Relações cristãs

Verso Central: "Sujeitando-vos uns aos outros no temor de Cristo" (Efés. 5:21).

Leituras da semana: Êxo. 20:12; Juízes 1:21; Lucas 9:23; João 3:13; Rom. 5:8; Efés. 5:21-33; 6:1-9; I João 4:10 e 11

I - Introdução

Efésios 1–3 deu a teologia básica da igreja. Do capítulo 4 em diante, Paulo discutiu a aplicação prática dessa teologia e como se aplica à vida cristã, que, entre outras coisas, conserva a unidade em meio à diversidade, enfatiza a caminhada cristã e (como vamos estudar agora) constrói relacionamentos adequados.

Na análise final, o cristianismo é uma religião de relacionamentos: com Deus e uns com os outros. Não faz sentido pretender ter uma relação vital com Deus sem que essa relação afete a maneira como nos relacionamos com a família e com a comunidade. Igreja, lar e trabalho são os ambientes básicos da vida cristã. Não se pode ser santo na igreja e demônio em casa. O cristianismo não é santidade em um vazio. É santidade no todo; isto é, afeta todas as dimensões da vida – espiritual, intelectual, física e social. A lição desta semana estuda os princípios das relações cristãs.

II - "Sujeitando-vos uns aos outros" (Efés. 5:21)

1. Qual é a atitude básica do relacionamento cristão? Efés. 5:21

Este verso está ligado com a cláusula de Efésios 5:18: "Enchei-vos do Espírito". A submissão cristã não deve ser confundida com servilismo, mas com a atitude adequada de humildade e consideração mútuas. É fácil reconhecer que essa atitude não é natural do ser humano, mas resultado da plenitude do Espírito, como também é o caso da comunhão e da adoração, dos cânticos e louvores e da gratidão ininterrupta (Efés. 5:19 e 20).

Assim considerada, a submissão não tem o significado que normalmente lhe damos. A visão bíblica da submissão de forma alguma ensina uma posição ditatorial, autoritária e injusta nas relações sociais, onde um exerce poder e o outro rasteja desamparado.

Realmente, Paulo acrescenta uma cláusula qualificativa ao conselho sobre a submissão: "no temor de Cristo" ou "pelo respeito que [vocês] têm por Cristo" (NTLH). A conduta e o relacionamento mútuos do cristão – seja entre marido e mulher, pai e filho, senhor e escravo – envolve submissão mas no contexto da reverência a Cristo. Deus não é demolidor, mas construtor. Ele não é ditatorial nem egoísta, mas amoroso. A reverência a Cristo traça uma linha além da qual não se aplica a submissão. Onde a submissão se constitui uma violação à consciência, ou contradiz a vontade de Deus, a posição corajosa de Pedro: "Antes, importa obedecer a Deus do que aos homens" (Atos 5:29) deve assumir o comando. O que a esposa ou a filha deve fazer quando o homem da casa insiste em que ela caia na prostituição a fim de atender suas necessidades econômicas? O que o filho ou a filha deve fazer se o pai lhe ordena colocar-se em um canto da rua para vender drogas? Submeter-se? Nunca. A submissão nas relações humanas nunca é absoluta nem inquestionável. Na sua fronteira está a vontade de Deus. Quando um assim chamado cristão espera submissão além dessa fronteira, não tem o direito de ser chamado cristão e merece ser destituído de qualquer privilégio cristão. Submissão "no temor de Cristo" (v. 21) requer respeito por parte da esposa e dignidade e honra por parte do marido. Esse conceito é ainda mais decisivo em um tempo como o nosso, em que é comum haver abuso conjugal e infantil. Nenhum filho de Deus deve se tornar nem deve ser tratado como capacho.

Uma coisa é submeter-se quando não devemos nos submeter, mas que dizer da submissão quando isso é realmente necessário? Às vezes, é muito mais difícil. Por que o pé da cruz é o único lugar em que podemos aprender o significado da submissão cristã? Na submissão, que papel tem a morte para o eu? Veja Lucas 9:23.

III - Autoridade (Efés. 5:22; 6:1 e 5)

A questão da submissão e obediência por parte da esposa, do filho ou do escravo levanta o assunto da autoridade. Com que autoridade marido, pai e senhor espera submissão e obediência? Efésios 5:21 diz que a submissão deve ser "no temor de Cristo" ou "pelo respeito que [vocês] têm por Cristo" (NTLH). Expressões semelhantes ocorrem em outros lugares: "como ao Senhor" (v. 22), "no Senhor" (Efés. 6:1), "como a Cristo" (v. 5). Essas repetidas referências a Cristo parecem indicar uma ordem divina para essa estrutura de autoridade. Embora Paulo não desenvolva este aspecto, ele oferece uma analogia útil na relação entre Cristo e a igreja. "Cristo é o cabeça da igreja" portanto, "a igreja está sujeita a Cristo" (Efés. 5:23, 24). A posição de liderança de Cristo é o modelo ao qual a igreja se sujeita. Da mesma forma, a posição de liderança do marido, pai e senhor deve seguir o modelo estabelecido pelo cristianismo. Autoridade não é tirania nem é ilimitada. De fato, Paulo argumenta que tanto a autoridade como a submissão são em Cristo, que "amou a igreja e a Si mesmo Se entregou por ela" (v. 25). Este ponto não pode ser exagerado. Amor, não poder, é a motivação por trás da autoridade dada para preservar a ordem de uma unidade organizacional como a casa ou o lar.

