinal, ser amigo do mundo é ser inimigo de Deus), especialmente levando em conta João 3:16, que diz que Deus ama o mundo? Esteja preparado para discutir suas respostas em classe.

III - "Mas Deus..."

Paulo era mestre em transmitir as grandes verdades de Deus. Em Efésios 2:1-3, ele descreveu o apuro dos incrédulos: mortos em pecado, escravos de Satanás, vivendo de acordo com os desejos da carne, condenados como filhos da ira, desesperados e destituídos, incapazes de salvar a si mesmos. No verso 4, em duas palavras dramáticas, o apóstolo apresenta a solução gloriosa para essa condição desesperada: "Mas Deus..."

Essas duas palavras podem estar entre as mais belas da Bíblia. Estávamos mortos, mas Deus...; éramos rebeldes, mas Deus...; estávamos condenados à morte, mas Deus...; éramos estrangeiros e peregrinos, mas Deus...; Satanás pode parecer triunfante, mas Deus... Enquanto essas duas palavras estiverem no vocabulário bíblico, nós temos esperança.

2. Note como a expressão "mas Deus" é usada na Bíblia: Atos 13:29 e 30; Rom. 5:7 e 8; 6:16 e 17; Filip. 2:27. Que esperança existe para nós?

Por que Deus agiu para nos livrar da escravidão da morte? Por que Deus escolheu nos salvar das garras do pecado? Por que não deixou Adão e Eva perecerem como resultado de sua escolha? Por que não criou para Si mesmo novas criaturas que O adorassem e O seguissem como Ele gostaria?

O apóstolo traz duas respostas. Primeira, porque Deus é "rico em misericórdia" (Efés. 2:4). A misericórdia é intrínseca à natureza de Deus: "(o Senhor, teu Deus, não te desamparará, porquanto é Deus misericordioso, nem te destruirá" (Deut. 4:31) pois "Ele é bom! ... Sua misericórdia dura para sempre" (Sal. 106:1). A misericórdia é tão importante no processo de salvação que os remidos são chamados de "vasos de misericórdia" (Rom. 9:23).

Segunda, "por causa do grande amor com que nos amou" (Efés. 2:4). O amor de Deus – abnegado por parte do doador, imerecido por parte de quem o recebe – é o motivo para dar "o Seu Filho unigênito, para que todo o que nEle crê não pereça, mas tenha a vida eterna" (João 3:16). "O dom da Sua misericórdia e amor, como o ar, a luz e a chuva que refrigera o solo, não reconhece limites." – Testemunhos Para a Igreja, vol. 9, pág. 190.

Escreva um parágrafo começando assim: "Eu [seu nome] era [fale sobre sua condição espiritual e mental antes de conhecer a Deus], mas Deus [agora escreva o que Ele fez por você por meio de Cristo]."

IV - "Nos deu vida" (Efés. 2:5)

Quando falou da graça, do amor e da misericórdia de Deus pelos pecadores, Paulo usou repetidamente superlativos como riqueza, rica, grande e excessiva. Esse uso mostra o valor supremo que esse antigo fariseu atribuía à salvação como dom de Deus, e não resultado de obras humanas. Efésios 2:1-8 esboça claramente o movimento dos pecadores da morte para vida.

3. Leia Efésios 2:5 e 6 e note três coisas que Deus faz por nós em Cristo. As primeiras palavras são supridas para facilitar.
              a. Ele "nos deu vida"               b. Ele "nos ressuscitou"               c. Ele "nos fez assentar"


No grego, cada uma das expressões acima começa com o prefixo sun, que significa junto com. Isso indica que todos os crentes compartilharão juntos essas bênçãos uns com os outros e junto com Cristo.

Primeiro, Ele "nos deu vida juntamente com Cristo" (Efés. 2:5). Aqueles que crêem em Cristo e morrem com Ele se tornam participantes do Seu poder de ressurreição, e são espiritualmente vivificados juntamente com o Senhor ressuscitado (Rom. 6:8-11).

