Quais são os nossos camelos?



Uma única gota de veneno pode inutilizar centenas de litros de água; um simples vírus é capaz de destruir uma vida; a picada de um minúsculo inseto pode causar morte; um pequenino grão de areia pode corromper uma engrenagem. Impressionante, não é mesmo?

Um pequenino leme, como afirma Tiago em sua epístola, é capaz de direcionar um grande barco. Uma pequenina chama sem controle pode iniciar um incêndio em uma grande floresta e a língua, esse pequeno órgão do corpo, tem o potencial de corromper amizades ou salvar relacionamentos.

Ainda sobre a importância das coisas minúsculas, Salomão afirmou: "Assim como a mosca morta faz exalar mau cheiro e inutilizar o unguento do perfumador, assim é para o famoso em sabedoria e em honra um pouco de estultícia" (Ec 10:1).

No início de cada ano, empresas e escolas realizam reuniões a fim de não deixar passar nada que possa interferir no sucesso de seus projetos.

Na vida individual, a situação não é muito diferente. De nada adianta conhecimento, fama, boa educação, cuidados na vestimenta e na postura se a pessoa falha no relacionamento ou na ética. Uma palavra descuidada, um gesto impensado, uma atitude leviana e lá se vão anos de trabalho e de boa reputação.

O que realmente necessitamos é de consagração, entrega diária, para que tenhamos força para viver o que pregamos.

Pelo que podemos perceber do provérbio de Salomão, uma única e insignificante mosca morta é capaz de inutilizar todo o trabalho de um artista.

No tempo de Jesus, a situação não era diferente e os detalhes tinham muita importância. Eram importantíssimos o cuidado na observância da lei e o cumprimento com objetividade e perfeição da tradição. Esses líderes não deixavam passar nada. E o que foi que Jesus disse a eles? "Guias cegos, que coais o mosquito e engolis o camelo!" (Mt 23:24).

Coar mosquitos, como vimos, é muito importante. Um mosquito merece atenção porque pode fazer um grande estrago, mas quais são nossos camelos? O que estamos engolindo sem notar? Segundo Jesus, juízo, misericórdia e fé não devem ser desprezados.

Temos que nos preocupar com detalhes, é verdade. A igreja tem que se preocupar com comportamento, ofertas, dízimos, sermões, batismos e manter distância do mundo que teima em entrar pelas suas portas. As escolas têm que se preocupar com o material didático que oferece aos alunos, com a qualidade do ensino, a competitividade do mercado, o crescimento do número de alunos e com a própria sobrevivência. Aumentar os dízimos é bom. Sermões cristocêntricos são necessários. Mencionar Cristo nas aulas de matemática é importante. Isso tudo é excelente, indispensável, e não devemos passar por alto, mas é apenas o mosquito.

O que na realidade precisamos conhecer são os camelos que estamos engolindo; o que tem atrapalhado o real crescimento e desenvolvimento de nossos ideais cristãos; o que tem afastado as pessoas de nós; onde temos colocado nossas prioridades e se estamos realmente permitindo que Deus dirija nossos planos.

O que realmente necessitamos é de consagração, entrega diária, para que tenhamos força para viver o que pregamos. Os camelos que engolimos nos afastam de Cristo, não permitem que sentemos diariamente a Seus pés e nos impedem de substituir nossos projetos pelos de Cristo. Não é a menção do nome de Cristo em nossos discursos que nos torna cristãos de poder. Coisas pequenas são importantes, é verdade, mas coisas pequenas não devem tirar nossa atenção dos camelos. A ironia esta em que não percebemos que engolimos coisas gigantescas como um camelo, ou seja, priorizamos o estudo, o trabalho, a obra e nos esquecemos do juízo, da misericórdia e da fé. Em outras palavras, do Espírito.

Deixar de orar é um camelo. Confiar em nós mesmos é outro camelo. Legalismo é um camelo enorme. A critica e um camelão. A falta de amor é uma cáfila. Enfim, por que não percebemos que esses gigantes estão passando por nossa garganta?

Um grão de mostarda, pequeno como é, serviu de exemplo para Cristo ressaltar o valor da fé que opera. Quando tivermos fé do tamanho de um grão de mostarda, estaremos prontos a não permitir que camelos passem despercebidos.


(Valdecir Simões Lima)