2. Qual é o modelo das relações humanas cristãs?
        a. Gên. 1:26 e 27         b. Atos 17:26         c. Mat. 12:50         d. Efés. 3:6         e. Gál. 3:28


Diante do Senhor, todos estamos em igual condição: pecadores, necessitados da graça divina. Embora os conceitos de autoridade e submissão tenham sido pervertidos, isso não significa que não sejam bíblicos. Os que estão em posição de autoridade devem sempre lembrar-se de quem são em relação para com Deus e para com os que podem estar sob sua autoridade.

Se algumas pessoas precisam aprender a submissão ao pé da cruz, o que as pessoas que exercem autoridade podem aprender junto à cruz sobre o uso da autoridade segundo o modelo divino?

IV - Marido e esposa (Efés. 5:22-25)

Ao ler os versos para hoje, podemos ver que o casamento é uma instituição divina, sendo marido e esposa companheiros em posição de igualdade (Gên. 2:24; Efés. 5:31). A unidade e igualdade dos cônjuges é enfatizada na expressão divina de que "se tornarão os dois uma só carne" (Efés. 5:31). Compare com Efésios 2:14, que diz como Cristo de dois fez um (judeus e gentios), e você perceberá a maravilha da origem divina tanto do casamento como da igreja.

Da mesma forma, Cristo e a igreja estão ligados muito intimamente. Cristo é a cabeça, e a igreja é o corpo (Efés. 5:23). Sem levar a metáfora a proporções perigosas, deve-se notar: (a) Sendo corpo, a igreja está subordinada a Cristo, a cabeça; (b) como cabeça, Cristo ama a igreja, Seu corpo, morreu por ela, salvou-a e a santificou.

Submissão e amor não colocam os cônjuges em posições antagônicas no casamento, mas os une. Afinal, submissão significa entregar-se completamente ao outro. Amor significa a mesma coisa e inclui amar a ponto de morrer pelo outro, como Cristo fez.

3. Como a metáfora da relação de Cristo para com a igreja nos ajuda a entender como o marido deve se relacionar com sua esposa? Qual deve ser a principal força motivadora? Veja Rom. 5:8; I João 4:10 e 11; Judas 1:21

Esta relação íntima entre Cristo e a igreja deve se refletir entre marido e mulher. Embora Paulo e Pedro sejam claros de que a esposa deve ser submissa ao seu marido, "como ao Senhor" (Efés. 5:22; veja também Col. 3:18; I Ped. 3:1), Paulo equilibra este pensamento dizendo ao marido que ele deve amar sua esposa (veja Efés. 5:25 e 28; Col. 3:19). Esse amor deve seguir o modelo do amor de Cristo (Efés. 5:25) – sem reservas e sacrifical. A posição de liderança do marido não significa tirania mas responsabilidade em uma sociedade, enquanto submissão não significa servilismo mas honra, fidelidade e respeito. É claro que precisamos reconhecer as fraquezas humanas: existem maridos que tratam a esposa como empregada e abusam dela indefinidamente. Mas este é um problema cultural e pecaminoso que Paulo não está focalizando aqui.

Em sua sociedade e cultura, quais são algumas das forças que estão combatendo contra o casamento? Como aquilo que Paulo escreveu aqui pode ser um poderoso meio de proteger dessas forças o casamento?

V - Filhos e pais (Êxo. 20:12; Efés. 6:1-4)

Nenhuma outra religião ou filosofia fez tanto pelas crianças como o cristianismo. William Wilberforce, cristão devoto, fez cessar o trabalho infantil na Inglaterra. William Carey, pioneiro da missões cristãs, agiu para pôr um fim ao casamento infantil e à cremação das viúvas na Índia. Hoje, em algumas áreas rurais do sul da Índia, crianças são sufocadas ou envenenadas até a morte, e os hospitais e pastores cristãos instalam berços do lado de fora de suas portas, de forma que as crianças não desejadas sejam colocadas ali sem que ninguém note.

No tempo do apóstolo Paulo, a cultura romana era ainda pior. Barclay cita o famoso Sêneca : "Nós sacrificamos um boi feroz; estrangulamos um cachorro louco; sacrificamos o gado doente para que não contamine o rebanho; as crianças que nascem fracas e deformadas, nós afogamos." – Barclay, The Letters to the Galatians and Ephesians, pág. 176.