4. A ressurreição dos justos é um fato passado, presente ou futuro? Explique essa tensão entre o "já" e o "não ainda". Rom. 6:8-11; Col. 3:1-4

Segundo, Ele "nos ressuscitou" (Efés. 2:6). Essa ressurreição em Cristo não ocorre sem propósito. Devemos viver para Ele. A nova vida que os cristãos desfrutam deve ser um testemunho do poder da ressurreição de Cristo mediante a revelação desse poder em nossa vida e nosso caráter.

Terceiro, Ele "nos fez assentar nos lugares celestiais em Cristo Jesus" (v. 6). O maior privilégio dos cristãos será assentar-se com Cristo e reinar com Ele (II Tim. 2:12; Apoc. 22:5). Mesmo agora, podemos ser exemplos ao Universo do Seu amor duradouro e de Sua justiça. Mesmo agora, podemos assentar-nos "nos lugares celestiais" com Jesus quando, pela fé, vivemos em intimidade com Ele.

V - Pela graça mediante a fé (Efés. 2:8 e 9; Rom. 3:24-28; Tito 3:4-7)

"Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie." (Efés. 2:8 e 9).

Estes dois versos resumem o coração do evangelho de Paulo. A sua tese é que a graça é a parte de Deus na salvação, a fé é a resposta humana, e toda a experiência da salvação que vem pela graça mediante fé é dom de Deus, não pelas obras.

Neste verso, as palavras-chave são graça e fé. Como entender essas palavras?

Graça se refere à iniciativa de Deus e à base de nossa redenção do pecado. Como pecadores, merecemos a morte, e Deus oferece vida. Estamos separados dEle e uns dos outros, e Ele nos oferece reconciliação. Estamos sob a escravidão do pecado e destinados ao juízo, e Ele nos oferece liberdade. Não merecemos nada do que Ele oferece, porque pecamos e permanecemos em rebelião contra Deus (Col. 1:21). Conseqüentemente, a graça é com freqüência definida como favor não merecido de Deus por nós.

Graça é iniciativa e atividade soberanas de Deus para a salvação dos pecadores. Essa graça apareceu na "plenitude do tempo" (Gál. 4:4) no evento histórico de Jesus Cristo – mais especificamente, o ato de Cristo na cruz. Não temos parte nem na concepção nem na execução da salvação. É dom de Deus para aquele que crê em Jesus (João 3:16).

5. Como se manifestou a graça para conosco? II Cor. 5:18. Quem fez a reconciliação, e para quem?

A fé é a resposta humana à provisão de Deus. Em sentido cristão, a fé não é uma virtude que desenvolvemos sozinhos. É a resposta de admiração ao que Deus fez para nos redimir do pecado, e pronta aceitação da operação de Deus em nossa vida. Fé salvadora é mudança de submissão – do eu para Deus, da negação ou indiferença às reivindicações de Deus à aceitação aberta. A fé abre o coração para a habitação de Cristo. Sendo assim, não pode se originar no coração carnal. É "dom de Deus, mas a faculdade de exercê-la é nossa. A fé é a mão pela qual o coração se apodera das ofertas divinas de graça e misericórdia." – Patriarcas e Profetas, pág. 431.

Como você tentaria ajudar alguém que dissesse: "Sou muito fraco na fé. Eu creio, mas minha fé vacila tanto"? Que passos práticos podemos dar para tornar mais forte a nossa fé? Como aquilo que lemos, pensamos e dizemos afeta a nossa fé?

VI - "Somos feitura dEle" (Efés. 2:10)

Paulo destaca muito claramente em Efésios 2:8 e 9 que não somos salvos pelas obras. Então, imediatamente, no verso 10, ele diz que fomos não apenas "criados em Cristo Jesus para boas obras" mas que Deus "de antemão preparou" essas boas obras.

