Em 2004, quando o documentário Super Size Me - A Dieta do Palhaço - levantou a polêmica sobre a provável relação entre o consumo exagerado de fast-food e o sobrepeso da população americana, muitos, talvez, tenham passado por alto um trecho do filme que aponta para um sintoma espiritual do nosso tempo. Para testar a eficácia da propaganda da rede McDonalds sobre as crianças, foram apresentadas aos pequenos imagens de presidentes americanos e de personalidades da mídia, a fim de verificar se eles os reconheceriam. O teste, além de mostrar que as celebridades da propoganda são mais familiares às crianças do que os vultos da História, também evidenciou o declínio do cristianismo na cultura do século 21: enquanto todos identificaram a imagem de Ronald McDonald, nenhum deles reconheceu a figura de Jesus Cristo.

Apesar de nascer e viver numa cultura cristã, a geração atual corre o risco de perder ou mesmo ter apenas uma vaga idéia do significado bíblico das datas, símbolos e festividades religiosas. Portanto, é mais do que oportuno redescobrir a necessidade, a mensagem e o alcance da Cruz.

- Nossa necessidade

Em nossos dias, a ignorância ou negligência em relação à mensagem da Cruz é proporcional ao desconhecimento da doutrina do pecado e à rejeição a ela. Parece que nunca foi tão impopular falar da responsabilidade moral do homem. Prova disso, é que vivemos numa época em que a idéia de "pecado", por ser politicamente incorreta, nos púlpitos das igrejas é substituída pela noção de "traumas pessoais"; a indisciplina e irresponsabilidade dos filhos é desculpada por um diagnóstico de hiperatividade; a figura de Jesus como Salvador e Senhor é obscurecida pela do Cristo psicólogo. Assim como nos tempos de Paulo, a Cruz tem sido associada a "escândalo" e "loucura" (ICo 1:23).

Porém, o Calvário só pode fazer sentido e diferença para aqueles que reconhecem a própria pecaminosidade. Segundo o Prof. Amin Rodor, em suas aulas no curso de Teologia, o pecador só procura uma solução para o próprio caso quando enxerga a gravidade de sua doença. Logo, buscar a salvação, ignorando a seriedade do pecado, é tão incoerente e frustrante como tentar curar um câncer terminal com uma Aspirina.

Por isso, a Bíblia escancara a natureza alienadora e os efeitos repugnantes do pecado. Alienadora porque define pecado como a quebra da Lei, que não é somente de Deus, mas nossa também, já que fomos feitos à Sua imagem e semelhança (Gn 1:26). Sendo assim, o pecado nos separa do Criador, das criaturas e de nós mesmos. Repugnante, porque ao tornar Deus um inimigo do homem (Rm 5:10), o mal compromete a liberdade e rebaixa a dignidade humana.

Olhando o pecado por esse prisma, fica fácil entender por que Deus não pode resolver esse problema apenas "passando a mão em nossa cabeça". O perdão divino é mais complexo do que o nosso. Deus não é apenas misericordioso, mas santo, e é esse atributo que O faz repudiar o mal (Hc 1:13; Hb 12:29). É o que diz a conhecida mas intrigante declaração: "Deus ama o pecador, mas odeia o pecado." Para resolver esse impasse, era necessário um substituto para o homem, o próprio Deus.

- A mensagem

Se o cristianismo fosse apenas a religião da culpa, como filósofo Nietzche argumentou, a mensagem da Cruz seria de desespero. No entanto, o autossacrifício de Jesus, como disse poeticamente o pastor Valdecir Lima, não aponta apenas para o pior do homem, mas para o melhor de Deus. No Calvário, Deus nos deixou pelo menos três recados: revelação, salvação e vitória sobre o pecado.

O Gólgota revelou o amor de Deus da forma mais contundente e como nunca vista na História, mostrando que tal atitude não poderia partir do coração egoísta do homem, mas da inexplicável natureza altruísta de Deus. Porém, o que muitos esquecem é que a Cruz também revelou a justiça divina. No Calvário, "a justiça e a paz se beijaram" (Sl 85:10). A violência e a humilhação da morte de Cristo apontaram para a crueldade humana e a santidade da ira divina. Todo o castigo devido ao pecado foi colocado sobre Jesus, de modo que Ele foi moído pelas nossas iniquidades e Se fez maldito por nós (Is 53:5; Gl 3:13)." Estranhamente, naquele madeiro, Cristo foi a concretização de dois símbolos antagônicos: o cordeiro sem mácula que tira o pecado do mundo (Jo 1:29) e a serpente, símbolo do mal, levantada por Moisés no deserto (Nm 21:9).

A Cruz também determinou o centro da História, dividindo, no calendário e na trajetória humana, o antes e o depois de Cristo. O brado do Salvador "está consumado", mais do que atestar a finalização de Seu ministério, indicou a razão de Sua missão: "Está pago", do grego tetelesta.i. A dívida fora quitada. No entanto, as boas-novas do Calvário não se limitam à libertação da culpa do pecado, mas confere ao crente arrependido o poder sobre o pecado. Deus não opera uma salvação manca, mas completa. Os que aceitam a vitória de Cristo como sua, tornam-se legítimos herdeiros do reino celestial, mudam seu destino da morte para a vida eterna e fazem de cada dia uma oportunidade de preparar seu caráter para o dia em que estarão integralmente livres do pecado.

- O poder e o alcance

Por tudo o que foi dito, fica claro que o significado da Cruz não é mera teoria, mas uma experiência de fé. Se fosse apenas uma conjectura humana, mais uma filosofia dos muitos "ismos" em que a humanidade já acreditou e se decepcionou, sua mensagem teria ficado restrita aos inúmeros volumes escritos sobre ela, ou quem sabe cairia no descrédito por causa dos seus vários críticos, ou, finalmente, o tempo e a distância que nos separam do Gólgota apagariam sua relevância.

No entanto, ainda que incompreendida ou ignorada por muitos no século 21, seu poder e alcance são incalculáveis. Poder de reconciliar o Céu e a Terra, o homem e Deus. De reconciliar amigos e inimigos, de inspirar o genuíno perdão. A Cruz não apenas dividiu a História, mas fez história. Ela concentrou em si a expectativa dos que viveram antes dela, e a convicção dos que nasceram após ela. Seu alcance é universal e seu impacto, atemporal.

Por ser a única solução para a necessidade mais básica da humanidade, o tempo nunca irá diminuir seu poder de atração. Jesus, profeticamente, assim o disse: "E Eu, quando for levantado da terra, atrairei todos a Mim mesmo" (Jo 12:32). As palavras e a entrega do Salvador ecoaram pelos séculos e, nesse momento, podem estar ressoando em você. A oferta foi universal, mas a resposta é individual.

Afinal, o que a Cruz significa hoje para você?


(Wendel Lima)