Em uma época assim, Paulo escreveu aos pais cristãos e a seus filhos em uma famosa cidade romana. Como as crianças devem ter ficado encantadas por serem reconhecidas na carta do grande apóstolo!

4. Que duas coisas se esperam dos filhos? Como Paulo qualifica essa atitude dos filhos para com seus pais? Efés. 6:1-4

Paulo oferece duas razões para a obediência. Primeira, isso é justo; é a norma natural, aceita em toda a sociedade. Segunda, a lei moral de Deus o exige.

Os artistas cristãos costumam pintar a lei em duas tábuas: a primeira, contendo os primeiros quatro mandamentos e a outra, os últimos seis – dividindo nosso dever para com Deus e para com o próximo. Mas os judeus tinham cinco em cada tábua, como se a honra aos pais fizesse parte da honra a Deus.

Se se espera obediência dos filhos enquanto são dependentes dos pais, a honra para com eles é um dever vitalício.

Paulo aconselha os pais a não provocarem seus filhos à ira (Efés. 6:4). Pense em algumas coisas que podem fazer exatamente isso: mau exemplo, hipocrisia, incoerência, rispidez. Que mais?

Em nossa sociedade, que forças estão prejudicando as relações fortes e amorosas entre pais e filhos? O que o cristianismo oferece para proteger essas relações?

VI - Escravos e senhores (Efés. 6:5-9)

O Império Romano tinha milhões de escravos nos dias de Paulo. Toda a estrutura econômica e social dependia do trabalho escravo. Os escravos, na maioria, eram tratados como se não fossem melhores do que os animais de carga. Até mesmo um grande homem como Aristóteles ensinava que os escravos eram apenas ferramentas de trabalho. O direito de propriedade de um ser humano por outro, sem qualquer consideração ou respeito aos direitos e à dignidade dados por Deus àquele indivíduo, deve ter sido revoltante para um líder profundamente espiritual e sensível como Paulo.

O apóstolo aconselha os escravos de Éfeso a obedecer aos seus senhores e fazer seu trabalho como se o estivessem fazendo para Cristo (Efés. 6:5). O trabalho feito com sinceridade e boa-vontade "como ao Senhor e não como a homens" não ficará sem recompensa (vs. 7 e 8). Paulo reconhece que os escravos não podem mudar suas circunstâncias, mas podem conquistá-las. Aqui temos uma boa filosofia cristã: embora não possamos destruir o mal no momento, não devemos deixar que o mal nos destrua.

5. Embora não haja condenação direta contra a prática da escravidão na Bíblia, como os textos seguintes, à sua maneira, falam contra os princípios por trás dessa prática? Mat. 22:39; Mar. 10:44; Luc. 6:31; Rom. 12:10; Filip. 2:3; I João 4:11

O conselho de Paulo aos senhores é bastante específico. Ele os lembra que também eles têm um Senhor no Céu, de quem receberam graça e perdão dos pecados. Vem daí o seu apelo para que os senhores de escravos sejam bondosos, e não ameaçadores para com os seus servos (Efés. 6:9).

O ministério de Paulo produziu fruto, e muitos senhores de escravos se tornaram cristãos fervorosos, juntamente com seus escravos.

Filemom é um bom exemplo. Devolvendo Onésimo, um escravo fugitivo, Paulo escreveu a Filemom que o aceitasse "não como escravo; antes, ... como irmão caríssimo" (Filemom 16).

Que princípios você pode tirar das palavras de Paulo para entender melhor como deve agir (dependendo da sua situação) para com o seu chefe ou patrão ou para com os que trabalham sob a sua liderança?

VII - Estudo adicional

Pais e filhos: "Pais, Deus deseja que vocês façam de sua família uma amostra da família no Céu. Cuidem dos seus filhos. Sejam amáveis e ternos com eles. Pai, mãe e filhos devem reunir-se sob os vínculos de ouro do amor. Uma família bem ordenada, bem disciplinada, é um poder maior para demonstrar a eficácia do cristianismo do que todos os sermões pregados no mundo."

"O Senhor Jesus não tem sido corretamente representado em Sua relação para com a igreja por muitos maridos na relação destes para com suas esposas, pois não preenchem o que o Senhor quer ensinar. Declaram eles que a esposa se lhes deve sujeitar em tudo. Mas não foi desígnio de Deus que os maridos dominassem como cabeça do lar, quando eles próprios não se submetem a Cristo. Devem eles estar sob o domínio de Cristo, para que possam representar a relação de Cristo para com Sua igreja. Se o marido é grosseiro, rude, arrebatado, egoísta, ríspido e opressor, não diga jamais que o marido é a cabeça da esposa, e que ela deve em tudo ser-lhe sujeita; pois ele não é o Senhor, não é o marido no verdadeiro significado do termo."