6. Existe contradição entre esses dois pensamentos? Como você entende o que Paulo está dizendo nestes três versos?

A história da salvação, como apresentada por Paulo, termina com a afirmação de que "somos feitura dEle" (v. 10). Como cristãos individuais ou comunidade de fé, devemos a existência à graça de Deus. Somos obra das Suas mãos, Sua obra-prima, Sua obra de arte, criados em Cristo Jesus.

Isso não deve ser motivo de orgulho. Paulo advertiu contra essa jactância no verso 9: "Não de obras, para que ninguém se glorie". Nossas obras, por melhores, maiores e mais duradouras que sejam, não nos podem salvar. Na salvação, a gabolice não tem lugar. Deus espera apenas abnegação, morte para o eu, para que Cristo reine supremo em nosso coração – sem qualquer concorrente. "Somente as vestes que Cristo proveu podem habilitar-nos a aparecer na presença de Deus. ... Este vestido fiado nos teares do Céu não tem um fio de origem humana. Em Sua humanidade, Cristo formou caráter perfeito, e oferece-nos esse caráter." –[Meditações Matinais, 1977], pág. 76.

Os cristãos devem se guardar de duas falácias. Primeira, a idéia de que precisamos acrescentar algo de nós mesmos à graça de Deus. Segunda, a liberdade em Cristo nos livra da obediência às Suas reivindicações.

Sim, somos feitura Sua. Somos novas criaturas por Sua graça mediante a fé. Mas somos novas criaturas em Cristo "para boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas" (v. 10). Isto significa que nossas obras são uma condição prévia para a salvação? Longe disso. Mas são o requisito de uma vida salva. O apelo de Paulo é para uma vida e um estilo de vida consistentes com as exigências da fé. Na realidade, o apóstolo está dizendo: "Sim, você é salvo pela fé. Você é salvo pela livre graça de Deus. Mas você é salvo para viver. Sua experiência de fé deve deslocar-se da crença para a vivência. Você deve viver a sua salvação. Isso envolve um estilo de vida de obediência, imitando nosso grande modelo – Cristo Jesus, que obedeceu até o ponto da humilhação e da morte (Filip. 2:5-12). Além disso, a experiência cristã é sua responsabilidade pessoal; e ninguém mais pode fazer isso para você."

VII - Estudo adicional

Justiça unicamente pela fé. "Torne-se distinto e claro o assunto de que não é possível efetuar coisa alguma em nossa posição diante de Deus ou no dom de Deus para nós, por meio do mérito de seres criados. Se a fé e as obras adquirissem o dom da salvação para alguém, o Criador estaria em obrigação para com a criatura. Eis aqui uma oportunidade para a falsidade ser aceita como verdade. ... Se o homem não pode, por qualquer de suas boas obras, merecer a salvação, então ela tem de ser inteiramente pela graça recebida pelo homem como pecador, porque ele aceita a Jesus e crê nEle. A salvação é inteiramente um dom gratuito. A justificação pela fé está fora de controvérsia." – Fé e Obras, págs. 19 e 20.

Sobre a produção de frutos. "Os que se tornaram novas criaturas em Cristo Jesus produzirão os frutos do Espírito – ‘amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio’. Gál. 5:22 e 23. Não se conformarão por mais tempo com as concupiscências anteriores, mas pela fé do Filho de Deus seguirão as Suas pisadas, refletir-Lhe-ão o caráter e se purificarão, assim como Ele é puro. As coisas que outrora aborreciam, agora amam; e aquilo que outrora amavam, aborrecem agora. O orgulhoso e presunçoso torna-se manso e humilde de coração. O vanglorioso e arrogante torna-se circunspecto e moderado. O bêbado torna-se sóbrio, e o viciado, puro. Os vãos costumes e modas do mundo são renunciados." – Caminho a Cristo, pág. 58.