Simplicidade e arapucas



Vida simples não é lugar, mas atitude. Não é fuga nem isolamento. É uma vida de contentamento em total paz com Deus, consigo mesmo e com o próximo.

Muitas pessoas correm incessantemente em busca de bens materiais que a sociedade considera progresso. Depois, reclamam de estresse e descontrole emocional, desânimo, depressão, e de sua ausência em casa e nas atividades da igreja.

"Vocês têm todos os relógios, mas nós temos todo o tempo", disse uma vez um habitante do interior da África para um americano visitante. Será que nossa vida não seria menos complicada, se tivéssemos menos coisas e mais tempo para refazer nossas energias e construir bons relacionamentos com o cônjuge, filhos e amigos? Seria possível, hoje, uma vida com menos relógios e mais tempo?

Não é minha intenção expurgar as benfeitorias da modernidade. Em si, o progresso não é mau. O problema é quando ele começa a interferir negativamente, causando-nos mal-estar. Quando isso ocorre, é hora de parar para refletir e considerar a possibilidade de passar a viver em função de uma vida mais simples, em que a estabilidade emocional, social e espiritual seja mais significativa do que a correria em busca do dinheiro ou conforto.

A vida simples traz vantagens. Por exemplo, ela nos livra da ansiedade ou preocupação com nossa reputação: sobre o que vão dizer do "meu" carro, da "minha" casa, da "minha" roupa ou da "minha" imagem. Ela nos livra do fardo dos ressentimentos. Ela nos predispõe à reconciliação, a perdoar os que nos ofendem e começar cada dia como uma nova página, totalmente em branco. A vida simples considera a beleza natural mais valiosa do que qualquer artifício criado pelo homem. Ela não é enfadonha, pois coloca a imaginação a serviço daquilo que pode torná-la mais criativa e saudável. E não é forçada; porque, se assim fosse, deixaria de ser simples.

No entanto, o ingresso numa vida simples pode nos conduzir a algumas "arapucas". Uma delas é "se achar" padrão de conduta. Se alguém quer passar adiante sua mensagem de vida simples, deveria fazê-lo por meio do bom testemunho e não com comentários negativos ou julgamentos sobre o jeito de ser dos outros. Orgulhar-se da simplicidade é outro perigo; pode virar vício. Isso ocorre quando faço "sacrifícios" para destacar "minha superioridade" em relação ao comodismo dos outros. Também está provado que voto de pobreza não é garantia de que a simplicidade decorrente desse voto seja a espiritualidade que agrada a Deus.

Os ascetas, que rejeitam todo tipo de posse, argumentam que bens materiais prejudicam a espiritualidade. Esquecem que o Criador fez muitas coisas boas (inclusive materiais) para que, com temperança, tirássemos proveito delas. Portanto, é pura neurose não se considerar merecedor de bênçãos materiais.

Também não adquirimos simplicidade queimando livros, jornais e revistas. Ao contrário, uma das principais vantagens desse modelo é ter tempo para ler, meditar e poder trocar ideias. Ignorância não é simplicidade, mas sua inimiga. Outra interpretação falsa de simplicidade é "jogar fora" o carro, o telefone e outros utensílios e fugir para o mato. Não posso deixar de concordar com a atitude de certas pessoas que, de forma responsável e em harmonia com os demais membros da sua família, deixam a cidade grande e se mudam para o interior. No entanto, elas precisam entender que vida simples não é lugar, mas atitude. Não éfuga nem isolamento. É uma vida de contentamento em total paz com Deus, consigo mesmo e com o próximo.

(Paulo Roberto Pinheiro)